TRADUÇÃO

 

Sobre a possibilidade de construo de uma Filosofia Concreta em Herbert Marcuse

 

 

Jorge Coelho Soares*

Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Endereço para correspondência

 

 

Resumindo o sentido dessas questes, no se
deve, para comear, reconsiderar a
filosofia a partir da existncia humana concreta e question-
-la a partir dessa existncia?
Herbert Marcuse

 

Entre os pensadores da Escola de Frankfurt, Herbert Marcuse (1898-1979) , certamente, o mais otimista. Mais resolutamente hegeliano e ligado ao potencial utpico das reflexes de Marx do que Adorno e Horkheimer. Durante sua trajetria intelectual, nunca perdeu a esperana na possibilidade de construo de um mundo reconciliado pela superao de suas contradies. Seu pessimismo aparente no era seno a expresso de um otimismo sem iluses.

Os trabalhos do "jovem Marcuse" representam a primeira tentativa original de construir e desenvolver um marxismo fenomenolgico, sob influncia de Heidegger. De 1928 a 1932 Marcuse, sob a orientao de Heidegger, elaborou uma tese sobre a Ontologia de Hegel e a Teoria da Historicidade. Porm, desde 1925, Marcuse comeou tambm uma aproximao intelectual, sistemtica, com a obra de Marx (1818-1883). Sua obra, da em diante, esteve sempre marcada pela sua presena, quer fazendo dele o seu interlocutor privilegiado, quer dialogando criticamente com os pensadores, classicamente considerados como os grandes "interlocutores" de Marx, como o caso de Hegel (1770-1831). Marcuse foi tambm o primeiro filsofo, em 1932, a publicar uma resenha crtica e interpretativa1 dos Manuscritos Econmicos e Filosficos de Marx, que acabavam de ser publicados por Landshut e Mayer. Este livro, escrito por Marx em Paris nos primeiros meses de 1843, composto de uma srie de escritos onde ele esboava uma concepo humanista do comunismo, "influenciada pela filosofia de Feuerbach e baseada num contraste entre a natureza alienada do trabalho no capitalismo e uma sociedade comunista, na qual os seres humanos desenvolveriam livremente sua natureza em produo cooperativa" (MCLELLAN, 1988, p. 239.) Estes manuscritos, mais tarde conhecidos como Manuscritos Econmicos Filosficos, permaneceram inditos at 1930.

Marcuse, tanto quanto Marx, acreditava na fora revolucionria da Filosofia e via na mesma um manancial frtil e inesgotvel de reflexo para dar conta do homem no mundo, a partir do qual sempre acreditou poder elaborar uma Filosofia Concreta como instrumento de luta e libertao.

Objetivando concretizar a tarefa de construir esta Filosofia Concreta, publicou entre 1928 e 1932 uma srie de artigos na Revista Gesells-chaft, bem como na Archiv fr Sozialwissenchaften und Sozialpolitik. Destes artigos, quatro se destacam: Beitrge zu einer Phnomenologie das Historischen Materialismus (1928), ber Konkrete Philosophie (1929) e Zum Problem der Dialektik (Parte I em 1930, Parte II em 1931) e Transzendentaler Marxismus (1930)2.

Destes textos, o ber Konkrete Philosophie o que melhor demonstra esta tentativa de Marcuse de amalgamar tendncias que, naquela poca - no "calor" da recentssima publicao de Ser e Tempo e no contexto da crise da Repblica de Weimar - poderiam esconder as contradies, que hoje so to "fceis" de apontar.

Por outro lado, o impacto intelectual de Heidegger sobre Marcuse tinha sido considervel, o que nunca foi negado por ele. Marcuse, durante algum tempo, acreditou tambm que as idias de Heidegger e Marx poderiam confluir na mesma direo, fertilizando-se mutuamente e preenchendo as lacunas que ambas possuam.

