Estudos e Pesquisas em Psicologia
2026, Vol. 26. e83588, doi:10.12957/epp.2026.83588
ISSN 1808-4281 (online version)

 

PSICANÁLISE

 

O Inconsciente como Política do Outro: Schreber e o Racismo

 

The Unconscious as Politics of the Other: Schreber and Racism

 

El Inconsciente como Política del Otro: Schreber y el Racismo

 

Luis Francisco Espíndola Camargo a

a Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, ES, Brasil
Endereço para correspondência

 

RESUMO

A partir de uma pesquisa bibliográfica e um estudo de caso, exploramos uma unidade de análise específica do "Caso Schreber" com o objetivo de demonstrar uma das definições de inconsciente proposta por Jacques Lacan: o inconsciente como a política do Outro. Sustentado na ideia de que a família é uma instituição transmissora de crenças e mitos, e a partir de referências históricas sobre o nazismo, demonstramos que o delírio de Schreber contém valores racistas na forma de antissemitismo, cuja origem remonta a política de Bismarck. Nesse sentido, confirmamos a tese de Santner, de que a solução paranoica de Schreber não é somente uma mensagem para o próprio indivíduo, mas para sociedade alemã, cujas características reproduzem o Mito Ariano e as ideias porvindouras do Terceiro Reich. Os mecanismos de transmissão simbólica são explicados por duas teorias. A primeira é extraída do reducionismo biológico realizado por Freud da teoria da recapitulação de Haeckel. A segunda tem origem na absorção de conceitos da linguística realizada por Jacques Lacan, pelos quais descrevemos os mecanismos de transmissão simbólica.

Palavras-chave: inconsciente, política, racismo, nazismo, paranoia.


ABSTRACT

In this paper we conducted a bibliographic research and a case study, where we explored a specific unit of analysis of the "Schreber case" with the aim of demonstrating one of the definitions of unconscious proposed by Jacques Lacan: the unconscious as the politics of the Other. Based on the idea that family is an institution that transmits beliefs and myths, and based on historical references about nazism, we demonstrate that Schreber's delirium contains racist values in the form of antisemitism, whose origin goes back to Bismarck's politics. In this sense, we confirm Santner's thesis that Schreber's paranoid solution is not only a message for the individual himself, but for German society, whose characteristics reproduce the Aryan Myth and the forthcoming ideas of the Third Reich. The mechanisms of symbolic transmission are explained by two theories. The first is drawn from Freud's biological reductionism of Haeckel's theory of recapitulation. The second originates from Jacques Lacan's absorption of concepts from linguistics, by which we describe the mechanisms of symbolic transmission.

Keywords: unconscious, politics, racism, nazism, paranoia.


RESUMEN

En este trabajo realizamos una investigación bibliográfica y un estudio de caso, donde exploramos una unidad de análisis específica del "Caso Schreber" con el objetivo de demostrar una de las definiciones del inconsciente propuestas por Jacques Lacan: el inconsciente como política del Otro. Apoyándonos en la idea de que la familia es una institución transmisora de creencias y mitos, y basándonos en referencias históricas sobre el nazismo, demostramos que el delirio de Schreber contiene valores racistas bajo la forma de antisemitismo, cuyo origen se remonta a la política de Bismarck. En este sentido, confirmamos la tesis de Santner de que la solución paranoica de Schreber no es sólo un mensaje para el propio individuo, sino para lasociedad alemana, cuyas características reproducen el Mito Ario y las ideas venideras del Tercer Reich. Los mecanismos de transmisión simbólica se explican mediante dos teorías. La primera procede del reduccionismo biológico de Freud de la teoría de la recapitulación de Haeckel. La segunda procede de la absorción de conceptos de la lingüística de Jacques Lacan, con la que describimos los mecanismos de la transmisión simbólica.

Palabras clave: inconsciente, política, racismo, nazismo, paranoia.


 

 

Este trabalho é fruto de uma pesquisa bibliográfica e um estudo de caso cujo objetivo é fornecer uma ilustração clínica para a sentença lacaniana "o inconsciente é a política" (Lacan, 2023, p. 315, tradução nossa). Definimos como unidade de análise o "mito ariano", conforme descrito por Poliakov (1974, pp. 248-282) e amplamente difundido durante a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871). Trata-se de demonstrar no "Caso Schreber" (1842-1911) as modulações do "mito ariano" na formação das suas ideias delirantes, especificamente no delírio místico sobre a divisão de Deus: o Deus superior Ormuzd (o Deus dos Arianos) e o Deus inferior Ariman (o Deus dos semitas). O papel do mito ariano no delírio de Schreber ilustra a tese de Lacan que o inconsciente é a política do Outro.

Schreber publicou as suas Memórias (1903/1995) após uma longa internação, entre 1893 e 1902, após a evolução de um episódio de hipocondria para um tipo de esquizofrenia paranoide. As Memórias foi objeto de estudo de Freud e Lacan, entre outros autores, ensaístas, historiadores, psiquiatras e psicanalistas. Para Schreber, se trata de um testemunho de uma experiência inefável, decorrente de um longo período de crises psíquicas, cujo delírio final constitui um sistema explicativo-paranoide sobre fenômenos de corpo, causadores do seu estado psicótico. Nesse sentido, as Memórias, assim como cartas, laudos médicos e outros documentos apensados à obra, constituem farto material clínico de pesquisa. Do seu texto coletamos uma ideia específica, absorvida e modulada em seu sistema delirante; uma unidade de análise que ilustra a "introjeção" de uma crença coletiva num inconsciente particular, o inconsciente do próprio Schreber.

