ARTIGOS

 

Usuário ou toxicômano? Um estudo psicanalítico sobre duas formas possíveis de relação com as drogas na contemporaneidade

 

User or drug addicts? A psychoanalytic study of two possible forms of relationship with the drugs in the contemporariness

 

 

Cynara Teixeira Ribeiro *

Universidade Federal do Semi-Árido – UFERSA, Natal, RN, Brasil

Endereo para correspondncia

 

 


RESUMO

O presente trabalho aborda o fenômeno do uso de drogas a partir da perspectiva psicanalítica, com ênfase no referencial de Freud e Lacan. Tal escolha justifica-se porque, apesar de o recurso às drogas ser universal, o modo como cada sujeito delas faz uso é singular, o que explica alguns se tornarem dependentes e outros não. Assim, a configuração de uma toxicomania remete a aspectos da subjetividade e da constituição psíquica de cada um. Nesse sentido, objetiva-se, a partir da análise das entrevistas de dois sujeitos que narraram suas experiências de recurso aos tóxicos, entender as diferenças entre usuários e toxicômanos. Os resultados apontam para a importância dos conceitos de gozo, narcisismo, identificação e laço social na configuração de uma ou outra modalidade de consumo de drogas.

Palavras-chave: Sujeito, Drogas, Formas de uso, Toxicomania.


ABSTRACT

This paper addresses the use and abuse of drugs through psychoanalysis, with emphasis on reference of Freud and Lacan. This choice is justified because, despite the use of drugs is universal, how each fellow makes use of them is unique, which explains some become addicted. Thus, the configuration of a drug refers to aspects of subjectivity and psychic constitution of each. In this sense, the objective is, from the analysis of the interviews of two fellows who narrated their experiences of use of drugs, understand the differences between users and addicts. The results point to the importance of the concepts of pleasure, narcissism, identification and social ties in the configuration of one or another form of drug use.

Keywords: Fellow, Drugs, Forms of use, Drug addiction.


 

 

Desde meados do século XX, o uso e abuso de substâncias psicoativas pelos seres humanos têm ganhado grande visibilidade. Dentre outros motivos, tal fato se deve aos efeitos sociais e subjetivos por vezes desencadeados por essa prática, em geral alardeados como conseqüências implacáveis do uso de drogas. De acordo com Leite (2005), a partir de uma análise das discussões sobre esse tema na mídia e na população em geral, é possível perceber a existência do pressuposto de que, uma vez havendo o recurso aos tóxicos, instala-se uma espécie de dependência inexorável. Há, assim, a crença de que qualquer um que experimente certas substâncias irá tornar-se ‘toxicômano1’. Essa tendência de considerar a dependência como um efeito incontornável do uso de drogas é uma tentativa de tamponar a questão sobre o sujeito que faz a escolha pela intoxicação. Dessa forma, as drogas são propostas como um mal que só diz respeito a alguém porque sofre seus efeitos. Essa perspectiva desconsidera a dimensão da escolha subjetiva implicada na prática de intoxicação e atenua a indagação sobre o mal-estar que afeta todo ser humano (LEITE, 2005).

No texto “O mal-estar na civilização”, Freud (1930/1996) afirmou que o mal-estar que afeta o homem é proveniente tanto da cultura como do desenvolvimento psíquico individual, que impõem uma renúncia parcial à sexualidade e agressividade humanas2. Diante dessa pressão exercida pela civilização e pelas instâncias repressoras do psiquismo, instaura-se um mal-estar que apenas pode ser suportado através do que Freud designou de medidas paliativas. Dentre as medidas paliativas existentes, Freud (1930/1996) considerou o recurso aos tóxicos como “o método mais grosseiro, embora também o mais eficaz” (p. 86) para evitar o sofrimento humano, pois influencia o nosso corpo e altera sua química de forma a nos tornar insensíveis à nossa desgraça.

