ARTIGOS

 

Micropoltica do processo de acolhimento em sade

 

Micropolitics of the attention process in health

 

 

Claudia Abbes Baeta Neves I; Ana Lcia Coelho Heckert II

I Professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense - UFF, Niteri, RJ, Brasil
II Professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Esprito Santo - UFES, Vitria, ES, Brasil

Endereo para correspondencia

 

 


RESUMO

Este artigo visa discutir o acolhimento em sade como prtica que se efetua no encontro, entre molaridades e molecularidades, e diretriz constituinte das prticas de cuidado em sade que nao se produz dissociada das interferencias no processo de trabalho. Discute a compreensao de micropoltica com a qual temos trabalhado nas intervenoes realizadas nos campos da sade e da educaao, e problematiza o modo como o acolhimento vem se efetuando nas prticas em sade. Ao final, aponta as nooes de encontro, tica e gestao como aportes fundamentais para a anlise micropoltica dos modos de fazer o acolhimento em sade.

Palavras-chave: Acolhimento, Encontro, Gestao.


ABSTRACT

This article aims at discussing the attention process in health as a practice which is enacted in the encounter between molarities and molecularities and  as the constitutive directive of the healthcare practices, which can not be produced dissociated from the interferences in the work process. It discusses the understanding of micro-politics, which we have been working with, in the fields of health and education and also argues about the way attention is enacted in health practices. It ends by pointing out that the notions of encounter, of ethic and management are fundamental contributions for the micro-political analysis of the ways the attention process in health can be performed.

Keywords: Attention, Encounter, Management.


 

 

H um liame profundo entre os signos, o acontecimento, a vida, o vitalismo. a potencia de uma vida nao-orgnica, a que pode existir numa linha de desenho, de escrita ou de msica. Sao os organismos que morrem, nao a vida. Nao h obra que nao indique uma sada para a vida, que nao trace um caminho entre as pedras.
(DELEUZE, 1992, p. 179)

O debate acerca da temtica do acolhimento no campo da sade coletiva tem se realizado a partir de diferentes perspectivas e se afirma em uma trajetria heterogenea e considervel de experiencias prticas nos servios de sade (Belo Horizonte, Campinas, Sergipe, dentre outros). Ao mesmo tempo, possvel perceber estes diversos sentidos expressando-se nas diretrizes das polticas governamentais de sade. Sinalizar esta trajetria, no que se refere ao acolhimento, implica considerar que grande parte do que sabemos hoje fruto deste acmulo prtico, o que nos convoca a problematizar, nestas e com estas experiencias, os sentidos e efeitos que queremos produzir nas prticas de cuidado e gestao em sade.

Tradicionalmente o acolhimento em sade tem se configurado como atitude voluntarista, de bondade e favor por parte de alguns profissionais, sendo identificado ora a uma dimensao espacial, ora a uma aao de triagem administrativa e repasse de encaminhamentos para servios especializados.

Nos ltimos anos, diversas polticas governamentais1 tem pautado o acolhimento no debate acerca do acesso da populaao aos servios de sade por entende-lo como aao importante para a resoluao dos problemas de acesso e na reduao das filas de espera nesses servios.

Entretanto, temos percebido que se por um lado esta focalizaao nos processos de acolhimento tem possibilitado pautar o grave problema da democratizaao do acesso aos cuidados em sade, por outro lado tem produzido aoes e direcionamentos nas prticas de cuidado e gestao que restringem e reduzem tanto o acolhimento quanto o acesso. Este carter redutor tem funcionado como anteparo para a conservaao e para a nao problematizaao dos processos de trabalho e suas racionalidades institudas.

Em muitos casos podemos at mesmo notar a produao de uma similitude de sentidos entre o acolhimento e o acesso. Esta produao tem favorecido, em grande parte, os usos polticos do acolhimento como "bandeira de democratizaao e qualificaao da sade" cujas aoes se restringem, nos perodos eleitorais, a efeitos de espetacularizaao que se expressam em obras de "maquiagem" do espao fsico das fachadas e portas de entrada das unidades sem alteraoes efetivas das condioes e no processo de trabalho.

Em nossas intervenoes no campo da formaao em sade, e como psiclogas junto aos profissionais da sade e educaao nos servios, temos experimentado a radicalidade do desafio que envolve a construao do acolhimento nos processos de produao de cuidado em sade. Esta construao implica uma atenao crtica aos seus possveis usos polticos e, ao mesmo tempo, fora a ampliaao e abertura do exerccio clnico ao plano coletivo e relacional. Um plano que j nao mais pertence a um espao determinado, a uma aao intersubjetiva, ou mesmo a uma prtica especfica, mas se d 'por entre' as formas (sujeito, objeto) e territorialidades (espaciais, locais, existenciais) constitudas.

O acolhimento em sade nos convoca a uma experimentaao que se d primordialmente nesta zona de indiscernibilidade, isto , no 'entre' os contornos da subjetividade que se fazem nas formas e em seus desvios. A apreensao dos processos de produao de subjetividade a apreensao de uma transformaao, de um movimento que nao est em um, nem em outro ponto, mas no que efetivamente co-emerge na relaao construda nos encontros.