A posição feminina de Schreber em relação à Deus integra a forma acabada do seu delírio. A solução para o gozo sexual consiste no adiamento da sua transformação em mulher. O momento fecundo da psicose é localizado na seguinte fantasia (1903/1995, p. 54): "que deveria ser realmente bom ser uma mulher se submetendo ao coito". Nosso objetivo é demonstrar que a conciliação de Schreber com o gozo sexual (transformação em mulher) se realiza na oferta de uma volúpia infinita a Deus e no dever (ordem do mundo) de conceber uma "nova raça" de homens, o que constitui tanto uma solução individual quanto uma solução política para a Alemanha, demonstrando que o inconsciente de um indivíduo é também a colônia da política do Outro. Em vista disso, adotamos como estratégia de análise a "construção explicativa" sobre uma "unidade do caso" - o mito ariano -, mediante a interpretação e a comparação de estruturas narrativas, precisamente entre algumas ideias de Schreber e algumas ideias de cunho nazista, já que o mito ariano está nas raízes do antissemitismo e do racismo alemão.

O Inconsciente é a Política

A fórmula "o inconsciente é a política" foi pronunciada por Jacques Lacan no Seminário, livro 14: A Lógica da fantasia: "Eu não digo a política é o inconsciente, mas simplesmente - o inconsciente é a política" (Lacan, 2023, p. 315, tradução nossa). "O inconsciente é a política" é uma consequência lógica extraída de outro axioma lacaniano, "o inconsciente é o discurso do Outro" (Lacan, 1986, p. 103), tese desenvolvida ao longo do seu ensino nos anos 50. Afirmar que (A) "a política é o inconsciente" é diferente de afirmar que (B) "o inconsciente é a política". Ou seja, A → B não é a mesma coisa que B → A. Não há dupla implicação entre as sentenças. Em termos lógicos: A → B ≢ B → A ⊢ ¬ (A ⟷ B).

Miller (2011, p. 2) compreende que a primeira fórmula lacaniana é uma síntese das ideias de Freud. Para Lacan, não se trata de definir a política pela psicanálise, visto que a sentença é regida pela negação: "Não digo [....]". Por esse motivo, esse enunciado não teria sido desenvolvido como uma tese. A fórmula "a política é o inconsciente" é uma tese de Freud, quando demonstra no campo da política os efeitos dos fenômenos inconscientes em acontecimentos sociais. Por exemplo, quando descreve no seu texto "Totem e Tabu" (1913-1914/2012) os mecanismos de transmissão simbólica da lei de interdição do incesto por meio do totemismo. Essa transmissão simbólica é explicada por duas teorias: 1) o reducionismo explicativo para absorver o conceito de recapitulação da teoria biogenética de Haeckel (1834-1919), tese conhecida em seus trabalhos pela expressão "a ontogênese recapitula a filogênese"; 2) a explicação da transmissão simbólica entre gerações pelos mecanismos das formações do inconsciente, isto é, os tropos de linguagem.

A Transmissão da Política do Outro: Recapitulação e Transferência Simbólica

Reducionismo científico não é simplificação. Segundo Caponi (2014), as estratégias reducionistas utilizadas na construção de teorias geralmente visam reabsorver conceitos de uma teoria biológica por uma teoria psicológica.

A teoria da recapitulação biológica de Haeckel teve um papel importante para Freud. Serviu para explicar a transmissão do passado ancestral no presente. Gould esclarece em Ontogeny and Phylogeny (1977) as diferenças entre o conceito de recapitulação na biologia e o de recapitulação em Freud. Os esclarecimentos realizados por Sulloway (1979), um pouco antes da publicação do seu livro Freud, Biologist of the Mind, levaram Gould (1977, p. 157) a concluir que Freud reconhecia muito bem a diferença essencial entre a recapitulação psíquica de modelos, mitos e crenças e a recapitulação física haeckeliana de morfologias biológicas ancestrais. A diferença entre as duas está na natureza dos objetos. No caso da recapitulação haeckeliana se trata de objetos biológicos e no caso da recapitulação freudiana de objetos psíquicos. As recapitulações físicas morfológicas das estruturas ancestrais na ontogênese são estágios transitórios, onde as formas são substituídas por outras subsequentes, remodeladas para constituir estágios posteriores. Já no caso das recapitulações psíquicas as formas de diferentes estados podem coexistir simultaneamente, podendo gerar conflitos psíquicos. De fato, essas formas aparecem ordenadas conforme a filogenia na ontogênese. Porém, na recapitulação psíquica os estágios antigos não desaparecem para dar lugar aos posteriores, geralmente contraditórios.

Em um artigo publicado na revista Natural History, Gould (1987, pp. 16-19) elogia e defende as especulações freudianas sobre a teoria da recapitulação, ao demonstrar que Freud reconhecia a absorção da teoria biogenética pela psicanálise como uma fantasia especulativa, cuja lógica argumentativa era desprovida de qualquer evidência real nos registros históricos ou arqueológicos. Podemos conjecturar com a teoria da recapitulação como o terraplanismo pode coexistir na cultura com teorias da física contemporânea, como a teoria das cordas, da gravitação quântica e da relatividade. Por meio dessa teoria, Freud explica alguns fenômenos das massas, por exemplo, a constituição do sujeito do coletivo, cujas propriedades são homólogas ao do sujeito do inconsciente.