Dessa forma, a intoxicação é proposta como uma solução, ainda que precária e instável, que o sujeito encontra para lidar com o mal-estar do desejo. Ainda nesse texto, Freud (1930/1996), contrariando a tendência atual de equiparar o uso de drogas à dependência química, fez uma sutil diferenciação entre o “emprego de veículos intoxicantes” e a “intoxicação crônica”. Enquanto o primeiro é considerado um método na luta pela felicidade e afastamento da desgraça “tão altamente apreciado que tanto indivíduos como povos lhes concederam lugar permanente na sua economia libidinal” (p. 86), o segundo é um consolo para “o homem que, em anos posteriores, vê sua busca de felicidade resultar em nada” (p. 92). Ou seja, enquanto a intoxicação é, na perspectiva freudiana, “um tipo de defesa contra o sofrimento que procura dominar as fontes internas de nossas necessidades” (p. 86), a intoxicação crônica é “uma forma extrema disso que ocasiona o aniquilamento das pulsões” (p. 86). Sendo assim, a partir de tais afirmações freudianas, é possível depreender que há diferentes formas de recurso aos tóxicos e, nesse sentido, cabe perguntar o que faz com que alguns se tornem ‘toxicômanos’ e outros não.

Também Lacan (1976) discutiu os efeitos psíquicos gerados pelo recurso às drogas, afirmando que esses são, na verdade, requisitados pelo próprio sujeito, já que consistem em uma resposta possível ao mal-estar que afeta todo humano. Assim, a importância que os tóxicos adquirem para cada um passa a ser atribuída fundamentalmente ao lugar que eles vêm a ocupar na economia psíquica daquele que faz da intoxicação uma prática. Segundo Santiago (2001), de fato, “o fenômeno do consumo, abusivo ou não, não determina, por si mesmo, o valor patológico das drogas. Torna-se necessário situar, precisamente, o lugar que a droga ocupa no modo particular de satisfação de um sujeito determinado” (p. 109-110). Dessa forma, para a psicanálise, o que passa a ser central na problemática do recurso às drogas é o sujeito e, portanto, os critérios considerados capazes de diferenciar os tipos de usuários e as formas de uso existentes não são os mesmos utilizados pela psiquiatria ou pela psicopatologia, mas dizem respeito à modalidade de gozo experimentada e suportada por cada sujeito que escolhe a via da intoxicação.

Nesse sentido, propomos que, no âmbito psicanalítico, é apenas a partir da escuta a cada sujeito singular que se torna possível concluir quando uma determinada configuração de uso de drogas chega a constituir uma ‘toxicomania’. Isso porque “uma toxicomania não pode ser definida somente pela freqüência e tipo de droga que o sujeito usa, mas sim pelo lugar que ela ocupa na subjetividade do paciente” (NOGUEIRA, 2006, p. 148). E somente é possível aferir o lugar que as substâncias tóxicas ocupam na subjetividade de cada paciente através de uma escuta do que este tem a dizer sobre sua relação com os tóxicos e sobre como estes o ajudam a lidar com o mal-estar inerente à condição humana.

Nessa perspectiva, este trabalho se propõe a mostrar como, a partir de uma escuta psicanaliticamente orientada de dois casos de uso de drogas, foi possível delimitar a função que a droga desempenhava na economia psíquica de cada sujeito, que conseqüências trouxeram para seu funcionamento psíquico e como afetou seus laços sociais. O objetivo é avaliar que elementos indicam um gozo que alguns autores caracterizam como ‘toxicômano’ ou não, a fim de articular, à luz da psicanálise, o que diferencia as ditas ‘toxicomanias’ dos outros modos de uso de drogas existentes na atualidade.

O conceito de gozo utilizado aqui se refere a um excesso intolerável de prazer, a um mais-além do princípio do prazer que se apresenta como um buraco impossível de representar e que só pode ser abordado a partir das marcas produzidas pelo Outro no corpo do sujeito (BRAUNSTEIN, 2007). Tal conceito é usado como parâmetro para a configuração de uma toxicomania devido à definição lacaniana de droga como “o que permite romper o casamento com o pequeno-pipi” (LACAN, 1976, p. 268), isto é, com o gozo fálico, que é o gozo sexual permitido pela entrada do humano no registro Simbólico, o gozo resultante da operação de castração. Sendo assim, a partir dessa definição lacaniana, propomos que é o movimento do sujeito em direção a uma modalidade de gozo que rompe com o gozo fálico que permite afirmar uma configuração toxicômana.

 

Da casa à rua, da rua à casa: o caso Maurício

Maurício começou a usar drogas aos 19 anos. Segundo ele, todos os seus amigos do bairro usavam e ele, por curiosidade, passou a usar também. Chamava atenção, em seus relatos, a importância que o grupo tinha para o contexto do seu uso: ele sempre usava quando alguém estava usando, quando alguém tinha comprado, quando alguém levara para o local de encontro do grupo etc.

