INDIVIDUALISMO E COLETIVISMO: REFLEXÕES A PARTIR DA ÓTICA DE MULHERES DE UMA COMUNIDADE
Resumo: O objetivo deste artigo é apresentar uma articulação teórico-prática sobre o tema individualismo-coletivismo, a partir de entrevistas semi-estruturadas feitas com mulheres de uma comunidade na zona-oeste do Rio de Janeiro. Discute-se o individualismo moderno presente no cenário urbano, a partir de uma perspectiva histórica. Conclui-se através das entrevistas realizadas, que o espaço dialógico é um espaço político e que contribui para caminharmos na direção da dialética indivíduo-sociedade.
Palavras-Chave: Individualismo-Coletivismo-Mulheres-Comunidade
INDIVIDUALISM AND COLLECTIVISM: REFLECTIONS FROM THE PERSPECTIVE OF COMMUNITY WOMEN
Abstract: The objective of this paper is to present an articulation theoretical and practical on the subject individualism-collectivism, from semi-structured interviews with women in the area of community-west of Rio de Janeiro. It discusses modern individualism in this urban setting, from a historical perspective. It is concluded through interviews, that the dialogic space is a political space and helps to walk toward the individual-society dialectic.
Keywords: Individualism-Collectivism-Women-Community
“Existe uma história contada aqui que, esta comunidade é um casulo, um emaranhado que o índio faz, um trançado com o cipó em forma de caracol” (Moradora de comunidade).
INTRODUÇÃO
Se tomarmos a vida contemporânea como um “casulo” a fala desta moradora de uma comunidade no Rio de Janeiro é significativa para analisarmos o individualismo de nossos tempos. Pensar o individualismo crescente a partir do mundo moderno nos aproxima de relações sobre o seu avesso: o coletivismo.
No percurso que experimento no trabalho em comunidades, reflito constantemente sobre individualismo e coletivismo. Habitar uma grande metrópole requer do cidadão sapiência para entender aquilo que não compreendemos sobre o desumano, o sofrimento e que também não aprendemos, juntos, a buscar conexões nas relações sociais e nos processos subjetivos, enfim nas relações indivíduo e sociedade.
Desta forma, pretendo apresentar neste artigo uma articulação teórico-prática sobre o tema individualismo-coletivismo, a partir de entrevistas feitas com doze mulheres de uma comunidade na zona-oeste do Rio de Janeiro (1).
Há consenso entre muitos autores, como Bauman (2003), que a ambivalência do individualismo moderno, pode ser, ao mesmo tempo, um vetor de emancipação dos indivíduos, estimulando sua autonomia e tornando-os portadores de direitos, e um fator de insegurança crescente, deixando a todos a responsabilidade pelo futuro e dando um sentido à vida não mais predeterminado a partir de fora.
De forma distinta de uma atitude blasé metropolitana, conforme apontado por Simmel (1979) no texto “A Metrópole e a Vida Mental”, busco pensar como viver em uma comunidade aonde se inserem tais mulheres? Quais as pistas presentes nos seus discursos que nos ajudam acompanhar o contexto de suas vidas no cenário urbano?
Pretendeu-se a partir das entrevistas semi-estruradas, inaugurar novas sentidos em suas vidas, propiciando uma escuta atenta das suas falas e que o diálogo com o pesquisador possa exteriorizar o “viver em comunidade” a partir da ótica delas mesmas.
Levantei temas como individualismo, a valorização de interesses coletivos, as amizades, a segurança, a liberdade, a vida privada, ao espaço público, o papel do Estado, o significado da sociedade, a vida em comunidades e a comunidade vivida na infância.
Apresenta-se, a seguir, um recorte desta pesquisa realizada com as mulheres desta comunidade, priorizando-se a análise individualismo e coletivismo.
A ótica das mulheres da comunidade: reflexões sobre individualismo e coletivismo
O tema norteador das entrevistas foi sobre o “viver em comunidade”, como elas percebiam este viver. Nas conversas com estas mulheres, levantei algumas ideias que faziam parte do roteiro já citado, procurando sempre acompanhar as suas associações. Este roteiro foi construído a parir de questões já apontadas informalmente pelos moradores na minha prática nesta comunidade, antes do início desta pesquisa.