Em "Psicologia das Massas e Análise do Eu", Freud (1921/2011) aplica a recapitulação para explicar problemas sociais, esclarecendo alguns pontos opacos das teorias de Le Bon (1841-1931), Trotter (1872-1939) e McDougall (1871-1938) nas respectivas obras, Psicologia das multidões (Le Bon, 1895/2008), Instincts of the Herd in Peace and War (Trotter, 1915/2017) e The Group Mind (McDougall, 1920/2012). Ao tratar do fenômeno da identificação e do enamoramento das massas ao líder soberano, Freud corrigiu a ideia de um instinto gregário no homem. Para Freud o homem é um animal de horda. Para descrever as relações entre a massa e a horda, Freud utiliza a teoria da recapitulação: "o líder da massa continua a ser o temido pai primordial, a massa quer ainda ser dominada com força irrestrita, tem ânsia extrema de autoridade [...] sede de submissão" (Freud, 2011, p. 91). Assim, os indivíduos recapitulam na massa a transmissão de uma herança arcaica, revivem a ideia de uma personalidade muito potente, perigosa e totalitária.

Ao contrário de Freud, Lacan renunciou os reducionismos biológicos, aspirando evitar a metafísica e a teleologia biológica. Lacan optou por destacar que o inconsciente é, antes de tudo, um aparelho de memória e de linguagem. As reduções serão extraídas da teoria linguística, tendo como modelo a abordagem de Jakobson sobre a transferência simbólica:

[...] da estrutura dos sonhos, a questão decisiva é saber se os símbolos e as sequências temporais usadas se baseiam na contiguidade ("transferência" metonímica e "condensação" sinedóquica de Freud) ou na similaridade ("identificação" e "simbolismo" freudianos). Os princípios que comandam os ritos mágicos foram resumidos por Frazer em dois tipos: os encantamentos baseados na lei da similaridade e os baseados na associação por contiguidade (Jakobson, 2003, p. 61).

Jakobson aponta para uma homologia de estrutura entre os mecanismos inconscientes da formação dos sonhos - decorrentes da ação dos processos secundários entre pré-consciente e inconsciente - e a teoria sobre a transmissão dos mitos e crenças de James Frazer. Jakobson compara a condensação freudiana (metáfora) com a similaridade de Frazer e o deslocamento (metonímia) com a associação por contiguidade, respectivamente. Trata-se de operações básicas no eixo diacrônico e sincrônico da linguagem que pluralizam combinações significantes. A transmissão de crenças e mitos só pode ser realizada no campo do Outro, mediante operações de tropos de linguagem como a substituição, similaridade, deslocamento e contiguidade. Logo, narrativas diferentes podem ser apenas variações de estruturas homólogas transmitidas ao longo das gerações. Assim, essas operações ocultas do inconsciente seriam "recapituladas" pelas instituições sociais por meio da estrutura da linguagem.

A título de exemplo, podemos observar que a história do longa-metragem de animação O Rei Leão (Allers & Minkoff, 1994) contém uma estrutura homóloga a da tragédia de Hamlet (1599-1601/2014), de autoria de Shakespeare (2014).

 

Tabela 1

A Estrutura Elementar em "O Rei Leão" E "Hamlet"

A estrutura

O Rei Leão

Hamlet

Rei

Mufasa

Rei Hamlet

Príncipe

Simba

Príncipe Hamlet

Tio (irmão do Rei)

Scar

Cláudio

Rainha

Sarabi

Gertrudes

 

O jogo entre os personagens na estrutura elementar da Tabela 1 - o Rei, o Príncipe e o Tio - se desenrola similarmente nas duas peças em torno de três acontecimentos: 1) o assassinato do Rei perpetrado pelo próprio irmão; 2) o exílio do Príncipe herdeiro e; 3) o retorno do Príncipe para vingar o pai, matar o Tio e reassumir o trono. A substituição dos personagens se realiza sobre a estrutura. Há variações sobre essa estrutura nas narrativas da história de Simba e de Hamlet. Uma das razões é que a primeira peça se endereça ao público infanto-juvenil, enquanto a segunda a um público adulto da Renascença. Devemos considerar também os diferentes contextos históricos e socioculturais. Na tragédia de Simba os princípios morais da Rainha são preservados; a Rainha se torna refém do cunhado usurpador do trono. Já na história de Hamlet, a Rainha é cúmplice do desejo assassínio de Cláudio; após o crime a Rainha se torna sua amante e esposa. Do mesmo modo, a sexualidade feminina é suprimida da história de Simba, simplificando a redução da história de Hamlet. Assim, o clássico da literatura inglesa é reatualizado parcialmente na animação do Rei Leão. Uma estrutura elementar é repetida.

O conceito de estrutura nos possibilita explicar como crenças racistas podem ser transmitidas ao longo das gerações. Crenças racistas podem ser transmitidas por meio de mitos, fábulas e, até mesmo, teorias pseudocientíficas, como demonstrado por Gould (2014).

Gould descreve algumas teorias racistas pseudocientíficas, entre elas as teorias pré-darwinianas sobre o monogenismo e o poligenismo, a craniologia de Broca, a teoria dos estigmas anatômicos de Lombroso, a teoria do QI hereditário de Terman e Yerkes, a análise fatorial e a reificação da inteligência em Cyril Burt. Segundo Gould (2014, p. 11),

[...] a fraude não é interessante do ponto de vista histórico, a não ser como anedota, pois seus autores sabem o que estão fazendo e, portanto, ela não constitui um exemplo adequado dos preconceitos inconscientes que refletem os sutis e inevitáveis condicionamentos de origem cultural. [...] podemos estar bastante seguros de que os preconceitos - embora muitas vezes expressados de forma tão acintosa, como nos casos de fraude deliberada - exerceram uma influência inconsciente, e de que os cientistas acreditaram estar buscando a verdade pura.

