ARTIGOS

 

Marcuse e Flusser: para iniciar um dilogo

 

Marcuse and Flusser: beginning a dialogue

 

 

Maria Teresa Cardoso de Campos *

Centro Universitrio de Belo Horizonte - UniBH, Belo Horizonte, MG, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Herbert Marcuse e Vilm Flusser realizam uma aguda crtica da razo prevalecente na sociedade contempornea, ao identificar os instrumentos que promovem a manipulao e a programao das conscincias, isto , os mecanismos de controle, na viso de Herbert Marcuse, e os aparelhos que portam programas, de acordo com Vilm Flusser. Pretendemos apresentar esses pontos de contato entre as ideias dos dois filsofos e como a comunicao de massa se insere na discusso de cada um deles. Este trabalho um incio de dilogo entre o pensamento de ambos.

Palabras claves: Marcuse, Flusser, Comunicação de massa, Unidimensional, Aparelho.


ABSTRACT

Herbert Marcuse and Vilm Flusser realize an acute critique of the prevalent reason in the contemporary society, identifying the instruments that promote the manipulation and the programming of the consciousness of people, that is, the control mechanisms, in the view of Herbert Marcuse, and the apparatus, according to Vilm Flusser. We intend to expose these contact points between the ideas of both philosophers and how the mass communication inserts itself in the discussion of each of them. This text is a beginning of a dialogue between the thoughts of both.

Keywords: Marcuse, Flusser, Mass communication, Unidimensional, Apparatus.


 

 

Herbert Marcuse (1898-1979) e Vilm Flusser (1920-1991) so judeus que emigram para escapar do nazismo, experincia comum que os leva a direes diferentes. Marcuse sai da Alemanha e vai para os Estados Unidos, onde tem oportunidade de observar o funcionamento do mecanismo capitalista de uma sociedade opulenta. Flusser sai da Tchecoslovquia e vem para o Brasil, onde vivencia a realidade de um pas subdesenvolvido, fraturado pelo contraste entre a riqueza e a misria. Apesar de vivncias e caminhos tericos distintos, possvel entrever um dilogo entre eles, tendo em vista a anlise que realizam da sociedade contempornea, buscando desvelar sua estrutura e possibilidades futuras.

Marcuse, principalmente na obra A ideologia da sociedade industrial, de 1964, entende que a sociedade industrial unidimensional, ou seja, nela h uma harmonizao, uma neutralizao da oposio, na esfera do pensamento, da linguagem, da arte. Sob uma superfcie racional, o que h irracionalidade, que no percebida enquanto tal, pois os controles fazem parte da administrao que funciona de maneira eficiente e foram devidamente introjetados. No h como identificar quem exerce a dominao, j que ela impessoal e quem domina tambm dominado. A avaliao dos indivduos se d de acordo com o desempenho ou rendimento na esfera econmica e o valor da produtividade acorrenta-os labuta. No entanto, as realizaes materiais alcanadas geram uma sensao de liberdade e de felicidade que acarreta, por sua vez, a defesa do aparato repressivo. Ocorre que o homem "renuncia sua liberdade sob os ditames da prpria razo" (MARCUSE, 1999a, p. 82).

Diversos instrumentos moldam a conscincia e a existncia humana, como a mais-represso, ou seja, o excesso de represso que ultrapassa o nvel bsico de represso exigida no processo civilizatrio; a liberao controlada da sexualidade; a perpetuao da labuta e da guerra; a produo de mercadorias suprfluas; a criao de falsas necessidades, entre outros. A tecnologia um meio privilegiado de controle da natureza, do homem e da sociedade, uma vez que o projeto tecnolgico um projeto poltico estabelecido pela racionalidade tecnolgica. Nas palavras de Marcuse,

Hoje, a dominao se perpetua e se estende no apenas atravs da tecnologia, mas como tecnologia, e esta garante a grande legitimao do crescente poder poltico que absorve todas as esferas da cultura. [...] Nesse universo, a tecnologia tambm garante a grande racionalizao da no-liberdade do homem e demonstra a impossibilidade "tcnica" de a criatura ser autnoma, de determinar a sua prpria vida. Isso porque essa no-liberdade no parece irracional nem poltica, mas antes uma submisso ao aparato tcnico que amplia as comodidades da vida e aumenta a produtividade do trabalho (1982, p. 154).