Dizemos, entao, que o desafio e a radicalidade do acolhimento est em percebemos a necessidade de acessarmos esta dimensao coletiva da vida e de nossa existencia em nossas prticas no campo da sade. Do nosso ponto de vista, a construao de prticas de acolhimento que possam fazer da existencia uma arte de viver sustenta-se no cultivo de uma prtica tica em que o cuidado consigo, com o outro e com o mundo, se faz quando cuidamos da dimensao coletiva e relacional de nossa existencia. em meio a esta experimentaao que nos vemos convocadas a uma problematizaao do 'como' e 'do que' temos acolhido em nossas prticas de cuidado.

 

Acolhimento nas prticas de sade: o estado de coisas

No cotidiano das prticas em sade o carter redutor pode ser observado na restriao do acolhimento a aoes de triagem na porta de entrada, ou mesmo a tcnicas de recepao do usurio e suas demandas, sem interferir na gestao dos processos de trabalho. O que ganha relevo nesta restriao do acesso como entrada ou atendimento em algum servio de sade uma lgica de produao de sade como bem de consumo cujo motor o silenciamento e a contenao da populaao via a medicalizaao da vida. Medicalizaao, esta, produtora da necessidade de mediaao e de aoes vidas de modular em mdias-padrao os movimentos singulares constituintes da vida. Estas produoes ganham reforo no cultivo de modos de existencia 'acolhedores' das novas doenas cotidianamente ofertadas pelos aparatos miditicos e seus financiadores (indstria farmaceutica, alimentcia e cosmtica).

No caso do acolhimento, esta reduao se evidencia em duas lgicas nao excludentes entre si: uma lgica organizativo-espacial restrita a prticas de recepao "gentil, educada e informativa" como aoes de triagem nas 'portas de entrada' das unidades, estejam elas direcionadas a tudo 'acolher' (abrir as portas a demanda 'espontnea'), ou mesmo quando se direcionam a quase tudo "despachar" (lgica do repasse que se torna mais um 'dique' de contenao). Uma segunda lgica, que denominamos intersubjetiva-relacional, diz respeito a compreensao do acolhimento como relaao com o outro, construao de vnculos interpessoais a partir de uma escuta solidria e atenta aos sofrimentos. Esta lgica relacional pautada por prticas de "boa-vontade" e no entendimento de que acolher ao usurio e sua rede social, e aos trabalhadores entre si, "colocar-se no lugar do outro e agir como gostaramos de ser tratados".

Quando as prticas de acolhimento tem como eixo a gestao do outro e do processo de trabalho no modelo top-down2 suas aoes acabam por enredar-se em uma acepao moral - que considera o acolhimento como implantaao de normas e regras aliado a um vis humanista na relaao com o outro - e uma acepao de gestao como tcnica gerencial organizadora do processo de trabalho a partir de prescrioes hetero-determinadas.

Os processos de acolhimento assim operacionalizados tem produzido, na maior parte das vezes, efeitos deletrios e de desgaste nas relaoes entre usurios e trabalhadores no cotidiano das prticas de produao de sade. Isto pode ser percebido seja quando o acolhimento vivenciado pelo usurio como mais um dique a transpor para 'resolver' suas necessidades de sade, ou mesmo usufruir do consumo de sua dose procedimental, seja quando visto como castigo pelos trabalhadores que sao designados para a triagem, validaao e/ou contenao destas necessidades. Este processo nos leva a indagar: O que se quer acolher nos processos de produao de sade?

O que chama atenao nestes "modos de fazer" , paradoxalmente, uma naturalizaao do acolhimento destas necessidades e a sua descartabilidade, impressas nas lgicas de repasse, desqualificaao e contenao. O que queremos conter e repassar? O que em ns quer (des)qualificar e nao deixar passar?

Com referencia ao acesso, a restriao se evidencia numa lgica de cuidado curativa e procedimental, pouco problematizadora das polticas de sade vigentes e daquilo que priorizam e ativam em meio as racionalidades de seus programas e processos de trabalho. Perguntamos, entao: a que queremos dar acesso em sade?

neste campo problemtico que a discussao do acesso a sade se amplia e nos possibilita indagar sobre a continuidade do cuidado e, primordialmente, ao que nos modos de cuidar nos interessa ter acesso e garantia de continuidade. Como garantir acesso ao que, em meio as condioes e processos de trabalho institudos, resiste e insiste como potencia de invenao? Nesta mesma direao como dar acesso em ns, trabalhadores e/ou usurios, a construao de uma participaao efetiva no SUS (Sistema nico de Sade) de modo nao assistencialista, nao tutelador e adesista do que tambm nele maltrata e impede o acesso as potencias da vida? Como ativar nas prticas de produao de sade o acesso de usurios/rede social na produao de uma sade como conquista e exerccio afirmativo de autonomia nos modos de fazer fluir a vida?