Gould não explica a expressão "influência do inconsciente", e "salta aos olhos" que o termo inconsciente é usado para nomear o lugar de onde provém as crenças dos cientistas. Trata-se de um inconsciente como lugar (topos), o lugar do Outro. Gould apresenta essa hipótese, que é coadunável com a expressão lacaniana "o inconsciente é a política".

Schelling (2016) destacou que o pensamento nazista foi influenciado por teorias pseudocientíficas, sobretudo as desenvolvidas por Galton (1822-1917), que acreditava na eugenia. A eugenia é a ideia de que a "raça humana" pode ser melhorada evitando cruzamentos indesejáveis. Essa é uma teoria racista que retorna nas ideias delirantes do Presidente Schreber. A teoria da eugenia humana é derivada de distorções decorrentes da popularização das ideias de Darwin, sobretudo, a falsa ideia de uma degenerescência genética, que justificaria preservar as características raciais dos descendentes arianos: "[...] o pensamento social-darwinista e racista passou a ser comum entre muitos intelectuais europeus [...], muito popular entre os alemães, especialmente após terem obtido sua unificação nacional com a fundação do II Reich pelo chanceler Otto von Bismarck" (Schelling, 2016, pp. 2/21).

Além disso, os sentimentos de fracasso e desalento do povo alemão decorrente da derrota na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e as humilhações posteriores impostas pelo Tratado de Versalhes (1919) provocaram uma sensação de desespero social. As teorias pseudocientíficas racistas se tornaram boias de salvação para o narcisismo germânico, usadas para explicar a derrota e projetar a responsabilidade no outro, o inimigo judeu. Schelling destaca uma afirmação do filósofo alemão Karl Eugen Dühring (1833-1921): "Os judeus constituem uma raça má, semelhante aos micróbios; semeiam a corrupção onde quer que se infiltrem. Esta é a tragédia do povo alemão [...] o judeu não pode ser integrado à sociedade alemã; deve-se impedi-lo de causar danos" (Dühring conforme citado por Schelling, 2016, pp. 2/21).

Evans (2010) descreve o clima do pós-guerra sustentado pelo ódio à democracia e a falsa esperança na ideia do Reich como solução para as mazelas da Alemanha.

Havia ali uma outra instituição central cuja lealdade era a um conceito abstrato de Reich, em vez de princípios concretos de democracia. Nisso, bem como em outros aspectos, Weimar foi fraca em legitimidade política desde o início. A república foi acossada por problemas intransponíveis de violência política, assassinato e conflitos inconciliáveis sobre seu direito de existir. Não era amada nem defendida por seus servidores no Exército e na burocracia. Foi acusada por muitos pela humilhação nacional do Tratado de Versalhes (Evans, 2010).

Trata-se de um fenômeno de estrutura. Em várias culturas, ao longo da história, observamos o reaparecimento da mesma ideia de um líder (Reich) salvador de todos, quando uma nação, uma comunidade e, até mesmo, um só indivíduo se encontra diante de graves problemas e dificuldades sem solução a curto e médio prazo. Segundo Evans (2010),

a palavra "Reich" evocava entre os alemães cultos uma imagem que ressoava muito além das estruturas institucionais criadas por Bismarck: o sucessor do Império Romano; a visão do Império de Deus aqui na terra; a universalidade de sua reivindicação de suserania; em um sentido mais prosaico, mas não menos poderoso, o conceito de um Estado germânico que incluiria todos os de língua alemã na Europa central - "um Povo, um Reich, um Líder", como viria a propor o slogan nazista.

Em seu livro Minha Luta, Hitler (1925) descrevia a sua antipatia ao Estado dos Habsburgos. "A minha convicção de que aquela estrutura estatal tinha de tornar-se a desgraça do germanismo. Cada vez mais claramente via, enfim, que o destino da nação não mais seria decidido desse lugar e, sim, do próprio Reich". A paranoia hitleriana tinha no centro o Mito Ariano. Em várias passagens do seu texto encontramos a crença na superioridade da "raça" ariana. Para o III Reich, tudo que fora construído em matéria de cultura humana, os resultados colhidos no campo da arte, da ciência e da técnica, seriam quase exclusivamente um produto da criação dos arianos. Ao mesmo tempo, considerava as colônias judaicas parasitárias de outras culturas. Concomitantemente a ideia de uma raça soberana, o líder nazista constrói em seu texto a ideia do inimigo judeu: "[...] para qualquer parte que me dirigisse, eu via judeus e quanto mais os observava mais firmemente convencido ficava de que eles eram diferentes das outras raças". Essa ideia elementar no pensamento de Hitler foi reproduzida na cultura alemã por meio da propaganda nazista entre 1933 e 1939, como descrito por Herf em seu estudo crítico intitulado O inimigo Judeu (2014). Ou seja, paralelamente à construção do Outro redentor - o III Reich - observamos a construção do Outro malvado - o Inimigo Judeu. Herf demonstrou que o consenso antissemita foi uma construção realizada pelo Ministério do Reich de Esclarecimento Popular e de Propaganda (RMPV), que se tornou instrumento para difundir a mensagem do regime para a sociedade alemã. "Hitler permaneceu como o principal narrador e propagandista" (Herf, 2014, p. 59).

