ARTIGOS

 

Política, Praxis e Pseudo-Atividade em Adorno1

 

Politics, praxis and pseudo-activities in Adorno

 

 

Wolfgang Leo Maar*

Universidade Federal de So Carlos - UFSCar, So Carlos, SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Ao contrrio da sua propalada averso prxis, Adorno situa em sua obra a prtica em um nexo fundamental com suas posies tericas e vice-versa. O objeto de sua apreenso terica a sociedade como auto-produo humana em todas as suas dimenses. As prprias formas sociais da sociedade so tambm socialmente produzidas. Assim a poltica no deve ser encarada como prtica no plano da sociedade, mas no plano da produo histrica e social da mesma. Na sociedade vigente, as formas sociais parecem formas naturais perenes; o que seria prxis poltica se instala como pseudo-atividade de sujeitos assujeitados objetivamente numa ordem meramente adaptativa. Como construo do todo social verdadeiro, a poltica deve levar em conta estas determinaes sociais que a condicionam na sociedade atual, decifrando-as em sua gnese; no pode prescindir da teoria para conferir objetividade ao ao intervir na prpria produo destas determinaes.

Palabras claves: Adorno e Prxis, Dialtica de Teoria e Prtica, Teoria Crtica e Poltica, Adorno e Objetividade Social.


ABSTRACT

Although one finds very often assertions that Adorno has an aversion for praxis, this is a basic and foundational concept, articulated to Adorno's theoretical stand. The subject matter of Adorno's theoretical apprehensions is society understood as human self-production in all its dimensions. The social forms of society are, themselves, socially produced. Therefore politics should not be taken only as praxis on the realm of society, but it must be taken on the realm of its social and historical production. Social forms of the present society seem to be natural and immutable; what should be taken as political praxis appears as pseudo-activities of subjects that are objectively submitted to a merely adaptive order. Politics, as a construction of the true social whole, should take into account the social determinants of its existence in the present society, deciphering its genesis. Politics, to be objective in its actions to intervene in the determiners of its own production, cannot exist without theory.

Keywords: Adorno and Praxis, Dialectics of theory and praxis, Critical theory and politics, Adorno and social objectivity.


 

 

1966. Vspera de Ano Novo. O reprter entrevista o
famoso professor Adorno:
- O que deixa o senhor contrariado nas declaraes
da imprensa?
- Que eu seja cada vez mais avesso prtica,
contrariando minhas prprias convices tericas.
(ADORNO, GS - Bd. 20-2, p. 737/8)

 

1. Antes de mais nada cabe enfatizar que Adorno foi muito atuante em intervenes pblicas - em manifestaes e atos pblicos, em palestras, na imprensa escrita, no rdio, na televiso, em aulas - para discutir a situao poltica e social que lhe era contempornea. Aps seu retorno Alemanha e bem antes de Marcuse, Adorno consolidara-se durante mais de uma dcada como destacado intelectual de esquerda engajado na vida pblica. Assim posiciona-se muito alm da empalidecida imagem que se possa ter de um simples professor com presena miditica, para nem mencionar o imobilismo enfeitiado beira do abismo sugerido por Lukcs.

Contudo, mais do que meramente corrigir uma verso vigente de sua imagem, a resposta de Adorno pretendia destacar a perspectiva de apreenso da prtica em sua obra de crtica social. Adorno situa explicitamente a prtica em nexo fundamental com as suas posies tericas. E neste contexto das relaes entre teoria e prtica - no seria por acaso que o ttulo de um de seus ltimos ensaios, postumamente publicado, Notas acerca de teoria e prtica (Marginalien zu Theorie und Praxis) - h que se aprender o prisma da poltica segundo Adorno.

Apenas acompanhando a perspectiva da teoria crtica da sociedade de Adorno possvel apreender adequadamente a centralidade da prtica segundo seu ponto de vista. Meu intuito aqui destacar a perspectiva social e poltica apresentada por Adorno com a profundidade necessria e adequada apreenso de sua maneira de delimitar a prtica.

A grande contribuio de Adorno - e de todos os "frankfurtianos" da primeira gerao, embora de maneira menos incisiva, exceo feita a Marcuse que nisso se identifica totalmente com Adorno - apreender a realidade social como auto-produo humana em todas as suas dimenses. O "ser", aquele que, segundo a teoria, determina a "conscincia", ser histrico-social, auto-produzido pelos homens em sua interao social entre si e com a natureza, em sua prxis. Eis a nova objetividade filosfica que fora tomada pela "raiz" por Marx, o novo objeto que o mesmo decifra para concluir em razo disto que a "conscincia" (Bewusstsein) a rigor se configura como "ser consciente" (bewusstes Sein); ou seja: cincia ou conhecimento de si da realidade efetiva desta autoproduo, para usar os termos com que Lukcs se refere ao problema em Histria e Conscincia de Classe.

Este o objeto a quem Adorno confere prioridade. A teoria crtica de Adorno apreende a sociedade no seu processo de reproduo material e histrico, como mediao e no como fato imediato. Isto : sempre j como resultado prtico da ao determinada em formas sociais determinadas por indivduos sociais determinados. O mundo dos homens j sempre feito; como Adorno gostava de dizer: zugerichtet, usando o termo alemo de uso cotidiano para se referir, inclusive, feitura de receitas culinrias.

Levada s suas ltimas razes, a perspectiva que diferencia prioritariamente Adorno sua insistncia em que tambm as formas sociais da sociedade j so socialmente determinadas, so objetivamente determinadas para serem determinantes no sentido da perenizao prtica da realidade objetiva vigente. Seria justamente esta dominao pela forma social em sua objetividade que impeliria Adorno a uma teoria esttica. Por sua vez, segundo a perspectiva de Adorno, a poltica a ao que leva em conta a objetividade destas determinaes, atuando no prprio plano em que tais determinaes se formam por ao dos homens no processo de reproduo social e material da sociedade.

Sua obra pode ser lida em grande parte como o decifrar da gnese, da produo histrica dessas determinaes sociais objetivas do social e o refletir acerca das consequncias dessa dupla determinao social da realidade nas vrias esferas da atividade humana, seja no mbito da poltica, seja no mbito da cultura etc.

