ARTIGOS

 

Noturnos urbanos. Interpelações da literatura para uma tica da pesquisa

 

Urban nights. The inquiries from literature for research ethics

 

 

Luis Antonio dos Santos Baptista *

Professor da Universidade Federal Fluminense - UFF, Niteri, RJ, Brasil

Endereço para correspondencia

 

 


RESUMO

Este artigo objetiva problematizar a concepção de tica da pesquisa nas ciencias humanas baseada no respeito e no acolhimento ao outro. Utiliza como ponto de partida conceitual, entre outros referenciais tericos, o conceito de poder como produção, de Michel Foucault e desenvolvido no ensaio "A Vida dos Homens Infames". No uso deste conceito, argumentamos sobre os efeitos do poder na construção e anlise dos objetos das prticas psi. Um outro objetivo seria ressaltar a relevncia do enfoque transdisciplinar para a reflexão sobre as polticas da tica nas ciencias humanas. No dilogo com a literatura e com a fotografia, pretendemos criar indagações que tensionem as atitudes naturalizadas presentes no humanismo das ciencias humanas.

Palavras-chave: Literatura, Cidade, tica.


ABSTRACT

The objective of this article is to discuss the conception of research ethics in the humanities based on the respect and shelter towards the other. It utilizes as a conceptual starting point, among other theoretical references, the concept of power as production by Michel Foucault and developed in the essay, "The Life of Infamous Men." In the use of this concept, the work considers the effects of power in the construction and analysis of the objects of psychological practices. Another objective is to highlight the relevance of a transdisciplinary approach to reflect upon the politics of ethics in the humanities. Dialoguing with literature and photography, the intent is to arouse questions that give tension to the naturalized attitudes present in the humanism of the humanities.

Keywords: Literature, City, Ethics.


 

 

Algo inominvel ganha carne quando irradiado pela luz da razão. Um ato impessoal, um gesto ao acaso transformam-se, tocados por esta luz, em forma legvel e subordinam-se aos desgnios da precisão. O que antes era informe, ambguo, agora reluz nas pginas dos escritos sobre o humano com a clareza pertinente aos limites de um corpo. A carne produzida por esta luminosidade ganha vida, não por meio daquilo que a faz pulsar, mas por meio de uma nomeação clara, delimitada por fronteiras definitivas. Na noite, onde eles habitavam, nada era um, nenhuma diferença se eternizava, nenhuma forma vivia em paz; existiria apenas uma força que nunca ousava dizer seu nome ou sua origem. Delitos, sofrimentos, comportamentos desviantes, sexualidades ilustrariam a cintilncia da verdade encarnada nos, agora, indivduos ou sujeitos. Do efeito deste fulgor, um eu concentra, confessa, exibe a potencia do seu contorno. Nos escritos sobre a alma humana, a razão mdica, psicolgica ou jurdica faz falar o que antes era um possvel silencio, um provvel ainda não, um por vir, um nada, ou o que a luz da razão não suporta quando confrontada pelo seu prprio brilho. São textos de seqestro. Nas pginas sobre a psique, ou sobre os fora da lei ou da norma, histrias são contadas, dissipando a impertinencia ou o incmodo do inominvel. Seria inocente este aniquilamento?

Dar voz ao outro, escutar com cuidado o que tem a dizer, manter incgnito o que poder ofende-lo ou desqualific-lo, são procedimentos clssicos de uma tica da pesquisa nas ciencias humanas. Prescrições são exigidas ao pesquisador para que o texto, sobre o seu objeto de anlise, respeite a verdade daquele que a sua pesquisa objetiva compreender. Preceitos ticos são acionados para libertar a voz não ouvida e impel-la a identificar-se. Antes da investigação, o excludo, a existencia opaca, o infame habitariam, para esta proposta tica, o impuro mundo do anonimato. L, a noite, ou a escuridão, seria apenas adjetivo, morada do amorfo, do mal ou do sofrimento, territrio preocupante para o humanismo libertrio que enseja a oportunidade para que a palavra veraz seja dita. O processo investigativo os retiraria deste universo, legando aos mesmos a claridade de um corpo delimitado por uma geografia incontestvel. A tica do respeito emancipa-os e os faz falar ruidosamente. Um respeito vaidoso e desatento as engrenagens produtoras da luminosidade que pretensamente faz conhecer o seu objeto. Neste procedimento acolhedor de uma diferença libertada das trevas, a alma do pesquisador avoluma-se, engrandece-se, mas o olhar se mantm intacto como se o objeto da sua visada não perscrutasse ou atravessasse a sua carne. O corpo, aps a pesquisa, continuaria ileso junto a alma robusta. Noite e luz permaneceriam incompatveis, a semelhança da lgica binria do bem e do mal. Sombras e restos de escuridão, ignorados por esta escuta acolhedora, persistiriam at a prxima captura.

