ARTIGOS

 

Intimidade - o incomum lugar comum num universo de alheios

 

Intimacy – the uncommon common place in an universe of distant people

 

 

Luciana Bicalho Cavanellas*

Professora do Centro Universitário Celso Lisboa/UCL – Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Professora do Instituto de Gestalt-terapia/IGT – Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Endereo para correspondncia

 

 


RESUMO

Vivemos o tempo da alta ou da pós-modernidade. O momento é de velocidade, multiplicidade, inovações tecnológicas, futuro, ausência de historicidade, falta de referências e desconforto.
A relação terapêutica pode ser vista como um lugar incomum para se encontrar com o outro e consigo mesmo, num mundo ditado pelas forças da alienação e do desencontro. A psicoterapia confirma seu lugar, mas suplica a reflexão. A intimidade aparece como possibilidade e acaba por constituir formas comuns e pessoais de busca de sentido. A Gestalt-terapia, como proposta de base fenomenológica-existencial, oferece-se ao fluxo da experiência, intencionando compreendê-la e afirmá-la como fonte possível de abertura e criação.

Palavras-chave: Modernidade, Intimidade, Gestalt-terapia.


ABSTRACT

We are living the time of the high or post-modernity. The moment is of velocity, multiplicity, technological innovations, future, absence of historicity, lack of references and discomfort.
The therapeutical relation may be seen as an uncommon place to one meet the other and himself in a world commanded by the forces of the alienation and of the disagreement. The psychotherapy confirms its place, but supplicates the reflection. The intimacy appears as  possibility and ends by constituting common and personal ways of search of sense.
The Gestalt Therapy, as a proposition of phenomenological-existential basis, offers itself to the experience stream trying to understand and to affirm it as a possible source of creation and opening.

Keywords: Modernity, Intimacy, Gestalt-therapy.


 

 

Dá-me a tua mão desconhecida, que a vida está me doendo, e não sei como falar.
Clarice Lispector

 

Pós-moderno, supermoderno, hipercontemporâneo. Tentativas de nomear um tempo com os pés na modernidade, mas lançado de olhos, boca e mãos abertos e sedentos por ultrapassamentos e superações de todos os tipos. Não há introdução, nem preparação para sua chegada. “Já é” - dizem os jovens arautos de nossa época. Só há fluxo. Imagem, movimento e velocidade arrastando tudo como torrentes volumosas de rios caudalosos e um grito calado de “Salve-se quem puder!”.

Onde vamos nos segurar? É possível resistir ou seremos levados de qualquer maneira à beira? Haverá algum limite ou parada? Ou qualquer coisa que nos faça lembrar quem somos ou éramos há um segundo atrás?

Vivemos este momento delicado onde somos autores e personagens falando através de atores, discutindo formas, debatendo idéias, confundindo emoções, enlouquecendo valores. Como num ensaio teatral, sem direção, onde todos podem tudo e podem ser qualquer coisa, ou uma coisa a cada instante; não é preciso fixar-se, nem identificar-se. Todos os papéis estão à disposição. É só experimentar, vestir e representar. É o tempo da plasticidade e da flexibilidade total. Vira-se qualquer coisa e tudo é possível, só não é permitido parar. Nem ao corpo, nem à mente é dada esta permissão. Mesmo à noite, é preciso estar acordado e vigilante.

A ansiedade é alimentada diariamente pela necessidade de ter e de não perder, a não ser aquilo do que já se quer mesmo livrar-se, porque repentinamente ficou velho e não serve mais. É como uma mão pesada que nos empurra para a frente, para o mais, para o tudo, sem se importar com o rastro que deixamos pelo caminho. Montanhas de lixo produzidas a cada minuto por um sem-número de coisas que não nos atendem mais. São obsoletas. E o que somos nós?

Para se livrar do embaraço de ser deixado para trás, de ficar preso a algo com o qual ninguém mais quer ser visto, de ser pego cochilando e de perder o trem do progresso em vez de viajar nele, você deve ter em mente que é da natureza das coisas exigir vigilância, não lealdade.