Para Adorno, no contexto de uma sociedade objetivamente determinada em sua forma social, como "um todo (que) o no verdadeiro" conforme o pargrafo 29 da Minima Moralia (ADORNO, GS - Bd. 4, p. 55), a poltica no sentido de construo de um todo social verdadeiro s efetiva quando diz respeito ao plano de produo DA sociedade, da produo das determinaes sociais objetivas, e no quando situada meramente NA sociedade, subordinada a determinaes objetivas. Isto : a praxis poltica precisa referir-se prioritariamente s determinaes sociais objetivas da sociedade vigente.

Precisamente por isto a teoria necessria para a perspectiva adequada da prtica, decifrando as condies sociais objetivas da mesma. Neste sentido no existe somente uma identidade entre teoria e prtica, mas tambm uma confrontao entre ambas, j que teoria cabe fazer a crtica da prtica objetivamente condicionada pelo vigente.

Como se afirma em Notas acerca de teoria e prtica, ao contrrio do ponto de vista pragmtico, a prtica no o critrio de verdade da teoria (ADORNO, GS - Bd. 10-2, p. 189). O funcionamento real praticado na sociedade se d sob determinadas determinaes sociais cujos efeitos constituem a realidade social vigente; desse modo, o critrio de verdade da prtica est no contexto da adequada apreenso das determinaes sociais da prtica real, decifradas pela teoria crtica. Ele tem como ncleo histrico a possibilidade da negao determinada.

Este primeiro momento da poltica, que o da crtica da poltica vigente, no significaria, contudo, apenas uma poltica negativa, pela qual s se sabe o que no fazer. Esta somente uma viso subjetiva do negativo, que se concentra na orientao dos sujeitos envolvidos tendo como baliza meramente a ordem vigente.

Mais importante e decisivo, porm, que este negativo seja apreendido objetivamente, ou seja, apreendido no que se refere s determinaes sociais objetivas da prpria prtica poltica daqueles sujeitos que so os indivduos constitudos na sociedade vigente. Neste sentido, a poltica negativa no se orienta como prxis pelo que no deve ser feito, porque o feito mera adequao reprodutora do vigente. Mas se orienta sim pelo que se h de fazer para negar praticamente uma realidade "negativa", determinada socialmente. Negar objetivamente as condies que, ao determinarem socialmente a poltica, obstruem a mesma pela adequao estrita ordem imperante.

No dizer dos autores da Dialtica do Esclarecimento:

No o bem mas o mal o objeto da teoria. Ela sempre pressupe a reproduo da vida nas formas respectivamente determinadas. Seu elemento a liberdade, seu tema a sujeio. (ADORNO, GS - Bd. 3, p. 247)

O ponto de partida, o pressuposto que a rigor no "pressuposto", a reproduo da vida nas formas respectivamente determinadas. Ou seja: o prprio processo de reproduo material. Mas este processo tambm socialmente determinado, uma mediao, a realidade da sujeio como liberdade negada.

El único instrumento que puede ‘medir’ el tiempo son los relojes, que en verdad no hacen otra cosa que medir su propio ritmo auto producido, o dicho en otras palabras: los relojes no son otra cosa que contadores de oscilaciones anteriormente producidas con la intención de tener un movimiento que se repite en lo ideal eternamente con las mismas características. La idea de la repetición de momentos cualitativamente iguales es la base de construcción de los relojes que a su vez nos sugieren la existencia objetiva de este tiempo lineal, meramente cuantitativo y sin cualidades específicas. Esta idea del tiempo lineal es relativamente vieja, pero alcanza su fuerza actual con la aparición de relojes cada vez más exactos y baratos, es decir omnipresentes y con la forma económica que se basa exclusivamente sobre el aspecto cuantitativo del valor o del tiempo lineal.

Em outros termos: o "mal" j efeito de uma prtica, uma realidade que conforme o prisma adorniano se encontra zugerichtet, adequada continuidade da ordem vigente. Assim a prtica objetivamente negativa da negao determinada se refere a uma realidade social determinada que alienada; portanto trata-se de negar a negao. Para tanto se exige um referencial que ultrapasse o mbito do estabelecido, possibilitando focalizar a prpria produo das determinaes sociais. a isto que se refere o clebre lema que caracterizou os frankfurtianos: Nicht mitmachen! (No coonestar pela participao!) preciso desrespeitar o estabelecido, ultrapassar as formas sociais determinadas e consolidadas, tomando como foco justamente a o processo de produo social destas formas sociais. O tema surge na Dialtica do Esclarecimento:

Visto que a história enquanto correlato de uma teoria unitária, como algo de construível, não é o bem, mas justamente o horror, o pensamento na verdade é um elemento negativo. A esperança de uma melhoria das condições funda-se menos nas condições garantidas, estáveis e definitivas, do que precisamente na falta de respeito por tudo aquilo que está tão solidamente fundado no sofrimento geral. (ADORNO, GS – Bd. 3, p. 255/6)

Ecoa aqui de modo claro a “inexorável crítica” de Marx a todas “as condições que sujeitam os homens” da Introdução à Crítica da “Filosofia do Direito” de Hegel, pois também os homens não são “garantidos”, mas socialmente gerados em determinadas condições. Também Adorno e Horkheimer, num movimento em direção à recuperação social e material do prisma dialético, referem o pensamento negativo ao plano constitutivo da esfera social determinada da adequação, ultrapassando o plano das “condições garantidas, estáveis e definitivas”.

2. Desde o início o grupo de intelectuais reunido em torno ao Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt conviveu com a questão das determinações objetivas das formas sociais da objetividade social. Ela pode até mesmo ser considerada o núcleo temático prioritário da teoria crítica da sociedade. O assunto preferencial da política dos anos vinte do século passado foi a constatação de que a figura do proletariado revolucionário, em que se depositara as esperanças da emancipação, ficara “invisível” (unsichtbar) no contexto de uma classe trabalhadora cada vez mais integrada e à vontade na sociedade capitalista. Este quadro corresponderia justamente a esta determinação social do social, no caso a própria força de trabalho apreendida no plano das forças produtivas. Por essa via, as forças produtivas se aproximam do próprio caráter de classe das relações sociais de produção, são por elas determinadas em sua forma social e dessa maneira obstruem a contradição entre ambas.