A racionalidade tecnolgica afeta inclusive o conceito marxiano da alienao, uma vez que a identificao dos indivduos com as mercadorias no ilusria, uma realidade. A conscincia individual identifica-se mimeticamente com o social, resultando em uma submisso integral ao status quo. A ideologia est no prprio processo de produo, o que significa que na aquisio de mercadorias o consumidor adquire ao mesmo tempo estilos e modelos de comportamento.

Segundo Flusser, vivenciamos a transio de uma sociedade histrica para uma sociedade ps-histrica. A partir do momento em que o homem cria a escrita, tem incio a histria, e vai ficando para trs a pr-histria, marcada pelas imagens pictricas baseadas em cenas representativas de ocorrncias cotidianas. Hoje a ps-histria que se descortina, a partir do resultado da transcodificao de textos escritos em imagens tcnicas, as quais so produzidas por aparelhos. Aparelho, na obra flusseriana, especialmente em Ps-histria: vinte instantneos e um modo de usar, de 1983, pode ter um significado amplo, chegando a abranger a cultura, e tambm um significado restrito - neste caso, diz respeito ao aparelho tcnico responsvel por transformar textos em imagens, como uma mquina fotogrfica ou uma televiso, por exemplo. Porm, todos eles portam um programa. E so os programas que modelam a conscincia e o comportamento humanos. Em sua essncia, todos os aparelhos so caixas pretas, pois no sabemos o que se passa no seu interior: "Tal qual Auschwitz, caixas pretas que funcionam com engrenagens complexas para realizarem um programa" (FLUSSER, 1983, p. 14). So caixas pretas que reificam, que desumanizam o homem, que despolitizam por "entorpecerem a faculdade crtica da sociedade" (FLUSSER, 1983, p. 140). Assim, Flusser afirma:

A cultura ocidental, como um todo, se revela destarte como projeto que visa transformar-se em aparelho. O que caracteriza o Ocidente sua capacidade para a transcendncia objetivante. Tal transcendncia permite transformar todo fenmeno, inclusive o humano, em objeto de conhecimento e manipulao. (1983, p. 14).

O homem torna-se um funcionrio das caixas pretas, funcionando segundo as solicitaes dos seus programas, sendo que elas so programadas pelos programadores e mesmo por outros aparelhos; e os programadores tambm so programados para programar. Como no deseja libertar-se dos modelos informativos, por j se sentir liberto dos modelos industriais anteriores, "sente-se bem enquanto escravo" (FLUSSER, 1983, p. 87). Ele no se d conta de que tambm programado pela infinidade de objetos que o cerca, em dois sentidos inclusive. Diz Flusser: "Somos programados a no podermos sobreviver sem eles. E somos programados a no percebermos a estupidez deles" (1983, p. 129)".

Essa situao promove a alienao de toda a sociedade. Trata-se de "Loucura coletiva, inclusive no significado psiquitrico do termo. loucura acompanhada de estupidez galopante. Por certo: no podemos 'superar' tal estupidez louca: somos todos vtimas. Mas podemos diagnostic-la, sobretudo em ns mesmos" (FLUSSER, 1983, p. 167).

De acordo com Abraham Moles, a postura aberta constestao de Flusser o levou a conhecer a fundo o pensamento da Escola de Frankfurt (MOLES, 1992, p. 112). Assim, no de se estranhar que encontremos pontos de contato entre ele e os frankfurteanos. A partir de alguns traos bem gerais do pensamento dos dois filsofos que esboamos acima, possvel observar que ambos realizam uma aguda crtica da razo prevalecente na sociedade contempornea, ao identificarem os instrumentos nela presentes que promovem a manipulao e a programao das conscincias, isto , os mecanismos de controle, na viso de Herbert Marcuse, e os aparelhos que portam programas, de acordo com Vilm Flusser. Eles percebem nessa sociedade a irracionalidade que se traveste de racionalidade e a no-liberdade de liberdade. Lanam luz sobre o fenmeno da alienao, que se efetiva em especial atravs da tecnologia e produz um homem funcionrio, que no livre, que no reflete, que cumpre e d ordens que julga racionais, tendo em vista o funcionamento eficaz dos vrios aparelhos com os quais lida.

