ARTIGOS

 

Angústia de castração e objeto: limites do processo analítico

 

Castration anxiety and object: anxiety as a limit to psychoanalysis

 

 

Jorge Luís Gonçalves dos Santos*; Fernanda Costa-Moura**

Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O artigo circunscreve a posição de Lacan diante do que Freud considerou o limite das análises dos neuróticos: o rochedo da castração. Examina as vertentes da angústia delimitadas por Freud nas chamadas neuroses de angústia, na relação estabelecida entre angústia e desejo recalcado e, por último, na inflexão formalizada pelo artigo Inibição, sintoma e angústia. A seguir, aponta como Lacan problematiza o vínculo deixado por Freud entre angústia e ameaça de castração. Ao conceber a angústia como o sinal de um objeto elidido do campo do sujeito, Lacan precisa o ponto a ser atravessado pelos neuróticos em análise.

Palavras-chave: Psicanálise, Angústia de castração, Objeto a, Neurose.


ABSTRACT

The article discusses Lacan´s views on what Freud considered the ultimate block of psychoanalysis: the castration anxiety , considered as the bedrock [Felsen] on which every treatment must necessarily fail and where theory meets its limit. In order to do so, it approaches Freud´s distinct conceptions of anxiety – the early one, in which anxiety is related to the neurosis of anxiety, which connects anxiety and repression, and finally the turning point put forward by the article Inhibition, Symptom, and Anxiety. Through that exam, the paper tries to reach the heart of Lacan´s contributions, that allow psychoanalysis to go beyond the freudian positions that established a direct link between anxiety and the threat of castration. Conceiving anxiety as the sign, not of castration, but rather, of the imminency of an object eluded from the subject´s field, Lacan is able to point out what is really at stake for the subject facing anxiety in analysis.

Keywords: Psychoanalysis, Castration anxiety, Object a, Neurosis.


 

 

1 Introdução

O artigo problematiza a definição da castração e como ela pode definir um limite ultrapassável ou não para a clínica psicanalítica. O trabalho sustenta-se nas concepções que Freud oferece sobre a angústia até o momento em que Lacan formaliza a incidência desse afeto com a conceitualização do objeto a. Trata-se de retomar os passos delimitadores da teorização da angústia em Freud e em Lacan para, em seguida, perguntar sobre o lugar do complexo de castração na tarefa analítica.

A primeira parte do artigo aborda os destinos que Freud forjou para a questão da angústia, tencionando constituir o que resta de suas incursões no tema. A partir de então, o trabalho será conduzido pela posição tomada por Jaques Lacan em 1962-3, ao proferir o seminário A angústia, em referência ao impasse legado por Freud no âmbito da angústia. Ao aventurar-se a discernir as incidências da angústia, Freud construiu o campo que a neurose constitui e, ao mesmo tempo, encontrou seu nó, o limite que considerou não ultrapassável pelo sujeito, nem, consequentemente, pela clínica.

Para Freud, a angústia e a castração encerram o limite que a neurose oferece à clínica. Para encaminhar essa relação entre a angústia e castração delimitaremos o manejo da afirmação freudiana de que a castração é um rochedo para a neurose (FREUD, 1937/1996m) feito por Lacan, quando indaga sobre a plausibilidade de aceitá-la como um ponto irresolúvel para os neuróticos em análise. No horizonte desta investigação, discutiremos de que maneira a angústia é o sinal de um recuo exigido pela castração ou a delimitação de um ponto preciso a ser transposto por uma análise.

 

2 A neurose de angústia

O termo angústia surgiu precocemente nas colocações de Freud, primeiramente vinculado ao que ele chamou "neurose de angústia". Já tendo percebido que os sintomas da neurastenia baseavam-se em fatores sexuais da vida dos sujeitos (FREUD, 1950/1996o, p. 223), o passo inicial de Freud foi examinar o papel da sexualidade na etiologia da neurose de angústia.

Nesse contexto, enquanto a neurastenia liga-se a um empobrecimento da excitação pela alta frequência de emissões de produtos sexuais (FREUD, 1898/1996b, p. 255), a neurose de angústia se define por um acúmulo de excitação (FREUD, 1895/1996a, p. 114-5). A neurose de angústia corresponde a "uma questão de acumulação física de excitação – isto é, uma acumulação de tensão sexual física" (FREUD, 1950/1996p, p. 237). Porém, a angústia não é simplesmente localizada no acúmulo da excitação: "visto que absolutamente nenhuma angústia está contida no que é acumulado, a situação se define dizendo-se que a angústia surge por transformação a partir da tensão sexual acumulada" (ibid., grifos do autor). Ou seja, é preciso que haja um processo de transformação para que a angústia surja do acúmulo de tensão sexual.

Em torno de 1894, a preocupação de Freud foi situar a angústia na transformação de uma tensão física que encontrou impedimentos para se desembaraçar do corpo. Segundo o princípio de constância e sua tendência em manter o mais baixo possível o nível de tensão no interior do organismo (Cf. FREUD, 1950/1996q, p. 349 e 1920/1996i, p. 18), a angústia irromperia quando a energia sexual fosse obstaculizada em seu processo de escoamento (FREUD, 1950/1996p, p. 238).