Entende-se, neste estudo, que o “viver em comunidade” deve ser compreendido historicamente e que no cenário urbano em que vivemos o termo “comunidade” longe de ressaltar formas de relacionamentos éticos e plurais, indica uma leitura dos espaços geográficos de nossa cidade que são mais afetados pela pobreza.
Desta forma, a reflexão comunidade e identidade é importante de ser considerada aqui. A partir da modernidade, a comunidade é enfraquecida e a identidade (auto-afirmação individual) é valorizada. Não podemos deixar de considerar que em momentos em que nos inclinamos para valores coletivistas na atualidade, o individualismo moderno estará presente de diferentes formas e mesclado a novas tentativas de superá-lo.
O individualismo foi comentado por todas as entrevistadas num primeiro momento: “Comunidade aqui não existe. Comunidade é viver em união e aqui cada um vive só... Se você tem internet, rádio e televisão não precisa do outro”. A valorização dos interesses coletivos foi constatada por todas as mulheres, mas somente duas julgaram que conseguem intervir, produzindo para o grupo ou com o grupo.
Realizei as entrevistas semi-estruturadas com onze mulheres nordestinas e uma carioca (moradora de Muzema há 25anos), numa faixa etária entre 20 a 45 anos, moradoras desta comunidade há mais de cinco anos, com escolaridade variando do Ensino Fundamental ao Ensino Médio e uma entrevistada com Pós-Graduação. A entrevista com a moradora carioca surge de sua curiosidade e de seu interesse em participar da pesquisa. M. trabalha no Posto de Saúde da comunidade como professora e supervisora desta instituição.
A entrevistada R., maranhense, ao comentar sobre o “viver em comunidade”, expressou a posição de todas as entrevistadas: “Comunidade significa ajudar ao próximo, mas aqui não tem”. Perguntei a que ela atribuía este fato, e a mesma respondeu: “Deve ser do nome... Existe uma história contada aqui que, Muzema é um casulo, um emaranhado que o índio faz, um trançado com o cipó em forma de caracol”.
Como outras entrevistadas e muitos moradores, R. disse: “Esse é um lugar que não vai para frente, aqui dá tudo errado... Estou tentando entrar para a universidade e tenho muita vontade de voltar para o Nordeste. Melhorar, crescer e voltar. Mas preciso de dinheiro.” .
Para Simmel “a essência da atitude blasé consiste no embotamento do poder de discriminar”... O dinheiro torna-se o mais assustador de todos os niveladores (p.16). Como outros moradores de comunidade, os moradores desta comunidade vivem inseridos numa metrópole blasé.
No espaço que habitam, convivem com a reprodução deste tipo de cultura metropolitana, convivem ainda com a cultura local. Algo que denota uma busca por valores pertencentes ao grupo de referência (neste caso, amigos, conhecidos e parentes nordestinos). Sentir-se protegido da violência do grande centro e encontrar harmonia social são objetivos que, uma vez alcançados, disfarçam a solidão e o individualismo exigido como modo de vida numa cidade grande.
Das entrevistas realizadas com as mulheres, posso destacar algumas falas que sinalizam uma imersão na cultura metropolitana e a proteção almejada num grande centro:
“Sinto-me muito sozinha, tenho vontade de ir embora, mas queria ganhar dinheiro primeiro. Não posso visitar minha família com freqüência, no Ceará, pois gasto muito. Estou economizando dinheiro para voltar a morar no Ceará e montar uma academia... Busquei esta comunidade por motivo de segurança, não tem drogas, brigas, assaltos... Quando eu disse que aqui não tem violência, quis dizer que não tem como em outros lugares, mas violência tem em qualquer lugar, e aqui é normal como em qual quer lugar. Prefiro morar em ... porque tem paz, sossego, em outras comunidades tem muita violência”.
As vozes destas mulheres desta comunidade me inclinam a pensar que o individualismo, próprio dos grandes centros, também se insere em suas vidas. Observo, ainda, a procura pelo familiar e que têm no coletivo, no grupo de referência (o grupo nordestino), a esperança do reencontro, do escape...
Essas vozes, a imersão no cotidiano da cidade, “eu preciso de dinheiro”, “eu me sinto só”, a afirmação das entrevistadas sobre o individualismo presente nesta comunidade me estimularam a pensar sobre as condições psicológicas que a metrópole cria, conforme explicitado por Simmel.