Para Maurício, seus pais deixavam as coisas acontecerem: seu pai nunca falara com ele sobre “drogas, sexo, essas coisas” e Maurício sentia falta disso. Segundo ele, na sua casa “era cada um na sua”: “o pai, o dia todo trabalhando”, “a mãe, muito na dela” e ele “muito independente”, “pouco ficava em casa”, admitindo ter sido sempre “muito carente”. Maurício associou essa carência com o fato de ir muito para a rua.Em suas palavras: “como me sentia muito carente em casa, ia pra rua, ficava com os amigos”. Note-se aí uma oposição que se delineia entre casa, que representa a família, e rua, representando amigos e drogas. E foi com os amigos, na rua, que Maurício começou a usar maconha e cocaína. Até que o grupo começou a usar também crack e Maurício decidiu se afastar, pois “sabia que ia fazer muito mal”.

A partir dessa fala, percebemos que Maurício não perdeu de vista o risco que o crack poderia representar e, assim, seu recuo diante dessa substância pode ser entendido como uma forma de preservação narcísica, uma forma de resguardar sua própria vida, pois pensamos que Maurício recuou diante do que associou com uma ameaça de morte. Esse tema constantemente aparecia em suas falas: alguns colegas que usavam drogas morreram, viraram o carro e ele mesmo, em um assalto, levara um tiro, o que aconteceu “uma semana antes da morte do Ayrton Sena”. Em outros momentos, Maurício disse ter lido em uma revista que atualmente as pessoas que vendem drogas, “para fazerem a cocaína render mais”, misturam-na com fermento em pó e afirmou: “imagina você cheirar isso, assim a pessoa morre mesmo”. Ele disse que essa notícia foi um dos motivos que o levou a deixar de usar cocaína. Esse é um ponto a ser sublinhado: se os ditos ‘toxicômanos’, como pensam alguns autores, gozam da própria morte (MELMAN, 2000), esse recuo de Maurício é importante para pensarmos a modalidade do seu uso.

Maurício admitiu que certas vezes deixou cigarros de maconha expostos no banheiro da sua casa e sua mãe os encontrou. Ele não sabe se a mãe contou para o pai, mas afirmou: “meu pai uma vez disse que se eu tava usando, eu devia saber o que tava fazendo, mas que ele não ia me pegar em canto nenhum se eu não conseguisse chegar em casa. Que não ia me ajudar a resolver nada, se eu quisesse continuar, ele não ia me tirar de encrencas”. A nosso ver, essa intervenção do pai teve para Maurício valor de ato, no sentido psicanalítico do termo, na medida em que comportou, a um só tempo, a dimensão da ação e a da intervenção significante, constituindo um dizer para além das palavras que foi capaz de abalar o sentido do que vinha sendo construído até então.  Pois o ato é um feito, que por sua dimensão de corte na cadeia significante, inscreve necessariamente um antes e um depois, suspendendo toda a ordem prévia devido à irrupção do novo (GUIMARÃES, 2009). Nesse sentido, o ato do pai possibilitou uma nova direção a Maurício, uma nova maneira de o sujeito posicionar-se diante do Outro, pois o ato sempre implica o Outro, na medida em que, para se constituir como tal, precisa relacionar-se com a alteridade que o Outro representa (GUIMARÃES, 2009).

A mensagem veiculada através desse ato foi que Maurício poderia fazer o que quisesse, mas o pai continuaria agindo apenas no âmbito da casa, se Maurício não chegasse em casa, o pai não ia se envolver com os seus problemas da rua. Ou seja, se o uso de drogas feito por Maurício era uma forma de convocar o pai, seu pai encontrou um modo de mostrar que essa estratégia seria infrutífera. Maurício afirmou que essa fala do pai o fez pensar e disse: “essas coisas, me fez querer parar também”; ao que eu sublinhei: “quando seu pai falou isso você pensou em parar?”. A resposta foi um ato falho: “não, não tinha parado em pensar”. Na tentativa de desautorizar o pai, Maurício fez um ato falho que ratificou a sua importância, pois, de fato, foi a partir dessa intervenção paterna e de outras questões relacionadas à paternidade que Maurício começou a fazer o movimento de largar as drogas.