Assim, há uma tensão física que se impõe ao sujeito como uma exigência corporal, mas que é apenas psiquicamente percebida na ultrapassagem de um limiar (FREUD, 1895/1996a, p. 109). É somente ao atingir um certo nível que a excitação entra em contato com um grupo de ideias sexuais e ganha significação psíquica. Uma vez a libido seja despertada, o sujeito é constrangido a engajar-se numa busca para liberar o afeto sexual do sistema psíquico (ibid.), através do que Freud chamou de "ação específica" (FREUD, 1950/1996q, p.349). É pelo estado de tensão libidinal que o sujeito será impelido a realizar a ação que consume a descarga psíquica (FREUD, 1895/1996a, p. 109).

Por considerar a prática do coito interrompido uma estimulação física completamente incapaz de produzir uma descarga adequada ou suficiente, Freud a associa intimamente à neurose de angústia (FREUD, 1895/1996a, p. 111). No caso do coito interrompido, a realização da descarga da excitação não ocorre de maneira satisfatória, pois a tensão física, ao não ser transformada em um afeto libidinal, deixa de atingir o grupo de representantes psíquicos condizentes com a sexualidade. Sem a ativação desse grupo psíquico, não surge a ânsia pela descarga que a ação específica promove. Ou seja, a tensão sexual somática permanece enraizada no corpo e, sem encontrar vazão, a única maneira pela qual ela obtém escoamento é através de sua transformação em angústia.

A neurose de angústia define-se, então, como o hiato entre a tensão sexual física que acometeria o corpo e a possibilidade de algo ser psiquicamente significado, tendo como consequência o que Freud chama de uma "alienação entre as esferas psíquicas e somáticas" (FREUD, 1895/1996a, p. 111). Ao surgir pela primeira vez na obra freudiana, a angústia é especificamente considerada como afeto que sobrevém no lugar da libido caso a excitação somática não chegue a obter acesso às representações psíquicas. Assim, é pelas indicações de que a angústia corresponde ao acúmulo de excitação de origem somática bem como de que essa excitação é de natureza sexual e ainda desprovida de participação psíquica, que Freud define o mecanismo da neurose de angústia como uma "deflexão (desvio) da excitação sexual somática da esfera psíquica e no consequente emprego anormal dessa excitação" (FREUD, 1895/1996a, p. 108-9).

Freud cria a "neurose de angústia" ao perceber que todos seus elementos podem ser agrupados em torno do mesmo sintoma da angústia, ou seja, em todos os casos a angústia surgiria como um afeto no lugar em que não houve a criação da libido psíquica nem a realização da ação específica. Ou seja, "a concepção aqui desenvolvida retrata os sintomas da neurose de angústia como sendo, em certo sentido, substitutos da ação específica omitida posteriormente à excitação sexual" (FREUD, 1895/1996a, p. 112).

Nota-se, desse modo, que a neurose de angústia concerne a algo que se furta à significação psíquica, que não consegue ser representado, e que, além disso, tem uma incidência particular na corporeidade. Porém, na angústia, não é toda representação que falta ao sujeito, mas precisamente aquela que diz respeito à sexualidade.

Assim, o que a angústia revela é a falta de uma representação psíquica que leve o sujeito a realizar uma ação específica no campo do sexual. Por outro lado, nada impede que, na falta de certos representantes psíquicos que possam ser vinculados à excitação sexual, a angústia se apresente em estado de "livre flutuação" (FREUD, 1895/1996a, p. 96) e entre em associação com outros elementos da cadeia associativa. É o que origina a expectativa angustiada, a mania de duvidar, ou ainda, o medo de baratas, borboletas, cobras ou aranhas, por exemplo (FREUD, 1895/1996a, p. 95-6). Ora, se a angústia chega a despertar alguma representação é justamente por faltar a que seria adequada para o escoamento da tensão sexual.

 

3 Um sujeito afetado pelo desejo

Em A Interpretação dos Sonhos, Freud (1900/1996c) introduz a questão sobre o sentido dos sonhos – ou seja, o sentido latente que permanece oculto à aparência do conteúdo onírico – na realização de um desejo inconsciente. Com a tarefa de elucidar porque o sonho é a realização de um desejo, pergunta-se muitas vezes, ao longo do livro, de que modo alguns sonhos produzem a sensação de pesar ou desprazer enquanto ocorrem, ou seja, "como podem os sonhos aflitivos e os sonhos de angústia ser realizações de desejos?" (FREUD 1900/1996c, p. 170).