Herf descreveu a estratégia e os objetivos da propaganda nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Outros historiadores, como Schelling, irão mais além. Demonstram que o nazismo é uma consequência do desenvolvimento do antissemitismo alemão por meio da implementação da política da força e da Kulturkampf (a luta pela cultura) preconizada por Bismarck. Tratava-se de um processo político-histórico, cuja ideia germinal pode ser encontrada no inconsciente de Schreber. Em seu delírio encontramos as mesmas crenças antissemitas, fundamentadas no Mito Ariano, na divisão das raças, dos povos brancos (arianos) e dos morenos (semitas) e, por conseguinte, uma solução eugenista para a Alemanha.

Os reinos anteriores de Deus estavam (e ainda estão) submetidos a uma bipartição peculiar, segundo a qual se distinguiam um deus inferior (Ariman) e um deus superior (Ormuzd). Sobre o significado preciso desta bipartição nada posso acrescentar, a não ser que o deus inferior (Ariman) parece ter-se sentido atraído de preferência pelos povos originariamente de raça morena (os semitas) e o deus superior de preferência pelos povos originariamente de raça loura (os povos arianos). É significativo que uma intuição desta bipartição se encontre nas representações religiosas de muitos povos. O Balder dos germanos, o Bielebog (deus branco) ou Swantewit dos eslavos, o Poseidon dos gregos ou o Netuno dos romanos são idênticos a Ormuzd e a Ariman, a Wodan (Odin) dos germanos, o Czernebog (deus negro) dos eslavos, o Zeus dos gregos e o Júpiter dos romanos. O deus inferior e o deus superior me foram designados pela primeira vez sob os nomes de Ariman e Ormuzd pelas vozes que falavam comigo (Schreber, 1995, p. 41).

Para Freud (2010, p. 38), o conjunto da doença de Schreber pode ser interpretado como a luta do homem Schreber contra Deus, cuja solução redentora é entendida como divina. Schreber é aquele que proporcionará a Deus uma volúpia constante e um gozo infinito: "[...] se colocava femininamente em relação a Deus, sentia-se mulher de Deus [...] Deus mesmo, para a sua própria Satisfação, exigia dele a feminilidade" (Freud, 2010, pp. 43-45).

Katan (1979, p. 478) destacou que sem conhecer os escritos de Moritz Schreber, Freud foi o primeiro a compreender que os aspectos do delírio sobre Deus provinham de certas características do seu pai. Freud demonstrou as ligações entre a ambivalência de Schreber com Deus e a ambivalência de Schreber com o pai. Katan se interessou pela teoria de Niederland, onde as memórias da infância são o conteúdo das alucinações esquizofrênicas e dos delírios paranoicos: "por que essas memórias se tornaram conscientes como conteúdos de sintomas esquizofrênicos no lugar de reaparecerem simplesmente como lembranças infantis?" (Katan, 1979, p. 476-477, tradução nossa). Lacan nos apresenta uma solução. Em "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose", Lacan (1998, p. 543) expõe como o percipiens - a memória (crença) - se implica na realidade psíquica ao nível do perceptum. As lembranças de Schreber retornaram por meio da regressão ao nível do perceptum. Em termos freudianos, devido a robustez da defesa, as lembranças sofrem uma regressão ao nível do aparelho perceptivo e retornam na forma de alucinações nos casos de esquizofrenia. Já nos casos de paranoia essas memórias são projetadas em alguma autoridade. Schreber reúne esses dois aspectos numa psicose do tipo esquizofrenia-paranoide.

Israëls (1986) destaca que não poderíamos confirmar as seguintes teses de Morton Schatzman sobre Moritz Schreber: 1) que o conteúdo do delírio de Schreber possui relações com a rigorosa educação recebida de seu pai e que a paranoia se trata de uma ab-reação; 2) que a ab-reação toma a forma de uma paranoia religiosa porque as técnicas pedagógicas barraram o acesso ao reconhecimento da verdadeira natureza da relação com o pai. Israëls discorda da ideia de Schatzman, que os valores e o método educativo de Moritz foram atrozes para Daniel Paul, que existiria uma relação de causa e efeito entre a orthopedagogia e a esquizofrenia-paranoide. Por outro lado, o próprio Israëls confirma a correspondência anagramática entre os nomes Ormuzd (Deus superior) e Moritz. A pesquisa aprofundada de Israëls refutará a ideia de que a educação rígida e rigorosa de Moritz, caracterizada como um repúdio ao feminino e um elogio à correção da postura corporal, fora responsável pela causa da esquizofrenia de Daniel Paul. Segundo Israëls (1p86, p. 94), é possível admitir as duas especulações: Moritz Schreber como déspota e como pai-modelo. Podemos concluir que essas duas visões do pai de Schreber confirmam pelo menos a seguinte tese: Moritz teve um papel central no seio da família. Moritz foi um Outro para Daniel Paul.

O Inconsciente como Discurso do Outro

Lacan definiu o Outro como lugar, função e conjunto, o conjunto dos significantes. O Outro pode ser o lugar do analista na experiência instaurado pela neutralidade e, principalmente, pelo fato de silenciar para dar lugar ao inconsciente do analisando: "o inconsciente é esse discurso do Outro em que o sujeito recebe, sob a forma invertida [...], sua própria mensagem esquecida" (Lacan, 1998, p. 440). Como função, o Outro está relacionado à função do desejo de uma garantia da verdade e do gozo. Lacan (1998, p. 529) situou o Outro para-além do reconhecimento do desejo do sujeito, como função do desejo de reconhecimento do sujeito. Esse desejo de reconhecimento é um desejo de ser para o outro. Por isso, Lacan irá substituir posteriormente a categoria de sujeito pela categoria de falasser. Assim, ao dirigir a sua fala para a alteridade, o sujeito revela mais do que uma mensagem, mas também a sua relação com a linguagem: A, o Outro, é "o lugar de onde pode ser formulada a questão de sua existência" (Lacan, 1998, p. 555). Trata-se da castração decorrente da divisão do sujeito, cujo resto é o objeto a. A dupla castração se concretiza tanto no sujeito quanto no Outro. E, em vista disso, Lacan passa a escrever esse Outro como Outro barrado de gozo. Essa castração do Outro implica em situar a sua falta, da qual o sujeito a sutura por meio da oferta de objetos. Lacan (1998, p. 179) também definiu o Outro como "tesouro do significante", como coleção de significantes articulados na cadeia simbólica. O Outro