Este ensaio deseja deter-se na atenção a voz ainda não dita, a matria informe, ao gesto sem mensagens a enviar que habitam a escuridão do anonimato, a morada na qual a diferença, afirmando a sua intensidade, escapa do encarceramento identitrio 1. Pretende aproximar-se da literatura e da fotografia para problematizar polticas de metodologias de pesquisa cuja luz desvela, liberta, mas aniquila o que resiste a uma concisa conclusão. Deseja deter-se no prenncio de uma tica inspirada no inacabamento de existencias noturnas, vidas infames capturadas pelos escritos da tica do respeito. Narrativas finalizadas, inspiradas no otimismo alegre da emancipação da ciencia ou da arte, como no amargo pessimismo gerado por uma utopia destruda, inspiram a escrita deste ensaio, que se opõe radicalmente a esta alegria e a este ressentimento. Ambos são violentos pela desatenção ao que extrapola o limite das suas idias, como se nada acontecesse exigindo uma certa urgencia. Vidas solapadas, do ontem e do agora, não apelariam a salvação ou a glria de serem vtimas exclusivas de agruras. Libertação e exclusividade que impedem essas existencias de ultrapassarem suas bordas e nada dizem sobre a impessoalidade da dor. Acerca das vidas infames, alerta-nos Foucault (1992, p.97):

Para que algo delas chegasse at ns, foi porm necessrio que um feixe de luz, ao menos por um instante, as viesse iluminar. Luz essa que lhes vem do exterior. Aquilo que as arranca a noite em que elas poderiam, e talvez devessem sempre, ter ficado, o encontro com o poder; sem este choque, indubitvel que nenhuma palavra teria ficado para lembrar o seu fugidio trajeto.

Na noite, lugar onde elas deveriam ter ficado, esboços de imagens, prenncios de experimentações do existir são incansavelmente criados por lutas invisveis, porque a vida não as d sossego. Estas lutas podem ser vistas no corpo que pulsa sem dono, nos rastros de uma ausencia, no gesto suspenso por extase ou dor, na frase cortada pelo espanto, ou na narrativa interrompida por falta de ar. São enfrentamentos noturnos nos quais nada se acomoda em geografias imveis ou no tempo pacfico dos calendrios. Neste espaço, onde a forma de algo vivo se faz no desassossego, a violencia do encerramento de qualquer histria inexistente. Ali, entre sombras e escuridão, a felicidade e a barbrie desconhecem um nico formato ou a palavra derradeira. Imagem e forma ignoram a perenidade da essencia, assim como a função de representar ou evocar alguma coisa. Neste territrio noturno, a esttica inseparvel de uma tica. Nada est terminado e ningum, humano ou inumano, ousa dizer, para todo o sempre, sou ou não sou. O que vislumbramos nos escritos onde a noite sabotada por uma poderosa iluminação?

 

A luz

O comportamento identificado na pequena Regina, quando ela estava com 18 meses, e que demandou o presente procedimento, consistia em manipular-se nas partes pudendas, introduzindo objetos em sua vagina, como canetas, alm de apresentar-se de forma agressiva consigo mesma e com os demais familiares (puxando seu cabelo, jogando a si mesma da escada, quebrando brinquedos, etc). A menina tambm exibia comportamento manipulatrio com Rosngela (sua irmã mais nova), sendo detectadas situações em que lambia a vagina da irmã de meses.

Demarcou-se, no decorrer das intervenções, que apesar da Sra. Sueli (sua mãe) não conseguir estabelecer dilogo com o cunhado, permitia que Regina permanecesse no quarto daquele sozinha, aps o retorno da jornada laborativa do cunhado Sr. Orlando.

Tanto a Sra. Sueli, quanto seu companheiro afirmam que a menina ficava por horas no quarto do tio com a porta fechada. Relatou a Sra. Sueli que, numa dessas ocasiões, ouvira um grande estrondo vindo do interior do cmodo e, como não teria nenhum dilogo com o cunhado, foi buscar o marido que se encontrava fora de casa para que ele questionasse o que teria ocorrido e retirasse a filha daquele quarto.

Embora apresente dificuldades em se defrontar com os comportamentos que Regina apresentava, o Sr. Almir (seu pai) afirmou que assistiu a primogenita lamber a vagina da pequena Rosngela, numa situação a que foi chamado, pela Sra. Sueli, para constatar o que ela j lhe havia relatado.

Relatos de familiares maternos confirmam o comportamento agitado e irritadiço de Regina. Sua tia Vera teria visto a menina tocar na genitlia de seu marido, algo que, embora tenha estranhado, não lhe provocou maiores questionamentos.