A determinao social das formas sociais constitui justamente a moldura que delimita o quadro de uma sociedade "totalmente administrada", de um "todo que o no-verdadeiro", figuras da totalizao da determinao social capitalista apreendida na teoria crtica.

“En la filosofía, uno puede imaginar un equivalente de ese mecanismo; está hecho para que venza siempre el muñeco que conocemos como ‘materialismo histórico’. Puede competir sin más con cualquiera siempre que ponga a su servicio a la teología, la misma que hoy, como se sabe, además de ser pequeña y fea, no debe dejarse ver por nadie.” (BENJAMIN, tesis I, 2008, p. 35).

A perspectiva da prtica em Adorno um testemunho radical da onipresena da influncia terica de Marx. Como j enfatizado antes, quando este afirma na ltima de suas famosas Teses sobre Feuerbach que "os homens s interpretaram o mundo de modos diferentes, cabe transform-lo", insiste na perspectiva histrica materialista de apreenso do mundo enquanto objeto auto-produzido pelos homens. Isso , como produto de uma prtica, "j transformado", a ser "transformado" e que s se pode "transformar a si prprio", isto , em relao ao qual s se pode agir adequadamente nos termos de uma prtica aprendida no como aplicao de um sujeito exterior mesma, mas como prxis em que o nexo com o sujeito imanente ao objeto.

Assim, ao revelar a construo objetiva da formao social presente, Adorno, ao contrrio do resignado pessimismo equivocadamente associado sua obra, apresenta, isto sim, uma alternativa prtica real efetiva tendncia totalizao social dominante. Esta alternativa transita necessariamente pelo decifrar das determinaes sociais resultantes da produo da realidade em que os homens se inserem e culmina com a negao determinada destas determinaes.

A questo est presente logo no prefcio da Dialtica do Esclarecimento, como divisor de guas da perspectiva da teoria crtica em relao s teorias marxistas da poca. Assim afirmam Horkeimer e Adorno:

O que nos propusemos de fato no era nada menos do que apresentar o conhecimento de porque a humanidade, em vez de adentrar em uma situao verdadeiramente humana, afunda em um novo tipo de barbrie. Ns subestimamos a dificuldade da apresentao porque ainda confivamos em demasia na conscincia vigente. (ADORNO, GS - Bd. 3, 11).

Cabia desconfiar da "conscincia vigente" e apreend-la tambm no mbito das determinaes sociais objetivas do processo de reproduo da sociedade vigente. As prprias formas da cincia vigente so socialmente determinadas, ao mesmo tempo em que a cincia assim determinada incapaz - porque foi gerada deste modo determinado - de possibilitar a perspectiva da totalidade que facultaria a decifrao dessas suas determinaes sociais. J Georg Lukcs denunciara este problema em Histria e Conscincia de Classe, desafiando o marxismo de vis cientificista da poca a desenvolver um posicionamento crtico de que era incapaz.

Tambm na Minima Moralia, todo o esfro da apresentao da experincia individual particular em sua dialtica de subjetividade e objetividade, pode tambm ser inserida nessa temtica das determinaes objetivas da subjetividade. As determinaes objetivas teriam sido levadas to a srio por Hegel - em sua crtica moralidade, por exemplo - que, para parafrasear a conhecida frase de Adorno em relao a Freud, no exagero que a aniquilao do particular subordinado determinao da universalidade abstrata, reside a verdade de sua concepo como perspectiva da totalidade. Interessa a Hegel proporcionar, pela dialtica, o nexo entre as formas sociais determinadas e o contedo efetivo a que correspondem, que se oculta naquelas formas. O tema aparece na obra hegeliana como nexo dialtico entre o universal e o particular e explicado por Adorno num trecho do seu livro Tres estudos sobre Hegel. Adorno explicita a questo a partir da dialtica entre o particular e o universal na obra de Hegel.

O universal sempre simultaneamente o particular e o particular, o universal. Na medida em que a dialtica desdobra este nexo, ela corresponde ao campo de foras social: em que todo o individual j est pr-formado socialmente, mas em que tambm nada se realiza a no ser atravs dos indivduos. (ADORNO, GS - Bd. 5, p. 289)

Na sociedade civil burguesa a relao entre o particular e o universal antinmica. Hegel expressaria esta antinomia, segundo Adorno, pela nulidade que confere aparncia da individualidade real emprica em que se realizaria a liberdade burguesa, "o indivduo gerado no contexto da ausncia universal de liberdade como se j fosse livre e universal". (ADORNO, GS - Bd. 5, p. 290) No horizonte hegeliano no h, portanto, uma dissoluo do nexo entre particular e universal, mas sim uma recusa da realizao abstrata, ideal, da conciliao do particular e do universal na sociedade civil-burguesa.

Ainda nessa mesma direo cabe tambm acompanhar os derradeiros escritos de Adorno, em especial o j citado Notas acerca de teoria e prtica. Aqui encontra-se uma sntese finamente elaborada da questo da prtica e das determinaes sociais objetivas do social.

A prioridade do objeto h que ser respeitada pela prtica; em sua crtica tica da convico moral de Kant, o idealista Hegel assinalou isto pela primeira vez. Na medida em que o sujeito, ele prprio, por sua vez, algo mediatizado, a prtica apreendida corretamente o que o objeto quer: ela segue as suas necessidades. Mas no mediante uma adaptao do sujeito, que meramente consolida a objetividade heternoma. As necessidades do objeto so mediatizadas pelo sistema social como um todo; por isto s so determinveis criticamente por meio da teoria. A prtica sem teoria, num plano inferior ao estado mais desenvolvido do conhecimento, obrigada a no dar certo, e conforme seu conceito a prtica pretende dar certo. Uma falsa prtica no prtica. O desespero que, por encontrar barradas as sadas, impulsiona cegamente, apesar das melhores intenes termina por conduzir ao desastre. (ADORNO, GS - Bd. 10-2, p. 766)

O texto denso extremamente didtico. Transparece com toda clareza a imposio das "necessidades do objeto" na prpria forma social do todo social. Indica-se o plano do conhecimento a ser adequadamente provido pela teoria em seu trabalho de decifrar as determinaes que se apresentam mediatizadas no sistema social como um todo, na sociedade vigente como tal. Por isto impe-se a necessidade da teoria em seu trabalho de interpretar, de esclarecer o contedo real que se abriga nesta forma social determinante. Adorno confere destaque a esta questo em um trecho um pouco adiante do texto citado, ao se referir ironicamente leitura ingnua da ltima das Teses sobre Feuerbach, de que "os filsofos at ento apenas interpretaram o mundo". A rigor esta "interpretao" decifra um outro contexto de "transformao" j realizada, aquela que, embora oculta e difusa, se encontra porm objetivada na forma social da sociedade vigente, reafirmando assim a tese de Marx numa escala a mais. A prtica a que deu certo na reproduo realizada do sistema social, embora como todo no-verdadeiro. Este processo de reproduo deve ser o ponto de partida para apreender adequadamente as condies da prtica, e no alguma "inteno" emancipatria, algum ideal a ser efetivado.