[...] é o lugar do tesouro do significante, o que não quer dizer do código, pois não é o que se conserva nele a correspondência unívoca entre o signo e alguma coisa, mas sim que o significante só se constitui por uma reunião sincrônica e enumerável, na qual qualquer um só se sustenta pelo princípio de sua oposição a cada um dos demais. (Lacan, 1998, p. 820).

O Outro pode ser também o Outro gozo, uma vez que o corpo pode ser outro para o sujeito. Os avatares do conceito de Outro têm importância neste trabalho. Privilegiamos a perspectiva do Outro como o campo do significante, diante do qual o sujeito introjeta ou expulsa mitos, crenças e valores ao longo do seu desenvolvimento. Esse é o campo do Outro social, cujo paradigma é a instituição familiar. No entanto, veremos que parte do processo de redenção de Schreber consiste em restaurar também o Outro barrado de gozo.

O Inconsciente como Política do Outro

No texto "Os complexos familiares na formação do indivíduo" (2003/1938), Lacan apresenta uma noção ingênua de estrutura para tratar da transmissão simbólica realizada pelas instituições sociais. Apoiado em Durkheim (1858-1917), Lacan (2003, p. 30) reduz a família a um órgão privilegiado de coerção do adulto sobre a criança. A família é a instituição pela qual se concretiza um processo de colonização dos valores sociais na criança. Por isso, para Lacan a língua materna será sempre uma língua estrangeira. Essas relações são obscurecidas pelos "modos de organização dessa autoridade familiar, as leis de sua transmissão, os conceitos de descendência e parentesco que lhe estão ligados, as leis da herança e da sucessão [...] a família desempenha um papel primordial na transmissão da cultura" (Lacan, 2003, p. 30). Lacan problematiza o conceito de "hereditariedade social", já que essa noção fora reduzida da biologia por Freud. Trata-se de "transmissão" e não de "hereditariedade". O conceito de transmissão, reabsorvido da teoria da informação, substitui o de hereditariedade.

Para Lacan (2003, pp. 35-36), é por meio de "crenças delirantes que o sujeito afirma um complexo como realidade objetiva", condição específica das psicoses. As formas mentais que retornam nos delírios psicóticos são constituídas por objetos psíquicos anteriores aos estágios formadores da personalidade. Nas esquizofrenias, esses objetos são modulados nas alucinações. Por exemplo, o corpo despedaçado em uma das etapas da evolução da doença de Schreber:

[...] pude mais tarde, várias vezes, comer despreocupadamente, mesmo sem estômago [...]. Quanto aos demais órgãos internos, quero recordar ainda apenas o esôfago e os intestinos, que muitas vezes foram dilacerados ou desapareceram, a laringe, que mais de uma vez degluti junto com o alimento [...] (Schreber, 1995, p. 130).

Vivências infantis, anteriores ao estádio do espelho, retornam como conteúdo das alucinações, de modo que a estrutura do inconsciente parece estar completamente dilacerada. Assim, o Mito Ariano, reforçado pelo antissemitismo alemão no final do século XIX foi uma crença infantil de Schreber, transformada em conteúdo no seu delírio do fim de mundo. Podemos explicar de duas maneiras: 1) em termos freudianos. Schreber recapitula na ontogênese uma herança arcaica filogenética, um mito ancestral, o Mito Ariano; 2) em termos lacanianos, esse valor, difundido na cultura alemã da época, foi transmitido para Schreber por meio das instituições sociais. No primeiro caso, encontramos um racismo estrutural; no segundo, um racismo institucional.

Assim, as hipóteses de que (A) "o inconsciente é a política" e; (B) que "o inconsciente é estruturado como uma linguagem", fornecem elementos para compreendermos como a política do Outro social é transmitida através das gerações aos indivíduos. Para concluir, o sujeito do inconsciente é também um sujeito da política do Outro, visto que parte do inconsciente é colônia dos valores transmitidos pelas instituições sociais.

Voltamos à hipótese de que "a política é o inconsciente". É possível ler nos textos freudianos "Totem e Tabu" (1912-1913/2012), "Psicologia das Massas e Análise do Eu" (Freud, 1921/2011) e "Moisés e o Monoteísmo" (Freud, 1939/2018) a imiscuição do conceito de inconsciente no campo da política. A hipótese freudiana não implica em reduzir a política ao inconsciente, mas demonstrar como crenças ancestrais inconscientes podem retornar no campo da política. Diferente de Lacan, a tese freudiana sempre aponta para um retorno do Pai e dos seus avatares, o totem, o profeta e o líder das massas no campo da política. Por isso, a teoria da recapitulação tem um papel importante. Por meio dela, Freud explica o retorno do passado remoto no presente, sintetizado pela expressão herança arcaica.