Em nosso primeiro contato com Regina, observamos uma menina muito agitada, demonstrando um alheamento frentico frente as consignas, irritadiça e sem controle dos esfncteres. Aps a sada da famlia da residencia do Sr. Orlando, Regina apresentou mudanças de comportamento significativamente positivas, estando mais calma, centrada e, segundo a mãe, tendo cessado a agressividade.

O Sr. Orlando conta 32 anos e labora como padeiro no estabelecimento Sabores da Roça, localizado no Mareara-MA. Afirmou que permanece a maior parte do dia no trabalho e, a noite, frequenta diariamente a Igreja Evanglica. Avaliamos que seu relato da extensa carga horria buscou comprovar que tinha pouco contato com sua cunhada e sobrinhas. Segundo ele, ausenta-se para trabalhar as 5 horas e retorna a casa as 23 horas.

O Sr. Orlando negou que ficasse com Regina em seu quarto a portas fechadas, manifestando irritação perante tal questionamento. Mas, confirmou que costumava ter biscoitos em seu quarto que eram ofertados a sobrinha. Avaliamos que a dinmica familiar em anlise possui desdobramentos perante o comportamento sexualizado que foi apresentado por Regina, e que a tomada de atitudes protetivas pela genitora se revelou positiva na superação do quadro. Todavia, a sintomatologia mais grave e preocupante consistia em evidentes e inapelveis sintomas de que Regina vinha sendo submetida a violencia sexual.

Embora possamos demarcar conclusivamente que a menina foi submetida a atos sexualmente abusivos, o testemunho linear da menina não poderia ser utilizado como estratgia na identificação do abusador, sendo construdo quadro complexo, em que analisamos todas as narrativas colhidas e as prprias intervenções com a menina Regina.

Diante do exposto, podemos considerar que não identificamos indcios que nos levem a considerar que o Sr. Almir tenha cometido violencia sexual contra a filha.

Todavia, o comportamento expresso pelo Sr. Orlando e as narrativas sobre seu comportamento pregresso nos levam a considerar que sua conduta denuncia extremada fragilidade no trato com adultos e com o mundo, sendo tambm detectvel imaturidade emocional significativa que podem estar articuladas com perfil compatvel com o de pedofilia 2.

 

A cidade da luz

Aps a incidencia da luz cientfica nesta famlia, retirando a mesma do anonimato da escuridão atravs do laudo, podemos formular as seguintes perguntas: Regina foi ou não foi violentada? O Sr. Orlando seria o verdadeiro culpado? E o pai? Regina estaria mentindo? Quem o culpado? Quem Regina? Este episdio seria uma ficção ou uma descrição verdica de um fato comprovadamente cientfico? Qual a diferença?

Alm do laudo recente de Regina, uma outra mulher colocada sob suspeita em pronturio escrito no incio do sculo XX. Ela se chama Antnia. Quando iluminada pelo clarão que vem de fora, incidindo na sua matria informe, essa ganha nitidez na seguinte forma:

[...] Freqentou o colgio onde aprendeu a ler e escrever. Não consta que houvesse padecido de molstias graves. Foi sempre um pouco dbil de constituição, como de regra sucede com os mestiços entre ns. Por morte de seu progenitor que começa a sua histria mental propriamente dita. Usufruindo um pequeno rendimento de herança, entregue a si mesma, começou a revelar-se incapaz de gerir seus bens, que dissipava sem conta [...]. Um pouco mais tarde, sua conduta entrou a manifestar singularidades. Certa vez, comprou trajes masculinos e saiu a viajar neste estado. Foi reconhecida como mulher e presa pela polcia [...]. Achamos, pelo exposto, que se trata de uma degenerada fraca de esprito em que se vai instalando pouco a pouco a demencia. (CUNHA, 1986, p. 143)

Regina e Antnia, frutos do clarão luminoso, ocupam a cidade da luz atravs das determinações da sexualidade e da raça. Sexo e raça as formatam e as fazem falar. Aps a captura, apresentam a nitidez inconfundvel dos seus contornos. Nesta urbe, os monumentos, o traçado retilneo das ruas, o desenho das casas permitem a qualquer um sentir-se protegido no seu caminhar. Na cidade da luz, o perder-se inexiste; a racionalidade inscrita nas pedras seria o guia; passa-se e encontra-se o que se deseja. Atravs dela, a utopia se realiza. O estranhamento frente as imagens urbanas, ao corpo, ao esprito do andante nunca se suceder. Esta urbe possui identidade, seus planejadores a deram alma e, desta forma, na prxima visita, ningum encontrar surpresas. A clareza do mapa e a lembrança atenta aos smbolos que representam a sua essencia, impedirão, a quem retorne no futuro, o incmodo do inesperado.