Para sustentar o desejo que se imiscui no material do sonho apesar da censura investida contra ele, Freud sugere que a realização do trabalho da elaboração onírica ocorre tanto por uma instância responsável pelo desejo, como por outra que, ao exercer uma censura sobre tal desejo, promove a distorção de seu material (FREUD, 1900/1996c, p. 176). Ao partir da hipótese da operação de duas instâncias psíquicas no funcionamento psíquico, Freud considera os sonhos aflitivos através de um paradoxo, afirmando-os no esteio de algo que é penoso para uma instância, mas que, ao mesmo tempo, realiza um desejo por parte de outra (FREUD, 1900/1996c, p. 179-80).

Se o sonho emerge com um caráter desprazeroso, isso ocorre pela distorção onírica impedir que um desejo seja abertamente revelado. A repugnância causada pela realização de um desejo é justificável ao se concluir que esses sonhos são distorcidos e que neles o desejo é disfarçado a ponto de se tornar irreconhecível. O sonho, como "uma realização (disfarçada) de um desejo ([...] recalcado)" (FREUD, 1900/1996c, p. 193), é o resultado de um trabalho de elaboração no qual a censura atua para evitar o desprazer que o desejo recalcado suscita caso irrompa no pré-consciente. Assim, o desprazer surge em um sonho quando a censura se mostra incapaz de distorcer suficientemente a expressão do desejo inconsciente.

Por outro lado, em A Interpretação dos Sonhos, Freud afirma ainda que o caráter acentuado de desprazer pode ocorrer em alguns sonhos como uma manobra para suprimir a realização do desejo. Nesse sentido, o conteúdo aflitivo de um sonho pode remeter à realização do desejo "se o conteúdo penoso servir apenas para disfarçar algo que se deseja" (FREUD, 1900/1996c, p.179). Freud discute alguns exemplos e com eles demonstra que a angústia e o desprazer também surgem no conteúdo dos sonhos como meio de evitar as implicações do desejo (FREUD, 1900/1996c 186-190).

Enfim, seja considerando que o desprazer aparece em um sonho quando a elaboração onírica não distorce suficientemente a realização do desejo, seja ao afirmar que o desprazer é veiculado no conteúdo do sonho para suprimir a realização iminente do desejo, em ambos os casos, Freud relaciona intimamente a angústia aos processos psíquicos envolvidos no inconsciente, chegando a considerá-la como algo da ordem de uma contrapartida em certa medida inevitável quanto se trata do desejo. Sendo o inconsciente a instância de onde provém o desejo necessário para a formação do sonho, aquilo que não "conhece outro objetivo senão a realização de desejos e não tem sob seu comando outras forças senão as moções de desejo" (FREUD, 1900/1996c, p. 597), a angústia é a expressão pré-consciente da satisfação de um desejo inconsciente.

Um exemplo disso é quando Freud recorda que, nos tempos de criança, acordara angustiado por ter sonhado com sua mãe, já sem vida, sendo carregada para o seu leito por pessoas com máscaras de bico de pássaros (FREUD, 1900/1996c, p. 611). Ora, é inteiramente diferente afirmar que Freud acordou angustiado pela morte de sua mãe e considerar por outra via, como, no sonho, a angústia encontra-se disposta em relação ao desejo. Em primeiro lugar, Freud indica que as figuras com bico de pássaros remontam, em sua memória, a deuses egípcios com cabeça de falcão, ilustradas sobre uma tumba pela bíblia de Philipson [bíblia alemã com tradução em hebraico]. Além disso, ele descreve que a lembrança da primeira vez que ouviu, de um garoto chamado Philipp, a expressão vulgar alemã para as relações sexuais, foi o que revelou a articulação inconscientemente realizada entre Volgeln [cópula] e Vogel [pássaro] (ibid.). Assim, a angústia que dominou Freud em seu sonho não dizia respeito somente à morte de sua mãe, uma vez que seu aparecimento estava fundamentalmente ligado a questões sexuais articuladas pela estrutura da língua alemã.

Ao surgir ligada a representações, a angústia endossa as questões concernentes ao desejo, como nesse caso específico em que o filho, sonhando com a morte de sua querida mãe, pode evocar no mesmo golpe o que foi o momento de emergência da dimensão sexual para ele. Mais além do que essas representações dizem sob a forma do conteúdo manifesto (e ainda mais radical do que a angústia de Freud em ver sua mãe morta), o que a interpretação mostra quanto à angústia são os fatores sexuais afetando intimamente o sujeito através da realização inconsciente do desejo. A angústia, na Interpretação dos sonhos, é a maneira que o sujeito tem de ser afetado pelo desejo inconsciente. Desse modo, segundo Freud, não há contradição alguma no fato de que "um processo psíquico gerador de angústia possa, ainda assim, constituir a realização de um desejo" (FREUD, 1900/1996c, p. 608-9). A explicação para isso é que o desejo pode muito bem manter sua função no sistema inconsciente e, além disso, ser repudiado e suprimido pelo pré-consciente.