No campo da produao academica o acolhimento em sade tem sido debatido de acordo com diversas perspectivas. Nas anlises efetuadas ora o acolhimento abordado em uma perspectiva espacial e intersubjetiva, acrescida de um vis moral - humanista e caridoso -, afeito aos profissionais que tem "jeito com gente"; ora como diretriz constitutiva das prticas em sade, assumindo o carter de tecnologia relacional e ferramenta fundamental para anlise dos processos de gestao do cuidado, produao de sade e redes, a partir das nooes de autonomia, protagonismo e produao de subjetividade. E ainda, em debates mais atuais, o acolhimento entendido como diretriz das prticas em sade articulado a organizaao das filas nas emergencias ou em servios de especialidades e atenao primria em sade, a partir de modelos de protocolo para avaliaao e classificaao de risco.

Do nosso ponto de vista, o acolhimento nas prticas de sade tem se efetivado no entrecruzamento desses diversos usos, sentidos e modos de fazer os processos de acolhimento. Esta breve descriao dos modos de abordagem, seus sentidos e modos de expressao no estado de coisas nao tem o intuito de imprimir uma valoraao qualitativa e definidora "em si" da melhor ou mais adequada prtica, ou mesmo de fornecer a "boa nova" sobre o tema do acolhimento. Diferente disto, o que nos interessa nesta discussao pensar menos "o que fazem" e mais seus "modos de fazer", as interferencias que estas diferentes lgicas de abordagem do processo de acolhimento poem a funcionar e produzem do ponto de vista dos processos de ativaao da vida em sua potencia de singularizaao. Deste modo fundamental nos indagarmos: Que tipo de vida temos acolhido na sade? Ao que temos dado passagem nos encontros?

Nos diversos processos de intervenao em sade que construmos junto a diferentes unidades e regioes do pas temos experimentado interpelaoes importantes que nos sinalizam a heterogeneidade destes processos e o efeito desvitalizador e pouco eficaz de anlises apriorsticas, moralizadoras e prescritivas dos processos em curso. Atentar para estas heterogeneidades implica o conhecimento encarnado dos modos de construao do acolhimento em cada realidade e fazer cotidiano, mas, primordialmente, a experimentaao de seus ndices de abertura as interpelaoes das foras de afirmaao da vida. Foras impessoais, constituintes da vida, que atravessam os modos de vida dominantes em ns, afirmando sua potencia radical de perturbar nos encontros o institudo e de seguir persistindo no desafio de reinvenao das polticas do presente. Conforme Neves (2004, p. 11) entendemos que:

A vida, pensada como potencia de combate, compoe-se em meio a processos plurais de racionalizaao. nesta perspectiva que Foucault vai afirmar a liberdade como um exerccio, como prticas de liberdade que acontecem naquilo que fazemos para nos transformarmos. Este exerccio opera uma crtica no limite de ns-mesmos e se afirma como processo permanente de problematizaao e de ultrapassamento dos limites histricos que nos constituem em seu estado de coisas e de enunciados.

Assim, o que move as anlises aqui propostas concerne a efetuar uma analtica dos novos perigos e de outros possveis3 em meio aos quais se vem tecendo as prticas de acolhimento. Pois, nos modos de gestao desta agonstica (e nao no antagonismo), entre foras e formas, que se produzem modos de fazer acolhimento. no entrecruzamento destes planos distintos, mas indissociados, que imprescindvel analisar os processos de acolhimento: em meio a suas capturas em "formas acolhedoras" morais que entristecem e tornam a vida dependente de mediaoes e, por entre esses processos, em seus desvios na potencializaao de aberturas as potencias de fruiao de modos ticos de afirmar e fazer vazar a multiplicidade da vida.

Consideramos necessrio explicitar de qual acepao de tica estamos falando, posto que muitas vezes esta tem sido compreendida no campo das ciencias da sade e das ciencias humanas como processo que diz respeito ao mbito subjetivo e circunscrito a ordem relacional, isto aos encontros entre sujeitos (profissionais e usurios por exemplo). Neste modo de compreensao, o sujeito visto numa acepao substancialista, entidade j dada e ponto de partida. Outro aspecto que banaliza a discussao da tica entende-la como contedo a ser transmitido, ou lei a regular e delinear uma aao mais correta e justa por parte dos profissionais de sade, estabelecendo-se a uma sinonmia entre tica e moral. Assim, a tica torna-se circunscrita a um conjunto de prescrioes que deve subsidiar a conduta humana, especialmente em situaoes de conflitos de valores e de deveres (HECKERT, 2008).

Em outra direao, Machado (1999) e Fuganti (2005), a partir das contribuioes de Foucault e Espinosa, acenam para uma compreensao que estabelece uma distinao entre tica e moral. Sinalizam os autores que se a moral opera com regras absolutas, instituindo a obediencia em nome de valores transcendentes - o bem e o mal em si mesmo -, a tica aponta para o uso de regras facultativas cujo exerccio se faz com valores imanentes - o bom e o mau -, instigando-nos a confrontar os modos de existencia institudos, ultrapassando os constrangimentos que amesquinham a vida.

