EDITORIAL

 

 

Eleonôra Torres Prestrelo I; Adriana Benevides Soares II; Ana Maria Lopes Calvo Feijoo III; Anna Paula Uziel IV; Ariane Patrícia Ewald V; Deise Mancebo VI

I Professor Assistente do Instituto de Psicologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro/UERJ - Rio de Janeiro, RJ, Brasil
II, III, IV, V Professor Adjunto do Instituto de Psicologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro/UERJ - Rio de Janeiro, RJ, Brasil
VI Professor Titular do Instituto de Psicologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro/UERJ - Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Endereo para correspondncia

 

 

O volume 9 da revista Estudos e Pesquisas em Psicologia inicia-se com um Dossiê sobre a Abordagem Gestáltica, uma perspectiva que constitui um referencial importante na construção de uma nova forma de compreensão do vivido, aproximando-se de uma visão de Homem e de mundo contextualizada à contemporaneidade. A denominação deste dossiê fala de uma perspectiva de entendimento do mundo que vai além da delimitação clínica, à qual o termo está constantemente ligado, a Gestalt-terapia, contendo, também, artigos que tratam da utilização dessa concepção teórica como base para a observação e o estudo de outras áreas de saber.

Vale ressaltar, neste momento, o significado histórico e simbólico da publicação desse dossiê no Instituto de Psicologia da UERJ, primeira universidade do Rio de Janeiro e do Brasil a adotar a Gestalt-terapia como disciplina obrigatória em sua grade curricular, sedimentando, assim, uma perspectiva revolucionária e inovadora na estruturação de seu curso de Psicologia, traduzida na valorização da multiplicidade de olhares como fio condutor da qualificação dos profissionais que busca formar.

Pois, como bem nos lembra Moraes (1997, p.20),

Se queremos formar indivíduos intelectual e humanamente competentes e bem formados, capazes de aceitar desafios, construir e reconstruir teorias, discutir hipóteses, confrontá-las com o real [...] o modelo convencional de ensino adotado pela maioria das escolas , nos mais diversos  países, não estimula o pensamento divergente, a criatividade, a criticidade, não gera ambientes para  descobertas científicas, para desenvolvimento de um trabalho cooperativo[..]

A ciência está exigindo uma nova visão de mundo, diferente e não fragmentada. A atual abordagem que analisa o mundo em partes independentes já não funciona. Por outro lado, acreditamos na necessidade de construção e reconstrução do homem e do mundo, tendo como um dos eixos fundamentais a educação [...].

