EDITORIAL

 

 

Adriana Benevides Soares*; Ana Maria Lopes Calvo de Feijoo*; Ariane Patrícia Ewald*; Deise Mancebo**; Eleonôra Torres Prestrelo***; Jorge Coelho Soares****; Rita Maria Manso de Barros*

Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Endereo para correspondncia

 

 

Em livro recentemente publicado na França, La posterité de l’École de Francfort, Alain Blanc e Jean-Marie Vincent afirmam na introdução ao mesmo que “a Escola de Frankfurt é um continente”, apontando com isso a impossibilidade de circunscrever seu campo de análise, que se espraia por um número imenso de possibilidades. Entretanto é possível ver neste continente as mesmas inquietações que vão sendo atualizadas historicamente; a importância de tentar uma abordagem interdisciplinar, a importância da Sociologia e da Psicologia que tendem a agir como uma psico-sociologia; o papel da Psicanálise; um diálogo crítico com grande parte dos fundadores da filosofia clássica e contemporânea; uma leitura despojada de ortodoxias engessantes do pensamento de Karl Marx; a busca pelas ligações possíveis entre teoria e prática, envolta na dificuldade de pensar os termos da práxis na contemporaneidade sem que isto provoque qualquer desânimo; o lugar da técnica nas sociedades capitalistas; a crise do indivíduo e suas identidades em um mundo globalizado; o papel da resistência das obras de arte e das práticas sociais críticas que negam a ordem existente e a consequente importância de sustentação de um pensamento utópico que, não sendo pensado como quimera ou ilusão, nos dê a esperança de um futuro, de um outro futuro que, seja como for, será construído por nós.

Há um apelo sempre presente nos que se voltam para o pensamento da Escola de Frankfurt de desenvolver em suas reflexões o que Romain Gary em seu livro La nuit sera calme, chamou de “a parte Rimbaud” em nós, aquilo que é necessário e fundamental em cada ser humano, sua parte idealista, lírica e imaginativa que não exige mais do que esperar e crer ser possível conseguir, mesmo que se viva em tempos sombrios. Não uma espera inerte, mas uma que comporta fragmentos errantes, nômades e insones de uma reflexão que não se completa nunca, e que cada um terá a exata noção de que seus fragmentos de reflexão são como os gritos dos galos do poema Tecendo a manhã de João Cabral de Melo Neto, só assim se consegue tecer um amanhã e, só assim se pode pensar em construir um futuro no qual o aforismo de Adorno ganha seu pleno sentido: “O amor é a capacidade do perceber o semelhante no dessemelhante”.

Este Dossiê foi construído com esta visada, a de que a Escola de Frankfurt é um continente no qual se pode perceber um número considerável de temas e variações de interpretação e de que, ao publicá-lo, esperamos que outros se disponham a lançar seu grito de reflexão crítica em um mundo cada vez mais globalizado, multimegalômano, em busca de um equilíbrio que “pressupõe não evitar nenhuma luta necessária e não provocar nenhuma que seja supérflua”, como adverte Peter Sloterdijk em Ira y Tiempo. Nisto reside nossa esperança de tecer uma bela manhã e certamente um novo amanhã.

Jorge Coelho Soares e Ariane P. Ewald, partindo da pergunta o que caracteriza e termina por construir o objeto de pesquisa das Ciências Humanas e Sociais, fazem dialogar os teóricos da Escola de Frankfurt com Sartre e tensionam as possibilidades de invenção, liberdade criativa com aquilo que emana da tradição, na esperança de um pensamento não pensado ainda. Douglas Kellner, respeitado filósofo americano, reconhecendo a enorme importância do pensamento de Marcuse nos anos 60 e 70, se dispõe a responder sobre a relevância deste pensador nos dias de hoje, em particular na área da Educação. Maria de Fátima Severiano e Pablo S. Benevides, fazem uma articulação entre o pensamento frankfurtiano e o pós-estruturalista, procurando mapear as novas formas de dominação e suas consequências que contém em si novas formas de inclusão e exclusão social. Maria Teresa Campos faz uma original e bem-vinda articulação entre o pensamento de Herbert Marcuse e Vilém Flusser ao perceber nos dois uma aguda crítica da razão que rege a sociedade contemporânea ocidental, ambos preocupados com a manipulação e a programação das consciências. No texto de Vanessa M. M. Salles um destaque para o olhar particular de Walter Benjamin sobre a cidade, sempre múltipla e diversa, na qual os conflitos sociais são encenados e todas as ruas de qualquer cidade servem de palco para esta encenação. Luiz Antônio da S. Peixoto tematiza, de forma didática, facilitando a apreensão do texto, o que considera como os elementos fundamentais da teoria crítica de Herbert Marcuse, com ênfase nos campos da crítica da cultura e da crítica da ideologia. Aluísio F. Lima coloca em cena o pensamento de Jurgen Habermas e vê nele, para além de todas as polêmicas possíveis, um continuador do projeto frankfurtiano na medida em que este pensador se mantém fiel ao seu compromisso ético-político pela transformação social e pela emancipação. Blanca Muñoz, certamente uma das maiores pensadoras frankfurtianas de nosso tempo, explora em denso texto as articulações entre consciência expressionista e consciência crítica como produto de uma mesma época histórica.