H aqui um ntido materialismo presente, companheiro fiel de Adorno. Num protocolo de discusses acerca da dialtica datado de 1939, publicado no volume 12 dos Escritos de Horkheimer, Adorno explicitara seu ponto de vista:

O conceito de dialtica tem sido usado at hoje, inclusive na discusso marxista, de um modo essencialmente idealista, isto , conclui-se a partir de um movimento conceitual e geral rumo ao movimento particular e especfico na histria (...) esta concepo insuficiente, pois mesmo quando o contedo da doutrina afirma o contrrio, por sua forma ela mantm a pretenso da subjetividade em dominar o mundo mediante seus conceitos. O problema da dialtica, portanto, determinado segundo dois aspectos: por um lado, a situao dada em que a reflexo deve se apoiar, tambm constituda dialeticamente e no um ponto de partida absoluto para a construo dialtica. Por outro lado, esta construo dialtica inconseqente, enquanto no estiver imediatamente presente a partir duma anlise da situao dada. (HORKHEIMER, 1985, p. 527/8)

No s se parte de uma situao dada concreta, em vez de se subordinar a uma conceituao geral. Alm disto esta situao dada no pode ser apresentada como absoluta, mas tambm constituda. Por sua vez, a dialtica s ser efetiva se estiver presente nesta situao dada, e no for imposta exteriormente mesma.

Existem assim duas dimenses a serem levadas em devida conta. Por um lado, o social precisa ser revelado na objetividade, em que ele se encontra congelado. Mas isto no basta, porque a forma deste social tambm socialmente determinada. Impe-se por outro lado, portanto, decifrar as determinaes objetivas presentes nesta forma social. H que se decifrar o contedo gerado como consequncia destas formas determinadas, consequncia que justifica as mesmas. O escopo da elaborao terica dialtica ser assim decifrar o nexo em que as determinaes sociais correspondem a determinadas realidades sociais. Ou seja, investigar a situao dada vigente na sua anlise em sua gnese histrica, conforme a dinmica de sua produo, em vez de pressupor uma interpretao que, embora dialtica, fosse regressiva a partir do produto, partindo de formas sociais pressupostas e no elas prprias tambm produzidas.

Em Sujeito e Objeto, texto que precede e condiciona o ensaio Notas acerca de teoria e prtica constituindo os Epilegmenos dialticos, Adorno explicita mais detalhadamente esta elaborao terica. Caberia decifrar as determinaes objetivas deste momento subjetivo, evitando deter-se satisfeito na revelao simples do social presente na objetivao. Esta dupla reflexo social constitui a profundidade necessria para apreender a dialtica da produo e da transformao histrica, para alm da mera interpretao da sociedade j instalada. Adorno denominaria esta dupla reflexo de "segundo giro copernicano" (zweite kopernikanische Wendung) (ADORNO, GS - Bd. 10-2, p. 746) A questo encontra-se referida tambm na introduo da Dialtica Negativa. (ADORNO, GS - Bd. 6, p. 10 ).

No basta apenas referir-se ao momento subjetivo ou social presente na sociedade objetivada. Alm disto este momento precisa ser decifrado em seus prprios momentos, tambm socialmente determinados em sua produo. Como se ver adiante, eis a verdadeira densidade do que apreendido no mbito do chamado "fetichismo da mercadoria". Adorno no se contenta em decifrar em sua objetividade o social que est subsumido no objeto aparentemente natural, na "segunda natureza".

Mas procura, alm disso, decifrar o social em sua subjetividade, revelando o momento subjetivo deste sujeito social, a gnese histrica da produo (o subjetivo) das formas sociais determinadas do social, a conscincia burguesa. No se trata de uma decifrar interpretativo regressivo, mas sim de uma explicao que revela o que decifrado como uma produo - no "s" produto - socialmente determinada. Est em pauta aqui o valor de uso do trabalho enquanto mercadoria-trabalho que tambm valor de troca. Mostra assim a contradio e as possibilidades desse social, a serem expostas pela prxis correspondente ao que, no plano conceitual, seria negao determinada da produo determinada.

O segundo giro copernicano no se limita a uma "dupla" reflexo. O "segundo" giro uma inverso materialista da reflexo interpretativa dialtica, inverso mediante a qual a interpretao d lugar a uma investigao da gnese, da produo material histrica das objetivaes a serem decifradas.

Eis aqui a inflexo terica fundamental, que distingue Adorno de Hegel, substituindo a coruja vespertina da interpretao regressiva pelo galo matutino da produo histrica. A determinao social existente, embora alienada e entre outras possveis, (o "mal" que objeto da teoria) se dispe no lugar da idealizao futura do que seria determinante na situao emancipada (o "bem"), tomando agora como ponto de partida o prprio processo real de reproduo material, mas em sua base contraditria.

Haveria uma imposio social profunda no que chamamos a sociedade decorrente do processo, tambm ele socialmente determinado, pelo qual os seres humanos produzem materialmente. Adorno retomaria aqui um dos conceitos centrais da teoria marxiana: o fetichismo da mercadoria.