Santner desenvolve essa perspectiva do inconsciente na política em seu livro A Alemanha de Schreber: uma história secreta da modernidade (1997):

[...] minha tese [...] é que os aspectos cruciais da "doença nervosa" de Daniel Paul Schreber, inclusive a fantasia central de feminização, só se tornam inteligíveis quando cotejados com o contexto dos problemas e questões gerados por esses estados de emergência institucionais e políticos (Santner, 1997, p. 39).

Para Santner as fantasias de Schreber não são apenas uma solução para o indivíduo, mas para a sociedade em geral, principalmente o delírio transexual e geracional. Schreber apresenta uma solução para a crise política da Alemanha, resultante dos paradoxos provocados por crenças transmitidas pelas instituições sociais. A solução de Schreber consiste em recuperar mitos ancestrais para tratar dos problemas sociais e políticos do seu tempo. Por isso, no seu delírio encontramos não só uma mensagem para si, mas também para o povo alemão.

O sistema delirante do paciente culmina na ideia de que sua missão é a de redimir o mundo e devolver à humanidade a beatitude perdida. [...] O essencial da sua missão redentora é que em primeiro lugar tem que ocorrer a sua transformação em mulher. Não que ele queira se tornar mulher, trata-se antes de um dever com base na Ordem do Mundo, ao qual não pode fugir, quando na verdade preferiria permanecer em sua honrada posição masculina na vida [...] Tem a sensação de que já penetraram em massa no seu corpo "nervos femininos", a partir dos quais nascerão novos homens, por fecundação direta de Deus. Só então ele poderá morrer de morte natural e recuperar a beatitude para si e para todos os homens (Dr. Weber como citado em Schreber, 1995, pp. 289-290).

A mensagem de redenção de Schreber, resumida pelo Dr. Weber é uma mensagem política de um outro para um Outro. Sua transformação na mulher de Deus, que tem com o objetivo gerar uma nova raça de homens, é tanto uma reparação delirante para a infertilidade da sua esposa como uma solução política para a crise do povo Alemão.

[...] tive a absoluta convicção de que a Ordem do Mundo exigia imperiosamente de mim a emasculação, quer isto me agradasse pessoalmente ou não e, portanto, por motivos racionais, nada mais me restava senão reconciliar-me com a ideia de ser transformado em mulher. Naturalmente a emasculação só poderia ter como consequência uma fecundação por raios divinos com a finalidade de criar novos homens (Schreber, 1995, p. 147).

Freud localizou o momento fecundo da entrada de Schreber na psicose, cuja anomalia da personalidade está no centro do seu delírio e na dupla solução, tanto a individual como a política. A solução individual consiste na reparação das diversas tentativas fracassadas em gerar filhos. A solução política consiste na realização de uma eugenia por meio da geração de novos homens, já não mais "feito às pressas", segundo a expressão de Schreber. Eis o momento fecundo.

[...] ocorreram alguns sonhos, aos quais somente depois veio dar importância. Sonhou algumas vezes que sua antiga doença retornara, o que no sonho o fez sentir-se muito infeliz, ao despertar, por ter sido apenas um sonho. Além disso teve uma vez, no início da manhã, num estado entre o sono e a vigília, "a ideia de que deveria ser realmente bom ser uma mulher se submetendo ao coito", uma ideia de que ele, em plena consciência, teria rejeitado com indignação (Freud, 2010, p. 18).

Santner (1997, p. 162), apoiados nos trabalhos de Filman, Geller, Boyarin e Eilberg-Schwartz, destaca que a recusa à feminilidade de Schreber é a reprodução de uma tendência política encontrada no clima cultural da Europa central ao final do século XIX, associada ao antissemitismo, mais do que uma defesa específica da paranoia sobre os impulsos homossexuais. O colapso de Schreber é uma crise de investidura, devido a uma precariedade simbólica que lhe permitiria assumir seu mandato na instituição dos tribunais. Esta não é uma ideia nova, é uma tese psicanalítica. Katan (1979, p. 479) destacou que Schreber foi um tipo de homem que "fracassa diante do sucesso": "Antes mesmo de assumir a presidência de uma alta corte jurídica, alguns de seus sonhos mostram como este avanço honorífico havia começado a transtornar o seu espírito" (Katan, 1979, p. 479, tradução nossa).

A existência das duas hipóteses causais, a dos impulsos homossexuais de Schreber e da precariedade simbólica, não caracteriza uma contradição. Muito pelo contrário, as duas hipóteses são sustentadas e articuladas por meio de dois operadores clínicos de Lacan, que descrevem a impossibilidade de simbolizar o desejo sexual devido a carência da metáfora paterna. Os dois operadores que representam a recusa da castração e a não inscrição no Nome-do-pai são, respectivamente, Φ0 e P0. Nesse sentido, Santner desconsidera o fator pulsional em benefício da carência simbólica de Schreber. Se levarmos em conta o componente pulsional na doença de Schreber, podemos afirmar que se trata de um inconsciente biopolítico:

[...] as Memórias de Schreber deixam bem claro que, quando existe essa crise, a dependência irredutível que a função simbólica - a produção de identidades simbólicas críveis - tem da magia performativa dos ritos (repetidos) da instituição torna-se impossível de recalcar. Uma vez emergindo do inconsciente individual e "político", essa dependência é experimentada como decadência [...] Nos termos da "Alemanha particular" de Schreber, o "outro lado" era, acima de tudo, o lado das mulheres, dos judeus e dos homossexuais (Santner, 1997, p. 163)

Santner destaca os aspectos políticos do inconsciente de Schreber reproduzidos no delírio pela metáfora delirante sobre os fenômenos de corpo. O delírio de Schreber é caracterizado por valores misóginos, racistas (antissemitas) e homofóbicos. Por isso, para Santner, Schreber atualiza no seu delírio os valores culturais e políticos da Alemanha no final do século XIX.

