EDITORIAL

 

Adriana Benevides Soares**; Alexandra Cleopatre Tsallis**; Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo**; Deise Mancebo*; Deise Maria Fernandes Mendes**; Rita Maria Manso de Barros***

Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ -Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Endereo para correspondência

 

 

O volume 13 número 3 da revista Estudos e Pesquisas em Psicologia apresenta dezoito artigos relativos a diversas abordagens da Psicologia, uma resenha e ainda um artigo na sessão Clio – Psyqué. Passamos a apresentá-los.

Em A Psicologia Discursiva nos estudos em Psicologia Social e Saúde, Emerson F. Rasera apresenta os principais pressupostos teórico-metodológicos da Psicologia Discursiva e reflete sobre as tendências e os desafios de sua utilização no campo dos estudos em Psicologia Social e Saúde, em que os principais desafios identificados se referem à hegemonia do discurso biomédico na saúde, às tradições realistas de pesquisa e à lógica tecnicista no cuidado em saúde.

Denise da Cruz Paim, Rodrigo de Oliveira Machado, Helena B. K. Scarparo e Adolfo Pizzinato, no artigo intitulado Luzes, câmera ... ação! No ar, a transformação midiática do conceito de periferia no conceito de comunidade, propõem uma reflexão sobre a construção de uma cultura midiática de periferia e sua relação com o conceito de comunidade, ilustrada pela análise do caso Central da Periferia, programa exibido pela Rede Globo de Televisão, em 2006. O estudo busca entender como a construção discursiva do ethos do enunciador da periferia midiática transforma a cultura desse lugar em práticas de consumo.

No artigo intitulado François Tosquelles, sua história no campo da Reforma Psiquiátrica – Desinstitucionalização e suas pistas para uma abordagem clínica do trabalho centrada na atividade, Valéria Salek Ruiz, Vladimir Athayde, Irapoan Nogueira Filho, Paulo César Zambroni-de-Souza e Milton Athayde revisitam aspectos da vida e da obra do psiquiatra espanhol-catalão François Tosquelles, registrando a trajetória e o patrimônio de experimentações no campo da saúde mental, em especial em sua valorização da atividade. Para tanto, fizeram um levantamento bibliográfico dos textos por ele publicados, assim como das entrevistas que concedeu, além de materiais publicados por outros autores que se referem a ele ou à sua obra, explorando o ponto de vista da atividade na abordagem clínica do trabalho.

Em Mapeamento de competências de tutores de cursos na modalidade à distância, Francisco Antonio Coelho Junior, Cristiane Faiad, João Paulo Fonseca Borges e Natália Ferreira, em trabalho de natureza teórica/empírica, sugerem que as organizações que oferecem ensino à distância efetivem ações de desenvolvimento profissional e de capacitação, inclusive para seus gestores, no sentido de implementarem uma cultura de apoio e suporte ao desenvolvimento de competências.

Augusta Rodrigues de Oliveira Zana e Maria Julia Kovács em O psicólogo e o atendimento a pacientes com ideação ou tentativa de suicídio, investigaram as questões éticas envolvidas no atendimento de pacientes com ideação suicida. A questão da quebra do sigilo é apontada como possibilidade no diálogo entre a prática clínica e as proposições do Código de Ética Profissional devido à complexidade do tema.

Fernanda Costa-Moura e Jorge Luís Gonçalves dos Santos, em Angústia de castração e objeto: limites do processo analítico, destacam como Lacan problematiza o vínculo deixado por Freud entre angústia e ameaça de castração. Ao conceber a angústia como o sinal de um objeto elidido do campo do sujeito, Lacan aponta com precisão o ponto a ser atravessado pelos neuróticos em análise diante do que Freud considerou o limite das análises dos neuróticos: o rochedo da castração.

Em uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, intitulada Contribuições do arranjo "Equipes de Referência" a um Centro de Atenção Psicossocial, Brunna Lisita Chaves e Renata F. Pegoraro revelam o distanciamento entre a prática exercida e as produções acadêmicas sobre o arranjo de equipe de referência tendo em vista o desconhecimento, por parte dos profissionais, da existência do modelo CAPs em outros serviços de saúde mental.