No marxismo, que se apresenta como uma "cincia estrutural" onde todos os fatos histricos esto relacionados a estruturas mas no existncia humana, h sempre o perigo de se descartar o ser humano real e concreto das anlises e se cair, por exemplo, num economicismo esterilizante e burocrtico. Heidegger, por sua vez, trabalha com abstraes da realidade, fala em historicidade mas nunca em histria real. Marcuse acreditou que a havia uma lacuna a ser preenchida pelo materialismo histrico para o qual "ensinaria" a Heidegger que a histria se cristaliza nas relaes sociais concretas, nas relaes de produo e poder. Em 1929, Marcuse tenta demonstrar que esta dupla fecundao era vivel.

Inicia o texto ber Konkrete Philosophie com uma nota, que serve ao mesmo tempo de esclarecimento de suas intenes, de tributo ao mestre - que ele via como seu matre penser naquele momento - e explcita declarao do que mais tarde ser visto por ele como um equvoco:

O presente estudo tenta resgatar, a partir da posio que o livro de Heidegger Sein und Zeit elaborou para a filosofia fenomenolgica, a possibilidade de uma filosofia concreta e sua necessidade na situao atual (MARCUSE, 1969, p. 121).

Marcuse deixou claro que o seu objetivo, ao escrever este texto, era no somente o de aceitar como sua a problemtica heideggeriana de Ser e Tempo, mas retirar da os elementos fi-losficos que poderiam compor o que ele imaginava que fosse uma Filosofia Concreta. Esta interpretao de Marcuse em relao a obra mxima de Heidegger, hoje apontada unanimemente como um equvoco. Em Heidegger, esta exigncia de um "concreto" totalmente estranha e deslocada.

A perspectiva de Marcuse se apresenta, ento, fundamentalmente em contradio com a reflexo ontolgica de Heidegger e

(...) quando Marcuse emprega a palavra Dasein, pode-se duvidar que ele d a este termo o mesmo sentido a ele atribudo pelo autor de Sein und Zeit (PALMIER, 1973, p. 20).

Nada mais estranho abordagem heideggeriana, do que tomar uma fbrica como objeto possvel de anlise fenomenolgica. E exatamente isto que Marcuse fez: "Tomemos um exemplo. Eu olho a fbrica que est diante de mim" (MARCUSE, 1969, p. 130 e sgts). E nas pginas seguintes ele tentou, seguindo o mtodo fenomenolgico, chegar essncia do que , em si, a fbrica - ao mesmo tempo que ressaltava a "historicidade do objeto fbrica e de sua ligao semntica com a existncia humana" (p. 141).

Marcuse definiu tambm neste texto o que ele considerava o objetivo da atividade filosfica: a Filosofia Concreta almejada por ele, teria por misso precpua superar a inautenticidade da existncia, permitindo a supresso de suas causas histricas materiais. Desta forma, a filosofia poderia, finalmente, realizar o que ele considerava a mais nobre misso: "unir a teoria e a prtica" (MARCUSE, 1969, p. 131).

O texto Sur la Philosophie Concrte, submetido por Marcuse mais tarde, a um olhar mais apurado e crtico, se revelou ele mesmo como uma tentativa frustrada e mesmo equivocada de estruturar as bases de uma Filosofia Concreta. A angstia de uma existncia humana concreta historicamente determinada, foi a razo de todos os seus escritos posteriores e j que desde 1929, Marcuse estava persuadido de que a filosofia no poderia separar o mundo da sua insero numa significao histrica, que lhe daria sentido. Desta forma, o seu projeto de descrio fenomenolgica da existncia alienada pelo capitalismo - meramente esboada no fim dos anos 20 e incio dos anos 30 - s tomou sua feio acabada nos anos 50.

Por outro lado, Marcuse posteriormente percebeu tambm que, para estabelecer os fundamentos do seu pensamento negativo, da sua teoria crtica da existncia, concreta e historicamente determinada, era necessrio estabelecer novas parcerias tericas. E ele as fez, atravs de Marx, de Hegel e, mais tarde, com Freud.