O problema do fetichismo da mercadoria no termina com a revelao do social na objetivao petrificada, mas conduz necessidade de decifrar as determinaes objetivas deste social, da prpria "base" econmica, para usar uma terminologia bastante conhecida, pelas quais a prpria produo, enquanto subjetividade, seria socialmente determinada de modo a preservar a continuidade do vigente, na medida em que lhe corresponderia uma determinada conscincia. Adorno conduz a focalizao do fetichismo da mercadoria sua dimenso mais radical, perseguindo o problema at sua raiz. Assim, por exemplo, no bastaria se contentar com a revelao do sujeito social cuja objetivao seria obstruda no produto do trabalho; caberia decifrar as prprias formas sociais determinadas da realidade deste sujeito, sujeitado em sua forma social objetivamente realidade vigente. Desta maneira se explicaria, por exemplo, o ocorrido em relao ao proletariado e que j foi mencionado anteriormente. Trata-se de um trabalhador coletivo numa forma social determinada conforme os interesses da continuidade das relaes sociais vigentes. Caberia precisamente teoria dialtica decifrar o nexo entre a forma social em que se apresenta esse sujeito e o contedo material cuja consolidao corresponde, como resultado, a esta determinao social. Ao apreender a produo desta realidade, objetivada na forma social do sujeito adequado reproduo da ordem vigente, Adorno facultaria a perspectiva de produo de formas sociais determinadas crticas ordem vigente.

3. Primordial para Adorno que no basta examinar poltica, prtica ou cultura, tais como se verificam NA sociedade vigente. preciso investig-las tendo como referncia o contexto de produo DA sociedade, enquanto formao social auto-gerada pelos homens e apreendida em sua dialtica histrica. Embora a via rgia de acesso ao essencial seja o processo de sua reproduo vigente em seu aparecer real, presente, cultura, moral e poltica, por exemplo, precisam ser examinadas por um ponto de vista apoiado fora do mbito estritamente cultural, moral ou poltico tal como estes so estabelecidos na sociedade, para serem investigadas no plano da prpria produo social da sociedade em sua forma determinada.

No basta permanecer no plano da sujeio, restringir-se sua "fenomenologia" (ADORNO, GS - Bd. 8, p. 100); preciso avanar prpria produo deste plano, conforme uma "teoria mais ampla" (ADORNO, GS - Bd. 8, p. 94). No caso da moral, por exemplo, segundo Adorno preciso responder pergunta referente produo histrica da sujeio, em vez de interpretar regressivamente, tendo como pressuposto a-crtico uma idealizao da situao de no-sujeio. Essencial saber "Como os homens se sujeitam a si prprios, impondo a si o imperativo categrico: 'Sujeita-te quilo que existe!'?" (ADORNO, GS - Bd. 10-1, p. 343). Novamente importa sublinhar a grande proximidade entre as argumentaes de Adorno e Marx. Este tambm iniciara pela investigao material-histrica e no conforme um referencial ideal pressuposto. Embora seu alvo fosse o trabalho como auto-produo humana, seu tema seria o "trabalho alienado". No primeiro de seus Manuscritos Econmico-Filosficos indaga de um modo que por certo influenciou a pergunta de Adorno acima referida:

Aceitamos como um fato o estranhamento do trabalho, sua alienao e analisamos este fato. Agora indagamos: como o homem chega a estranhar, chega a alienar o seu trabalho? Como este estranhamento se funda na essncia do desenvolvimento humano? (MARX; ENGELS, 1966, p. 86)

Os conceitos de indstria cultural e de semiformao procuram dar conta dos fenmenos da sociedade real vigente justamente tendo como referncia o prisma de produo desta sociedade em sua formao social determinada.

O termo indstria cultural enfatiza de modo pertinente o "mecanismo" pelo qual a sociedade como um todo seria "construda" sob a gide do capital, reforando a continuidade do vigente. Ao que tudo indica os autores pensaram, nos termos da produo pela indstria capitalista, na produo da sociedade como sendo cpia feita na medida em que a sociedade cultural, ordena e organiza o que seria "natural". No ensaio Superstio de Segunda Mo Adorno resume de modo exemplar: "(...) a indstria cultural como um todo (...) duplica o que j existe na conscincia dos homens." (ADORNO, GS - Bd. 8, p. 175). Eis a "cpia industrial-cultural" do mundo congelada na situao existente. Mas cumpre lembrar o decisivo: "conscincia" "ser consciente", isto , reflexo da existncia, e no uma existncia espiritual contraposta dualisticamente matria "inconsciente".

O momento subjetivo deste social presente como cpia, como objetificao coisificada, seria decifrado j na primeira verso da Dialtica do Esclarecimento como semiformao. Adorno diria mais tarde, em sua Teoria da Semiformao: "a cultura tomada pelo lado de sua apreenso subjetiva, a formao". Nessa apreenso subjetiva da perspectiva da "cultura" nos termos da indstria cultural que copia a sociedade em estrita continuidade de sua vigncia, a "conscincia" reflete sobre a continuidade social como "semiformao", em nexo com uma cultura hegemnicamente "afirmativa", para usar aqui um tema caro a Marcuse (MARCUSE, 1997, p. 89).

Pelo prisma dos autores da Dialtica do Esclarecimento, as "massas" so semiformadas afirmativamente, isto , constitudas no processo de construo social para se integrarem justamente no contexto da reproduo continuada do vigente em que a indstria cultural ocupa um posto chave.

Neste contexto de determinao social objetiva da sociedade, da conscincia, da cultura, que justamente era oferecido pela conceituao da indstria cultural, precisam ser situados adequadamente os referenciais da crtica ideolgica em termos que alcancem alm do mbito da crtica cultural. precisamente o que Adorno pretende no ensaio Crttica Cultural e Sociedade.

Ao mesmo tempo em que desconsidera os efeitos da crtica cultural, apresenta sua nova apreenso de ideologia. O foco da anlise uma perspectiva de totalidade imanente, em que o todo se revela como falso em todos os seus momentos e os critrios desta falsidade so transcendentes a este todo, embora imanentes em relao perspectiva de totalidade.