Enquanto a moral liga a vida ao dever ser, fazendo-nos agir 'em nome de algo', a tica conecta a vida a sua potencia, ao que ela pode (FUGANTI, 2005). Afirma-se, entao, a partir da contribuiao dos autores, a tica como um exerccio sobre si mesmo, um exerccio de liberdade, em que o primado sao as relaoes de foras que constituem os sujeitos. No lugar de obedecer cegamente aos valores que delineiam nossa existencia, prescrevendo modos de vida de acordo com os valores morais vigentes, o exerccio tico convoca a uma problematizaao permanente destes valores morais de forma a abrir espao para a interferencia dos desvios provocados pelas variaoes da vida.

Como pensar o acolhimento neste processo que se efetua entre tica e moral, uma vez que estas se distinguem, mas se complementam, se recortam? Acolher curvar-se, de forma piedosa, aos movimentos que reificam os valores considerados em conformidade as regras e modos de existencia institudos? Acolher nao implicaria abrir passagem nos encontros para o que est em vias de diferir?

No campo da sade ainda sao hegemnicas as anlises que separam e/ou opoem macro e micro poltica, tica e moral, e que privilegiam a macropoltica como determinante no processo de produao das polticas de sade. Tradicionalmente, a macro-poltica entendida como campo privilegiado de anlise no qual se operam as transformaoes estruturais de ordem poltica, econmica e social. Nesta direao, a micro-poltica compreendida como campo que diz respeito as questoes do cotidiano, ou referidas ao domnio individual/subjetivo e/ou interindividual/intersubjetivo.

 

A micropoltica como ferramenta de anlise de processos

Utilizar a noao de micropoltica para analisar os processos de acolhimento no campo da sade nos parece fundamental, uma vez que aqui privilegiamos a anlise dos processos em seu fazer-se, e nao apenas nos resultados e/ou nas formas que o expressam e o efetivam no estado de coisas. O que propomos vislumbrar sao multiplicidades de interferencias como signos de movimento, pois, como sinalizam Deleuze e Parnet (1998, p. 146), "[...] todas as nossas verdadeiras mudanas passam em outra parte, uma outra poltica, outro tempo, outra individuaao".

Macro e micro-poltica, molar e molecular, respectivamente, sao dois modos de recortar a realidade e, apesar de terem seus modos prprios de funcionamento, nao se opoem e nao dizem respeito a uma ordem de grandeza, em que macro significaria processos de grande porte e micro de pequeno porte. Tais planos correspondem ao que Rolnik (1989, p. 59) chama "[...] de duas formas de individuaao, duas espcies de multiplicidades, [...] duas polticas".

A anlise micro-poltica, proposta por Deleuze e Guattari (1996), nao aborda esses campos como dimensoes separadas, opostas, ou mesmo sobrepostas, mas sim como planos que coexistem e se atravessam; ou seja, "[...] toda poltica , ao mesmo tempo macro e micropoltica." (DELEUZE; GUATTARI, 1996, p. 90). Trata-se aqui de uma torao nos modos como tais nooes vem sendo abordadas e, consequentemente, nos modos de operar a anlise das prticas em sade.

Tal anlise nos convoca a abertura a outro plano - o molecular - no qual s h intensidades, devires, potencias, multiplicidades em seu diferir-se. nesta direao que dizemos que a micropoltica nao um mtodo de teorizaao ou abstracionismo filosfico, a partir do qual aplicamos conceitos sobre a realidade ou processos. Diferente disto ela uma experimentaao que se faz mtodo naquilo que em ns fora a pensar, naquilo que nos convoca de deslocamentos e mutaao subjetiva. Ao nos fazer atentos para as multiplicidades dos problemas em pauta, a anlise micropoltica nos traz o desassossego necessrio para certa desaceleraao dos imediatismos de resposta, dos decretos fatalsticos e da busca de universais. Pois a realidade, em seu estado de coisas, corpos-forma e expressao, afirmada em sua potencia de abertura de sentidos, em seu fazer-se como ndice de variaao intensiva e criaao.

Entendendo que esses planos nao se opoem, nao h uma hierarquia entre eles e nem um dualismo, trata-se, entao, de apreender seus diferentes modos de funcionamento, suas composioes, seus deslocamentos, seus perigos e os efeitos que produzem.

Dizer que molar e molecular se entrecruzam, se recortam, significa dizer que o plano molecular tanto pode se agenciar as segmentarizaoes molares, quanto pode dissolve-las. Por exemplo, as polticas de sade engendram-se tanto no plano macro-poltico quanto no micro-poltico. Dizem Deleuze e Guattari (1996, p. 92), "[...] quanto mais a organizaao molar forte, mais ela suscita uma molecularizaao de seus elementos, suas relaoes e seus aparelhos elementares". Desse modo, nao h um desses planos que esteja a favor da autonomia e criaao e outro que as confisque. Os processos sao constrangidos ou expandidos no processo de composiao desses planos, nao h como prever a priori seus resultados, e deste modo que o acompanhamento de seus agenciamentos4 fundamental.