Maurício M. S. Oliveira, parte de uma grande e complexa questão: o pós-modernismo representa a um só tempo, a eliminação do caráter afirmativo da cultura e a dissolução da antiga dicotomia entre cultura e civilização? Em seu texto, fazendo ranger as ideias de Marcuse e Jameson, ele busca os indícios de reflexão que podem vir a se constituir em uma resposta inicial a sua questão. Já Stefan Gandler, toma como seu ponto de partida o texto de Walter Benjamin Sobre o conceito de História e nos mostra como o olhar para trás e examinar o passado é poder vir a compreender que as atividades a que a humanidade foi submetida, longe de “ter passado”, pode retornar não tal como foi, mas de uma maneira nova, fora do campo de nossa imaginação e, portanto, com potencial de terror que não sabemos avaliar. Por fim, o texto de Wolfgang Leo Maar, vigoroso pensador frankfurtiano a quem devemos inúmeras e valiosas traduções para o português de textos de autores da Escola de Frankfurt. Nele, o autor se dispõe a desmistificar a ideia de uma cisão “inevitável” entre teoria e práxis política, entre os pensadores avessos à práxis e os que “fazem política” e que se veem como “verdadeiros construtores” da realidade social. Dialogando com a tradução do pensamento frankfurtiano através de Adorno, Wolfgang nos mostra a necessidade de sustentarmos uma relação entre estas duas esferas de movimentação do sujeito onde a práxis política revela a reflexão com novos dados.

Para fechar o Dossiê, elaboramos uma seção “Tradução”, na qual apresentamos, pela primeira vez em português, um texto seminal de Herbert Marcuse: Sobre a possibilidade de construção de uma Filosofia Concreta, traduzido por Décio Rocha e Katharina Jeanne Kelecom. Escrito em 1929, imaginava com ele poder retirar de Ser e Tempo, de Heidegger, os elementos filosóficos necessários para poder compor o que ele imaginava que poderia vir a ser uma “revolucionária” Filosofia Concreta. O futuro lhe mostrará que havia um enorme equívoco nesta sua interpretação, mas seu texto permanece vigoroso e instigante. Dois estudos adicionais, de Jorge Coelho Soares e de Blanca Muñoz, complementam esta tradução e tentam analisar o impacto deste texto no pensamento marcuseano.

Este número ainda conta com quatro artigos na seção Clio-Psyqué: o primeiro, “A Questão da Consciência na Psicologia de Wilhelm Wundt”, é de Cíntia F. Marcellos e de Saulo F. Araujo, ambos da Universidade Federal de Juiz de Fora, e apresenta o conceito de consciência de Wilhelm Wundt, formulado na fase madura de sua obra e sustentado por uma definição de Psicologia como ciência da experiência imediata. Partindo de memórias sobre as práticas no campo da saúde mental, o segundo artigo intitulado “Contextos e processos: histórias e memórias de mudanças nas concepções e práticas de saúde mental no Brasil”, de Helena B. K. Scarparo, Adolfo Pizzinato e Aline Accorssi, da PUCRS, relata resultados parciais de pesquisas que vem sendo desenvolvidas sobre os processos de instituição da Psicologia no Brasil. O texto de Andrea A. Lima e Adriano F. Holanda, que trata da história da psiquiatria no Paraná, tem como título “O Dr. Alô falou para não contrariar”: a consolidação da psiquiatria no Paraná na primeira metade do século XX. Por fim, temos uma reflexão sobre a comemoração do Dia do Psicólogo no Chile, “El Día del Psicólogo en Chile: reflexiones y argumentos respecto a su conmemoración”, de autoria de Gonzalo Salas Contreras, da Universidad Central de Chile.

Na seção de Resenhas, Rodrigo L. Miranda apresenta uma discussão entre Psicologia e Educação; e para fechar a revista, a seção de Comunicação de Pesquisa traz o trabalho de Jerto C. Silva, Clarissa J. Lopes e Jéssica N. Canello, da UNISC, sobre “Os sentidos atribuídos ao cuidar na infância”.

Bom proveito.

 

 

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Notas

*Professora Adjunto do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ - Rio de Janeiro, RJ, Brasil
**Professora Titular do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ - Rio de Janeiro, RJ, Brasil
***Professora Assistente do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ - Rio de Janeiro, RJ, Brasil
****Professor Adjunto do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ - Rio de Janeiro, RJ, Brasil



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