O viver em comunidade atenua a intensificação dos estímulos nervosos resultante da alteração brusca e ininterrupta entre estímulos exteriores e interiores? Para este autor, esta intensificação é uma condição primordial para a existência da base psicológica do tipo metropolitano de individualidade. Ou além disto, o “viver no casulo nesta comunidade” indica uma defesa frente ao rompimento da cultura da comunidade vivida na infância ?
Na vida rural, o ritmo de vida e o conjunto sensorial de imagens mentais fluem mais lenta e uniformemente. A vida de pequena cidade é mais apoiada em relacionamentos emocionais, enraizados nas camadas mais inconscientes do psiquismo.
Já a vida metropolitana implica uma consciência elevada e uma predominância da inteligência no homem metropolitano. “A intelectualidade, assim, se destina a preservar a vida subjetiva contra o poder avassalador da vida metropolitana” (Simmel, 1979, p.13). Para enriquecer esta reflexão, a fala de M.L., moradora há seis anos:
“Não pude estudar. Sou do sertão mesmo. Minha infância foi de muita inocência, corações humildes, gente humilde, pureza, natureza, água, plantas, sem fábrica. Lá não tem violência. Oportunidade de emprego está tendo agora para quem tem ensino médio. Sofri muito aqui quando cheguei. Aqui não tem oportunidade. Tem falta de amor, mundo desumano. Minha meta é voltar. Enquanto isto vou rezando na igreja católica.”
M.L. expressou essas ideias quando lhe perguntei sobre a lembrança da comunidade vivida na infância. Interessante observar que, no início da entrevista, disse: “Comunidade é aqui. Gosto muito daqui. Tem muitos nordestinos. Comunidade é um lugar de gente muito simples e humilde”. M.L. foi a única entrevistada que expressou esta opinião sobre a comunidade. Tal afirmação da entrevistada confirma a idéia sobre a continuidade da vida no Nordeste, necessária para a sobrevivência na cidade.
Para pensar inicialmente sobre estas duas orientações sociais, o individualismo e o coletivismo, o filósofo Martin Buber (1987) descreve como estas devem ser compreendidas. Encontrei, na análise deste autor, um texto que me instiga a pensar as falas destas mulheres, uma posição que tenta explicitar estas duas orientações:
O individualismo como obstinada procura pelo amor fati, como obcecado esforço do homem em considerar-se um indivíduo, em se autoglorificar, em se autocelebrar como indivíduo isolado, e assim adquirir, através da imaginação, uma existência que não pode ser adquirida desta maneira ou escapar... Escapar para a coletividade que proporciona a alguém, sem dúvida, algo certo, ao livrá-lo da responsabilidade pessoal. Perde-se a responsabilidade. Fica-se livre de si mesmo... este não precisa mais responsabilizar-se nem por si próprio, nem pelo ser, pelos entes... Ele se entrega, à maneira de uma roda na máquina. A máquina precisa desta roda, esta peça deve entregar-se, sem responsabilidade (p. 124-125).
Desta forma, vivemos em uma cultura que nos coloca ora na procura pelo amor fati, ora como uma roda, peça de uma máquina. Analisar e testemunhar esta cultura em que vivemos impede que a homogeneização própria dos nossos tempos se expanda...
No Posfácio do livro de Buber (1987), Zuben comenta o protesto do autor contra a “coisificação” a que foi submetido o homem moderno, através da supremacia do Eu, em detrimento da autêntica relação. Tal protesto pode servir, segundo Zuben, como pano de fundo para a tentativa de transformação para a verdadeira comunidade. O interesse em prol de uma “nova comunidade”, fundada em relações pessoais entre os homens, vem sempre junto da profunda consciência da crise das diversas situações históricas.
Para pensarmos de forma mais criteriosa o contexto histórico moderno e suas crises, Robert Castel (1998) mostra formas de individualização que poderiam ser classificadas numa “sociedade de indivíduos” como um “individualismo coletivo”, presente em grupos auto-centrados, um individualismo de mercado ou um individualismo negativo. Individualismo “negativo”, porque se declina em termos de falta, falta de consideração, de seguridade, de bens garantidos e de vínculos estáveis.
A força desses individualismos, apoiada pelo liberalismo no fim do século XVIII, ocultou a existência de uma forma de individualização que reúne a independência completa do indivíduo e sua ausência completa de consistência. “O vagabundo representa-lhe o paradigma. Só pertence a si mesmo e não é homem de ninguém, nem pode se inserir em nenhum coletivo” (p. 597). A questão da vagabundagem é, para Castel, o modo pelo qual se “expressa e se oculta, ao mesmo tempo, a questão social na sociedade pré-industrial” (p.143).