[...] O lixo é o principal e, comprovadamente, mais abundante produto da sociedade líquido-moderna de consumo. [...] Isso faz da remoção do lixo um dos dois principais desafios que a vida líquida precisa enfrentar e resolver. O outro é a ameaça de ser jogado no lixo. (BAUMAN, 2007, p.17)

Nosso passado e nossa história confundem-se então com restos de coisas que não queremos mais, que descartamos de nós mesmos para podermos seguir em frente. E ao nos descartarmos aos poucos, já não nos reconhecemos bem, vemos embaçado, perdemos a referência. Quiséramos poder desacelerar, mas seríamos atropelados e arrastados pela violência da correnteza consumista e mercadológica; então fechamos os olhos e saltamos. E assim nos misturamos ao fluxo e passamos a procurar nas vitrines da vida sinais que nos remetam à nossa apagada identidade.

... presentemente assistimos à destruição do duplo sujeito da modernidade, o sujeito crítico (kantiano) e o sujeito neurótico (freudiano) – aos quais eu não hesitaria em acrescentar o sujeito marxista. E vemos se instalar um novo sujeito, “pós-moderno”. [...] um sujeito precário, acrítico e psicotizante que é doravante requerido – entendo por “psicotizante” um sujeito aberto a todas as flutuações identitárias e, consequentemente, pronto para todas as conexões mercadológicas. O cerne do sujeito progressivamente dá lugar ao vazio do sujeito, um vazio aberto a todos os ventos. (DUFOUR, 2005, p.21)

Para Dufour, na ânsia de consumir tudo, o capitalismo acabaria por consumir a si mesmo, mas não sem antes engolir aqueles que o servem. Tendo já se utilizado dos corpos e tornado-os “corpos produtivos” e “material humano”, a grande novidade da virada dita pós-moderna estaria na redução dos espíritos, conforme aponta o título de seu livro “A Arte de Reduzir as Cabeças”. Segundo o autor,

hoje os homens são solicitados a se livrar de todas as sobrecargas simbólicas que garantiriam suas trocas . O valor simbólico é assim desmantelado, em proveito do simples e neutro valor monetário da mercadoria. [...] Daí resulta uma dessimbolização do mundo. (DUFOUR, 2005, p.13)

Como então nos garantir a sobrevivência num mundo que visa a transformação de tudo em consumo e satisfação imediata? Onde tudo desaparece instantaneamente superado pelo surgimento de cada novidade, carregada de promessas de perenidade?

Seguimos crédulos, acríticos, abertos. Logo nos tornamos escancarados e famintos, produtores e produtos de um querer-prazer incessante e sem tréguas. Estamos praticamente dopados pela velocidade contemporânea e a falta de sentido nos assola:

O pensamento contemporâneo
um ícone
uma esfinge,
uma epígrafe descontextualizadora
de extratos semânticos,
sêmens de linguagem
sintetizados numa tela
inconformática e virtual
pensar é
sacar esses extratos
capturados e contemplados
por instantes
no saldo eletro-magnético
da memória digital.
(XAVIER, 2002, p.4)

A liquidez das referências e das experiências provoca em nós sensações de insegurança e nos traz ameaças de desintegração. Sentimo-nos fragmentados, suscetíveis e fragilizados, apesar da mais alta potencialização de tudo o que nos cerca. Estamos acompanhados, porém sozinhos em nosso exercício diário de sobrevivência, numa solidária indiferença que nos consente prosseguir.

Segundo Giddens (2002, p.49), “a indiferença civil representa um contrato implícito de reconhecimento e proteção mútuos entre participantes dos espaços públicos da vida social moderna”. Diluídos nos espaços públicos, mantemo-nos alheios ao outro, mas também afastados de nós mesmos, habitantes da virtualidade. Esquecemos nossas casas e abandonamos nosso lar. Maltrapilhos existenciais, deserdados e errantes vagando sob o disfarce de homens e mulheres atarefados e ocupados em atingir suas metas e resultados. Em algum lugar, hão de angustiar-se.

Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
[...]
Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto. 
(PESSOA, 1993, p. 201)

No abismo do desespero, redescobrimo-nos. Afinal, ainda há de haver um remanescente eu. Eu que nasci, cresci, tenho fome, sede, sinto, penso, sonho e, um dia, morrerei. Eu que me desconheço e reconheço e, muitas vezes, pergunto por mim. Eu que sei de mim, mas às vezes esqueço quem sou e procuro-me por aí. Alguém há de achar-me e trazer-me de volta! É a minha esperança maior. Enquanto isso, vou vivendo livremente, em pedaços:

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia louça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me
sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um
capacho por sacudir.
[...]
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso,
entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal?A
minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-no especialmente, pois não
sabem por que ficou ali.
(PESSOA, 1993, p.166)

Esquecemos por que fomos chamados indivíduos e só nos lembramos de atributos egóicos e egoísticos quando pensamos a individualidade. No entanto, nosso bem maior, ao recebermos tal nome, foi guardarmos o sentido de uma inerente indivisibilidade. Indivíduo/indiviso/indivisível - aquilo que precisamos preservar, sem termos que negociar.