No texto metapsicológico Recalque (FREUD, 1915/1996e), a questão da angústia segue a via aberta pela Interpretação dos sonhos. Nesse texto, a exigência do recalque se impõe quando a satisfação de um representante pulsional chega a acarretar desprazer para o sistema psíquico. A partir de então, a operação do recalque nega a entrada desse representante psíquico na consciência e, num segundo momento, condena ao mesmo destino todos os outros representantes que com ele entrarem em associação, constituindo, assim, o caráter disruptivo da vida psíquica (FREUD, 1915/1996e, p. 153).  Uma vez tenha operado o mecanismo do recalque, de um lado o representante psíquico permanecerá inconsciente, e, de outro, uma cota de afeto será capaz de se retirar dele para outros representantes.

O investimento pulsional deslocado do recalcado para outros representantes é denominado por Freud de afeto (FREUD, 1915/1996e, p. 157). O afeto "corresponde à pulsão na medida em que esta se afasta da ideia e encontra expressão, proporcional a sua quantidade, em processos que são sentidos como afetos" (ibid.). A questão do afeto interessa de perto ao tema da angústia na medida em que ela própria é um afeto (FREUD, 1926/1996k, p. 131 e LACAN 1962-3/2005, p.23). Enquanto afeto, a angústia resulta do processo pelo qual a quota pulsional se distancia do representante psíquico recalcado ao qual deve sua origem. Se o representante psíquico foi recalcado pelo desprazer que proporcionava para a consciência, o afeto reproduz a mesma sensação que geraria a cota pulsional desse representante.

É assim que Freud considera a angústia como um destino possível para o fator quantitativo do representante psíquico. Tal destino, como afirmado em O inconsciente, realiza-se na transformação direta do desenvolvimento da pulsão, oriunda do representante psíquico recalcado, em angústia (FREUD, 1915/1996f, p.183-4 e 1915/1996e, p. 157-8). Não há, portanto, nada que se intercale entre a movimentação pulsional inconsciente e a consciência que se mostra afetada por tal investimento através da angústia.

 

4 Inibição, sintoma e angústia

É em seu artigo Inibição, sintoma e angústia (1926/1996k), que Freud realiza os últimos encaminhamentos referentes à angústia em sua obra. É em relação ao recalque que as modificações mais fundamentais são realizadas.

Como foi abordado, o primeiro movimento de Freud foi aproximar a angústia da função sexual, apontando-a, sobretudo, para um hiato não sobrepujável pela significação psíquica. Num segundo tempo, ele vinculou intimamente a angústia ao desejo e à libido pela qual os representantes inconscientes buscam expressão. Se na Interpretação e nos textos metapsicológicos de 1915, Freud considerou a angústia como produto da transformação direta da quantidade pulsional em afeto, em Inibição, sintoma e angústia (1926/1996k) ele passa a delineá-la por intermédio do eu. Em decorrência da importância tópica que o eu ganha em O eu e o isso (FREUD, 1923/1996j), a angústia deixa de ser considerada um processo que irrompe de maneira automática na consciência e passa a ser concebida como uma liberação feita pelo eu enquanto operador responsável por retirar o investimento pré-consciente do representante pulsional recalcado e utilizá-lo na emersão da angústia (FREUD, 1926/1996k, p. 96-7).

Portanto, é a partir "do investimento libidinal dos impulsos pulsionais" (FREUD, 1926/1996k, p. 112) que a angústia é produzida pelo eu. Como afirma Freud, "o eu é a sede real da angústia" ou, ainda, "a angústia é um estado afetivo e como tal, naturalmente, só pode ser sentida pelo eu" (FREUD, 1926/1996k, p. 138-9).

Ao considerar a angústia como uma operacionalização do eu, Freud não mais a  localiza logicamente após o mecanismo do recalque – algo que inicialmente se prestaria à produção de prazer, mas que, pelo recalcamento, traria desprazer à consciência. Em Inibição, sintoma e angústia, Freud evoca a fobia do pequeno Hans – artigo originalmente descrito por Freud em Análise de uma fobia em um menino de cinco anos (1909/1996d) – para afirmar que o recalque apenas incide nos impulsos pulsionais para evitar o desencadear  da angústia.

 Em Hans, tanto a moção pulsional hostil quanto a terna dirigida ao pai, como a moção terna dedicada à mãe, foram recalcadas por remeterem o sujeito à castração. Para Freud, o perigo que a angústia assinala é a castração que está na raiz dos próprios investimentos libidinais (FREUD, 1926/1996k, p. 109-10). A última concepção de angústia sustentada por Freud tem como ponto-chave uma íntima relação entre os investimentos pulsionais e a ameaça de castração. A angústia indica como o movimento libidinal conduz a um risco, já que "uma exigência pulsional não é, afinal de contas, perigosa em si; somente vem a ser assim visto que acarreta um perigo externo real, o perigo da castração" (FREUD, 1926/1996k, p. 126). Os investimentos libidinais suscitam a angústia e tem seus representantes psíquicos condenados ao recalque no momento em que a castração torna-os ameaçadores.