A vida nao se reduz as formas e modos de atualizaao em sujeitos (o que acolhe ou o que demanda), em oposioes (corpo saudvel x corpo doente), ou segmentaoes (trabalhador de sade, usurio, gestor), uma vez que a vida, como potencia de invenao, excede as formas molares nas quais se representa, desfazendo-as e perturbando-as. este movimento da vida intensiva, em suas rupturas inesperadas e nas imprevisveis conexoes que fazem vibrar que a micropoltica nos possibilita acompanhar as invenoes por entre os verbos da vida.

 

A gestao nos processos de acolhimento

Com Schwartz (2007), Athayde e Ruffeil (2008) e Barros (2007) aprendemos que a situaao de trabalho sempre um 'encontro de encontros', encontro tecido na gestao de variabilidades e imprevisibilidades. A abordagem ergolgica tem insistido que a anlise da atividade mais rica que a anlise do trabalho, por possibilitar colocar em cena os usos de si que se efetuam no processo de trabalho. Compreendendo o trabalho como atividade de gestao de variabilidades e imprevisibilidades, os autores que vem efetuando debates neste campo nos mostram que neste processo de gestao os debates de normas e de valores sempre se fazem presentes. Se as normas antecedentes sao inacabadas e parciais, sempre ser necessrio trabalhar de outro modo (SCHWARTZ, 2003).

H a uma inflexao fundamental que retira o trabalho do campo da repetiao incessante e rotineira de prescrioes externas ao processo em que se efetua, bem como de sua submissao a um estado de coisas institudo, ou de sua expressao plena em um produto. O trabalho nao se reduz ao feito, ao produto/execuao/resultado final da aao humana, e se queremos compreender o que se passa na atividade de trabalho necessrio ir um pouco mais alm e incluir, como afirma Yves Clot (2007, p.116), o como foi feito, o que se deixa de fazer, o que se pretende fazer, o que foi desfeito e refeito.

Do mesmo modo que sinalizamos para uma inflexao acerca do modo de compreender o trabalho, focalizando a atividade que se efetua neste processo, outra inflexao se afirma neste campo de discussao e diz respeito a gestao. Recusando o postulado de localizaao da gestao na figura do gestor, ou um postulado de propriedade que a centraliza nas funoes administrativas previstas nos organogramas, autores como Barros (2007, p.356), a partir das contribuioes de Canguilhem e Schwartz (2007), sinalizam que a gestao nao pode ser substancializada, inerente a atividade de trabalho e diz respeito a um processo ininterrupto de fabricaao de normas, de criaao da vida. Por entender que gestao nao pode ser pensada em si mesma, tampouco circunscrita a um nico termo, que Barros e Benevides de Barros (2007, p. 63) formulam a tese de que o cenrio complexo do campo da sade requer a problematizaao da reduao da gestao a organizaao do processo de trabalho. Do ponto de vista das autoras, a gestao no campo da sade "[...] o que se passa entre os vetores-dobras que o constituem".

Nestes vetores-dobras em que o campo da sade engendrado tomam parte os processos de produao de subjetividade, os processos de trabalho e as polticas pblicas (BARROS; BENEVIDES DE BARROS, 2007). Ou seja, para as autoras, num plano imanente (comum) de produao que as prticas de sade sao fabricadas e, deste modo, as prticas de produao de saberes e de si, de subjetividade, e os exerccios de poder nao estao dissociadas. Em lugar de pensar a gestao como tendo um locus privilegiado, ou uma figura na qual possamos centraliz-la (o gestor), a gestao formulada como "[...] um conector, gestao como elemento-passagem entre fluxos de trabalho/saberes; fluxos de subjetivaao/sujeito; fluxos de relaao/poder" (BARROS; BENEVIDES DE BARROS, 2007, p. 64).

A convocaao-provocaao do debate disparado por esses autores situa-se no cerne do que hoje convivemos nos servios de sade, e que diz respeito a heterodeterminaao do trabalho, dos modelos de atenao e dos modos de fazer gestao. Ao recusar a reduao da gestao a mera organizaao do processo de trabalho, o que se pretende interrogar as velhas dicotomias que pouco tem favorecido o exerccio tico e muito mais colaborado para nos manter escravos da moral.

Tomar a gestao do acolhimento como elemento-passagem, implica interrogar como os processos de gestao tem regulado a vida nos processos de trabalho e nos encontros de produao de sade.

 

Acolhimento como arte do encontro e das passagens: de quando uma vida se faz carmim ...