Se o pai de Maurício não se envolvia com problemas da rua, Maurício apresentou um problema de casa: uma gravidez inesperada. Nessa época, ele estava com 22 anos e foi morar com a namorada: “quando ela engravidou, me deu mais responsabilidade, eu não era responsável só por mim, tinha que trabalhar, cuidar do meu filho, da minha mulher”. A partir dessa fala, podemos nomear outros motivos de Maurício para deixar as drogas (problemas da rua): a mulher, o filho e o trabalho (problemas de casa). Pensamos que esse foi um caminho encontrado por Maurício para identificar-se ao próprio pai3, já que teria que trabalhar para prover sua família. A responsabilidade de ser pai aparece em oposição à independência de Maurício na casa dos próprios pais. Mas, ao mesmo tempo em que pela via da paternidade, Maurício pôde ratificar sua identificação ao pai, verbalmente, Maurício tentava diferenciar-se do mesmo: “hoje, converso com meus filhos, não quero que passem pelo que passei, essa carência”.

Outro ponto importante para Maurício deixar o uso de drogas foi a relação que ele estabeleceu com a “mãe” da sua mulher, única pessoa com a qual ele falava do seu uso de drogas, que o “ajudou muito”, não o “deixava sair de casa”, o “tirou da rua”. Diferentemente da própria mãe de Maurício, a mãe de sua mulher não deixava “as coisas acontecerem”, o tirou da rua e o fez gostar de ficar em casa. Ela “disse que ia me ajudar a deixar a droga” e que não falaria sobre esse assunto nem para a própria filha, a qual não sabia que Maurício usava cocaína. Assim, através do casamento, Maurício estabeleceu uma relação de cumplicidade com uma mãe, mais até do que com a mulher – que desconhecia certos aspectos da sua vida. A nosso ver, isso diz da sua dificuldade, proveniente de uma estrutura neurótica, em assumir o papel de homem, marido e pai.

Quando o filho de Maurício estava com mais ou menos 3 anos, momento mencionado por ele como o que parou de usar drogas4, a “mãe” da sua mulher morreu, de infarto fulminante. Apontei essa ‘coincidência’ e Maurício cometeu outro ato falho: “eu não estava mais morando na casa dela, aí minha mulher quis que a gente fosse morar com os pais dela, ou melhor, com o pai e o irmão”. Do quê ele estava falando ao dizer “pais”? Do pai e do irmão da mulher ou dos próprios pais que seriam agora as únicas referências para Maurício? De fato, pouco depois ele se separou da mulher e voltou a morar com os pais. O que significa essa escolha de Maurício: um retorno ao papel de filho em oposição ao de marido e pai requerido dele com a esposa e os filhos?

Segundo Maurício, “geralmente as pessoas usam drogas quando estão mal e comigo não era assim”, “acho que não posso me dizer dependente”. Realmente, as drogas como “uma coisa a mais”, inserida em uma série juntamente com outros objetos, como acontecia no caso de Maurício, não dá a idéia de rompimento com o gozo fálico, tal como Lacan (1976) definiu as ‘toxicomanias’. Segundo a definição lacaniana de toxicomania, este fenômeno caracteriza-se fundamentalmente por um rompimento com o gozo fálico. E, de acordo com Lacan (1976) esse rompimento se dá porque o gozo fálico gera angústia, devido ao fato de ser oriundo da castração – a operação que se caracteriza pela entrada do sujeito na Lei Simbólica e que barra o acesso a um gozo supostamente pleno, só possível antes da entrada do humano no mundo da linguagem (LACAN, 1976, p. 268). Nesse sentido, a toxicomania é entendida como uma tentativa de romper com o gozo fálico e, portanto, com a operação de castração.