A metamorfose, que se realiza no fim do século XVIII, pode ser analisada a partir do encontro entre essas duas formas de individualização: o individualismo negativo e o individualismo positivo. O individualismo “positivo” impõe-se e surge ao tentar recompor o conjunto da sociedade sobre uma base contratual. Por esta imposição da matriz contratual, vai ser solicitado que os indivíduos carentes ajam como indivíduos autônomos. Na estrutura do contrato, não existe nenhuma referência a um coletivo, exceto àquele que os contratantes formam entre si. Essa nova regra do jogo contratual não vai promover proteções novas, mas terá por efeito destruir o que restava de pertencimentos coletivos, acentuando o caráter anômico da individualidade negativa. Para Castel, o pauperismo exemplifica essa dessocialização completa, reduzindo uma parte da população industrial a uma massa agregada de indivíduos sem qualidades (p.599).
Para este autor, o mundo do trabalho na sociedade salarial não forma, “para falar em termos exatos”, uma sociedade de indivíduos, mas um encaixe hierárquico de coletividades constituídas na base da divisão do trabalho e reconhecidas pelo direito. Este autor revela que esta diluição dos enquadramentos coletivos e dos pontos de identificação, que valem para todos, não está limitada às situações de trabalho. O próprio ciclo de vida se torna flexível.
Ele fala de uma desinstitucionalização, entendida como uma des-ligação em relação aos quadros objetivos que estruturam a existência dos sujeitos e que atravessa o conjunto da vida social. Observam-se alguns efeitos deste aspecto: a individualização de tarefas no trabalho, a fuga das sujeições coletivas, a cultura do narcisismo, presente após os anos 70 na classe média, o prolongamento de uma pós-adolescência, etc...
No debate proposto sobre o individualismo e o coletivismo, podemos neste trabalho ratificar a posição de Buber, que sinaliza que “qualquer idéia política ou categoria social, por mais ampla que seja a análise, “deve ser considerada no âmbito de uma dada situação”; ao mudarem as condições do hic et nunc, toda e qualquer categoria adquirirá um novo significado (2) (p.14).”
No Pósfácio do já citado livro de Buber, Zuben comenta que o autor rejeita, ao mesmo tempo, o individualismo atomístico e o coletivismo atomístico. Contra este esfacelamento da pessoa pelo mecanismo de interesses (coletivismo), não se deve procurar a solução em algo encapsulado no “privado”, num mergulho no próprio eu, mas através da saída, da “aparência” deste eu no espaço público do “entre-dois”. “É a ação dialógica (cf. Eu e Tu, p.16) o início de um espaço político. A redescoberta do “comum” (público) passa pela revolução no pensamento do “comunitário” (p.132).
Acompanhando Buber, observa-se que as duas entrevistadas, que apresentam um posicionamento crítico sobre o trabalho que desenvolvem na comunidade, uma como professora voluntária de alfabetização (ensino médio completo) e a outra, também professora (a única entrevistada com pós-graduação), atuante nas pastorais da igreja católica na região, atribuem à educação e ao trabalho das pastorais o papel de ferramentas necessárias para a transformação do posicionamento dos sujeitos no espaço público.
De forma diferente das outras entrevistadas, mesmo reconhecendo as dificuldades encontradas, estas mulheres apostam em seus trabalhos como forma de inserção dos sujeitos nos grupos sociais. A primeira entrevistada reclama que “não tem a quem recorrer quando alguém se interessa pelo espaço público”. A segunda diz que “as pessoas não têm noção que quando saem de suas casas estão em outros espaços... Os homens saem sem camisa de casa e querem entrar no Posto de Saúde”.
As demais entrevistadas afirmam valorizar os interesses coletivos, mas não reconhecem meios para agirem a favor dos mesmos.
Considerações Finais
Reconhecendo a importância de autores que assumem a dialética indivíduo e sociedade, pode-se compreender o espaço dialógico (Eu-Tu) como um espaço político, conforme apontado por Buber.