No entanto, vivemos na era de um individualismo que, para se manter, abriu mão das redes e vínculos sociais, enganando-se quanto ao modo de diferenciar-se. A antiga comunidade foi enfraquecida e, aos poucos, desintegrada, perdendo a força sobre cada indivíduo. Viramos autônomos e perdemos apoio e referências.

Sobressaímo-nos com delineamentos próprios e orgulhosos de nossa autonomia e liberdade de escolha. Mas não são poucas as vezes em que nos sentimos fartos e cansados de tanto ter que escolher. Permanecemos no leme em tempo integral, sem nos darmos conta do quanto estamos à deriva.

E é neste momento que resolvemos nos resgatar. Partimos em busca de um EU próprio, singular, com características autênticas, único e verdadeiro; mas, depois de muita procura, descobrimos que isto só se torna possível na presença de um Outro. Um outro que me sirva de espelho, que me faça a diferença, de quem eu possa me distinguir ao buscar a identidade. Que me confirme na semelhança e na diversidade, ao testemunhar tentativas próprias e impróprias de ir ao encontro do cais.

Esquecidos os laços de sangue, arranjo ou parentesco que garantiam a aproximação de pessoas em épocas pré-modernas, juntamente com a solidão e o vazio deixado pela sombra de antigos rituais grupais, eis que temos a possibilidade de nos envolvermos em relações eleitas e criadas com base em confiança mútua.

Em condições de incerteza e múltipla escolha, as noções de confiança e risco têm aplicação particular. A confiança [...] é um fenômeno genérico crucial e tem relevância específica para um mundo de mecanismos de desencaixe e de sistemas abstratos. [...] Em suas manifestações genéricas, a confiança está diretamente ligada à obtenção de um senso precoce de segurança ontológica. [...] nesse sentido [ela] é fundamental para um “ casulo protetor” que monta guarda em torno do eu em suas relações com a realidade cotidiana. (GIDDENS, 2002, p.11)

Protegido pelo invólucro da confiança e condenado ao autoquestionamento ininterrupto, herança da dúvida institucionalizada pela modernidade, o indivíduo enfrenta o risco e a necessidade de encontrar-se a si próprio. Desta forma, resiste ao massacre anunciado pela velocidade que isola e confunde, e mantém a fé na possibilidade da “relação pura”. Nas palavras de Giddens:

Em contraste com laços pessoais próximos em contextos tradicionais, a relação pura não está ancorada em condições exteriores da vida social e econômica. [...] os laços pessoais na relação pura requerem novas formas de confiança – precisamente aquela confiança que é construída pela intimidade com o outro. (GIDDENS, 2002, p.93)

Em tempos de polarizações, oscila-se entre a inevitável indiferença e a busca da intimidade, perdendo-se inúmeras vezes no meio deste caminho. Mas o apelo ontológico de auto realização não permite que o eu desista de si mesmo e perturba-o até que encontre um sentido.

Na ausência de um entorno seguro e favorável, perdido em sua rota ou já de frente para o abismo, apresentam-se saídas milagrosas, receitas instantâneas e alívios efêmeros, no shopping center de soluções facilmente consumíveis. Relações artificiais prontas para uso e promessas travestidas de especialistas oferecem-se no mercado captador de clientes inseguros e desorientados.

Há, porém, a resistência. Aquela que confia e acredita no compromisso. A que se sente atraída pela possibilidade do reencontro consigo e que, para isso, quer a intimidade como parceira.

Esta intimidade que fala do despir-se porque nascida da confiança mútua.

Esta intimidade que fala do sagrado porque abre portas para a libertação.

Esta intimidade que cria vínculos de eternidade.

Esta intimidade que é cúmplice e presencia verdadeiras transformações.

Esta que é simples e, ao mesmo tempo, rara de se experimentar.

Faz-se presente nos encontros de amor e amizade escolhidos; faz-se também presente nas relações de acolhimento e cuidado doados.

Incomum lugar comum num universo de alheios, a relação íntima constitui-se em tábua de salvação para a sobrevivência.