Mesmo diagnosticando condies to adversas, ambos acreditam que a liberdade uma possibilidade real, que se constitui a partir de uma base concreta. Para Marcuse, existem condies objetivas, tanto materiais quanto intelectuais, de se alcanar a liberdade. Nas suas palavras, "A tcnica por si s pode promover tanto o autoritarismo quanto a liberdade, tanto a escassez quanto a abundncia, tanto o aumento quanto a abolio do trabalho rduo" (MARCUSE, 1999a, p. 74). Isto quer dizer que a tecnologia que organiza o aparato tcnico pode tomar outro rumo, realizando concretamente possibilidades que tm sido represadas por interesses de dominao.

Por sua vez, Flusser acredita ser possvel um jogo consciente e criativo contra o aparelho, capaz de subverter sua programao. A criatividade, originalidade e o dilogo, que se relacionam com a capacidade de gerao de informao nova, so conceitos fundamentais para se pensar a liberdade. Diz o filsofo: "Mas h sempre a esperana para aqueles que pensam que o homem um ser criativo e aberto aos outros. H sempre a possibilidade para verdadeiros dilogos" 1 (FLUSSER, 2008, p. 4, traduo nossa).

 

Comunicao de Massa

Flusser escreveu uma srie de trabalhos nos quais refletiu sobre os meios de comunicao, mais especificamente sobre a imagem tcnica, sendo inclusive suas teorias a esse respeito mais conhecidas e difundidas do que aquelas desenvolvidas anteriormente, que giravam em torno da lngua. J Herbert Marcuse no apresentou um estudo sistemtico sobre a comunicao de massa, mas isso foi discutido em vrios momentos da sua obra, sendo ela compreendida como um dos instrumentos de dominao na sociedade industrial.

 

A comunicao na sociedade unidimensional

Herbert Marcuse2 no texto "Sobre o carter afirmativo da cultura" (1997), de 1937, apresenta a dicotomia civilizao e cultura. Civilizao corresponderia esfera das necessidades, do trabalho e da produo material; cultura (burguesa), a um reduto dos ideais de felicidade, beleza, justia, liberdade, solidariedade, enfim, a um refgio das aspiraes e valores da alma, ideais que se efetivavam na arte. Convertendo-se em ideologia, essa cultura tornou-se autnoma em relao civilizao, exercendo um controle sobre a maioria, entregue ao sacrifcio cotidiano da luta pela existncia. Apesar disso, ao se despreocupar em relao realizao das ideias difundidas de liberdade e igualdade e se alienar das exigncias da reproduo material, essa cultura continha elementos que transcendiam a ordem existente, que acenava para uma "promessa de felicidade".

J no texto de 1965, "Comentrios para uma redefinio de cultura", Marcuse reconhece uma transformao substancial na relao existente entre cultura e civilizao. Trata-se do processo de incorporao da cultura pela civilizao, ou seja, o desaparecimento da posio antagnica que a esfera espiritual ocupava frente esfera material. Se, antes, ele denunciava a alienao da cultura, nesse momento se ressente da sua absoro pelo mundo da produo material e dos negcios. De acordo com o pensador, "as obras que antes se destacavam escandalosamente da realidade existente e estavam contra ela foram neutralizadas como clssicas; e com isso j no conservam sua alienao da sociedade alienada" (MARCUSE, 1998, p. 161).

Em A ideologia da sociedade industrial: o homem unidimensional, no captulo "A conquista da conscincia infeliz: dessublimao repressiva", esta questo tambm discutida por Marcuse. Ele sublinha que no processo de absoro da cultura pela esfera material, ou seja, na transformao dos bens culturais em mercadorias, o que ocorre "no a deteriorao da cultura superior numa cultura de massa" (MARCUSE, 1982, p. 69) e sim uma assimilao dos valores ideais pela realidade. O progresso tecnolgico torna possvel a materializao de ideais (MARCUSE, 1982, p. 81) graas s realizaes da sociedade industrial desenvolvida, que cumpre com eficincia o seu projeto de subjugao da natureza, aliviando a escassez e oferecendo uma quantidade impressionante de mercadorias.

Reprodues literrias e filosficas em bancas de jornal, a informalidade do pblico que assiste a uma pea de teatro ou pera, discos ao invs de concertos, tudo isso contribui para a democratizao da cultura. O que era privilgio de poucos est agora disposio da maioria. No entanto, essa democratizao redunda em dominao, pois destri o carter negativo da cultura tradicional. Esta perde a verdade do seu contedo, que residia na recriao alienada do existente, em seu carter no operacional, no distanciamento do mundo dos negcios e dos desempenhos socialmente teis. Os elementos de oposio ao institudo, antes presentes na literatura, msica, filosofia e religio, se enfraquecem com a sua reproduo e consumo massivos.