Assim, a angústia coloca-se num instante logicamente anterior ao recalque, e não, como tinha sido sustentado até então, posterior a ele. Ao contrário do segundo tempo de sua concepção de angústia, Freud não propõe que os impulsos pulsionais tornam-se angustiantes pelo recalque. É por serem angustiantes ao eu que os impulsos pulsionais são recalcados. Ou seja, "a angústia (...) põe o recalque em movimento" (FREUD, 1926/1996k, p. 112).

Ao referir-se ao caso Hans, Freud sustenta tal inversão em sua concepção de angústia ao dizer que "foi a angústia que produziu o recalque e não, como eu anteriormente acreditava, o recalque que produziu a angústia" (FREUD, 1926/1996k, p. 111). Deixando claro a retificação operada sobre o que ele mesmo havia sustentado, Freud escreve "não vale a pena negar o fato, embora não seja agradável relembrá-lo, de que em muitas ocasiões afirmei que no recalque o representante pulsional é distorcido, deslocado, e assim por diante, enquanto a libido que pertence ao impulso sexual é transformada em angústia" (ibid.). Freud não mais dispõe a angústia como uma antípoda do desejo, um "efeito colateral" que o desejo deixaria na consciência. Agora a angústia está na raiz do desejo; motivo pelo qual o recalque só pode ser posterior a sua emergência. "É sempre a atitude de angústia do eu que é a coisa primária e que põe em movimento o recalque. A angústia jamais surge da libido recalcada" (ibid.).

Não obstante, há também a possibilidade da angústia continuar a eclodir após o recalcamento. De um lado, é para não ter que se deparar com aquilo de que a angústia se faz índice, a castração, que o processo de recalcamento é levado a cabo. De outro, uma vez estabelecido o recalcamento, não há razão para  a angústia ser elidida do sistema psíquico. Pelo recalque falhar na tentativa de manter os impulsos pulsionais inconscientes inoperantes (FREUD, 1926/1996k, p. 98), a angústia é utilizada como o sinal que indica o surgimento do objeto [da realidade] para o qual se desloca a quota pulsional do representante psíquico recalcado.

A partir de então, Freud localiza vários pontos da vida pulsional – todos eles estruturados sob uma forma de perda – em relação ao quais a angústia é uma espécie de aviso para os perigos deles provenientes. Tais momentos são eleitos como privilegiados para a emersão da angústia: o desamparo psíquico do recém-nascido, o receio infantil de perder a pessoa de quem se depende, a perda do amor, o medo de perder o órgão genital na castração e o temor da perda do amor do supereu por não estar à altura de suas exigências (FREUD, 1926/1996k, p. 140). Essas são as situações em que a angústia identifica o perigo que a perda dos objetos traz ao deixar o sujeito exposto às exigências libidinais.

Com a definição de que "a angústia (...) é um estado especial de desprazer com atos de descarga ao longo de trilhas específicas" (FREUD, 1926/1996k, p. 132), Freud considera a angústia como o sinal a ser emitido nas vezes que o sujeito corre o perigo de se separar de seus objetos e, ao ficar completamente à mercê dos investimentos pulsionais inconscientes, ser condenado àquilo que mais teme, a castração.

Na vigésima quinta conferência introdutória à psicanálise, Freud afirma que, ao contrário do medo, que tem um objeto específico, a angústia é sem objeto (FREUD, 1917/1996h, p. 396). Num primeiro vislumbre da obra freudiana, não só a angústia não tem objeto como se refere à perda iminente de alguns objetos essenciais para a economia libidinal do sujeito. No adendo de Inibição, sintoma e angústia, chamado de B- observações suplementares sobre a angústia, Freud afirma:"A angústia [Angst] tem inegável relação com a expectativa: éangústia por algo. Tem uma qualidade de indefinição e falta de objeto. Em linguagem precisa empregamos a palavra ‘medo' [Furcht] de preferência a ‘angústia' [Angst] se tiver encontrado um objeto" (FREUD, 1926/1996k, p.160, grifos do autor). Não obstante, no Seminário A angústia, Lacan se coloca  contra essa afirmação para, paradoxalmente, enfatizar a mensagem deixada por Freud quanto à angústia:

Admite-se comumente que a angústia é sem objeto. Isso que é extraído não do discurso de Freud, mas de parte de seus discursos, é propriamente o que retifico com meu discurso. Portando, vocês podem considerar que (...) ela não é sem objeto. É exatamente essa formulação em que deve ficar suspensa a relação da angústia com um objeto (LACAN, 1962-3/2005, p.101).

Tomando a frase em que Freud diz que "a angústia é por algo" (FREUD, 1926/1996k, p. 160, grifos do autor), ou melhor, diante algo (vor etwas) (LACAN, 1962-3/2005, p. 115), e ainda valendo-se da dimensão de expectativa considerada por ele, Lacan afirma que a angústia "não é sem objeto". Ao invés de considerar a angústia como advinda da ameaça de castração, ou seja, da perda do objeto, Lacan a afirma além da castração, não onde o objeto se faz ausente, mas ao contrário, onde sua incidência é deflagrada. Para que a angústia irrompa é preciso a incidência de um objeto, ou seja, quando o vazio objetal não se sustenta.