O indivíduo se sente privado e só num mundo em que lhe falta o apoio psicológico e o sentido de segurança oferecido em ambientes mais tradicionais. A terapia oferece alguém para quem podemos nos voltar, uma versão secular do confessionário [...] A terapia não é simplesmente um meio de lidar com novas ansiedades, mas uma expressão da reflexividade do eu – um fenômeno que ao nível do indivíduo, como as instituições maiores da modernidade, equilibra oportunidade e catástrofe potencial em medidas iguais. (GIDDENS, 2002, p.38)

Não temos um ofício comum, mas ele é produto deste sistema e nele se insere perfeitamente.

Nós, terapeutas, somos convidados a tomar parte e criamos condições para tal. Damo-nos conta de tamanha responsabilidade e privilégio?  Recepcionar momentos delicados e preciosos, quando a alma escolhe se entregar? Representar o instante de descontinuidade de um fluxo que não para de pressionar? Escutar idéias e sentimentos dolorosos, sem desesperançar?

Se contribuímos com a manutenção do status quo ou com a renovação deste modo de vida contemporâneo é uma reflexão que se impõe a nós e a qual não devemos evitar.

Até que ponto servimos a dois senhores, militantes de causas opostas, buscando conciliar o inconciliável?

Agimos no privado, na proteção de pequenas salas, enquanto lá fora também fugimos de monstros devoradores da paz social.

Com nossa proposta de conforto, estimulamos a crise que pode levar à mudança ou ajudamos a renovar o fôlego que nos mantêm vivos, porém fracos na hora de resistir ao massacre coletivo e individual?

De toda forma, somos porta-vozes da coragem e da esperança de se construírem relações genuínas, alicerçadas no compromisso, na confiança e na intimidade, que extrapolem o aconchego de nossos consultórios e saiam pelo mundo, alçando vôos maiores.

Mas não sem antes perguntar sobre este lugar.

Perguntar a pergunta que permite abrir caminhos e não esconder-se atrás de certezas impensadas, apesar de articuladas. Perguntar para poder atravessar a escuridão da dúvida radical, que se permite não antecipar respostas e talvez, quem sabe, encontrar algum sinal de luz no final. Perguntar para encontrar a liberdade do pensamento autêntico, que nos leve ao lugar de onde realmente possamos falar sem medos ou acovardamentos disfarçados de autoridade.

Se somos filhos desta história e deste momento, como transformar nossa herança cultural e patrimônio genético em possibilidades?

Terão nossa criatividade e empenho força suficiente para quebrar padrões, romper tradições e desencaixar valores num mundo já atravessado pelo desencaixe? Ou nos contentaremos com a pequena diferença, que marca uma pessoa, num dado contexto pequeno e particular?

Também é possível dizer sim. É isto que pretendemos, sabemos ou podemos! Mas que seja com verdade e convicção! Somos, psicólogos, os senhores do privado, do doméstico, do singular! Para falarmos do sistema, do geral, do público, precisaremos pensar...

A Gestalt-terapia nos desafia e consola, pois nos oferece uma base que é pura abertura. Fenomenológico e existencialmente, estamos condenados ao atrelamento com o nosso tempo, sem trégua, sem chance de fuga para fora ou para dentro, pois que não existimos, nem lá, nem cá. Esta é nossa condição e destino: já estarmos desde sempre no-mundo, numa relação indissolúvel.

Somente aí poderemos ser. Somente daí poderemos partir para qualquer viagem, por mais curta que seja. Mesmo na intimidade do encontro com o outro, já estamos pré-constituídos e constituintes da relação originária de ser-no-mundo (HEIDEGGER, 1991, p.32). O que buscamos é o sentido.

Mas este não se mostra fácil, como resultado de um cálculo ou como mercadoria que se expõe, pronta para consumo.

É da sua natureza manter-se velado para que possa ser descoberto no caminho de quem o procura. Ele não se oferece gratuitamente, apesar de se fazer anunciar. Exige dedicação e esforço de conquista.

Para Leão (1977, p.54) “o sentido não se concede sem ascese. Exige paciência e serenidade de exercício. Temos de aprender a esperar o inesperado: que medre a semeadura da paciência e amadureça a serenidade do crescimento”.

Espaços de busca de sentido tornam-se cada vez mais raros em nossa época. Não há tempo, nem tolerância, nem fé, nem silêncio. Não se pode desperdiçar tempo até que algo se manifeste ou apareça. É urgente conduzir e controlar.