Em O trabalho como possibilidade de (re)inserção social do usuário de um Centro de Atenção Psicossocial na perspectiva da equipe e do usuário, Kelen Patrícia Bürke e Desirée Luzardo Cardoso Bianchessi fundamentam seu artigo em estudo realizado no CAPS II do Hospital de Clínicas de Porto Alegre/RS, no qual foram entrevistados profissionais e usuários, tendo utilizado uma metodologia qualitativa e exploratória. Propõem ser necessário repensar modos de trabalhar que favoreçam a criatividade e as possibilidades do sujeito no resgate da sua subjetividade e na busca pela cidadania, promovendo saúde mental.

Em Conceitos winnicottianos integrados na clínica ampliada: um olhar sobre o tratamento do transtorno mental grave na infância, Nelcí Regina Angnes, Caroline Matos Romio, Gabriela Zucchetto e Hericka Zogbi Jorge Dias baseiam seu artigo no interesse de se entremear conceitos presentes na psicologia do desenvolvimento emocional com as diretrizes da assistência em saúde, na atenção à saúde mental. Para isso, articulam os referenciais elaborados por D. W. Winnicott com a cartilha do Ministério da Saúde sobre a Clínica Ampliada na atenção à saúde mental infantil, para se pensar como a gestão em saúde pode tornar possível, no âmbito público, o atendimento do transtorno mental grave na infância.

Em Programa Bolsa Família como estratégia de combate à pobreza em Dissertações e Teses no Brasil, Viviam Rafaela Barbosa Pinheiro Freire, Simone Souza da Costa Silva, Lilia Iêda Chaves Cavalcante e Fernando Augusto Ramos Pontes apresentam os resultados da pesquisa que mapeou Dissertações e Teses sobre o Programa Bolsa Família (PBF) disponíveis no Banco de Teses da Capes. Observaram que dos 166 trabalhos encontrados, 75,9% das pesquisas eram compostas de dissertações de mestrado acadêmico, mesmo sendo um tema de interesse para diversas áreas do conhecimento. Concluem que não há um consenso na literatura investigada sobre a consolidação do PBF como estratégia de combate à pobreza.

Maíra Longhinotti Felippe, Luana dos Santos Raymundo e Ariane Kuhnen investigaram lugares na escola em que se gosta mais e menos de estar e as características físicas e psicossociais que os fazem mais ou menos preferidos segundo os participantes da pesquisa, 508 estudantes de uma escola pública de Santa Catarina. A pesquisa está exposta no artigo Investigando laços afetivos com a escola a partir de mapas ambientais em que objetivam uma maior compreensão das expectativas ambientais de adolescentes na escola, para poder oferecer critérios para a concepção e a requalificação de ambientes escolares.

Em O menino que queria ser gente... Um estudo da história de vida de adolescentes em conflito com a lei, Luziane de Assis Ruela Siqueira e Gilead Marchezi Tavares consideram que os programas governamentais disponíveis para atender a juventude pobre limitam os modos de vida, podendo produzir, inclusive, subjetividades criminosas. No artigo buscam evidenciar os processos de subjetivação que compõem o adolescente em conflito com a lei, isto é, aquele que passou pelo Programa de Liberdade Assistida/Prestação de Serviço à Comunidade (LAC/PSC) no Município de Vitória/ES.

Da Universidade do Minho, Portugal, temos o artigo de Fernanda Afonso e Maria da Graça Pereira, Morbidade, suporte do parceiro e representações do tabaco em fumantes e abstinentes. As autoras comparam a morbidade psicológica, suporte do parceiro e representações face ao tabaco em 224 fumantes e 169 abstinentes. Verificaram várias relações significativas, nos fumantes e abstinentes, entre a morbidade psicológica, as representações face ao tabaco e o suporte do parceiro.

Em Ansiedade, depressão e desesperança em pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica, Rossane Frizzo de Godoy parte da afirmação de que a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) é altamente incapacitante e que o reconhecimento de fatores emocionais comuns a estes pacientes pode fornecer subsídios importantes para os profissionais que atuam na área da saúde. Para chegar às conclusões apresentadas em sua pesquisa, utilizou três instrumentos de medida: Inventário Beck de Ansiedade, Inventário Beck de Depressão e Escala de Desesperança de Beck.