Para Marcuse, a integrao da cultura civilizao seria uma forma de dessublimao, ou seja, transformao da satisfao mediata da sublimao por satisfao imediata. Isso porque a alienao da cultura superior era considerada, por ele, sublimao, uma vez que as imagens e valores que transmitia conservavam um espao de negao do princpio de realidade, remetendo necessidade de liberao, possibilidade de uma sociedade futura baseada na gratificao. Mas a incorporao daquelas imagens " cozinha, ao escritrio, loja; sua liberao para os negcios e a distrao , sob certo aspecto, dessublimao...", diz Marcuse (1982, p. 82). Trata-se de um processo de dessublimao repressiva e institucionalizada.

Nesse contexto, qual seria o papel desempenhado pela comunicao de massa? Marcuse atribui a ela a responsabilidade pela transformao da cultura superior em mercadoria, ao colocar, lado a lado, anncios, filosofia, artes e religio. No universo da cultura de massa, que dominado pelos veculos de comunicao de massa e pela propaganda, tudo adquire o mesmo valor - o valor de troca, e tudo tem a funo de divertir. Nas palavras do pensador: "Se as comunicaes em massa misturam harmoniosamente e, com frequncia, imperceptivelmente, arte, poltica, religio e filosofia com anncios, levam essas esferas da cultura ao seu denominador comum - a forma de mercadoria" (MARCUSE, 1982, p. 70). E ainda: "No domnio da cultura, o novo totalitarismo se manifesta precisamente num pluralismo harmonizador, no qual as obras e as verdades mais contraditrias coexistem pacificamente com indiferena" (MARCUSE, 1982, p. 73). As obras de arte, integradas na cultura de massa, alm de mercadorias, so tambm anncios. Como diz o filsofo: "As obras de alienao so, elas prprias, incorporadas nessa sociedade e circulam como parte e parcela do equipamento que adorna e psicanalisa o estado de coisas predominante. Tornam-se, assim, anncios - vendem, reconfortam, excitam" (MARCUSE, 1982, p. 75).

Um tema que tambm se relaciona com a comunicao de massa o da despersonalizao do superego, tratado por Marcuse na obra Eros e civilizao. Freud ensina que o superego a instncia repressiva e punitiva do aparelho mental que, a princpio, internaliza a autoridade paterna e, depois, os seus modelos substitutos, tornando-se o representante da moralidade, isto , a conscincia que pressiona e censura o ego. Mas Marcuse observa que, medida que os controles externos se intensificam, a constituio do superego se modifica. No sistema administrado, h uma despersonalizao do superego, ou seja, as imagens do pai, do professor, do chefe, do patro, desaparecem, no sendo mais possvel identificar quem exerce o domnio. A famlia perde sua funo socializadora para agncias extrafamiliares e a normatividade exercida pelo todo. A comunicao de massa apontada como exemplo de uma dessas instncias socializadoras substitutas, como se pode perceber por esse trecho de Marcuse (apud ROUANET, 1989, p. 238):

Desde o nvel pr-escolar, as histrias em quadrinho, o rdio e a televiso fixam o modelo do conformismo e da rebelio... Os especialistas dos mass media transmitem os valores exigidos: oferecem a perfeita educao da eficcia, da tenacidade, da personalidade, do devaneio e do sentimentalismo. Contra uma tal educao, a famlia no mais capaz de lutar

A questo da linguagem unidimensional, em A ideologia da sociedade industrial: o homem unidimensional, outro ponto discutido por Marcuse, que diz respeito comunicao de massa, j que o pensador aproxima a linguagem da sociedade industrial avanada comunicao publicitria. Para ele, o estilo do discurso publicitrio, que est no mbito comercial, se amplia para outras esferas da linguagem, inclusive a poltica, produzindo um efeito semelhante no receptor.

A mensagem publicitria elaborada para que o consumidor no reflita, e sim que reaja ao seu comando, comprando o produto anunciado. Da mesma maneira, a linguagem da sociedade unidimensional manipula o destinatrio, impondo-lhe comandos, que no so percebidos como tais. Segundo Marcuse, a linguagem "torna-se, ela prpria, um instrumento de controle at mesmo onde no transmite ordens, mas informao; onde no exige obedincia, mas escolha, onde no exige submisso, mas liberdade." E acrescenta: "O novo toque da linguagem mgico-ritual , antes, o de as pessoas no acreditarem nela, ou no se importarem com ela, mas no obstante, agirem em concordncia com ela" (1982, p. 107).