Perguntamo-nos então pela sobrevivência destes espaços terapêuticos, onde não se pretende controle, nem exatidão. Sobre o que vivem, se não acenam com promessas de resultados instantâneos e garantias de segurança? Muito pelo contrário, propõem risco e aproximação do mistério, através de confiança e intimidade.

Juliano (1999, p.115), ao falar dos amores e dores deste delicado ofício, revela que

um dos privilégios é ter a licença, a possibilidade de se estar em um nível muito alto de intimidade com uma outra pessoa. Permanecer junto dela até que encontre seu trilho. E ver que existe um caminho, singular para cada um.

É um deixar-se levar de mãos dadas com o outro e apoiado na crença de que algo irá se revelar. Algo que faça aparecer o sentido e diminua o sofrimento, este que arde pela falta mesma de sentido.

Pressupõe entrega e convida ao aventurar-se, sem data prévia de chegada. É preciso por-se a caminho e experienciar.

A Gestalt-terapia vive da experiência e faz dela seu principal método, meio, caminho. Confia na veracidade da vivência que não é mediada e que inventa a si própria a cada passo, criando, conhecendo, existindo e sendo. Leão (1977, p.54) nos diz que “é no conhecido que nos chega o desconhecido. É no ordinário que estancia o extraordinário. E nesta instância moramos todos nós”.

Somente no fluxo da experiência, há de brotar o sentido da existência. Existência que se cria, recria, vela-se e desvela-se na compreensão e na dimensão do cuidado. Compreensão que se dá na medida do vivido e dispensa explicações. Cuidado que acompanha o caminhar e aguarda a descoberta do ser.

O gestalt-terapeuta fundamenta-se na afirmação da vida e propõe o espírito de uma vida que experimenta, valorizando a existência em sua multiplicidade (FONSECA, 2005, p.12). Fenomenólogo, existencialista, afirmador e crédulo das potencialidades acredita no fruto que advém do cultivo cuidadoso e da intimidade compreensiva. Presta-se ao envolvimento comprometido com a espontaneidade de encontros originais. Arrisca-se, expondo-se à inspiração do outro e às possibilidades de redescobrir-se e recriar-se “como outro de si mesmo, afetado pela outridade do cliente” (FONSECA, 2005, p.20). Aceita a vulnerabilidade que revela a humanidade em sua essência. Dá, assim, o maior testemunho de sua fé.

No espaço aberto e escancarado pela modernidade e seus ultrapassamentos, num tempo sem tempo e na falta de lugar, a Gestalt-terapia se oferece ao desafio de aproveitar e criar encontros, onde abertura e intimidade dialoguem e tornem possível a delicada e instigante tarefa de viver e ser humano.

“Esquenta-me com a tua adivinhação de mim, compreende-me porque eu não estou me compreendendo”.

“[...] não procures entender-me, faze-me apenas companhia”.
(LISPECTOR, 1991)

 

Referências Bibliográficas

BAUMAN, Z. Vida Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.

DUFOUR, D. R. A Arte de Reduzir as Cabeças. Rio de Janeiro: Companhia de Freud Editora, 2005.

FONSECA, A.H.L. Ensaios em Gestalt Terapia. Maceió: Pedang, 2005.

GIDDENS, A. Modernidade e Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

HEIDEGGER, M. Carta sobre o Humanismo. São Paulo: Editora Moraes, 1991.

JULIANO, J.C. A Arte de Restaurar Histórias. São Paulo: Summus Editorial, 1999.

LEÃO, E.C. Aprendendo a Pensar. Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 1977.

LISPECTOR, C. A Paixão Segundo GH. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991.

SOMÉ, S. O Espírito da Intimidade. São Paulo: Odysseus, 2003.

PESSOA, F. Poesias de Álvaro de Campos. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

XAVIER,L. Save As. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2002.

 

 

Endereo para correspondncia
Luciana Bicalho Cavanellas
Fundação Oswaldo Cruz, Prédio Quinino, sala 212, Av. Brasil, 4365, CEP 22250-040, Manguinhos, Rio de Janeiro-RJ, Brasil
Endereço eletrônico: lcavanellas@fiocruz.br

Recebido em: 24/04/2008
Aceito para publicação em: 02/04/2009
Acompanhamento do processo editorial: Eleonôra Torres Prestrelo

 

 

Notas

* Analista de Gestão em Saúde da FIOCRUZ. Mestre em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ – RJ, Brasil



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