Com o intuito de podermos contribuir para a construção de uma visão de mundo mais ampla é que trazemos, inicialmente, alguns artigos de gestalt terapeutas que voltam seu olhar para a estruturação das bases conceituais da abordagem: o francês Jean-Marie Robine, eminente estudioso da Gestalt-terapia, que nos brinda com seu artigo intitulado Le champ organisme/environnement: Em arrière-plan du conept, ressaltando a importância de entendermos a concepção organismo/meio, construto teórico central da Gestalt-terapia, resgatando os conceitos de Campo em K. Lewin e Organismo em K. Goldstein, e ressaltando a necessidade de uma compreensão clara destas idéias para a prática clínica, sobretudo para o reconhecimento das Fronteiras de Contato no processo psicoterápico; a seguir, temos dois gestalt terapeutas desenvolvendo tópicos relacionados à metodologia da abordagem, pontuando a “ação’, em sua perspectiva fenomenológica: Afonso H. Lisboa da Fonseca, profissional reconhecido na área por sua vasta produção teórica, que trata, em seu artigo Gest’alTerapia: metodológica da atualização - Performática improvisativa da performação figura e fundo, performática da forma, performática da ação, do contato, performática da atualização, da importância fundamental para a metodologia desta abordagem, da “ação contactante”, como vivência fenomenológico existencial de possibilidades e seus desdobramentos, caráter essencial para que o trabalho terapêutico aconteça e Mônica Botelho Alvim, com o texto O lugar da experiment-ação no trabalho clínico em Gestalt-terapia, enfatizando a importância da experiência no trabalho gestáltico como função do campo relacional presente na relação psicoterápica, “meio para que a ação espontânea e criativa se desvele, produzindo significados e transgredindo o instituído (sic.)” . Em seguida, podemos contar com a reflexão no artigo de Loeci  Maria Pagano  Galli, sobre a peculiaridade da noção de saúde e doença inerente a essa abordagem, Um olhar fenomenológico sobre a questão da saúde e da doença: a cura do ponto de vista da Gestalt-Terapia, e a necessidade de nos despojarmos de qualquer concepção, a priori, sobre o sintoma, pois qualquer compreensão do mesmo passa, necessariamente, pelo reconhecimento do contexto no qual se insere, visto que “O sintoma enquanto estilo de ser é um modo do ser-aí [...]” (sic). Continuando a discutir as noções de saúde, doença, psicopatologia e sua especificidade para essa abordagem, o gestalt-terapeuta Ênio Brito Pinto, no artigo A experiência emocional atualizadora em Gestalt-terapia de curta duração traz-nos o tema sobre o qual tem se dedicado nos últimos anos - a gestalt-terapia de curta duração - aqui, mais especificamente, discutindo o conceito de “experiência emocional atualizadora”, numa reelaboração do conceito de Alexander (1965), de experiência emocional corretiva, transpondo-o para o referencial gestáltico. Também trata do tema saúde/doença/cura e cuidado, o trabalho de Karina O. Fukumitsu, Flaviana Cavalcante e Marcelo Borges intitulado O cuidado na saúde e na doença: uma perspectiva gestáltica, no qual os autores abordam as peculiaridades de tornar-se cuidador, os limites de suas responsabilidades e implicações na relação de cuidado, ressaltando a necessidade do encontro genuíno neste tipo de relação como um facilitador da emergência de novos significados e, eventualmente até, um caminho para a “cura”. Temos, a seguir, o artigo de Patrícia Albuquerque Lima, Criatividade na Gestalt-terapia, que nos apresenta um tema fundamental para a abordagem, discorrendo sobre a contribuição de Kurt Goldstein, buscando elucidar sua especificidade para a prática psicoterápica e diferenciando-a do entendimento do senso comum. A seguir, contamos com a colaboração do artigo de Adriano Furtado Holanda, Gestalt-Terapia e Abordagem Gestáltica no Brasil: análise de mestrados e doutorados (1982 – 2008), no qual o autor faz um levantamento minucioso e a analise qualitativa das produções da área, apontando algumas das principais dificuldades encontradas para publicação no meio acadêmico e indicando caminhos para produções futuras.

Temos também a oportunidade de publicar alguns artigos que destacam a possibilidade de desdobramentos da prática, a partir da referência conceitual da abordagem gestáltica, como o de Cláudia Lins Cardoso, Grupos terapêuticos na abordagem gestáltica: uma proposta de atuação clínica em comunidades, onde a autora, a partir de um projeto de extensão onde pode lidar com a inserção do psicólogo no “Programa de Saúde da Família”, no trabalho com pacientes diabéticos e hipertensos, constatando a importância da modalidade de grupos terapêuticos na assistência a populações menos favorecidas. O de Alexandra C. Tsallis, Palhaços: uma possível reflexão para a Gestalt-terapia, que, a partir de sua experiência numa “oficina’ de teatro de palhaços, utiliza as proposições teóricas da Teoria Ator-Rede de Bruno Latour acerca da recalcitrância, discutindo como o contato com as dimensões frágeis, ridículas e transgressoras de cada um podem contribuir para o enriquecimento das intervenções psicoterápicas, revisitando, assim, a importância  da criação para o trabalho terapêutico nessa abordagem.  Já Luciana L. M. Soares, em A Gestalt-terapia na Universidade:da f(ô)rma à boa forma, discorre acerca da especificidade do  trabalho de supervisão em Gestalt-Terapia nos Serviços de Psicologia Aplicada das universidades, suas possibilidades criativas, de respeito às singularidades, etc., como pontos diferenciadores de outras orientações teóricas mais sistematizadas, considerando a relevância do processo dialógico na experiência ensino/aprendizagem nos cursos de Psicologia.