Hoje a determinao da conscincia pelo ser se converteu em meio de escamotear qualquer conscincia que discorde da existncia. (...) Ideologia significa hoje: a sociedade como aparncia. Ela se encontra mediatizada pela totalidade, por trs da qual se encontra a dominao do parcial, que no sem mais redutvel a um interesse parcial, mas se distribui igualmente em todas as suas partes. A alternativa de questionar a cultura a partir de fora, sob o conceito amplo de ideologia, ou de confront-la com as normas que ela mesma cristaliza, no pode ser aceita pela teoria crtica (...) Hoje a ideologia, a aparncia socialmente necessria, a prpria sociedade real (...) o procedimento imanente o mais essencialmente dialtico. Leva a srio o princpio de que o no verdadeiro no a ideologia em si, mas a sua pretenso de coincidir com a realidade efetiva. (ADORNO, GS - Bd. 10-1, p. 23-27)

A crtica agora diria respeito a um todo falso, construo cultural da sociedade onde a crtica cultural seria inofensiva. Haveria necessidade, portanto, de um prisma pelo qual este todo seria apreendido ele prprio como determinao social. O todo cultural falso, mas a verdade seria apreendida pela perspectiva da totalidade que no se esgota em sua manifestao como todo cultural. "A crtica vigente da ideologia antiquada" (Adorno, GS - Bd. 10-1, p. 29) porque ela no alcana seu prprio objeto, ou seja, a sociedade, que, como construo social, se desvela como sendo sua prpria ideologia. Em Educao e Emancipao Adorno diria:

a prpria organizao do mundo em que vivemos a ideologia dominante - hoje muito pouco parecida com uma determinada viso de mundo ou teoria - ou seja, a organizao do mundo converteu-se a si mesma imediatamente em sua prpria ideologia. Ela exerce uma presso to intensa sobre as pessoas que supera toda educao. (ADORNO, 1995, p. 143)

O falso nesta medida j no seria o ideolgico propriamente dito, mas a pretenso deste mundo reconstrudo como ideologia se apresentar como a sociedade efetiva. No apenas uma parte, mas a sociedade como "um todo o no-verdadeiro". Em outras palavras: o falso como "a propaganda a favor do mundo mediante a sua duplicao" integrada, adaptada. (Adorno, GS - Bd. 10-1, p. 29)

A "duplicao" mencionada no deve iludir: no esto em causa dois mundos, mas um movimento dialtico entre aparncia e essncia. O mundo dos homens organizado de determinada maneira e preciso decifrar as condies e os condicionantes que causam seu modo determinado de ser. A essncia no est "atrs" da aparncia, mas a reflexo da aparncia acerca de seu modo de aparecer de determinado modo, o "arranjo" determinado do mundo, a sociedade que sua prpria ideologia. A emancipao, como "conscientizao", a reflexo racional pela qual o que parece ordem natural, "essencial" na sociedade cultural, se decifra como ordem socialmente determinada em determinadas condies da produo real efetiva da sociedade.

Na obra de Adorno estes dois momentos dialticos se apresentam em diversas ocasies.

Na Introduo Sociologia, ltimo curso oferecido por Adorno em 1969, pouco antes de falecer, as relaes entre sociologia e economia poltica exemplificam o nexo entre o plano da sociedade constituda e o plano da sua produo que se pretende expor aqui.

Minha tese simplesmente a seguinte: atravs da separao estrita entre Economia e Sociologia, feita sem a menos dvida com o objetivo real de recusar a teoria marxista ante portas, desaparecem os interesses sociais decisivos de ambas as disciplinas (...) ambas malogram em relao ao que decisivo para elas. A sociologia (...) restringe-se a opinies e preferncias, ou quando muito a relaes interpessoais, formas sociais, instituies, relaes de dominao e conflitos. Nessa medida passa-se ao largo do que seria propriamente a raison d'tre de todas essas coisas (...) e que o nico padro que possibilita sua avaliao; ou seja. Deixa-se de lado o processo de autoconservao da sociedade humana; no se leva em conta que afinal todo esse processo social gigantesco e mantido unido pela troca absolutamente desprovido de qualquer sentido que no seja em primeiro lugar garantir e conservar em movimento, materialmente e em seu padro cultural, a vida do gnero humano em seu conjunto. (...) Em outras palavras: a Sociologia (...) no leva em conta a produo e a reproduo social da vida da sociedade como um todo: e se existe algo que uma relao social, ento justamente esta totalidade. (ADORNO, 2008, p. 320)

Antes de mais nada, sublinhemos mais uma vez a sincronia com a argumentao de Marx. No Captulo IV - indito este constatara que sua concepo era

essencialmente distinta da concepo dos economistas burgueses, enredados nas prprias representaes burguesas, que, apesar de perceberem como se produz no interior da relao capitalista, no percebem como esta relao ela prpria produzida e deste modo se elimina o seu direito histrico como forma necessria do desenvolvimento econmico (MARX, 1969, p. 89)

Tudo se passa como se estivssemos simultaneamente em dois "planos" de ordenamento social, que so momentos no movimento dialtico da sociedade efetiva. O plano da economia poltica, da produo social material efetiva, determinada, dos homens em sua interao entre si e com a natureza, conforme um determinado modo de produo socialmente determinado - que o "plano" de ordenamento social da produo da sociedade, o "social". E o plano da sociedade constituda por este determinado modo, cuja prpria organizao retrata aquela determinada maneira em que os homens produzem no primeiro plano, parecendo ser a sociedade em que produzimos - o "plano" de ordenamento social da produo na sociedade, o mbito da "sociologia".

4. A poltica s efetiva quando se refere produo DA sociedade e no se restringe ao NA sociedade constituda. Nesta ltima, as prprias formas sociais determinadas se apresentam como formas naturais perenes, impelindo conservao da ordem imperante pela ineficcia objetiva das prticas meramente subjetivas. No dizer de Adorno a poltica aqui apenas pseudo-atividade, (ADORNO, 1969: 181), isto , semi-praxis meramente adaptativa. As determinaes sociais da realidade vigente recolonizam os mpetos subjetivos de mudana, convertendo-os em meros apndices inofensivos da prpria continuidade da ordem instalada.

Em seu sentido de construo do todo social verdadeiro, a poltica deve levar em conta a determinao social que a condiciona na sociedade vigente. Adorno se dedica ao tema em vrias oportunidades.

De um modo especialmente interessante isso ocorre ao tratar da questo representada por Auschwitz. A necessidade de que Auschwitz no se repita no se identifica ao imperativo categrico de que Auschwitz no deve se repetir. A configurao moral formal precisa dar lugar crtica social da produo das condies que tornaram Auschwitz possvel. O referencial da crtica que se pretende efetiva se sustenta no plano da gnese histrico-emprica da formao social em que Auschwitz foi gestado: o plano emprico sensorial do sofrimento, do horror, da fome.