Anloga comunicao publicitria, a linguagem unidimensional abreviada, hipntica e autoritria. No discurso da publicidade, a estrutura das sentenas simples e condensada; h abuso das repeties, unificao de opostos e criao de imagens que devem se associar sempre a um produto determinado. Alm disso, objetivando a identificao do destinatrio com o que lhe proposto, usa bastante a tcnica da personalizao da mensagem, como por exemplo, "... o 'seu' parlamentar, a 'sua' rodovia, a 'sua' farmcia, (...) 'voc' est convidado..." (MARCUSE, 1982, p. 99). Essas tcnicas, prprias da mensagem publicitria, so utilizadas tambm na construo da linguagem unidimensional, que se torna fechada, no favorecendo o desenvolvimento dos conceitos e enfraquecendo o protesto e a recusa.

Outra questo que devemos focalizar a do consumo alienado e das falsas necessidades. O nvel tecnolgico alcanado tem disponibilizado uma quantidade crescente de mercadorias, que proporcionam conforto e preenchem a vida dos indivduos. Eles se identificam com os produtos, o que conduz tambm identificao com os produtores e com o todo. Essas mercadorias controlam suas vidas, trazendo consigo estilos, formas de reao e de comportamento e obriga-os a trabalhar mais, para viabilizar o consumo. Eles no percebem que a maioria desses produtos atende a falsas necessidades, isto , que so fabricadas sob o imperativo do lucro, e so repressivas, por mais que sejam consideradas agradveis e benficas. Acreditam que essas necessidades so deles prprios, e no foram criadas por interesses de dominao. O consumo dos meios de comunicao de massa includo, por Marcuse, na categoria das necessidades suprfluas. Para ele, ter necessidade de comprar um aparelho de televiso maior e mais sofisticado, passar uma quantidade excessiva de tempo diante dele (MARCUSE, 1999b, p. 113), ter "dzias de jornais e revistas que esposam os mesmos ideais" (MARCUSE, [198-], p. 99) e "comportar-se e consumir de acordo com os anncios" (MARCUSE, 1982, p. 26) so exemplos de falsas necessidades.

O filósofo aponta a “redefinição das necessidades” como uma das condições essenciais para a conquista da autonomia. Nesse sentido, atribui uma força extraordinária aos veículos de comunicação, no que se refere à doutrinação e manipulação das consciências. A falta da televisão e de outros media afetaria não somente a esfera individual, pois se as pessoas fossem privadas da comunicação de massa, isso conseguiria minar as bases do sistema, levando-o ao colapso. São essas as suas palavras:

Vejamos um exemplo (infelizmente fantástico): a mera ausência de toda propaganda e de todos os meios doutrinários de informação e diversão lançaria o indivíduo num vazio traumático no qual ele teria oportunidade de cogitar e pensar, de conhecer a si mesmo (ou antes o negativo de si mesmo) e a sua sociedade (MARCUSE, 1982, p. 226).

 

A comunicação na sociedade histórica

Segundo Vilém Flusser, a comunicação humana se baseia na criação de símbolos e na organização desses símbolos em códigos. Trata-se de um processo artificial, proposital e contranatural, já que se orienta em direção contrária à tendência entrópica da natureza, ao encontrar maneiras de acumular informação. A produção, acumulação e distribuição de informação é uma maneira de o homem se esquecer de que é um ser solitário, vivendo uma vida sem sentido que um dia se extinguirá com a morte. Entretanto, há uma contradição em tal situação, uma vez que “O mais solitário dos animais é capaz da mais rica comunicação”3 (FLUSSER, 1978, p. 28, tradução nossa). Nesse sentido, o homem participa criativamente da comunicação com o objetivo de se tornar imortal (FLUSSER, 1978, p. 32). A capacidade de criar códigos para se comunicar revela-se, assim, como uma forma de resistência e de rebelião contra a morte.

Tal capacidade acabou gestando códigos que se tornaram paradigmáticos, uma vez que inauguram uma forma determinada de pensamento e de consciência. São eles: o código das primeiras imagens, que funda a pré-história; o código linear da escrita, que marca o advento da história e norteia nosso pensamento e vivência; e o código das imagens técnicas, que conduz ao aparecimento da pós-história.

