COMUNICAÇÃO DE PESQUISA

 

Formação da identidade profissional de enfermagem: uma reflexão teórica

 

Nursing professional identity formation: an ongoing theoretical review

 

 

Érick Igor*

Universidade Gama Filho – UGF, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Endereo para correspondncia

 

 


RESUMO

Estudos referentes à identidade profissional de enfermagem e sua dinâmica de formação fornece-nos, enquanto membros desta profissão, subsídios teóricos que tornam realizável a promoção da autoestima, a valorização social do profissional de enfermagem e fundamentam reflexões sobre nosso passado, presente e futuro. Trata-se de uma comunicação de pesquisa em andamento, na qual se busca discutir acerca de possíveis elementos influentes no processo de formação da identidade profissional de enfermagem e as interfaces entre os mesmos. Na presente etapa desta pesquisa qualitativa de reflexão teórica, já se mostra claro que a identidade profissional de enfermagem se forma através de sistemas complexos de elementos específicos e não específicos, e que estes interagem não sistematicamente. Destaca-se ainda a possibilidade de que os elementos apontados sejam constantemente mutáveis e alteram, desta forma, a estrutura da identidade profissional.

Palavras-chave: História da enfermagem, Identificação (Psicologia), Psicologia social, Relações médico-enfermeiro.


ABSTRACT

The studies regarding the professional identity of nursing and its dynamic of formation, provide us, as members of this profession, theoretical bases that ground our reflections about the past, present and future. Therefore, it becomes feasible the promotion of self-esteem, as well as the social valorization of nursing professional. This is an ongoing research paper in which the possible influential elements in the process of nursing professional identity formation and the interfaces among them are discussed. In the current process of this qualitative research with theoretical reflection, it is already clear that the professional identity of nursing it is constructed through complex systems of specific and non specific elements, and these elements interact to each other in a non systematic way. It is also important to highlight that they are constantly mutable and thus change the structure of the professional identity.

Keywords: History of nursing, Identification (Psychology), Psychology social, Physician-nurse relations.


 

 

Introdução

A dinâmica da construção da identidade de um indivíduo quando em sociedade é tema amplamente debatido entre cientistas do campo da sociologia, da psicologia social e da antropologia. Apesar de algumas divergências (DUBAR, 2005, p. 13), é consenso que a dinâmica psicossomática da construção da identidade se inicia com o nascimento do indivíduo. Através da observação, o indivíduo distingue os seres viventes ao redor e busca, em sua própria estrutura psicossocial, aspectos que difiram ou que se assemelhem aos dos observados.

Durante a busca pelo referencial teórico para a realização deste estudo, foram encontradas obras cuja temática refere-se à identidade profissional de enfermagem. Porém, detectou-se a necessidade de estudos que explorassem essencialmente os elementos envolvidos no processo de formação dessa identidade. Com base nessa assertiva, supõe-se necessário o desenvolvimento de trabalhos que elaborem reflexões sobre as nuances antropológicas, sociais, psicológicas e históricas ao longo da formação identitária da profissão de enfermagem. O presente manuscrito configura-se como uma comunicação de pesquisa em andamento, porém em fase de finalização, a qual se iniciou em meados de 2009 a partir do processo de fundamentação teórica de trabalho monográfico para conclusão de curso em uma determinada Universidade da cidade do Rio de Janeiro.

 

Referencial teórico

É possível se pensar a identidade como congruência de ideias, papéis, aspectos históricos e socioeconomicoculturais que formam elementos cuja função é atribuir a determinado indivíduo características únicas e impressões de si mesmo enquanto ser humano e membro de um corpo social. Assim,

[...] esses elementos conceituais tornam-se cada vez mais efetivos quando remetidos ao mundo da vida cotidiana, onde experimentam tipificações identitárias emergentes com base em marcos de referência da vida na prática, ou seja, ambiente no qual relações simbólicas e materiais se efetivam afirmativamente. (SILVA, 2005 p.28)

As relações materiais, mais tradicionalmente estudadas, coexistem à dimensão das relações simbólicas no mundo contemporâneo, porém a dimensão simbólica do social é “tida como a única em condições de incorporar todos os níveis da realidade” (MICELI, 2009, p. IX). Enquanto a:

[...] tradição materialista, por sua vez, salienta o carater alegórico dos sistemas simbólicos numa tentativa de apreender tanto seu caráter organizacional próprio (...) como as determinações que sofre por parte das condições de existência econômica e política e a contribuição singular que tais sistemas trazem para a reprodução e a transformação da estrutura social. (MICELI, 2009, p. IX)

Durante a trajetória rumo à socialização, o ser humano recebe sucessivas influências daqueles que o rodeiam. Segundo Lakatos (1990, p. 83) esse processo é denominado na sociologia como Interação Social e tem como conceito ser:

[...] a ação social, mutuamente orientada, de dois ou mais indivíduos em contato. Distingue-se da mera inter estimulação em virtude de envolver significados e expectativas em relação às ações de outras pessoas. Podemos dizer que a interação é a reciprocidade de ações sociais.

O processo de Interação Social gera o que a Psicologia Social denomina Cognição Social, a qual tem como fundamento “o processo cognitivo, por meio do qual somos influenciados por tendenciosidades, esquemas sociais e heurísticas” (RODRIGUES et al., 2009, p. 53). Influências estas que resultam em características individuais não definitivas e uma delas é a identidade.