Aqui se apresenta em toda clareza o que distingue a dialtica interpretativa hegeliana e a dialtica material-histrica de Adorno.

Hegel desenvolvera a perspectiva dialtica em sua crtica moralidade para procurar transcender a separao entre forma e contedo e decifrar nas formas o que seria seu recheio, seu contedo. Adorno partilha com Hegel em grande parte a sua crtica, como transparece em sua obra sobre o filsofo.

Nele j se impe a constatao de que (...) a conscincia moral no propicia a ao reta e justa e que o mero aprofundamento do eu no que deve ou no deve ser feito se enreda em contra-senso e vaidade. Hegel leva em frente um impulso radical da Ilustrao. Ele no contrape o bem vida emprica como princpio abstrato, como idia auto-suficiente, mas vincula o bem em seu prprio contedo construo de um todo verdadeiro - justamente quilo que na crtica da razo prtica aparece sob a denominao de humanidade. Por esta via Hegel transcende a separao burguesa entre o ethos como uma determinao incondicionalmente obrigatria, mas apenas vlida subjetivamente e a objetividade aparentemente apenas emprica da sociedade. (ADORNO, GS - Bd. 5, p. 291)

A crtica hegeliana da moral seria sublinhada numa caracterizao quase "materialista" da objetividade emprica por Adorno, que reproduz o trecho da "moralidade" da Fenomenologia do Esprito:

O motivo pelo qual a assim chamada felicidade deve ser compartilhada com outros a boa amizade, que se permite e deseja a eles e a si este acaso. (ADORNO, GS - Bd. 5, p.292)

Segundo Adorno um burguês jamais raciocinaria assim, pois ao enaltecimento da ordem vigente corresponderia também a ilusão de que o indivíduo esteja de posse da realização do bem, “de modo que a apologia da sociedade, para se manter em sua injustiça, depende da ideologia moral do indivíduo e de sua renúncia à felicidade” (ADORNO, GS – Bd.5: p. 292). Sublinhe-se aqui, antes de mais nada, o quanto já existe em Hegel relativo à perspectiva da apreensão da moralidade pelos seus efeitos, isto é, a ideologia moral como condição da sociedade nos termos que seriam posteriormente encampados fortemente por Nietzsche.

Mas a partir deste ponto Adorno abandona a argumentação hegeliana. Afasta-se mesmo polarmente da mesma na própria dinâmica da dialética.

Para Hegel a interpretação chega a seu termo no próprio plano em que se apresenta a questão moral. Segundo ele a reflexão acerca da forma social assumida na moralidade burguesa conduziria à superação dessa determinação formal numa determinação de conteúdo. Existiria assim uma “solução” no plano em que se instituiu a moralidade.

Mas para Adorno a produção histórica da sociedade implica em que a própria moralidade seja questionada juntamente com o indivíduo burgues, mostrando, como o fez Marx, que o mesmo movimento que gera o burgues, também gera o “populacho”(Pöbel), e que assim o que Hegel, em sua lógica conceitual, considerava uma cisão inevitável na sociedade civil, correspondia a uma situação historicamente desenvolvida e historicamente evitável.

Voltando ao nosso argumento inicial: evitar a repetio de Auschwitz requer para Adorno superar o plano do ativismo moral pela perspectiva da produo da prpria sociedade em suas formas determinadas. A formalidade universal do imperativo categrico seria incompatvel com o efetivo enfrentamento de Auschwitz.

A mesma questo pode ser acompanhada em outra ocasio na obra de Adorno: quando este discute a fome. A citao da Introduo ao debate do positivismo na sociologia alem, um dos ltimos ensaios de Adorno.

Os problemas normativos erguem-se a partir de constelaes histricas que de igual maneira exigem silenciosa e "objetivamente" a partir de si prprias sua transformao ... No seria possvel, por exemplo, decretar abstratamente que todos os homens precisam ter o que comer enquanto as foras produtivas no fossem suficientes para a satisfao das necessidades primitivas de todos. Contudo, quando numa sociedade aqui e agora, em face da abundncia de bens existentes ... da mesma maneira existe a fome, ento isto exige a abolio da fome pela interveno nas relaes de produo. Esta exigncia brota da situao, de sua anlise em todas as dimenses, sem que para isto se precisasse da universalidade e da necessidade de uma representao de valor. (ADORNO, GS - Bd. 8, p. 347; ADORNO, 1999, p. 183)

A ao moral corresponde presumida autonomia do indivduo, de h muito dissolvida. Mas no est em jogo recuperar essa autonomia, nem sequer explicar porque desapareceu.

O prisma proposto e que confere fluidez à argumentação de Adorno procede a partir dos efeitos praticados e não das intenções idealizadas. Como carência, a fome seria argumentativamente retirada do plano natural, para ser situada inteiramente no plano da sociedade formada, gerada em determinadas relações sociais de produção. Quando há fome socialmente motivada, a decretação moral abstrata e formal do fim da fome fortalece uma conformação social sustentada no exercício da autonomia nos parâmetros sociais vigentes, por mais heterônoma que esta seja. A moralidade subjetiva, que procura esgotar o campo de possibilidades da prática social, termina por encorpar uma ilusória formação social pacificada, em que os homens se julgam sujeitos e como tais se consideram responsáveis pela ordem vigente, para além das determinações objetivas que os sujeitam.

Obstrui-se assim a apreensão da gênese histórica da própria orientação normativa, em especial, e das determinações sociais, como um todo, no quadro da produção da sociedade na forma social determinada em que se encontra na realidade imperante.

J a interveno nas relaes de produo significa a interveno no plano em que se produzem as prprias determinaes sociais objetivas, as "constelaes histricas" de que brotam tanto as questes normativas quanto as exigncias de sua transformao. Aqui a negao no pode ser absoluta, generalizada, pois deixaria de incidir na determinao social. Cabe lembrar que para Adorno ideologia a prpria sociedade. O que est em causa no o mundo, mas sua ordem determinada, seu "arranjo" nos termos de um determinado modo de sua reproduo material. A negao precisa ser negao determinada daquelas determinaes sociais objetivas que "negam", que obstruem a prpria prtica, a prpria "negao" possvel neste plano.

