“Uma certa discrição na arte de fazer sofrer”
A fabricação da alma como alvo da punição
DOI:
https://doi.org/10.12957/mnemosine.2025.95873Palavras-chave:
punição, moral, humanoResumo
Passados cinquenta anos da publicação de Vigiar e Punir, são atuais as análises de Foucault sobre a punição, enfatizando o deslocamento do suplício físico para a fabricação da alma. Há uma sofisticação da relação punitiva no capitalismo, por associar castigo e cura pela moral e pela exaltação do humano. Paradoxalmente, no Brasil é persistente a violência escravocrata, que mantem o corpo negro como alvo da punição física explícita. Campos como os de escola, conselho tutelar e em especial saúde mental, dão visibilidade ao processo de normalização, sempre articulados a saberes jurídicos e científicos para a produção de subjetividades ajustadas. Formas de punição assumem roupagens “terapêuticas e humanitárias”, com mecânicas que mantêm sua função de vigilância e exclusão. Retomar as análises de Vigiar e Punir significa reivindicar novas formas de resistência aos modos contemporâneos de cerceamento de nossas liberdades.
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