O sol de 40 graus faz ferver o corpo no caminho do hotel at o local do encontro com trabalhadores da sade para o segundo dia da oficina de acolhimento5 em uma capital de um estado da regiao norte do Brasil. Diferente do primeiro dia, o corpo nao se apressa e distrado no percurso com a beleza do rio Negro, com o contraste entre o colorido das embarcaoes e a aridez das precrias construoes de tijolo e madeira sem tinta. As construoes em forma de "caixotes", as pixaoes e o lixo se estendem em grande parte da cidade e constroem no corpo, desde o passeio do dia anterior aos principais pontos da cidade, sinais de um abandono urbano que faz doer os olhos e, ao mesmo tempo, o convocam a perceber outras paisagens. Os cheiros e vozes do mercado de peixe, o gosto de sorvete de tapioca, o pirarucu com aipim, o colorido dos cordoes de sementes usados nos belos penteados, pescoos e braos, as bocas pintadas de carmim contrastando com peles negras e cor de jambo... A enorme quantidade de saloes de cabeleireiros, uns seguidos dos outros, que atraam o olhar pelas roupas coloridas e variedade de penteados das mulheres sentadas as suas portas, faziam vibrar no corpo outras estticas. A chegada no local de (re)encontro marcada por brincadeiras quanto a vermelhidao do corpo e das bochechas queimadas de sol no percurso. Estranha lembrana ativada em ato no corpo, que do calor havia esquecido.

Nossa conversa inicia com os relatos de experiencias de acolhimento em curso nas diferentes unidades de sade do Estado. Os trabalhadores de um servio num municpio de difcil acesso, muito distante da capital, cuja populaao constituda em grande parte por ribeirinhos, se prontificam a iniciar os relatos.

Narram que faziam '"triagem acolhedora" na porta de entrada do servio de sade. Esta fala produz certo desconforto inicial em ns e em alguns participantes que, em voz baixa, comentavam que acolhimento nao deveria ser confundido com triagem. Contudo, a fala que sai pela "boca cor de carmim" segue potente e com "brilho nos olhos". Diziam que em vrias ocasioes, enquanto trabalhavam na triagem, escutavam pedaos de conversas das jovens maes (10 a 15 anos) na espera, referentes a seus medos aps o nascimento dos bebes: a preocupaao com o corpo, com a aparencia, com o possvel desinteresse dos companheiros, a dificuldade futura de arranjarem namorados, etc. No momento da sada destas meninas, aps o parto, percebiam muita tristeza, o "olho sem brilho", como diziam, e o "corpo alquebrado" e desvitalizado que atribuam, na maior parte das vezes, as situaoes de pobreza intensa em que muitas viviam, agravadas pela responsabilidade de sustento de mais uma vida, ou de dificuldades na relaao com os companheiros, abandono dos namorados ou da famlia. Mas, "o olho sem brilho" insistia em "dar desassossego" a suas aoes triadoras. Em conversas informais no horrio de almoo com outras colegas que trabalhavam nas enfermarias estas percepoes foram ganhando extensao, e eram tambm notadas pelas colegas do outro setor que, do mesmo modo, estranhavam o alto ndice de rejeiao aos bebes e depressao aps o parto. Comentavam, inclusive, da "grosseria de alguns profissionais" quando se dirigiam as maes dizendo, "na hora de fazer gostou... agora agenta e ve se aprende". Sem apoio inicial das chefias, se juntam e inventam um espao na unidade que denominam de "oficina da beleza", construdo com doaoes nao apenas de roupas e equipamentos, mas tambm de tempo de pessoas da cidade e trabalhadoras da unidade que sabiam depilar, maquiar, fazer escova e penteados, e se revezam de modo a cobrir o horrio da manha e da tarde. Conversam com as usurias que acham a idia maravilhosa. A boca carmim dizia: "as mulheres daqui sao vaidosas, podem estar com roupas surradas, mas sem seus brincos, colares e boca pintada de carmim nunca!"

Interessante afirmaao que aciona em ns uma memria intensiva que "faz entrar na sala" o trajeto at a oficina e a voz de uma querida amiga amazonense que dizia: "minha mae amava se pintar, me lembro dela na porta da palafita onde morvamos, toda arrumada com seus colares, brincos e batom carmim". Retornamos a conversa...

Aps alguns meses a iniciativa chama atenao pela alegria das usurias, de seus companheiros e familiares. As equipes sao surpreendidas com a diminuiao das tristezas e tambm dos "ditos" casos de depressao ps-parto, j rotineiramente esperado pelos profissionais. A cada jovem mae que retornava do salao para a enfermaria eram risos, palmas, elogios dos profissionais. A sada de alta passa a ser alvo de interesse nao s da rede social e das moas da "triagem acolhedora", mas da equipe que se desdobra para presenciar a chegada dos companheiros e da famlia. O "olho sem brilho" e o "corpo alquebrado", ganham brilho, fazendo ressoar em outros corpos a fora dos encontros ativadores da potencia de vida. Encontros potentes que acolhem a intensidade das passagens para outros movimentos.

Neves e Rollo, em trabalho desenvolvido para a Cartilha de Acolhimento da Poltica Nacional de Humanizaao do SUS (BRASIL, 2006), afirmam que o acolhimento na sade se produz no plano dos encontros e implica um regime de afectabilidade construdo a cada encontro e atravs dos encontros, no qual a vida pensada como potencia que se ativa entre os sujeitos, nas relaoes e vnculos que constroem (e os constroem), como potencia de afetar e ser afetado.