Em Lacan, o objeto da angústia constitui-se como anterior ao surgimento do sujeito, não sendo propriamente circunscrito naquilo que é visto, pego, intuído ou intencionado, nem redutível aos objetos imaginários que compõem a realidade cotidiana. Ao invés de ser concebido sob uma tentativa de captação direta, pode-se dizer que o objeto da angústia ocupa a função de estar atrás do desejo – e, na demarcação desse atrás, o que está em jogo não é uma localização espacial, mas o lugar onde opera a função de causa do desejo.

Como assinala Lacan, na trigésima segunda de suas novas conferências introdutórias sobre psicanálise(1933/1996l), ao abordar a diferença existente entre o alvo da pulsão, Ziel, e Objeto, Objekt, Freud não os emparelha numa mesma ordem (FREUD, 1933/1996l, p. 99; LACAN, 1962-3/2005, p. 115). A princípio, seria óbvio que a finalidade, a meta, o alvo da pulsão se localizasse justamente onde se encontra o objeto. O alvo de uma pulsão é a satisfação, sua meta é eliminar o estado excitatório que permanece em sua fonte (FREUD, 1915/1996g, p.128), contudo, isso não se obtém numa relação direta com o objeto. É na medida em que esse objeto é sempre eingeschoben, invaginado, inserido, escorregando para dentro e acabando por estender-se para algum outro lugar, que a satisfação ocorre (LACAN, 1962-3/2005, p. 115). É enquanto fugidio, ocupando o lugar de um vazio, que o objeto, ao invés de pura ausência, presentifica sua função de causa do desejo. A pulsão se satisfaz onde o desejo é causado por um objeto que, ao se vislumbrar capturá-lo, ele não mais está lá.

É assim que se pode realizar uma aproximação da expressão de Freud "perda do objeto" (LACAN, 1962-3/2005, p. 116): tal perda institui a falta fundamental para a operação do desejo, pois, no caso em que a falta vem a faltar, a angústia faz seu mote.

 

5 A angústia de castração

Em 1937, nas considerações finais do artigo Análise terminável e Interminável (1937/1996m), Freud faz um relato dizendo que, ao final dos tratamentos por ele dirigidos, os homens permaneciam fixados na ameaça de castração e as mulheres na reivindicação do pênis, o penisneid. Essa lhe parecia uma condição impossível de ser ultrapassada pelos neuróticos.

Em nenhum ponto de nosso trabalho analítico se sofre mais da sensação opressiva de que todos os nossos repetidos esforços foram em vão, e da suspeita de que estivemos ‘pregando ao vento', do que quando estamos tentando persuadir uma mulher a abandonar seu desejo de um pênis, com fundamento de que é irrealizável, ou quando estamos procurando convencer um homem de que uma atitude passiva para com homens nem sempre significa castração e que ela é indispensável em muitos relacionamentos na vida (FREUD, 1937/1996m, p. 269).

Por conseguinte, a demanda neurótica estaria no registro do objeto fálico, sendo o homem marcado pela ameaça de sua perda e a mulher pelo interesse em tê-lo. Isso está em extrema conjunção com a definição freudiana da angústia como o sinal da perda do objeto, não apenas do objeto fálico, mas de todo o restante da série de objetos que se concatenam a partir dele. Segundo a visão freudiana do complexo de Édipo, a angústia de castração abre-se num impasse: ao mesmo tempo que ao menino é interditado investir libidinalmente na mãe, a perda do objeto materno é a expressão de que ele jamais estará imune aos impulsos pulsionais (FREUD, 1940/1996n, p. 293). O que Lacan salienta na obra freudiana é que, da impossibilidade de se ter o objeto materno, se faz a estruturação do desejo (LACAN, 1959-60/1997, p. 97 e 1962-3/2005, p. 167). A angústia não está ligada à condição de castração em que a criança se vê envolvida frente à lei de proibição do incesto; ao contrário, é o desejo do pai pela mãe e a estrutural impossibilidade do incesto que detêm a função de normatização do desejo.

O impedimento do desejo pela mãe não é, portanto, a causa da angústia neurótica.  É por assunção ao desejo do pai, através da castração, que o neurótico encontra a satisfação, ou tomando seu desejo como insatisfeito ou como impossível. Em suma, o neurótico se torna capaz de sustentar o desejo ao passar pela instituição da lei paterna (LACAN, 1962-3/2005, p. 120).

Ao invés de tomar como dado final o recuo do sujeito diante da angústia de castração, Lacan considera a castração como a condição estrutural do desejo. É nessa via que Lacan lança-se à tarefa de renovar o estatuto da mensagem freudiana sobre o desejo, indicando como a desvinculação da angústia em relação à perda do objeto (LACAN, 1962-3/2005, p. 52) implica em não fazer da castração nem do penisneid o termo intransponível de uma análise (LACAN, 1962-3/2005, p. 56).

