Viajando e punindo
medicalização e proibicionismo na história da ciência psicodélica
DOI:
https://doi.org/10.12957/mnemosine.2025.95877Palavras-chave:
vigilância, disciplina, normaResumo
RESUMO: O artigo explora a analítica foucaultiana do poder em Vigiar e Punir e seus desdobramentos em Deleuze e Mbembe para criticar a medicalização e o proibicionismo no contexto dos psicodélicos. O texto analisa as condições de visibilidade e dizibilidade em que saberes e práticas sobre drogas foram historicamente construídos, entre a normalização por discursos científicos e a criminalização de usuários, no intuito de compreender a coexistência atual de tecnologias de confinamento e vigilância panóptica das sociedades disciplinares, com modulação algorítmica e gestão de fluxos das sociedades de controle e genocídio necropolítico que reatualiza práticas do antigo poder soberano. A história do interesse científico ocidental pelos psicodélicos ilustra como regimes de verdade e tecnologias de poder operam para silenciar vozes dissidentes e naturalizar desigualdades. O artigo reafirma, por fim, a importância da análise foucaultiana e a necessidade de mais análises críticas para uma regulação dos psicodélicos que não reproduza lógicas medicalizantes e excludentes.
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