Nesta afirmaao, e por entre as intensidades e extensividades que colorem a 'boca carmim', temos tres inflexoes fundamentais, quais sejam: a noao de encontro como afecao, nao restrito as relaoes intersubjetivas; um modo de pensar vida como potencia de reinvenao, nao restrita as funoes da biologia e fisiologia em cada um dos sujeitos, e a indissociabilidade entre o modo de nos produzirmos como sujeitos e os modos de se estar nos verbos da vida (trabalhar, viver, amar, sentir, produzir sade).

Entretanto, de que encontro se trata? O que se acolhe no encontro?

Espinosa, em sua leitura dos esticos, fala que a lei da vida a lei dos encontros. Todo corpo vivo faz necessariamente ao longo da sua existencia uma srie de encontros com outros corpos, e nestes encontros que o ser vivo efetua a sua potencia de afetar e ser afetado, ou, poderamos dizer, de interferir e sofrer interferencias. O afeto s existe em composiao, em agenciamento, e deste modo s pode ser pensado em sua funao. Nesta direao ele nao um sentimento, uma paixao ou emoao, mas aquilo que faz a composiao dos corpos, denominada por Deleuze e Guattari como agenciamentos (NEVES, 2004).

Afetar e ser afetado sao aoes e paixoes elementares que marcam o regime dos modos de existencia singular, que nos compoem e decompoem, nos diferentes encontros que fazemos com paisagens, gestos, sons, animais, corpos-fatos etc.

Trata-se, entao, de pensar que o acolhimento em sade se faz como movimentos de afecoes que se constroem na experimentaao, nos encontros que 'dao certo' como encontros intensivos. Naqueles nos quais os corpos ganham a potencia de produzir novos enunciados, sempre coletivos, inventam outros corpos, maquinam alegria e dor, engendrando outras subjetividades e seus prprios objetos.

Desse modo que afirmamos o encontro como potencia intervalar que nao se d primordialmente entre sujeitos-forma, como intersubjetividade alicerada numa relaao objetificada entre unidades previamente constitudas, na qual sujeito e objeto estariam entrariam em relaao como plos separados e unidades dadas a priori. Outrossim, podemos afirmar uma relaao de conexao que se estabelece em uma tensao permanente entre o movimento de criaao de formas e organizaoes e de dissoluao dessas mesmas formas, entendendo-as em seu carter contingente e temporrio. Este processo se efetua entre os corpos, para alm e aqum de suas atualizaoes molares em formas (homem/mulher, velho/criana), segmentos (profissional/usurio, rede adscrita/rede externa), ou sries causais (diabtico/hipertenso, doena/sade). nos encontros que experimentamos os movimentos que nos foram a problematizar o que se passa com a vida, mais do que a responder; alterando as formas-subjetividade e abrindo-a para o intensivo, j ali onde os conceitos tornam-se fluxo de intensidade e nos conectam no circuito ziguezagueante da coexistencia macro/micropoltica.

A apreensao dos processos de produao de subjetividade a apreensao de uma transformaao, de um movimento. nesta direao que afirmamos que a subjetividade um processo que excede o modo-sujeito no qual somos constitudos, ela ndice de um inacabamento produtivo aberto a todos os devires.

Trata-se aqui de chamar atenao para um conceito de vida como uma multiplicidade de planos heterogeneos de existencia que ganham valor segundo o tipo de avaliaao que as anima (DELEUZE, 1976). Vida nao orgnica, impessoal, como potencia vital que atravessa os indivduos e, mais do que distingui-los entre si, possibilita na imprevisibilidade dos encontros os desvios, rupturas e invenoes nos tipos de vida dominantes em cada um. no encontro, neste meio de proliferaao, que os corpos expressam sua potencia de afetar e ser afetado. nele que o desejo flui e cria mundos agenciando modos de expressao e a conectividade da vida em suas mltiplas experimentaoes. (NEVES, 2009).

Nesse campo de discussao que podemos pensar o acolhimento como processo de passagens, diferente de um lugar, de uma tcnica.

 

Acolhimento como gestao de si: entre prticas morais e exerccios ticos

Os processos de acolhimento se efetuam por entre molaridades e molecularidades, indissociveis das prticas de cuidado e dos processos de gestao do trabalho. Os encontros que se efetuam no processo de acolhimento nao se dao em um deserto de embates, de tensionamentos, tampouco se operam como repetiao incessante de regularidades.

Aqueles modos de fazer atenao-gestao que transitam na perspectiva de prticas de acolhimento encapsuladas em valores moralizadores, e em prticas de gestao hierarquizadas e verticalizadas, tem produzido como efeito a tutela de trabalhadores e usurios por valores e normas que operam 'em nome de' (a boa e justa sade, o bom trabalhador, a boa prtica de cuidado, o verdadeiro e correto acolhimento), em funao de um 'dever ser' (humanizado, respeitoso com o outro) produtor de aoes modelares e modeladoras que regulam a vida no lugar de expandi-la. Neste processo, no lugar de gerir com o outro e interferir no curso dos processos que tecem o trabalho de forma a coletiviz-lo, efetua-se a gestao da vida do outro visando determinar os rumos do trabalho para se obter 'bons resultados'.