Ora, o que Freud nos diz a esse respeito? Que o último termo a que chegou ao elaborar essa experiência [a neurótica], seu ponto de chegada, seu obstáculo, o termo intransponível para ele, foi a angústia de castração. O que significa isso? Esse termo é intransponível? O que significa essa parada da dialética analítica na angústia de castração? (...) A abertura que lhes proponho, a dialética que aqui lhes demonstro, permite articular que não é a angústia de castração em si que constitui o impasse supremo do neurótico (LACAN, 1962-3/2005, p. 55-6).

Nessa perspectiva, a castração, ao inaugurar a falta pela qual o desejo de fato se articula, encobre o que está em questão na angústia. Tal encobrimento diz respeito a um objeto, chamado por Lacan de o objeto a (LACAN, 1962-3/2005, p. 98-9). Para Lacan, esse é o objeto que se coloca em referência ao desejo, sendo através dele que se localiza a geração de angústia.

A posição de Lacan quanto à castração é surpreendente: "A castração é o preço dessa estrutura, substitui essa verdade" [a angústia como a verdade da sexualidade]. "Mas, de fato, esse é um jogo ilusório." (LACAN, 1962-3/2005, p. 293). Se a angústia como a verdade da sexualidade repousa no fato de que não há o falo ali onde se espera que ele funcione, o padecimento neurótico pela perda do objeto fálico revela-se um encobrimento da angústia pela castração. É assim que, depois de dizer "não existe castração, porque, no lugar em que ela tem que se produzir, não há objeto a castrar. Para isso, seria preciso que o falo estivesse ali, mas ele só está ali para que não haja angústia", Lacan conclui: "o falo, ali onde é esperado como sexual, nunca aparece senão como falta, e essa é sua ligação com a angústia" (ibid.).

Lacan não condescende à afirmação freudiana de que a rocha intransponível em que esbarram todos os neuróticos em análise é a ameaça de castração ou a reivindicação do pênis (FREUD, 1940/1996n, p.269). A proposição de Lacan é que a angústia de castração não é o impasse supremo do neurótico. Ela é condição para a sustentação do desejo. O que a castração implica é que o objeto próprio à fase fálica, enquanto aquele que poderia consumar o encontro sexual, não só inexiste como se baseia numa falta inerente à linguagem. O objeto "falo" não pode ser alcançado por estar submetido à ordem simbólica, produzindo efeitos de significação ao ser um significante em suspensão (LACAN, 1957-58/1999, p. 249).

A marca que o significante fálico deixa na cadeia significante ao situar nela uma falta conduz à impossibilidade de que haja qualquer suporte para o objeto no nível genital. Na falta que o falo abre na cadeia significante, o objeto pode, no máximo, ser a promessa de uma complementaridade ou apaziguamento. Mas onde se espera que o falo esteja, para exercer a função de intermediação entre os sexos, é justamente onde ele não está (LACAN, 1962-3/2005, p. 283). O significante fálico imprime em seu objeto a dimensão de um corte, de modo que, enquanto objeto, o falo só pode apresentar-se como decaído, nunca apto a fechar a hiância instaurada por tal significante. Lacan localiza a ameaça de castração onde sujeito mantém a esperança de que o objeto fálico venha a saturar a falta inaugurada pelo significante.

Desse modo, a ameaça e a angústia de castração não se confundem. A ameaça de castração só pode advir para aquele que acredita que há falo a ser castrado. E tal crença apenas pode ser um desvio da verdade que a angústia de castração acarreta: não há objeto fálico que feche o campo (sexual) que o significante cindiu.

Diferente de Freud, que situa a angústia na falta propiciada pelo objeto fálico, Lacan afirma que é por meio dessa falta que o desejo vigora. A angústia, para Lacan, está em outro lugar, ou seja, nas circunstâncias em que essa falta vem a faltar (LACAN, 1962-3/2005, p. 52). Enquanto Freud aponta que a angústia surge na perda do objeto (perda que abriria o campo no qual o significante não adere), Lacan diz que a angústia é o sinal do real (LACAN, 1962-3/2005, p. 178) que se apresenta no momento em que o objeto não falta. A consequência dessa afirmação é que o significante fálico, ao abrir um corte no nível do objeto fálico, convoca o que Lacan chama de "cessão do objeto"(LACAN, 1962-3/2005, p. 340).

O ato da cessão é o que garante que a falta simbólica engendre o desejo através de objetos que, ao serem perdidos, assumem a função de causa do desejo. Assim é que a angústia de castração, situada no nível fálico, exige a perda dos objetos que assumem um valor fundamental na constituição do desejo: o objeto oral, anal, escópico e a voz (LACAN, 1962-3/2005, p. 320). Se na infindável busca pelo objeto fálico a própria castração é o lugar onde uma falta capital engendra a função do desejo, resta saber o que jaz no centro dessa falta.