Para concluir: tanto no que se refere a Auschwitz, quanto no referente ao problema da fome, o ativismo tico constitui para Adorno o que denomina uma "pseudo-atividade" (ADORNO, GS - Bd. 10-2, p. 771) que funciona como obstculo prtica transformadora, renovando a ordem estabelecida mediante a consolidao das determinaes sociais objetivas correspondentes a determinadas relaes de produo.

 

5. Naquela que se tornaria sua ltima aula na Universidade de Frankfurt, Adorno ainda se referiu mais uma vez aos termos da forma socialmente determinada da determinao social objetiva, bem como ao conhecimento da insero social dos homens e das mulheres nos termos da produo efetiva, material histrica, da sociedade.

O contexto especfico da discusso era a influncia exercida por dois grandes eventos miditicos: o casamento da princesa herdeira da Holanda com um alemo e a visita de uma princesa persa Alemanha. O fenmeno da personalizao funcionaria como catalizador da reconstruo cultural industrial pacificadora e adaptativa da formao social.

A meu ver a tarefa mais importante da pesquisa social empírica hoje seria descobrir realmente até que ponto os homens efetivamente são e pensam nos termos em que são formados pelos mecanismos. A partir de trabalhos feitos no Instituto de Pesquisa Social (...) temos elementos que indicam a existência de uma curiosa ambigüidade. Isto é, que, de um lado, os homens se subordinam aos mecanismos da personalização como estes são promovidos pela indústria cultural (...). Mas, ao mesmo tempo, basta avançar um pouco além da superfície (...), todos os homens a rigor sabem que a princesa (...) não tem toda esta terrível importância. Se isso de fato ocorrer, se os homens efetivamente são envolvidos, mas simultaneamente também não o são, se portanto há aqui uma consciência duplicada e em si mesma contraditória, isto poderia ser a base de apoio do esclarecimento social que é necessário diante do fenômeno da personalização, que evidentemente é apenas parte de um contexto muito mais amplo, para esclarecer as pessoas de maneira exitosa de que o fundamental que lhes é imposto na sociedade (...) na realidade nem de longe tema a relevância que lhe é imputada. (ADORNO, 2008, p. 343)

Para Adorno está em causa nada além de uma negação determinada no horizonte das possibilidades. Ele anuncia aqui a falsidade aparentemente revelada do consolo ofertado pelo fenômeno social da personalização frente à totalização da sociedade de massas. Ao mesmo tempo o tema da determinação social objetiva permanece em outras esferas de pseudo-atividade, onde os homens e as mulheres podem participar em suas próprias formas do estado de encantamento geral, sob as continuadas formas das suas determinações objetivas.

Às fases industrial-cultural e ética sucederia agora uma fase tecnológica. Aqui a sujeição e a impotência seriam dissolvidas na construção de uma aparente onipotência tecnológica, que pressupõe sujeitos autônomos inexistentes nos mesmos termos em que isto ocorrera no plano do imperativo moral. Nesta medida é “relevante para a pseudo-atividade a navegação espacial dos astronautas, que se orientam conforme os medidores de seus instrumentos e seguem minuciosamente ordens do comando central” (ADORNO, GS – Bd. 10-2, p. 772).

Tanto os recentes "espetculos" blicos e de manipulao da opinio pbica do imprio americano, quanto, num extremo apenas aparentemente oposto, a sofisticao tecnolgica do terrorismo, so formas contemporneas das determinaes sociais objetivas neste sentido.

Mas, essa fase tecnológica de reconstrução social legitimadora da ordem vigente também se apresenta pela via do esvaziamento da atividade político-participativa nas sociedades contemporâneas, associada à progressiva tecnicização formalista e jurisdicista da democracia, que corresponde, por sua vez, justamente a um controle mediante a manipulação tecnológica pelos meios de comunicação de massa em dimensões jamais vistas.

Simultaneamente, enorme parcela da humanidade morre de inanição; tem negada uma necessidade básica à sua reprodução.

O argumento de Adorno acerca da fome é hoje mais atual do que nunca.

Em vez de se debaterem entre, de um lado, a realidade ficcional da hiper-tecnologia e da sociedade controlada pela manipulao da informao e da comunicao e, de outro, a realidade do desemprego, da misria e da fome, os homens, afinal, sabem que a perspectiva para alterar este duplo quadro est em intervir no prprio processo de produo de que este mundo aqui e agora resultou.

 

Referências Bibliográficas

ADORNO, T. Wiesengrund – Gesammelte Schriften, In: 20 Bde. Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft - 1997. Citado como GS.

______. Introdução à Sociologia. São Paulo: Edunesp – 2008.

______. “Introdução à controvérsia sobre o positivismo na sociologia alemã”, In: ______. Adorno - Textos Escolhidos. São Paulo: Nova Cultural – 1999.

______. Educação e Emancipação. São Paulo: Paz e Terra – 1995.

HORKHEIMER, M. Gesammelte Schriften - Bd.12. Frankfurt a. M.: Fischer, 1985.

MARCUSE, H. Cultura e Sociedade – 1. São Paulo: Paz e Terra – 1997.

MARX, K. Resultate des unmittelbaren Produktionsprozesses. Frankfurt a. M.: Verlag Neue Kritik, 1969.

MARX, K.; ENGELS, F. Studienausgabe – Bd.2. Frankfurt a. M.: Fischer, 1966.

 

 

Endereço para correspondência
Wolfgang Leo Maar
Rua Monte Alegre, 1352, apto.4, Perdizes, CEP 05014-002, São Paulo- SP, Brasil
Endereço eletrônico: wmaar@ufscar.br

Recebido em:31/05/2010
Aceito para publicação em: 15/07/2010
Acompanhamento do processo editorial: Jorge Coelho Soares e Ariane P. Ewald

 

 

Notas

*Professor titular de filosofia da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar, São Carlos, SP, Brasil
1Uma versão preliminar e parcial deste artigo foi apresentada no Instituto Goethe de São Paulo em 2003, por ocasião do centenário de Adorno discutido no Ciclo de Debates Adorno Hoje, promoção do Instituto Goethe em colaboração com Unesp, Unicamp e USP.



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