EDITORIAL

 

Adriana Benevides SoaresI; Ana Maria Lopes Calvo FeijooI; Ariane Patrícia EwaldI; Deise ManceboII; Eleonôra Torres PrestreloIII; Rita Maria Manso de Barros I

I Professor Adjunto do Instituto de Psicologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro/UERJ - Rio de Janeiro, RJ, Brasil
II Professor Titular do Instituto de Psicologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro/UERJ - Rio de Janeiro, RJ, Brasil
III Professor Assistente do Instituto de Psicologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro/UERJ - Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Endereo para correspondncia

 

 

A grande novidade desta edição da Revista Estudos e Pesquisas em Psicologia é inaugurar a Seção Clio-Psyché, como é conhecido o Programa de Estudos e Pesquisas em História da Psicologia, coordenado pela professora Ana Jacó. E, ao ingressar, nos regala com um artigo internacional, escrito por Reynaldo Alarcón em homenagem a Rogelio Díaz-Guerrero e sua psicologia transcultural e consequente Etnopsicologia.

Este número traz, ainda, discussões sobre diferentes áreas de estudo da Psicologia. A psicoterapia vem contemplada por perspectivas na clínica psicológica que partem de um afastamento do modelo científico determinista da modernidade. Em “Fantasmas do futuro: a clínica do virtual”, Juliane Tagliari Farina e Tânia Mara Galli Fonseca, tecem consideráveis críticas as noções de subjetividade e tempo no campo clínico da Psicologia e, assim, articula arte, filosofia e clínica.  Em “A identidade do corpo-psique na Psicologia analítica”, de Yone Buonaparte d'Arcanchy Nobrega Nasser, são discutidas novas possibilidades de entendimento sobre o humano, em que a identidade corpo-psique é compreendida como uma unidade psicofísica a partir do conceito de inconsciente coletivo.

“Violência e ethos da linguagem: considerações sobre a teoria psicanalítica da religião” de Betty Bernardo Fuks se propõe a refletir sobre os paradoxos da Teoria Psicanalítica da Religião estabelecendo lucubrações sobre o tema da ligação entre violência e religião. Segundo a autora, dentre outras considerações “pode-se dizer que Freud escolhe a religião, em sua irredutibilidade, como metáfora conclusiva da transmissão do que está fora da ordem da representação. A religião, como experiência de linguagem, do logos (palavra), manifesta-se e esparrama-se em uma multidão, complexa e misturada, de jogos de linguagem, capaz de levar adiante uma tradição e garantir o devir”.

Oito outros artigos tecem considerações críticas acerca de questões sociais. “A adoção no Brasil: algumas reflexões”, escrito por Ana Andréa Barbosa Maux e Elza Dutra, discute a  adoção, possibilitando uma desmistificação de idéias enraizadas, como por exemplo, a de caridade. “A velhice no Estatuto do Idoso, escrito por José Sterza Justo e Adriano da Silva Rozendo, é um artigo que aponta para os aspectos positivos e negativos que possivelmente ocorrem em função de como tal manuscrito interfere no imaginário social. Em “Riso: uma solução intermediária para os racistas no Brasil” Sandra Leal de Melo Dahia discute a interface entre inconsciente e cultura, apontando para o fato de que o riso em piadas racistas é uma forma de manutenção do preconceito racial.

“Inserção profissional de recém-graduados em tempos de inseguranças e incertezas”, de Gabrielle Ana Selig e Luciana Albanese Valore, é um artigo teórico que tem por objetivo descrever e analisar como a instituição de projetos em curto prazo, a relação indivíduo-trabalho e os modos de subjetivação atuam nos cenários profissionais contemporâneos. As autoras consideram que a questão vocacional transcende as aptidões e os interesses pessoais e que se deve questionar a pertinência do termo “escolha” quando esta escolha se refere à liberdade pessoal de exercício da profissão. Concluem que o conhecimento e a reflexão crítica sobre as necessidades que regem a inserção no mundo do trabalho na atualidade deve ser objeto fundamental de discussão nas práticas da formação universitária e nos processos de escolha e de planejamento de carreira.

Suzi Mara Freitas, Daniela de Figueiredo Ribeiro e Antônio dos Santos Andrade em “O cotidiano de trabalhadores domiciliares da indústria calçadista: percepções e vivências sobre trabalho e tempo livre” buscam compreender, a partir abordagem hermenêutica-dialética, como o trabalho e o tempo livre são percebidos e vividos por indivíduos que dividem o ambiente de trabalho com o ambiente doméstico.  Foram realizadas observações e entrevistas e foi identificado que os trabalhadores percebem momentos de flexibilidade durante o trabalho e um ambiente mais descontraído em casa do que na fábrica, porém ao se colocarem como seus próprios patrões, observam desgaste de suas capacidades físicas e emocionais pela dificuldade em utilizar o tempo livre. Concluem que a camada popular estudada se insere em um contexto onde as pessoas são constantemente levadas ao cumprimento de um trabalho obrigatório, precário e mal remunerado e que os trabalhadores acreditam na aparente liberdade para determinar o seu próprio tempo de atividade, quando, na realidade, permanecem “escravizados”.

“Abrigo e abrigados: construções e desconstruções de um estigma”, de Lygia Santa Maria Ayres, Ana Paula Cardoso Coutinho, Daniele Amaral de Sá e Thainá Albernaz, é um estudo que analisa o discurso das produções acadêmicas referentes às temáticas abrigamento, convivência e destituição do poder familiar, entre os anos de 2000  a 2008. Nesta análise, as autoras identificam que a institucionalização/abrigamento é tratada, na maior parte das vezes, como um ônus, acarretando sempre prejuízos para aqueles que passam por ela. Grande parte do material levantado enfatiza os déficits das crianças ligadas à vida no abrigo, à lógica da menos-valia, do sofrimento e do abandono. Relevam, por fim, que embora crianças e adolescentes abrigadas tenham adquirido o estatuto de sujeito de direitos, esta conquista não se revela no discurso científico e a lógica determinista e estigmatizante se perpetua.