Longe de irromper na falta simbólica da castração ou na perda do objeto, a dimensão da angústia concerne a um instante evanescente onde o objeto não falta. A instabilidade desse momento provém de sua necessidade lógica, ou seja, se há alguma falta simbólica operando na neurose, ela só pôde ser legitimada pelo atravessamento da angústia. O objeto da angústia não é simplesmente um objeto perdido, ele foi perdido sem que o sujeito o tivesse; é nesse ponto preciso que se compõe sua pregnância real. Se o sujeito pode fazer dessa falta desejo, o objeto em perda também pode retornar com o engolfamento dessa falta, mostrando, com a tonalidade angustiante que lhe é própria, o preço que se pagou para que o desejo fosse causado. O fato da experiência analítica apontar que há um desejo veiculado em toda falta é o que faz a angústia ser definida como a convocação ao ato de uma perda, perda que propriamente instituiu o desejo.

Para corroborar uma descontinuidade entre a falta pela qual o desejo se sustenta no nível da castração e o lugar onde a angústia impera, é necessário que as dimensões da falta e da perda sejam tomadas como distintas (LACAN, 1967-8, lição de 10 de janeiro de 1968). Segundo Lacan, a falta localiza-se no nível da cadeia significante e segue marcada pela notação da castração, onde todo significado é posto em relação ao significante fálico. Mas é em outro lugar que a perda diz respeito ao objeto sem o qual não há angústia. Pela diferença entre esses dois níveis, pode-se dizer que a dimensão da falta ampara-se em uma perda a ser experienciada pelo sujeito, de modo que a falta simbólica só se sustenta na dependência de que o objeto a seja concebido em pura perda.

Frente ao rochedo da castração, a neurose só parece recuar para manter-se complacente na falta onde o desejo se ancora. Entretanto, apesar de operar com essa falta, o que interessa ao percurso de uma análise é o atravessamento da castração, onde o ato da perda do objeto a reinaugura e sustenta a falta fálica. Em outras palavras, em toda falta simbólica há a operação do objeto causa do desejo a ser sustentado pelo ato de uma perda.

Como afirma Lacan,

Aquilo diante de que o neurótico recua não é a castração, é fazer de sua castração o que falta ao Outro. É fazer de sua castração algo positivo, ou seja, a garantia da função do Outro (...). Isso ele só pode assegurar por meio de um significante, e esse significante falta, forçosamente. Nesse lugar de falta, o sujeito é chamado a dar o troco através de um signo, o de sua própria castração (LACAN, 1962-3/2005, p. 56).

O neurótico não recua diante da castração, ele protela a tarefa de fazer valer a falta em que o Outro, enquanto significante, se institui. Para sustentar a falta que introduz o desejo no campo do Outro, o sujeito é chamado a realizar a cessão do objeto, ou seja, perder o objeto como uma parte de si. O que Lacan aponta como possível de ocorrer em uma análise é a sustentação do campo do Outro como aquele onde se veicula a falta imprescindível ao desejo. Porém, para isso, é indispensável que uma perda tenha sido operada no atravessamento da angústia.

 

6 Considerações finais

A castração não é nem o lugar da angústia, nem, simplesmente, o sujeito se detém diante dela com horror. Frente à afirmação de Freud de que a castração é uma rocha intransponível na análise de seus pacientes, Lacan salienta como a questão da castração pode ser um recurso do sujeito para evitar o que está no centro do desejo. De modo algum a ameaça de castração condiz com o status do objeto a. Na medida em que não há objeto a ser castrado, conclui-se que a ameaça de castração é uma cena dramática pela qual o neurótico considera que o pai fez do falo um objeto inacessível. A ameaça de castração é uma forma de satisfação articulada para escamotear que a falta de objeto no nível fálico depende da cessão do objeto a.

Como diz Lacan, "o falo, revelando-se faltoso, constitui a própria castração como um ponto impossível de contornar, na relação do sujeito com o Outro, e como um ponto resolúvel quanto à sua função de angústia" (LACAN, 1962-3/2005, p. 290). A castração torna-se resolúvel em relação à angústia no momento em que, sem o amparo da ameaça de castração ou do penisneid, o sujeito surge tendo se servido de sua angústia, ou seja, no efeito da extração do objeto a como garantia do desejo.

 

Referências

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LACAN, J. OSeminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, [1959-60] 1997.

______. OSeminário, livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: J. Zahar Editor, [1957-58] 1999.

______. O Seminário, livro 10: A angústia. Rio de Janeiro: J. Zahar Editor, [1962-63] 2005.

______. O Seminário, livro 15: o ato psicanalítico. Seminário inédito, [1967-68].

 

 

Endereço para correspondência
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Recebido em: 29/02/2012
Aceito para publicação em: 19/03/2013
Acompanhamento do processo editorial: Rita Maria Manso de Barros

 

 

Notas

* Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica – Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. Participante do Tempo Freudiano Associação Psicanalítica/Rio de Janeiro, Brasil.
** Professora Adjunta do Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica – Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. Bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq. Membro do Tempo Freudiano Associação Psicanalítica, Rio de Janeiro, Brasil.



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