O homem acabou por criar aparelhos capazes de transcodar ou transcodificar o cdigo textual da histria em outro tipo de cdigo, o tecno-imaginrio, cujos elementos so bits, ftons e eltrons. Esses aparelhos so os veculos da comunicao de massa. Conforme o filsofo:

Os aparelhos da comunicação de massa são caixas pretas que transcodam as mensagens provindas das árvores da ciência, da técnica, da arte, da politologia, para códigos extremamente simples e pobres. Assim transcodadas, as mensagens são irradiadas rumo ao espaço, e quem flutuar em tal espaço e estiver sincronizado, sintonizado, programado para tanto, captará as mensagens irradiadas. A “cultura de massa” é o resultado deste método de comunicação discursiva (FLUSSER, 1983, p. 61).

A comunicação discursiva caracteriza-se pela transmissão de informações e, juntamente com a comunicação dialógica, que é a produção de informações novas, constitui o tecido comunicativo. Na sociedade atual predomina o discurso ao invés do diálogo, o que resulta na “solidão na massa” (FLUSSER, 1983, p. 59), fruto não da carência de informação, uma vez que esta é abundante, nem do mau funcionamento dos canais comunicativos que funcionam com eficiência, mas da incapacidade de geração de informação nova, o que é possível em uma relação dialogante. A comunicação de massa é um discurso do tipo anfiteatral, ou seja, a informação é irradiada a partir de um centro rumo ao espaço, para ser captada por receptores isolados. (FLUSSER, 2002, p. 46) Ser fonte criativa de novas informações caracteriza o diálogo, diz Flusser, assim como a possibilidade da resposta imediata e a responsabilidade envolvida na troca das informações; porém, o predominante é a massificação totalitária, estéril e despolitizada. Mesmo se levarmos em consideração o texto, que é o código predominante, observa-se a vigência de uma “indústria de anestesiação automática” (FLUSSER, 2010, p. 56), composta por funcionários que produzem e distribuem uma “floresta de folhas”, isto é, livros e outros impressos em abundância, com o fito de anestesiar os leitores.

Rainer Guldin lembra que Flusser tem uma preocupao antropolgica, qual seja, "a maneira pela qual os media modificam o nosso estar no mundo" (2008, p. 99). E esta inclusive uma das teses flusserianas fundamentais, uma vez que ao dividir os perodos da civilizao em Pr-histria, Histria e Ps-histria, ele explica que os cdigos que caracterizam cada uma dessas fases influenciam decisivamente o pensamento e a vivncia do homem.

Em relao s novas imagens, as tcnicas, Flusser diz que no seu significado interno que importa e sim o sentido para o qual apontam. Ao contrrio das imagens tradicionais, que eram cenas representando circunstncias concretas e neste sentido eram espelhos, as novas so projees, so imperativos, "pontas de dedos" que apontam um caminho a ser seguido, ou seja, vivncias, gestos, valores, comportamentos. Elas significam programas (FLUSSER, 2008, p. 53). Diante dos aparelhos e das imagens, h o medo de que permanea a situao atual, na qual os homens so funcionrios que se divertem com os gadgets, criando uma rede onde o dilogo apenas conversa fiada4. H o medo de que o homem se isole, vivendo uma vida solitria, sem contato direto com os demais, enquanto se comunica com eles atravs da tela do computador (FLUSSER, 2008, p. 85-87). Porm Flusser detecta duas tendncias no mundo dos aparelhos: uma a sociedade totalitria da centralizao da informao, dos receptores e dos funcionrios constituindo uma massa amorfa; a outra a sociedade dialgica dos imaginadores, os criadores das imagens tcnicas, e dos colecionadores das imagens (FLUSSER, 2008, p. 14). o predomnio do dilogo que romper com a estrutura discursiva da comunicao de massa. E tal modificao se dar tecnologicamente, ciberneticamente, atravs dos prprios aparelhos de comunicao. possvel para aquelas pessoas, que hoje apenas se divertem com os aparelhos e suas imagens, tambm participar do dilogo autntico, desde que conservem uma distncia crtica e invertam o curso dos aparelhos em direo liberdade (FLUSSER, 2008, p. 89-90).