Em Subjetividade e experiência do corpo na Biodança, Alice Casanova dos Reis, desenvolve trabalho na área da Psicologia Social com o objetivo de refletir sobre a experiência do corpo na Biodança e suas relações com a subjetividade, a partir dos sentidos atribuídos a essa atividade entre participantes de um grupo regular de Biodança para apreender os sentidos do vivido mediante a observação participante no grupo e entrevistando cada um dos seus integrantes, o que lhes possibilita a vivência de novos modos de ser, dando abertura ao um processo singular de (re)criação existencial.

Georges Daniel Janja Bloc Boris, em Grupos gestálticos: uma proposta fenomenológica de facilitação de cooperação, apresenta uma proposta fenomenológica como uma das qualidades principais da utilização da gestalt-terapia em grupos vivenciais. Descreve a evolução das práticas grupais até o desenvolvimento do grupo gestáltico, enfatizando suas fases, características, temas comumente emergentes e as funções do facilitador de grupos vivenciais.

Idosos vítimas de violência: fatores sociodemográficos e subsídios para futuras interveções, artigo de Francine Nathálie Ferraresi Rodrigues Pinto, Elizabeth Joan Barham e Paloma Pegolo de Albuquerque, apresenta um levantamento sobre qual o tipo mais comum de violência contra idosos, comparando o perfil dos idosos que sofreram violência doméstica com idosos da população geral e levantando quais foram seus principais agressores, no caso, seus próprios seus filhos.

Em outro estudo sociodemográfico, Mansueto Dal Maso e Fabio Biasotto Feitosa utilizam a Escala Fatorial de Neuroticismo (EFN), instrumento clínico para indicação de padrões emocionais associados ao desconforto psicológico frequentemente presentes em transtornos de personalidade, em indivíduos jovens e adultos, no artigo Um estudo comparativo entre dados sociodemográficos e neuroticismo.

Letícia Vier Machado nos presenteia com a resenha do livro Freud - Mas por que tanto ódio? Organizado pela psicanalista e historiadora francesa Elisabeth Roudinesco, em parceria com colaboradores como Guillaume Mazeau, Christian Godin, Franck Lelièvre, Pierre Delion e Roland Gori, esta obra defende a Psicanálise dos rumores que a atacam e tentam descredenciar seu estatuto de ciência psicológica, sobretudo na França, mas tendo repercussão no Brasil, e mais intensamente a partir do ano de 2005, com o aparecimento do polêmico "Le livre Noir de la Psychanalyse: vivre, penser et aller mieux sans Freud" 1, que provocou grande revolta e intensos debates entre os psicanalistas franceses.

Por fim, na sessão Clio – Psyqué, temos o artigo French Ideas in the beginnings of Psychology in Argentina, de Hugo Klappenbach da Universidad Nacional de San Luis, Argentina. Nele, o autor analisa as condições intelectuais que fizeram possível o surgimento de estudos psicológicos na Argentina, em 1900, e repensando a recepção do pensamento francês no país. Ressalta que embora os laboratórios de Psicologia Experimental tenham sido estabelecidos no país a partir de 1899, esses laboratórios eram muito diferentes dos existentes na Alemanha. Nesse contexto, a Psicologia Experimental na Argentina significou Psicologia Clínica orientada pela perspectiva da psicopatologia francesa, especialmente pelas obras de Ribot, Grasset e Charcot.

De resto, os membros do corpo editorial da revista Estudos e Pesquisas em Psicologia desejam a todos uma boa leitura.

 

 

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Notas

* Professora Titular do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
** Professora Adjunta do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
*** Professora Associada do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
1 Edição francesa: MEYER, C. (org). Le livre noir de la psychanalyse: vivre, penser et aller mieux sans Freud. Paris: Les Arènes, 2005. Edição brasileira: MEYER, C. (org). O livro negro da Psicanálise: viver e pensar melhor sem Freud. São Paulo: Civilização Brasileira, 2011.



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