Dando seguimento, temos o artigo de Luciana B. Cavanellas que trata de um tema bastante atual, Intimidade – O Incomum Lugar Comum num Universo de Alheios, no qual a autora reflete sobre as condições do viver contemporâneo, onde a velocidade e o distanciamento tem lugar preponderante e a psicoterapia acaba ocupando um lugar onde as relações de intimidade podem acontecer, pois “A relação terapêutica pode ser vista como um lugar incomum para se encontrar com o outro e consigo mesmo, num mundo ditado pelas forças da alienação e do desencontro” (sic).

Os artigos seguintes não fazem parte do Dossiê, especificamente, mas lançam um olhar reflexivo sobre questões contemporâneas que só enriquecerão o leitor na construção de seu conhecimento: o artigo intitulado Identidade, consumo e sociabilidade: implicações éticas, de Rafael Ramos Gonçalves, que atenta, como o próprio título revela, para as implicações da lógica do consumo nas relações sociais, favorecendo, como consequência, condutas narcísicas e priorizando o espaço privado em detrimento do público. O artigo de Márcia F. Amêndola, Analisando e (des)construindo conceitos:pensando as falsas denúncias de abuso sexual, que chama nossa atenção para repensarmos os preceitos que orientam a avaliação psicológica no caso de denúncias de abuso sexual contra crianças e a necessidade de sua contextualização, a fim de prevenir falsas acusações realizadas pelos genitores guardiões no contexto da separação conjugal litigiosa. No artigo As representações sociais de estudantes universitários a respeito das cotas para negros e pardos nas universidades públicas brasileiras, os autores Denis G. M. Naiff, Luciene A.  M. Naiff e Marcos A. de Souza discutem a questão das cotas raciais, para negros e pardos, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), através das representações sociais que os alunos desta instituição possuem sobre essa determinação e o de Jacqueline de O. Moreira, Revisitando o conceito de eu em Freud: da identidade à alteridade, onde a autora pretende fazer uma revisão crítica de textos freudianos que lidam com a questão da presença do outro na constituição do eu, ressaltando que “O eu deverá ser concebido como resultado de uma complexa sobredeterminação que envolve não apenas o inconsciente e o Id, mas também o espaço intersubjetivo. (sic)”

Fechando esse número temos a resenha do livro Gestalt Terapia, um caminho de volta para casa, do gestalt-terapeuta uruguaio Alejandro Spangenberg, realizada por Laura C. de T. Quadros e Lívia M. Bione, onde as autoras ressaltam a nova maneira do autor tratar velhos temas da abordagem, ampliando-os na ratificação da importância de trabalharmos com o que ele denomina de “paradigma holístico-gestáltico”, em detrimento de uma visão de ciência ainda moldada numa perspectiva do modelo mecanicista cartesiano e a Comunicação de Pesquisa intitulada Lembranças do pais da cocanha entre os descendentes de imigrantes italianos no início do séc. XX: O Brasil imaginado, de Silvana Bagno e Ariane P. Ewald, que estudam, numa pesquisa fenomenológica, o imaginário dos imigrantes italianos que vieram para o Brasil, através das memórias de seus descendentes. A pesquisa utiliza-se de obras literárias, principalmente centrada em Nanetto Pipetta, jovem imigrante clandestino, que tem suas aventuras publicadas em capítulos no jornal gaúcho Stafetta Riograndense nos anos de 1924-1925 (sic).

Esperamos que o leitor se sinta instigado pelas questões levantadas nesse número da revista e que estas contribuam para ampliar sua visão de mundo, gerando novas possibilidades de reflexão.

 

 

Referências Bibliográficas

MORAES, M. C. O paradigma educacional emergente. Campinas, São Paulo: Papirus, 1997.

 

 

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