Poderamos por fim, resumir os objetivos de todos os seus escritos entre 1928 e 1932, onde o texto Sur la Philosophie Concrte o mais representativo desta sua fase apontando algumas de suas caractersticas: Marcuse definiu o carter profundamente prtico e poltico de sua concepo de filosofia, cuja meta a anlise e transformao da existncia concreta dos indivduos; ele tentou reunir e amalgamar influncias contraditrias, que haviam marcado profundamente suas reflexes iniciais, como as advindas de Heidegger, Husserl, Lukcs, Kierkegaard, Hegel e Marx; ele procurou tambm deixar claro sua independncia em relao a todas as principais correntes filosficas do seu tempo. Apesar do esforo de alguns tericos posteriormente, no possvel, efetivamente, enquadr-lo como "discpulo" de Husserl, menos ainda de Heidegger, ou ainda como um marxista ortodoxo, ou mesmo como um clssico hegeliano.

De qualquer forma, estes escritos j deixavam claro que Marcuse j havia formulado para si mesmo as questes essenciais que norteariam toda a sua reflexo subsequente. Neles, Marcuse j se perguntava sobre os fundamentos de uma existncia concretamente autntica e como seria possvel viv-la nas condies objetivas de uma histria em movimento. Toda a sua obra futura, em essncia, foi a tentativa de responder a estas questes.

Quanto a Heidegger, Marcuse viu sempre nele um grande filsofo, que construiu uma obra de imenso significado, mas que ignorou os problemas concretos e essenciais do mundo contemporneo. Somente muito mais tarde, j nos anos 50 e 60, que Marcuse conseguiu explicitar a sua "superao" do pensamento original heideggeriano e criticar a Heidegger, como um filsofo que optou viver "fora do mundo". Heidegger que ele enderea uma nota de rodap colocada na sua obra de 1964:

Para evitar mal-entendido: no creio que a Frage nach dem Sein e perguntas similares sejam ou devam ser uma preocupao existencial. O que foi significativo nas origens do pensamento filosfico, bem se poder ter tornado destitudo de significado no seu fim, e a perda de significado pode no ser decorrente da incapacidade de pensar. A histria da humanidade deu respostas definidas "questo do ser" e o fez em termos bastante concretos, que provaram sua eficcia. O universo tecnolgico uma delas (MARCUSE, 1967, p. 136).

Marcuse conservou, porm, para sempre, o que Abbagnano chamou de "impulso heideggeriano". Foi um fiel herdeiro de suas inquietaes filosficas. Sempre houve entre eles uma diferena essencial: para Marcuse, o que sempre lhe interessou foi o homem como ser no mundo, ancorado e prisioneiro de uma histria em movimento, o homem como uma realidade concreta e social. Para Heidegger, o homem foi sempre "um locus ou uma voz do Ser" (ABBAGNANO, 1982, p. 2105).

 

Referências Bibliográficas

ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1982.

HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 1988/1993. 2v.

McLELLAN, D.; MARX, K. H. In: BOTTOMORE, T. Dicionário do Pensamento Marxista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988, p. 238-240.

MARCUSE, H. Philosophie et Révolution. Paris: Denël/Gonthier, 1969.

______. Ideologia da Sociedade Industrial . Rio de Janeiro: Zahar, 1967.

PALMIER, J. M. Marcuse et la Nouvelle Gauche. Paris: Pierre Belfond, 1973.

RAULET, G.; MARCUSE, H. In: Philosophie de L'Émancipation. Paris: PUF, 1992.

UNIVERSELLE. Les Œuvres Philosophiques. v.1. Paris: PUF, 1992. 2v., p. 1878-1888.

VANDENBERGHE, F. Une histoire critique de la sociologie allemande. Aliénation et réification. Tome II. Paris: La Découverte, 1998.

 

 

Endereço para correspondência
Jorge Coelho Soares
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ
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Notas

*Psicólogo; Doutor em Comunicação e Cultura – UFRJ; Professor Adjunto e pesquisador do Instituto de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
1Marcuse, Neue Quellen zur Grundlegung des Historischen Materialismus, publicado originalmente na revista Die Gesellschaft, Vol. IX, 1932. Este texto foi traduzido para o português por Vamireh Chacon em 1968 - Editora Tempo Brasileiro - com o título de Novas Fontes para a Fundamentação do Materialismo Histórico.
2O primeiro artigo citado, foi publicado pela Revista Philosophische Hefte; o segundo na Archiv für Sozialwissenchaften und Sozialpolitik; o terceiro e o quarto na Revista Die Gesellschaft.



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