Se nossa aposta consiste na ativaao de modos de vida que recusam o destrato do vivente e da vida, outros desafios e novos perigos se enunciam, dentre eles a criaao de outros modos de trabalhar-gerir-acolher no campo da sade. Esses modos sao entrecortados por aoes moralizadoras e exerccios ticos em que a crtica permanente do que 'estamos fazendo de ns mesmos' se constitui como uma ferramenta importante para avaliar, seletivamente, as prticas/gestao de si que institumos.

A gestao de si, aqui entendida como modo de produao da existencia na perspectiva lanada por Foucault e alianada com exerccios de liberdade (tica), aposta numa vida potente, autnoma, e nao em vidas fracas que dependem da tutela do outro. Tomar o acolhimento como gestao de si implica, portanto, um ethos atento aos modos de fazer essa gestao de si que de forma alguma um apelo ou ode ao individualismo e isolamento, mas uma afirmaao dos processos de autonomizaao (sempre coletivos).

Ao tematizar o cuidado de si como exerccio tico, Foucault (2004) de forma alguma postulava um distanciamento do mundo, ou um ensimesmamento alienado dos processos polticos, econmicos e sociais que desenham nossas existencias, tampouco uma obediencia aos valores universais. Este cuidado de si supoe a alteridade, aqui entendida como aao das foras que em ns fazem diferir, estranhando os modos de existencia dominantes em ns.

Autorizada ou nao pelas regras universais e pelas prticas de aprisionamento da vida, efetuadas por meio de aoes autoritrias e morais-tutelares e expressas por certos modos de gestao da vida, os exerccios de liberdade se insinuam nos entretempos de uma vida (DELEUZE, 1997).

Talvez seja este um dos nossos maiores desafios: entender que cuidar da vida interferir nos processos que a apequenam e a amesquinham.

 

Referencias Bibliogrficas

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Endereo para correspondencia
Claudia Abbes Baeta Neves
Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense, Campus do Gragoat, bloco O, 2o andar, sala 218, CEP 24210-50, Gragoat, Niteri - RJ, Brasil
Endereo eletrnico: abbes@luma.ind.br
Ana Lcia Coelho Heckert
Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Esprito Santo - UFES, Rua Moacir Avidos, 63/401 - B, Praia do Canto, CEP 29055-350, Vitria- ES, Brasil
Endereo eletrnico: ana.heckert@gmail.com

Recebido em: 09/08/2009
Aceito para publicaao em: 13/10/2009
Acompanhamento do processo editorial: Deise Mancebo, Marisa Lopes da Rocha e Roberta Carvalho Romagnoli

 

 

Notas

1 Programas da Secretaria Municipal de Sade de Belo Horizonte- Projeto Vida(ano de 1993 a 1996), Projeto Porta Aberta Ipatinga(MG), Acolher Chapec(MG), Programa Modelo de Defesa da Vida (Paidia) em Campinas(SP) 2000, Projeto Acolhimento- SMS Sergipe(2007), Poltica Nacional de Humanizaao- Ministrio da Sade, cartilhas 2004 e 2006.
2 Modelo de gestao do tipo taylorista-fordista no qual a organizaao estruturada nos moldes de uma pirmide. Neste modelo a principal premissa que somente os altos gerentes sao capazes de criar conhecimento e, para controlar a criaao do conhecimento a partir do topo o modelo TOP-DOWN, despreza o desenvolvimento do conhecimento tcito, cuja geraao comum na linha de frente das organizaoes. um modo de implementaao de um sistema de controle que se faz 'de cima para baixo'.
3 Possvel aqui nao se confunde com possibilidade. Zourabichvili (2000) diferencia, a partir de Deleuze, possvel e possibilidade. O possvel nao diz respeito aos projetos a serem realizados no futuro, ou a um campo de possibilidades previamente traado, nao se tem o possvel "antes de te-lo criado" (2000, p. 335). O campo de possveis nao se confunde com o que realizvel numa dada sociedade, em um certo momento. H sempre um conjunto de potencialidades a efetuar.
4 O agenciamento a liga do desejo na produao de mundos. Uma multiplicidade substantiva que comporta termos heterogeneos e estabelece entre os termos relaoes diferenciais imanentes, de modo que um termo da relaao nao se torna outro, se o outro j nao se tornou outra coisa. Por isso sua nica unidade a de co-funcionamento, ligando estado de coisas, estado de corpos e enunciados em relaoes de vizinhana com limites mveis e sempre deslocados. Num agenciamento nao se encontra sujeito e objeto constitudo, mas agenciamentos coletivos de enunciaao e agenciamentos maqunicos trabalhando, ao mesmo tempo, sobre fluxos semiticos, materiais e sociais que arrastam as pessoas e as coisas em suas engrenagens. (NEVES, 2002)
5 Trabalho realizado por uma das autoras em 2008 na regiao norte do Brasil quando atuava como consultora da Poltica Nacional de Humanizaao do SUS (PNH).



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