“Uma certa discrição na arte de fazer sofrer”

A fabricação da alma como alvo da punição

Autores

  • Estela Scheinvar Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
  • Filipe Asth Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

DOI:

https://doi.org/10.12957/mnemosine.2025.95873

Palavras-chave:

punição, moral, humano

Resumo

Passados cinquenta anos da publicação de Vigiar e Punir, são atuais as análises de Foucault sobre a punição, enfatizando o deslocamento do suplício físico para a fabricação da alma. Há uma sofisticação da relação punitiva no capitalismo, por associar castigo e cura pela moral e pela exaltação do humano. Paradoxalmente, no Brasil é persistente a violência escravocrata, que mantem o corpo negro como alvo da punição física explícita. Campos como os de escola, conselho tutelar e em especial saúde mental, dão visibilidade ao processo de normalização, sempre articulados a saberes jurídicos e científicos para a produção de subjetividades ajustadas. Formas de punição assumem roupagens “terapêuticas e humanitárias”, com mecânicas que mantêm sua função de vigilância e exclusão. Retomar as análises de Vigiar e Punir significa reivindicar novas formas de resistência aos modos contemporâneos de cerceamento de nossas liberdades.

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Biografia do Autor

Estela Scheinvar, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Filipe Asth, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

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Publicado

2025-12-24

Como Citar

SCHEINVAR, Estela; ASTH, Filipe. “Uma certa discrição na arte de fazer sofrer”: A fabricação da alma como alvo da punição. Mnemosine, Rio de Janeiro, v. 21, n. 1, p. 80–91, 2025. DOI: 10.12957/mnemosine.2025.95873. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/mnemosine/article/view/95873. Acesso em: 4 fev. 2026.