Em algumas cidades, o mapa ineficiente. Certos viajantes são atrados pelos detritos, por coisa tortas, por sombras que interrompem e incitam o recomeçar interminvel do percurso. Conhecemos estas cidades nos perdendo 3; uma perda que inventar atalhos, encruzilhadas, vias nunca usadas, porm sem nenhum jbilo orgulhoso do inventor. Inventa-se porque o que ele encontra neste perder-se poder ser insuportvel se o viajante lastimar ou tentar recuperar a eficiencia dos velhos parmetros. Cria-se porque os espaços não são desenhados na mais completa paz. Dejetos jogados fora, esquecidos por outros viajantes ansiosos em finalizar a caminhada, chamar-lhe-ão a atenção, exigindo-lhe a mudança do rumo. Ele se dar conta de que aquilo, que o guiou em viagens anteriores e sempre o conduziu com conforto pelos caminhos, poder não servir para nada. Descobre que o mapa, a bssola ou a luz condutora do olhar dos descobridores, levarão ao lugar reconhecvel, aos imprevistos j vistos, ensejando as mesmas soluções, impedindo o enfrentamento de agruras ou acontecimentos inesperados. Percebe, apesar da fadiga por interromper e recomeçar o seu trajeto, que a cidade alvo que o sufocava por não a encontrar, a verdade almejada, a resposta definitiva seriam um objeto perecvel como os alimentos do seu farnel. Nesta metodologia suja, torta, onde em cada desvio algo fenece, na qual o objeto não estar a sua espera, ele não chegar ileso, nada estar encerrado.

Em uma capital chamada São Paulo, uma folha amarelada pelo tempo induziu algum a parar e a recomeçar, por outra via, o caminho. No papel envelhecido, o texto noturno enfrentava incansavelmente o poder da luz. Cunha (1986), atenta aos detritos urbanos, apresenta-nos Florinda, 58 anos, negra, semi-analfabeta, que possua uma fotografia para a sua identificação. No lugar, onde viveu muitos anos, a foto era necessria para o conhecimento de alguns dos seus habitantes. Esta mulher escrevia cartas que nunca saam do mesmo lugar 4. Certa vez, Florinda redigiu no papel, agora amarelado, o seguinte texto para o seu filho:

[...] A iducação do lar não te fartou e a estrução que chegou escureceste a luz mais clara, eu aqui como indigente para mais depressa a vida findar [...]. Inbarquei no da carro da Segurança publica acompanhada de dois sordados paizanos [...]. Tu pagou o leite que mamou as dores que sofri e noites malpasadas. A Qui no degredo incarserada viajei em vagão de criminoso [...] Deos mi deu olhos e não mi deu lgrimas as lgrimas as lgrimas são tuas. Qui si acabe essa mardita e mal fadada apirsiguição Qui este poco resto de vida mal tratada quero morer fora da prizão quero sortar aultima respiração num canto sucegada...Guarde esta para algum dia lembrar-se de mim (CUNHA, 1986, p. 117-118).

Esta carta foi escrita em 1916, no Hospcio do Juquery, São Paulo, e nunca chegou ao seu destino. Encontra-se, at hoje, anexada ao pronturio gasto pelo tempo. Os textos escritos por pacientes psiquitricos serviam como pistas, traços para o entendimento da enfermidade. A doença mental, segundo a razão cientfica da poca, bloqueava a comunicação com o mundo exterior, impedia o entendimento do que fosse o outro, e, desta forma, a alma deteriorada não poderia expressar-se. No texto escrito por Florinda, iluminado pela luz da ciencia, inexistia qualquer sentido que transgredisse o destino da mulher louca, negra e miservel. As palavras exasperadas, na recusa do crcere que as fixava na forma ntida da morbidez, transformavam-se em indcios valiosos para o alcance da veracidade da loucura pistas que indicavam que nenhum afeto ou revolta deveriam ultrapassar os muros do hospcio. O impedimento da sada da missiva para o filho não se resumia a um ato repressivo: nas cidades iluminadas pela ordem mdica, cada coisa deveria permanecer no seu devido lugar. A proibição da carta de sair do manicmio executava a utopia da higiene urbana, no intuito de proteger o citadino dos perigos das misturas; a semelhança dos vegetais, deveramos estar atentos ao solo frtil e a luz necessria para não adoecermos ou violarmos a ordem do esprito e da cidade. No lugar apropriado, sementes do futuro, contidas nas essencias da alma e do corpo, desenvolver-se-am, indo ao encontro das suas verdades. Na cidade higienizada, a iluminação e o solo propcio estariam prevenidos da errncia do inominvel. Contgios iminentes poderiam desenraizar promessas de uma assptica felicidade. Por que a foto de Florinda era necessria para o conhecimento da sua enfermidade? O que aconteceu a Regina? Quem o culpado?