“Construindo idéias sobre a juventude envolvida com a criminalidade violenta” de Andréa Máris Campos Guerra, Jacqueline de Oliveira Moreira, Nádia Laguárdia de Lima, Bárbara Drumond da Silveira Pompeo, Camila Alves Noberto Soares, Liliany Mara Silva Carvalho e Naiane de Andrade Nascimento Pechir é um artigo que aborda o tema da violência urbana entre jovens. As autoras verificam que duas realidades se articulam: determinantes objetivos (econômicos, sócio-culturais, demográficos, arquitetônicos, entre outros) e determinantes subjetivos (forma de ocupação da vida pública por esses jovens). Evidenciam uma complexidade de fatores que se articulam na escolha pela criminalidade e são levadas a questionar essencialmente a conjuntura estrutural e também contingente dessa conjunção mais do que sua causalidade.

Regina Lopes Schimitt, Maria Paz Loayza Hidalgo e Wolnei Caumo em seu artigo “Ritmo social e suas formas de mensuração: uma perspectiva histórica” descrevem o conceito de ritmo social e suas formas de mensuração descritas na literatura dentro de uma perspectiva histórica, trazendo reflexões sobre a organização temporal da sociedade, os efeitos da incompatibilidade entre demandas sociais e ritmos biológicos no campo do trabalho e esclarecendo de que maneira o estabelecimento das relações pode ter impacto na qualidade de vida.

Dentre os manuscritos apresentados, há duas investigações baseadas em dados empíricos. Em “Quando a escola recorre à Psicologia: mecanismos de produção, encaminhamento e atendimento à queixa na alfabetização”, Marli Lúcia Tonatto Zibetti, Flora Lima Farias de Souza e Kelly Jessie Marques Queiróz utilizam-se da análise do discurso, para criticar os laudos elaborados por psicólogos a partir da queixa de problemas de aprendizagem, que tendem a reduzir o problema às questões familiares e/ou emocionais, esquecendo-se dos aspectos institucionais envolvidos na questão. O outro texto que envolveu pesquisa empírica, produzido por Ana Paula Almeida de Pereira e Krícia Frogeri Fernandes, traz como tema “A visão que o irmão mais velho de uma criança diagnosticada com síndrome de Down possui da dinâmica da sua família” e utiliza como metodologia a fenomenologia, pela qual chega à vivência do irmão mais velho, que Husserl denomina intencionalidade.

Por último temos “Modelos e análises computacionais em Neurociências: revisão sistemática”, de Álvaro Machado Dias que propõe realizar uma revisão bibliográfica sobre modelagem computacional do funcionamento cerebral, mapeando temas mais frequentemente abordados tais como o aprendizado e a memória e doenças mais modeladas computacionalmente como a epilepsia, esquizofrenia, Parkinson e Alzheimer. Destaca como projeto mais ambicioso o Blue Brain Project cuja criação é a primeira tentativa de modelagem do cérebro humano inteiro, perspectiva esta mediada pela necessidade de se modelar a estrutura do córtex pré-frontal e revelar a robustez da arquitetura neocortical.

Ainda nesta edição encontramos uma resenha elaborada por Maria Luísa Magalhães Nogueira sobre o livro “Espelhos urbanos” de Luis Antonio Baptista, onde são discutidas relações como cidade e subjetividade; loucura e sujeito; alteridade e urbanidade. Trata-se de importante contribuição, pois segundo o autor, a Psicologia pouco tem estudado sobre os processos de subjetivação que levem em conta a dimensão espacial e uma aproximação do vivido, do cotidiano. Esta edição da Revista publica, ainda, uma comunicação de pesquisa que se intitula “Atitude fenomenológica e atitude psicoterápica” de Ihana F. de A. Leal, Joana L. Sant´Anna, Joelma da C. Bueno, Letícia R. de A. Souza e Roberto N. de Sá que analisa a partir de entrevistas realizadas com psicólogos clínicos, a diferença entre a atenção do psicólogo na situação clinica da atenção no cotidiano.

Por fim, com a seção Clio-Psyché, oferecemos sistematicamente aos nossos leitores, a partir desta edição, artigos que tratam da História da Psicologia. Em “História da Psiquiatria no Brasil: uma revisão da produção historiográfica (2004/2009)”, Andrea de Alvarenga Lima e Adriano Furtado Holanda apontam a existência de lacunas na narrativa histórica e a necessidade de construção de novo espaço para a atenção à saúde mental, no país, que contemple seus determinantes históricos, em sua diversidade e multiplicidade. Em “Psicologia e história no pensamento social de Manoel Bomfim” Francisco Teixeira Portugal mostra a relevância das contribuições de Bomfim à Psicologia no que se refere à natureza social do psiquismo, bem como à defesa da formação coletiva do espírito. E ainda, em “Moncorvo Filho e algumas histórias do Instituto de Proteção e Assistência à Infância” Nelson Gomes de Sant´Ana e Silva Junior e Renata Monteiro Garcia analisam histórias do Instituto de Proteção e Assistência à Infância identificando discursos e práticas de proteção à infância impregnados de estratégias de normatização de condutas e moralização social.

Temos a convicção de que os leitores encontrarão neste número da Revista Estudos e Pesquisas em Psicologia investigações que além de ampliarem o horizonte de possibilidades de conhecimento na área, enraízam cada vez mais a disciplina em solos latinoamericanos.

 

 

Endereo para correspondncia
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