Emoções pela antropologia feminista

pensando a dor em relatos de parto no Instagram

Autores

DOI:

https://doi.org/10.12957/irei.2025.94150

Palavras-chave:

emoções, antropologia feminista, relatos de parto

Resumo

Neste artigo, busco compreender o lugar da dor em relatos de parto publicados em um perfil brasileiro de Instagram, desenvolvendo minha análise através de três eixos inspirados pela antropologia feminista. Primeiro, a expressão da dor pode ser entendida enquanto um discurso emocional incorporado, realçando a dimensão generificada das emoções e a micropolítica das relações presentes no evento do parto. Esse discurso ressalta, por sua vez, a assistência ao parto como forma de cuidado, área temática que põe em relevo desigualdades de gênero que estruturam essas relações. Assim, os relatos de dor no parto tornam-se discursos emocionais que destacam as relações de cuidado e suas tensões durante um evento que é socialmente e subjetivamente significativo para as mulheres. Por fim, de forma mais empírica, esses relatos mostram como o parto ganhou uma dimensão política no Brasil, através do movimento de humanização do parto e da reinvindicação de maior protagonismo das mulheres. Assim, falar sobre o parto de forma pública, no Instagram, faz parte de um processo de demanda de maior autonomia e redução do controle dos corpos femininos, no qual a vivência da dor se coloca como escolha das mulheres. 

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Biografia do Autor

Cláudia Barcellos Rezende, PPCIS/UERJ

Doutora em Antropologia Social. Professora Titular do Departamento de Antropologia do Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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Publicado

2026-01-13

Como Citar

REZENDE, Cláudia Barcellos. Emoções pela antropologia feminista: pensando a dor em relatos de parto no Instagram. Interseções: Revista de Estudos Interdisciplinares, Rio de Janeiro, v. 27, n. 1, 2026. DOI: 10.12957/irei.2025.94150. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/intersecoes/article/view/94150. Acesso em: 4 fev. 2026.