Se o que existem, atualmente, so alguns poucos modelos de percepo dirigindo nossa experincia, como acontece, por exemplo, com o modelo amoroso hollywoodiano; a introduo de canais comunicantes que pode romper com esse imperialismo. Com uma viso otimista, ele percebe na obra A escrita: h futuro para a escrita?, de 1987, que j estava em curso uma mudana nesse sentido:

E, por isso, inmeros modelos de percepo at ento reprimidos j urgem agora nos canais que nos alimentam. Ns j percebemos agora de uma maneira muito mais complexa do que as geraes anteriores. No s nossa vida amorosa, como tambm nossa experincia de cores, sons e sabores tornam-se cada vez mais complexas (FLUSSER, 2010, p. 88).

No entender de Flusser, não é “uma revolução histórica (uma revolta dos fracos contra os fortes)” (2010, p. 87) que pode alterar a maneira de se perceber o mundo. Uma nova forma social que substitua a anterior é uma questão técnica, ou esclarecendo melhor, a questão técnica é a questão política que interessa: “As questões que os novos engajados devem formular são, pois, necessariamente técnicas, por exemplo: como é possível se alterarem os feixes que irradiam imagens e dispersam a sociedade em indivíduos solitários e programados?” (FLUSSER, 2008, p. 67). Ao invés de concentrarmos o foco na massa de indivíduos isolados, devemos transferi-lo para os aparelhos, para as imagens. “Todo engajamento político futuro, se quiser ser ‘humano’, deve deixar de ser antropocêntrico e ‘humanista’, no sentido antigo do termo” (FLUSSER, 2008, p. 67-68), afirma o filósofo. Os novos revolucionários são aqueles que dominam o novo código, os imaginadores, como fotógrafos, cineastas, criadores de software, e também os que colaboram com eles (FLUSSER, 2010, p. 71).

Mesmo no universo do cdigo alfabtico, h aqueles que rompem com a anestesia reinante, ao escreverem textos que so um "cerrar de punhos" (FLUSSER, 2010, p. 58), isto , que entusiasmam e provocam o leitor a partir de contradies internas. Neles reside a esperana de que o texto consiga sobreviver ao universo das imagens ps-histricas. Porm, a tendncia de os media que produzem tecno-imagens tornarem-se hegemnicos, encerrando o perodo de dominncia da escrita e, um dia, acabando mesmo por decretar o seu fim.

 

Algumas consideraes

Se compararmos a estrutura da comunicação de massa, em Herbert Marcuse e Vilém Flusser, encontramos características essenciais comuns. É uma comunicação que aliena, ao garantir uma recepção passiva e não reflexiva; impõe modelos de comportamento e pensamento e utiliza uma linguagem empobrecida.

Nessa linha, os dois filósofos têm como uma de suas referências a tese defendida por Adorno e Horkheimer relativa à indústria cultural. Ao apontar, por exemplo, o processo da dessublimação repressiva, no que tange à integração da cultura na esfera da civilização, que equivale à transformação da cultura em mercadoria, Marcuse comunga da teoria dos seus colegas frankfurteanos. Já Flusser, em Pós-história, no capítulo “Nosso divertimento”, aproxima-se bastante da teoria da indústria cultural ao referir-se à indústria da diversão como uma busca pelas sensações, pela suspensão da consciência da infelicidade, e, principalmente, ao dizer que o divertimento é “relaxamento da tensão dialética que caracteriza a consciência humana” (1983, p. 114) e também que a sociedade de massa se caracteriza pela “incapacidade de digerir o devorado” (1983, p. 115).

Como sabemos, para Adorno e Horkheimer a indstria cultural est comprometida com a diverso e debilita a reflexo, uma vez que seus produtos impem um ritmo de associaes automticas, que exigem pouco esforo na apreenso e garantem uma recepo instantnea e prazerosa.

Para Marcuse, a linguagem unidimensional tem as características da linguagem publicitária. Isto quer dizer que é fechada, simplificada, e autoritária, ao efetuar comandos que não são percebidos como tal. Rainer Guldin apresenta termos bastante próximos do sentido marcuseano, ao qualificar o código da estrutura anfiteatral da comunicação apresentado por Flusser, como “um código uniforme, uniformizante e universalizante” (2008, p. 93). Para este último, o clichê e a repetição não passam de conversa fiada que se opõe à conversação, o dialogar que acrescenta o novo no tecido da língua.
Enquanto Marcuse sonha com o que poderia ocorrer diante de uma falência de todos os meios informativos, ou seja, com um vazio que possibilitaria a reflexão, Flusser, em “Du dialogue familial au téléphone”, fantasia um autêntico diálogo filosófico exatamente em um desses meios, em um vídeo (2008, p. 4).