A historiadora Maria Clementina Cunha, quando nos traz a histria do Juquery por meio desta figura infame, não deseja dar voz ao humilhado, respeitar o que o desvalido tenha a nos dizer. Cunha, no uso dos arquivos amarelados pelo tempo, desvia, embaralha o triunfalismo retilneo de uma ordem sempre vencedora; diferencia-se do pesquisador comovido pelo excludo como se a ele s restasse a fragilidade desencadeada pela sua dor. Os indcios encontrados na pesquisa, ao contrrio dos laudos, desvencilham-se da função de serem pistas reveladoras da conclusão de uma trama. Não são insignificncias que nos levarão a montagem de uma resposta, de um veredito, como nos romances policiais. A carta usada como instrumento cortante produtor de cesuras em uma histria valente que segue reta a procura do fim. A exasperação das palavras retira da missivista o conforto do reconhecimento de uma identidade, de um tempo classificvel ou do lugar especfico. O texto de Florinda interrompe o pensamento apressado em direção ao futuro aprisionado no mundo dos heris e das vtimas; apresenta-nos o incansvel exerccio das artes do fazer, artes sem a precisão da forma correta ou do ato previsvel para se atingir o alvo. O texto desta mulher sugere-nos que alguma coisa ficou na metade do percurso a espera de parceria para continuarmos contando a sua histria, sem a comodidade de qualquer pronome no singular ou no plural. A fria do texto aniquila a mulher negra, louca, semi-analfabeta e não deixa espaço para ningum confessar eu sou, mas permite que algo impessoal afirme a intensidade de uma histria cortante.

Ressaltar a carta como recusa de ser um indcio de uma hiptese a ser validada remete a "terna empiria" 5 de Walter Benjamin, na qual a força da singularidade do fato observado não seria amansada ou neutralizada na inclusão em um sistema de idias, mas denota ao emprico o sentido de desacomodação, de algo que estanca a agilidade de uma anlise na busca da verdade conclusiva. Inspirada em Goethe, esta empiria torna-se terna por recusar ao sujeito a missão onipotente de centralizar em si o desvendamento daquilo que observa, ou a impotencia da derrota desta missão. O emprico seria terno por seduzir o observador a estar atento ao que escapa a sua sombra, ao fora de si; uma doação que faz da abertura do pensamento o efeito de um contgio, de uma sedução realizada por algo que extrapola o isolamento arrogante da razão ou do sujeito. Solicita ao pesquisador ser vulnervel, adotando uma estratgica fragilidade para disponibilizar-se ao que sucede, ao que possa acontecer. Esta solicitação não restrita a questões metodolgicas. A poltica da "terna empiria" indica-nos uma proposta tica.

Para a cidade das luzes, o sofrimento de Florinda ou as suas tramas irremediavelmente acabaram com o fechamento do Juquery. A paciente reduz-se a negra, louca e semi-analfabeta. No texto traduzido pelo manicmio, bloqueado um vazio inominvel onde corpos alheios possam ocup-lo temporariamente. O passado est morto. A histria s dela. Por que a foto era necessria no manicmio? De onde viria este desejo de identificação? O que aconteceu a Regina? Quem foi o culpado?

Florinda e Antnia possuam a imagem do hospcio retratada em suas fotos anexadas aos pronturios; eram assim obrigadas por não serem pensionistas pagantes de distintas famlias. Nos pronturios dos negros, pardos, miserveis, a fotografia funcionava como mais um instrumento para a avaliação diagnstica. Ali, estampados na pose mdica, eram arrancados da noite e falavam sobre os seus destinos. A hierarquia do lado de fora do manicmio atravessava os muros e misturava-se aos desgnios da morbidez mental. A mquina de fazer imagens, inventada do outro lado do Atlntico, chegou a São Paulo para registrar a aura do esprito das personalidades citadinas, o brilho dos coletivos de trabalhadores representando a virtude do trabalho e os indcios mrbidos daqueles com os quais a higiene urbana deveria preocupar-se. Psiquiatria e polcia ganharam deste invento a possibilidade de contar histrias, criar personagens, fazer da imagem a ferramenta precisa para desvendar e provar delitos contra a lei ou para prevenir os perigos misteriosos da natureza humana. A cicatriz marcada a ferro quente no corpo do criminoso do passado torna-se ineficaz na urbe dos oitocentos. A invenção da fotografia amplia a vigilncia sobre o delito na esteira das mudanças do movimento, da circulação e do corpo citadino na cidade da luz. O incgnito, misturado ao ritmo frentico das multidões urbanas, onde os rastros apagam-se rapidamente, precisa de cuidados. Segundo Gunning (2004, p. 38-39)

Na criminologia, a fotografia trabalhou em duas direções. Uma delimitou a sua capacidade de capturar a evidencia de um crime, o prprio ato desviante A outra prtica (menos direta, mas comum) utilizou-a para marcar e não perder de vista o criminoso, funcionando como elemento essencial em novos sistemas de identificação. Encontraremos essas duas direções não somente na criminologia, mas tambm no processo de construção do mito da ficção policial.