 

Considerações Finais

A hipótese de que as memórias infantis retornam como conteúdo das alucinações esquizofrênicas e dos delírios paranoicos levou diversos psiquiatras e psicanalistas a estudarem a família de Schreber. Um dos trabalhos mais memoráveis foi o estudo de Hans Israëls, que visitou os lugares onde os filhos de Moritz Schreber viveram, consultou arquivos e bibliotecas e reencontrou os seus atuais descendentes lhes demandando cartas, documentos e lembranças. Israëls confirmou algumas especulações psicanalíticas e refutou outras, sobretudo aquelas que tratam o pai de Schreber como um tirano familiar, cuja obra ortopédica e higienista (a ginástica de salão), confirmaria a tese macrossociológica de Schatzman sobre a proximidade das ideias pedagógicas de Moritz e as teorias nazistas. Para Israëls (1986, pp. 279-280), apesar de vários artigos associarem Moritz ao principal transmissor das ideias totalitárias, racistas e eugênicas de Daniel Paul, não seria possível obter uma conclusão definitiva a partir dos documentos e textos analisados. No entanto, Israëls se debruçou apenas sobre os aspectos históricos da reconstrução da constelação familiar de Schreber. Ele mesmo admite ser impossível chegar à conclusão que a família seria a instituição primordial dessa transmissão, pois não é possível reconstruir a transmissão oral.

A crença elementar de Schreber na supremacia branca (Mito Ariano) era também uma crença de um segmento considerável da sociedade alemã. Vinte anos mais tarde reaparecerá nas ideias de Hitler e na ideologia do Partido Nazista, definindo as ações práticas do antissemitismo nazi, a construção do inimigo judeu, a segregação e o Shoá. Esta crença coletiva é o Mito Ariano descrito por Poliakov:

[...] tentaremos, com precaução, e evitando tanto quanto possível todo o dogmatismo, esclarecer a história da sociedade ocidental pela psicologia profunda, porque o instrumento forjado por Freud, por mais imperfeito que seja, permite certamente melhor que qualquer outro explorar os fundamentos inconscientes das crenças coletivas (Poliakov, 1974, p. XVIII).

A homologia entre crença delirante do Presidente Schreber e o Mito Ariano é evidente. As ideias antissemitas nazistas têm uma estrutura homóloga a de um delírio paranoico. As Memórias de Schreber fornecem evidências para ilustrar o retorno de uma crença ancestral em um indivíduo e, posteriormente, modulada em seu sistema delirante quando acometido pela paranoia. A tese lacaniana que "o inconsciente é a política" se apoia na ideia de que na constituição do sujeito do inconsciente são introjetadas crenças, valores da família e da sociedade em um determinado contexto social, histórico e político. Não é possível identificar a instituição e indivíduos responsáveis pelas ideias racistas de Schreber, mas podemos atestar que se tratava de ideias que circulavam na Alemanha do seu tempo.

A partir disso, podemos induzir os efeitos das crenças contemporâneas no porvir, das falsas teorias e dos valores transmitidos pelas instituições sociais. Seria possível inferirmos alguma estratégia de previsão? A resposta a essa pergunta não é fácil, pois implica em construir uma teoria lógica cuja resultante seria a projeção do passado no futuro. Esse é um dos desafios para muitos historiadores. No entanto, alguns continuam a defender a hipótese de que o antissemitismo nazista foi fruto da política de Bismarck.

Tanto Freud como Lacan se ocuparam dessas questões. Por meio da teoria da recapitulação Freud pretendeu explicar o retorno do arcaico no presente. Por sua vez, Lacan se apoiou no estruturalismo linguístico e na teoria da informação, abordando essas mesmas questões por meio da lógica e da teoria do significante. Escreveu o Pai da exceção de Totem e Tabu por meio de uma expressão lógica: ∃x¬Φx; existe um elemento do conjunto que não responde à função da castração, isto é, o pai da exceção. Nos termos de Schreber, trata-se de fazer existir o Deus soberano, o Deus não castrado de gozo, aquele que terá um gozo contínuo e absoluto. A solução eugênica e racista de Schreber tinha como objetivo proporcionar este gozo contínuo à Deus, o Pai da exceção, o líder totalitário. Nesse sentido, concordamos com Santner, a mensagem de Schreber não é somente uma solução individual, mas também uma mensagem política, a mesma que Hitler irá oferecer para o povo alemão.

Em um comentário sobre a reforma psiquiátrica, Lacan (2006, p. 5) conclui que "o vencedor desconhecido de amanhã, é desde hoje que ele comanda". Isso, porque o sujeito dos acontecimentos é inconsciente e o que se reproduz não tem origem numa só cabeça. Assim, o texto de Hitler e o texto de Schreber possuem estruturas homólogas, cujas propriedades são as mesmas da paranoia do redentor.

 

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Endereço para correspondência
Luis Francisco Espíndola Camargo - lfe.camargo@gmail.com

Recebido em: 16/04/2024
Aceito em: 19/05/2025
Editor associado: Marcos Vinicius Brunhari

 

Conflito de interesse
O autor declara que não há conflitos de interesse.

Disponibilidade dos Dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.

Nota de agradecimento
Agradeço ao Programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que acolheu essa pesquisa sob a orientação da Prof.ª Dra. Angélica Bastos.

 

 

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