Marcuse não tem em mente uma revolução como meio para se chegar a uma sociedade não totalitária; no entanto, ele acredita em uma mudança política, tanto em nível social, quanto individual. A revolução, para Flusser, corresponde à transformação tecnológica efetuada pela transcodificação do código linear alfabético em código tecno-imaginário e na construção de uma rede de comunicação autêntica.

Apesar de considerar a classe proletria como fundamental no enfrentamento ao sistema capitalista, Marcuse inclui novos revolucionrios nessa tarefa. So eles os excludos, os marginalizados, os grupos minoritrios e grupos divergentes, como os estudantes politizados. Por sua vez, Flusser tambm aponta novos revolucionrios, apesar de apresentar uma viso bem diferente da marcuseana. So eles os programadores, os que utilizam os aparelhos de maneira imprevista e criativa, os envolvidos com as imagens tcnicas, como os roteiristas e fotgrafos.

Para ambos, a liberdade futura se apoia na tecnologia. Marcuse acredita ser a tecnologia a base da liberdade, desde que seja reorientada para finalidades que no perpetuem a dominao; desde, portanto, que os critrios de uma vida melhor no sejam definidos em termos de objetos dispensveis, e mesmo de automveis e avies. A completa automao conduzir diminuio do tempo dedicado ao trabalho, liberando energia fsica e libido para atividades livres e criativas. O desenvolvimento tecnolgico, em Flusser, o ncleo de sua viso da liberdade, j que uma sociedade livre seria uma sociedade informtica, s que ao invs de centros irradiadores de informao, os homens trocariam informaes livremente, em colaborao mtua.

Interessante comentar uma brevssima observao de Flusser a respeito de o dilogo autntico no ser somente uma troca de mensagens, mas se constituir tambm por uma reciprocidade ertica, que estaria na base da criatividade dialgica. O dilogo seria a sntese entre polemos, uma luta entre contrrios, e eros, a pulso ertica. Nesse sentido, o dilogo atravs do telefone ou de cartas, por exemplo, no seria ertico, apenas polmico (FLUSSER, 2008, p. 4). Nessa meno rpida, ele se aproxima de Marcuse, pois, como sabemos, na utopia concreta marcuseana o que uniria a coletividade seria um vnculo ertico.

Para finalizar, esclarecemos que este trabalho um incio de dilogo entre o pensamento dos dois filsofos. Como sabemos, o dilogo parte constitutiva das suas vidas e das suas obras. Marcuse dialogou com os estudantes nas universidades, no efervescente movimento poltico dos anos de 1960, e tambm o fez genialmente, ao dialogar com Freud em Eros e civilizao. E Flusser, alm de compreender o dilogo como vitalidade comunicativa, se comprazia em provoc-lo, tanto nos seus textos, quanto pessoalmente. Seu estilo era exatamente este.

 

Referencias Bibliograficas

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Endereço para correspondência
Maria Teresa Cardoso de Campos
Centro Universitário de Belo Horizonte – UniBH, Rua Diamantina, 567, Lagoinha,
CEP 31110-320,Belo Horizonte – MG, Brasil
Endereo eletrnico: teresa_campos@hotmail.com

Recebido em:18/03/2010
Aceito para publicação em: 15/04/2010
Acompanhamento do processo editorial: Jorge Coelho Soares e Ariane P. Ewald

 

 

Notas

*Mestre em Filosofia pela UFMG; professora no Centro Universitário de Belo Horizonte – UniBH, Belo Horizonte, MG, Brasil
1”Mais il y a toujours l’espoir pour ceux qui pensent que l’homme est un être créatif et ouvert aux autres. Il y a toujours la possibilité pour des vrais dialogues
2versão do que apresentamos sobre a comunicação em Herbert Marcuse foi publicada com o título “A comunicação de massa na sociedade unidimensional”, nos Anais do Congresso Internacional Dimensão estética: homenagem aos 50 anos de Eros e civilização, editado pela Associação Brasileira de Estética – ABRE, em 2006.
3“Le plus solitaire des animaux est capable de la communication la plus riche.”
4Conversa fiada é um conceito criado por Flusser, na primeira fase de seu pensamento, e aparece na obra Língua e realidade, de 1963. É conversa inautêntica em oposição à conversação, conversa autêntica.



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