A sensação intensa que se dissipa em segundos, desprovida da certeza de a sentirmos novamente, o perder de vista aquilo que se acreditava eterno para nunca mais, imagens que se esvaem, imagens que surgem sem a continuidade da cena, lugares e objetos onde marcas de pertencimento propiciavam segurança, agora acabam no ritmo incontrolvel. O momentneo, a fragmentação de um mundo estvel onde se podia prever, antecipar uma ação, oferecem ao homem da modernidade dos oitocentos tormento e esperança. Multidões que ameaçam a ordem das ruas, coletivos ruidosos e informes, atemorizam o citadino devido a perda da estabilidade de si e da conquistada identidade. Locomotivas, iluminação, equipamentos fabris, novos desenhos e funções de objetos impelem-no a circular, produzir, consumir, sugerindo a inesgotabilidade da criatividade humana no lastro da promessa de felicidade anunciada pelo progresso. Nas fbricas, a matria-prima, em ritmo acelerado, transforma-se em outra coisa; nas ruas, a qualquer momento, acontece algo imprevisvel; no citadino, para o seu tormento, o contorno ntido do seu rosto e da sua alma poder esvaecer como as imagens do lado de fora do seu habitat. Choques urbanos, provocados pela perda do universo onde os astros e os deuses protegiam suas angstias e esperanças, dilaceram totalidades do que seja a vida ou do que seja o sujeito. A fragmentação do tempo, do espaço, do corpo na exigencia de formas singulares de experiencia, atormentou o citadino da cidade luz. Na tentativa de neutralizar estes choques, o burgues far do espaço privado o seu universo. Para Benjamin (2006, p.59-60):

O interior não apenas o universo do homem privado, tambm seu estojo. Desde Lus Filipe, encontra-se no burgues esta tendencia de indenizar-se da asencia de rastros da vida privada na grande cidade. Essa compensação, ele tenta encontr-la entre as quatro paredes de seu apartamento. Tudo se passa como se fosse uma questão de honra não deixar se perderem os rastros de seus objetos de uso [...] Tem uma clara preferencia pelo veludo e a pelcia que conservam a marca de todo contato. [...] Os vestgios de seu habitante moldam-se no " intrieur ". Da nasce o romance policial que pesquisa esses vestgios e segue essas pistas [...] romances policiais de Edgar Poe fazem dele o primeiro fisignomonista do interior Os criminosos nas primeiras narrativas policiais, não são nem marginais, e sim pessoas privadas pertencentes a burguesia.

No universo repleto de rastros de si, o burgues retm o que o mundo do lado de fora poder exterminar. Porta-retratos, fotografias nos lbuns da famlia, objetos pessoais revelam a aura da personalidade do morador. A marca das mãos no veludo prenuncia a integridade de um corpo ainda não aniquilado pelo perigo das multidões; ratifica a solidez da identidade que não se deixa abalar pelo tempo cortante das ruas. Do lado de fora, o caos do acontecimento inesperado, a fugacidade da experiencia, o perigo do anonimato. No estojo domiciliar, onde ele habita, a nitidez do esprito e do nome são hermeticamente protegidas das impurezas urbanas. Tudo neste lar representa, evoca a presença e a ausencia do proprietrio. As imagens dos diferentes momentos da famlia, registrados nas fotografias, indicam a continuidade harmoniosa do tempo, a aura das individualidades que não se deixa apagar no transcorrer dos anos. O tempo, ali, contnuo e o espaço, o universo autnomo onde o lado de fora seria um provvel adversrio. Mesmo sem ningum habitando este universo, a atmosfera gerada pelo acmulo de indcios sugere que algo ocupou ou ocupa este lugar. Smbolos, sinais, pistas demandam hermeneutas a procura de mistrios e revelações; territrio frtil para a missão dos detetives, os da ficção policial ou os criados pelas ciencias da alma. Na morada dos rastros, as histrias possuem um incio, um meio e um fim, protegidas pelas portas e janelas hermeticamente fechadas, local propcio para o desvendamento da alma ou de um crime. O que se sucedeu com Regina? Quem o culpado? Ser o tio? Seria o laudo um texto cientfico ou uma ficção policial?

