Vozes silenciadas: Lima Barreto e os princípios restaurativos

Autores

DOI:

https://doi.org/10.12957/matraga.2026.96024

Palavras-chave:

Lima Barreto, justiça restaurativa, literatura brasileira, crítica social

Resumo

Este artigo investiga as crônicas de Bagatelas (1923), de Lima Barreto, à luz dos debates contemporâneos sobre justiça social e justiça restaurativa. Argumenta-se que, ao narrar episódios aparentemente banais envolvendo sujeitos socialmente marginalizados, Lima Barreto construiu uma crítica contundente ao sistema penal e administrativo da Primeira República, evidenciando a criminalização da miséria, o higienismo social e a ausência de escuta dessas vozes. A análise demonstra que a escrita irônica e fragmentária das crônicas expõe formas de violência institucional e exclusão social que antecipam questionamentos centrais à justiça restaurativa, como uma crítica à lógica punitivista, a desconsideração da contextura social dos conflitos e a negação do reconhecimento do outro. Em diálogo com autores como Michel Foucault, Howard Zehr e Carla Boin, propõe-se compreender a literatura de Lima Barreto como um dispositivo ético crítico capaz de iluminar alternativas à justiça baseada exclusivamente na punição. Conclui-se que Bagatelas não apenas desvela mecanismos históricos de marginalização, mas também oferece um repertório narrativo e ético para pensar práticas de justiça social fundadas no diálogo e nas relações humanas.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Tatiane Felipe Santana Bovolato, Universidade de São Paulo (USP)

Mestra e doutoranda em Literatura Brasileira pela USP. Graduada em Letras e especialista em Literatura, desenvolve pesquisas em literatura brasileira, literatura comparada, crítica literária e estudos das relações entre literatura, cultura e sociedade.

Referências

AGUIAR, Carla Maria Zamith Boin. Justiça restaurativa no contexto universitário: caso da Universidade Dalhousie - Canadá. Orientador: Guilherme Assis de Almeida. 2019. v. 1, 188 f. Tese (Doutorado) - Curso de Direito, Direito, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2019.

BARBOSA, Francisco de Assis. A vida de Lima Barreto. 8. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002.

BARRETO, Lima. Bagatelas. Rio de Janeiro: Empresa de Romances Populares, 1923.

BARRETO, Lima. Diário íntimo. São Paulo/Rio de Janeiro: Editora Mérito S. A., 1953.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: Ensaios sobre literatura e história da cultura, tradução de Paulo Rouanet. 3. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987. v. 1.

BOIN, Carla. Mediação e Justiça Restaurativa: Linguagem Mediadora e o Princípio do Não Saber. ID Online – Revista de Psicologia vol. 16, n. 62, p. 55-66, ISSN: 1981-1179, 2022.

BOTELHO, Denilson. A pátria que quisera ter era um mito: história, literatura e política em Lima Barreto. 2. ed. Curitiba: Prismas, 2017.

CANDIDO, Antonio. A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Rio de Janeiro: Uni-camp, 1992. p. 407- 416.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão, tradução de Raquel Ramalhete. 20. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1999.

MBEMBE, Achille. Crítica da Razão Negra. 1.ed. Lisboa: Antígona, 2014. Tradução de Marta Lança.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. Lima Barreto: triste visionário. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1995.

ZEHR, Howard. The Little Book of Restorative Justice. New York: Good Books, 2015.

Downloads

Publicado

2026-09-20

Como Citar

BOVOLATO, Tatiane Felipe Santana. Vozes silenciadas: Lima Barreto e os princípios restaurativos. Matraga - Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da UERJ, Rio de Janeiro, v. 33, n. 69, p. 473–484, 2026. DOI: 10.12957/matraga.2026.96024. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/matraga/article/view/96024. Acesso em: 21 set. 2026.

Edição

Seção

Estudos Literários