A enfermagem atualmente é profissão autônoma e atua juntamente a qualquer outro profissional de saúde, sendo de igual valor e conhecimento científico, ao contrário do seu passado, que revela períodos de empirismo, de baixo desenvolvimento, ou períodos puramente religiosos. Corrobora-se, por conseguinte, com o ponto de vista de Vargens (1989) ao revelar que a enfermagem passou de uma atividade exercida por leigas e religiosas sem preparo à formação específica para uma profissão com formação de nível superior e com diversas pós-graduações, bem como diversos ramos de atuação.

Para a World Health Organization (1997), a enfermagem é a classe profissional mais amplamente distribuída e que detém a maior diversidade de papéis, funções e responsabilidades. Partindo do pressuposto de que os ”(...) elementos objetivos e subjetivos que compõem o mundo do trabalho, e que, ao produzir seus efeitos na esfera do cotidiano, incidem e se fazem sentir pelo trabalhador” (NETTO; RAMOS, 2010, p. 53), considera-se que conhecer os aspectos subjetivos - entre eles o processo de formação da identidade - do profissional de enfermagem apresenta-se como o caminho mais promissor para a compreensão das nuances dessa atividade e de quem a desempenha. Assim, a valorização profissional, o reforço da autoestima, uma melhor inserção na equipe multidisciplinar e a consolidação da profissão tornam-se tangíveis, assim como o sucesso da assistência de saúde, da ciência e do ensino.

 

Aspectos metodológicos

Este estudo do tipo qualitativo, bibliográfico e de reflexão teórica, busca discutir a respeito de possíveis elementos influentes no processo de formação da identidade profissional de enfermagem, bem como a suas interfaces. Para o seu desenvolvimento, lança-se mão de revisão de literatura cujo conteúdo possua aderência ao objeto desta pesquisa, de forma a contribuir positivamente com o objetivo proposto. As obras consultadas até o momento foram produzidas entre 1989 a 2009 e obtidas através de busca manual e informatizada, entre os anos de 2009 e 2010, em bibliotecas universitárias e sebos da cidade do Rio de Janeiro, bem como em periódicos científicos indexados pertencentes ao campo das ciências sociais, humanas e da saúde.

 

Conclusões preliminares e resultados esperados

Através da pesquisa em questão, será possível conjecturar que a identidade profissional de enfermagem se forma através de sistemas complexos de elementos específicos e não específicos que interagem não sistematicamente. Como elementos não específicos, serão apontados os elementos encontrados cuja essência abrange todo e qualquer tipo de identidade. Como elementos específicos, serão apontados os elementos que possuem especificidade à profissão de enfermagem. Esses elementos serão re-divididos em subgrupos, listados e analisados de acordo com a área a qual pertencem. Não é intento, neste estudo, delimitar todos os elementos, mas sim apontá-los parcialmente e revelar suas inter-relações. Assim, é possível indicar caminhos para que futuros estudos possam explorá-los de forma individual e também integrada, bem como indicar outros elementos que também integrem o sistema complexo da identidade profissional de enfermagem.

 

Referências Bibliográficas

DUBAR, C. A socialização: construção das identidades sociais e profissionais. São Paulo: Martins Fontes; 2005.

LAKATOS, E. M. et al. Sociologia Geral. São Paulo: Atlas, 1990.

MICELI, S. Introdução à Força do Sentido. In: BOURDIEU, P. A Economia das Trocas Simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2009, p. VIII–IX.

NETTO, L. F. S. A.; RAMOS, F. R. S. Considerações sobre o processo de construção da identidade do enfermeiro no cotidiano de trabalho. Rev. Latino-Am. Enfermagem, v. 12, n. 1, p. 50-57, fev. 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-11692004000100008&lng=en>. Acesso em: 01 fev. 2010.

RODRIGUES, A; ASSMAR, E. M. L.; JABLONSKI, B. Psicologia Social. Petrópolis: Vozes; 2009.

SILVA, R. Introdução à Sociologia. São Paulo: Pearson Prentice Hall; 2005.

VARGENS, O. M. C. O Homem Enfermeiro e sua Opção pela Enfermagem. 1989. 189p. Dissertação (Mestrado) - Escola de Enfermagem da USP, São Paulo.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Nursing practice around the world. Geneva, 1997. (Nursing/Midwifery - Health Sistems Development Programme). Disponível em: < http://whqlibdoc.who.int/hq/1997/WHO_HDP_NUR-MID_97.5.pdf>. Acesso em: 14 agosto 2010.

 

 

Endereo para correspondncia
Érick Igor dos Santos
Rua Alcobaça, 630, casa 13, Vila Azul, Ricardo de Albuquerque, CEP 21640-002, Rio de Janeiro – RJ, Brasil
Endereço eletrônico: erickigor.enf@gmail.com

Recebido em: 27/04/2010
Aceito para publicação em: 24/08/2010
Acompanhamento do processo editorial: Ariane P. Ewald

 

 

Notas

*Enfermeiro e Pós-Graduando em Saúde Coletiva pela Universidade Gama Filho – UGF; aluno especial da disciplina Teoria das Representações Sociais do Instituto de Psicologia Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ. Servidor do Ministério da Saúde.



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