Neste universo repleto de significados, de fragmentos que compõem a totalidade de uma histria, nada dever se dispersar. Segundo Oliveira (2006, p. 127), na ficção policial, destinada ao detetive a seguinte missão:

O detetive enquanto guia de uma narrativa a sntese de um tipo de homem para qual mundo e sentido s se encontram quando seus elementos dispersos se tornam promessa de totalidade, quando cada objeto isolado se interconecta a todos os outros, tal como num desenho em perspectiva, em que todas as linhas convergem para o mesmo ponto de fuga. Seu segredo, a substncia que vicia o leitor , a tensa promessa deste ponto de fuga , o pressentimento certo de um fim, no qual algum , de preferencia , culpabilizado pelo desconcerto do mundo, e então retirado de circulação, a fim de que as peças do mundo se reencaixem.

Fotografias e literatura nos oferecem modos de contar histrias e estrias, de construção de tempo e de espaço, propondo-nos o sentido particular do que seja a tica da luz. Edgar Allan Poe, o criador do romance policial, assim como o personagem Sherlock Holmes de Conan Doyle, ironizaram esta tica atravs da literatura. Os cientistas da alma, ao contrrio dos detetives, prosseguem na criação do suspense e nas artimanhas para resolve-lo. O laudo de Regina, escrito na atualidade, e o de Antonia, no incio do sculo XX, alertam para o inacabamento do passado produzido por urgencias do agora; urgencias passveis de destruir fronteiras entre ficção e verdade, objetividade cientfica e subjetivismo da arte, silencio e poder. Essas vidas infames, arrancadas da noite, são respeitosamente apresentadas ao pblico em ntidas e conclusivas narrativas.

 

Noturnos Urbanos

A noite amedrontou na antigidade porque, nela, a lua irradiava o seu poder. Segundo Delumeau (2009), o astro noturno enchia o ar de umidade e causava doenças; produzia a loucura. Nesta poca, a lua possua uma ambivalencia, acalmava e agitava os mares, fertilizava e destrua plantações. Nos textos bblicos, a noite ganha o perigo das trevas: "Quando terminar o dia, então sobrevem os animais malficos" (SALMOS, 104, 20 apud DELUMEAU, 2009, p. 139) ou "os homens que odeiam a luz - adlteros, ladrões ou assassinos" (J, 24-13 apud DELUMEAU, 2009, p. 139). Nas cidades laicas, a ordem pblica exigir a iluminação porque a "a noite suspeita, pactua com os debochados, os ladrões e os assassinos" (DELEMEAU, 2009, p. 149). Foi tambm o cenrio para que os letreiros luminosos desenhassem os contornos da metrpole. A noite abrigou paixões inconfessveis e mistrios.

Estes significados da noite diferem-se do mencionado por Foucault na introdução deste artigo. A histria indica-nos noites particulares, individualizadas por atrações e temores inventados pelas prticas dos homens. A noite da qual os infames são arrancados pelo clarão do poder ainda não , vive informe, pulsa no inominvel, se intensifica como a outra noite. Para Blanchot (1987, p. 169):

A outra noite sempre o outro, e aquele que o ouve torna-se outro, aquele que se aproxima distancia-se de si, não mais aquele que se acerca, mas o que se distancia, que vai daqui, de l. Aquele que entrado na primeira noite, intrepidamente busca caminhar para a sua intimidade mais profunda, para o essencial, num dado momento ouve a outra noite, ouve-se a si mesmo, ouve o eco eternamente repercutido de sua prpria caminhada, caminhada na direção do silencio, mas o eco -lhe devolvido como a imensidade sussurrante, rumo ao vazio, e o vazio agora uma presença que vem ao seu encontro.

Qual a poltica deste vazio? Que importncia ele teria para as problematizações de uma tica da pesquisa?

A presença do vazio da segunda noite poder ser encontrada tambm nas fotografias de Eugene Atget, fotgrafo cuja obra Benjamin (1996, p. 101-102) caracteriza como repleta de imagens do vazio.

Quase sempre Atget passou ao largo das grandes vistas e dos lugares caractersticos, mas não negligenciou uma grande fila de frma de sapateiro, nem os ptios de Paris, onde da manhã a noite se enfileiram carrinhos de mão, nem as mesas com os pratos sujos ainda não retirados [...]. Mas curiosamente quase todas essas imagens são vazias. Vazia a Porte d'Arcueil nas fortificações, vazias as escadas faustosas, vazios os ptios, vazios os terraços dos cafs [...]. Esses lugares não são solitrios e sim privados de toda atmosfera; nessa imagens, a cidade foi esvaziada, como uma casa que ainda não encontrou moradores.