Contra ambos (individualismo atomístico e coletivismo atomístico), Buber aponta a visão de uma “comunidade orgânica”, uma “comunidade de comunidades”. A meta da comunidade é a própria comunidade, a comunidade é uma pluralidade que deve ser preservada da subordinação a qualquer aparelho unificador. “Nesta pluralidade, as pessoas vêem assegurada à singularidade de sua condição humana. Na comunidade a pessoa não é reduzida à mera função de uma massa, a um papel numa classe (p.133)”.
A vida mental na cidade de Simmel, o modelo de indivíduo abstrato numa ética capitalista, o afastamento dos grupos de referência, etc... É estranho falar, mas observo que “individualizamos” a comunidade, os laços sociais. São pontos que nos afastam do outro e de valores coletivistas.
O aparecimento de formas de coletivismo no cenário capitalista deverá ser investigado na sua singularidade ou na sua possibilidade de serem capturadas pela máquina capitalista.
Mas, ao mesmo tempo, procurei mostrar, apoiada novamente em Buber, que “um imenso desejo de comunidade penetra todas as almas de pessoas nobres neste momento vital da cultura ocidental” (p.134). Recorrendo a autores já vistos neste estudo, apontamos vozes significativas a serem buscadas e nos deparamos com uma leitura que considera a dialética indivíduo e sociedade. Evidentemente, existem outras vozes que nos fazem escapar dos guetos e devemos buscá-las sempre que possível...
Como nos mostra Castel, destaca-se a importância do poder público, instância capaz de construir pontes entre os dois pólos do individualismo “os que podem associar individualismo e independência, porque sua posição social está assegurada, e os que carregam sua individualidade como uma cruz, porque significa falta de vínculos e ausência de proteções” e impor um mínimo de coesão à sociedade (p. 609 – 610).
Pude perceber que o binômio individualismo e independência estiveram presentes, de alguma forma, nas respostas das entrevistadas, apesar dessas mulheres não possuírem sua posição social assegurada. As respostas sobre segurança e liberdade foram categóricas, no sentido de “algo valioso oferecido pela comunidade”, algo que se pode se articular ao individualismo e não à cidadania, a direitos conquistados para todos. Segurança e liberdade para viver a própria vida, e não a vida em comunidade...
No processo civilizatório, a individualização foi, no que diz respeito aos valores humanos, uma troca. “Os bens trocados no curso da individualização eram a segurança e a liberdade: a liberdade era oferecida em troca de segurança... a liberdade é a capacidade de fazer com que as coisas sejam realizadas do modo como queremos, sem que ninguém seja capaz de resistir ao resultado, e muito menos desfazê-lo (Bauman, 2003, p. 26)”. Desta forma, o “viver em comunidade” torna implícita a impossibilidade de resistência ao resultado. A dinâmica metropolitana impõe escolhas difíceis, sem muitas opções ou saídas.
Numa sociedade hiperdiversificada e corroída pelo individualismo negativo, não há coesão social sem a presença do Estado. O espaço dialógico (Eu-Tu) de Buber, presente em nossas práticas profissionais, poderá ser uma ponte para políticas públicas emergirem no tecido social. A individualização do social e a homogeneização dos indivíduos poderão sofrer resistência na valorização do espaço dialógico e na possibilidade do Estado construir um olhar na direção da dialética indivíduo e sociedade.
NOTAS:
(1) Para um maior aprofundamento sobre os desdobramentos desta pesquisa, ver Oberg, L.P. Do Rio das Vitrines à Galeria dos Desconhecidos: um estudo em Psicologia Social Comunitária na localidade de Muzema, São Paulo: Ed. Biblioteca 24X7, 2008). Tese de doutorado publicada e orientada pela Profa. Dra. Junia de Vilhena, Puc-Rio.
(2) Reflexão importante, pois se considera a sociedade brasileira contemporânea tomada em sua amplitude pelo processo de globalização e imersa num processo crescente de individualização do social. Apesar disto, não nos esqueçamos de sua diversidade cultural e a própria desigualdade social intervindo nas formas dos sujeitos perceberem o mundo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAUMAN, Z. Comunidade. A Busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
BUBER, M. Sobre Comunidade. São Paulo: Perspectiva, 1987.
CASTEL, R. As Metamorfoses da Questão Social. Uma Crônica do Salário. Petrópolis. Rio de Janeiro: Vozes, 1998.
SIMMEL, G. A Metrópole e a Vida Mental. In: VELHO, G. O Fenômeno Urbano. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. p.11-25.
Recebido: 16/01/2013
Aceito: 18/02/2013