Para Benjamin (1996, p. 100), Atget foi "o primeiro a desinfetar a atmosfera sufocante difundida pela fotografia convencional". A falta de oxigenio nas cidades projetadas para enaltecer o seu carter encarnado nos monumentos ou nos traçados das ruas, assim como nas moradias burguesas carregadas de aura, ganham o sopro de ar nas imagens do fotgrafo frances. Atget "desinfeta" o peso do eu, do ele ou do ns de qualquer proprietrio de um territrio e, desta forma, impede o visitante de sentir-se um intruso. Moradias e cidades são atravessadas pelo vazio que seduz quem as olhe a entrar. Ali não encontrar o tempo contnuo ou o espaço familiar, mas a força do acontecimento desencadeado pelo afeto do inominvel, que lhe confere o ar necessrio para prosseguir na errncia. Na moradia ou na cidade vazia, os detalhes não são indcios para se completar uma histria ou para se definir uma identidade retratada, mas, sim, o convite para o despedaçamento da solidez do conforto de provveis conclusões. A Paris, atravs da arte de Atget, apresenta-nos coisas insignificantes do cotidiano, que desdobram a paisagem e o espectador. São imagens de acontecimentos. A semelhança da segunda noite de Blanchot, aquele que se aproxima dessas imagens não ouvir o eco de vozes reconhecveis, mas uma imensidão sussurrante que escapa do pertencimento a um corpo, a uma ptria, a uma voz ou a um silencio em particular. O vazio presente nas fotografias de Atget sugere-nos que nenhuma dor ou alegria, utopia ou barbrie terão um final que as encarcere.

Na tradição moçambicana, Guambe e Dzvane são o primeiro homem e a primeira mulher, e deixaram para o mundo um ba repleto de histrias. Os contadores de histrias, quando terminam as suas narrativas, buscando o retorno das mesmas ao lugar de onde saram, dizem o seguinte: Voltem para a caixa de Guambe e Dzavane. Segundo Mia Couto (2009, p.72) "O que acontece quando não se fecha a histria? A multidão que assiste fica doente, contaminada por uma enfermidade que se chama a doença do sonhar."

A caixa aberta deixar que as narrativas escapem, e desta forma elas não terão pouso fixo, um nico sujeito, uma histria concluda. Nenhuma dor ou forma de extingu-la ter um proprietrio exclusivo. A caixa aberta ficar vazia, as narrativas, inacabadas. Disparadas pelo vazio, terão a forma provisria de como forem contadas. Não exigirão respeito, nem cuidados, porque não estão dentro de nenhum corpo ou alma. Do inominvel, nenhuma indiferença se far presente. Continuaremos doentes; não do sonhar, mas de literatura ou de noite.

 

Referencias Bibliogrficas

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COUTO, M. Encontros e Encantos: Rosa em Moçambique. In: STARLING, H. M. M.; ALMEIDA, S. R. G. (Orgs.). Sentimentos do Mundo: Ciclo de Conferencias dos anos 80 da UFMG. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009, p. 63-72.

CUNHA, M. C. O espelho do mundo. Juquery, a histria de um asilo. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1986.

DELUMEAU, J. Histria do medo no ocidente. 1300-1800: uma cidade sitiada. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

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GAGNEBIN. J. M. Posfcio. Uma topografia espiritual. In: ARAGON. L. O campones de Paris. Rio de Janeiro. Imago, 1996, p. 241-259.

GUNNING, T. O retrato do corpo humano: a fotografia, os detetives e os primrdios do cinema. In: CHARNEY, L.; SCHWARTZ, R. (Orgs.). O cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo: Cosac & Naify, 2004, p. 33-66.

OLIVEIRA, B. B. C. Olhar e narrativa: leituras benjaminianas. Vitria: Editora EDUFES, 2006.

 

 

Endereço para correspondencia
Luis Antonio dos Santos Baptista
UFF, Departamento de Psicologia, Campus do Gragoat, Bloco O, São Domingos, CEP 24220-008, Niteri - RJ, Brasil ?
Endereço eletrnico: baptista509@gmail.com

Recebido em: 05/08/2009
Aceito para publicação em: 13/10/2009
Acompanhamento do processo editorial: Deise Mancebo, Marisa Lopes da Rocha e Roberta Romagnoli.

 

 

Notas

1 Este artigo foi inspirado nas discussões metodolgicas da pesquisa Histrias Annimas do Cotidiano Carioca: narrativas de moradores que vivem s.
2 O referido texto uma criação do autor inspirado em um laudo de uma Vara da Infncia e Juventude do Brasil. Os nomes e os locais originais formas modificados.
3 Sobre o perder-se na cidade, ver as anlises de Gagnebin (1986, p. 241-259).
4 Sobre as cartas, ver Baptista (2009, p. 88-91).
5 Sobre a "terna empiria", ver Benjamin (1996, p. 103).b



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