Diferentemente dessa perspectiva, as drogas como “uma coisa a mais” dão a idéia de um mais-de-gozar articulado ao gozo fálico. Pois o mais-de-gozar é justamente um resíduo da operação de castração: é o ganho que o sujeito tem por aceitar renunciar ao gozo primordial, pleno em si mesmo. Dessa forma, o mais-de-gozar é uma perda que se contabiliza como um ganho, pois consiste em renunciar ao gozo primordial, pleno em si mesmo, para poder ter acesso ao desejo e a outra forma de gozo, o gozo fálico, o gozo regulado pela ordem Simbólica e social. Por estar inserido na lógica do desejo, o mais-de-gozar permite um deslizamento metonímico de objetos causa de desejo, já que, a partir da inscrição da castração, nenhum objeto será igual ao objeto originário do gozo primordial. Foi por esse motivo que Lacan (1969/1992) associou o mais-de-gozar aos gadjets capitalistas, pois estes também se caracterizam por provocar a insatisfação a médio prazo do consumidor com o objeto, o que faz com que o sujeito busque sempre outro produto, em um deslizamento infinito. Dessa maneira, o fato de Maurício ter se referido às drogas como uma coisa “a mais”, inserida em uma série junto com outros objetos (bebida, cigarro, amigos, trabalho) que o auxiliavam a inserir-se no laço social, nos faz pensar que o seu uso de drogas não chegou a configurar uma ‘toxicomania’.  

Nesse sentido, é significativa a escolha de Maurício de, após a separação conjugal, retornar à casa dos pais: representa um fracasso, ao menos parcial, da droga como tentativa de assumir uma nova posição no laço social: não mais de filho, mas de marido e pai. Essa escolha mostra que Maurício, mesmo após ter deixado o uso de drogas, ainda estava às voltas com a questão da sexualidade e da paternidade e que, nesse caso, as drogas consistiam em uma maneira encontrada por ele para lidar com esses impasses. Ou seja, tal como o fermento5, pode-se afirmar que a cocaína possibilitava a Maurício crescer: sair da casa e da posição de filho e ir para a rua ocupar o lugar de amigo do grupo, de marido de uma mulher, de pai de dois filhos.

Assim, o uso de drogas de Maurício pode ser entendido, por um lado, como um apelo ao pai, o que, segundo Alberti (1998) pode acontecer, como parece ter sido nesse caso, pelo viés da transgressão como forma de fazer existir a Lei, uma tentativa desesperada de fazer com que o pai se reafirme enquanto tal.  Por outro lado, também pode-se considerá-lo como uma identificação ao Outro grupal.

A expressão “Outro grupal” é usada por Alberti (1998; 2000) para referir-se aos novos ideais que o grupo representa, especialmente para o adolescente, e que podem auxiliar o sujeito a efetivar o trabalho de separação do Outro – este último descrito por Freud (1905/1996) como principal trabalho da adolescência. Assim, podemos dizer que, para Maurício, as drogas lhe possibilitavam a inscrição de uma identidade e de laços sociais desligados do âmbito familiar.

Maurício disse que por um tempo enjoou das drogas, do cigarro e da bebida. Parece-nos que esses enjôos, bem como sua mudança de posição, de “independente” a “responsável”, dão provas de uma escolha: enquanto alguns colegas se entregaram à morte, foram presos etc., Maurício escolheu o trabalho, seus filhos, sua mulher – mesmo após a separação, ela continua desempenhando uma função importante e, mesmo com dificuldades, Maurício está exercendo algo da função de pai, inserindo os próprios filhos em uma linhagem de filiação. Uma escolha pela vida, em oposição à morte, e pelo gozo fálico, regulado socialmente, em oposição ao auto-erótico, que é o gozo supostamente pleno e, portanto, mortífero, já que visa o retorno a um estado de fusão com o Outro que anula o sujeito (SINATRA, 1996). Pois, para Maurício, as drogas não conseguiram neutralizar os efeitos do mal-estar inerente ao desejo, o que nos faz pensar que seu uso não foi da ordem do que é concebido como uma ‘toxicomania’, mas sim da vertente do consumo – daí as drogas aparecerem em uma série, como mais um gadjet, maisum objeto de consumo,articulado ao mais-de-gozar e ao gozo fálico.

 

“Faça o que eu falo, não faça o que eu faço”: o caso Miro

Miro tinha 23 anos e buscava tratamento para livrar-se do vício de crack. Sua história familiar é o que se pode chamar de dramática. Após a separação dos pais, ocorrida depois de muitos episódios de violência física do pai para com a mãe, Miro saiu de casa e conheceu as drogas, afundando-se no vício de crack; seu pai tornou-se alcoólatra; e sua mãe tentou suicidar-se e passou por várias internações psiquiátricas.

Miro saiu de casa aos 14 anos. Até então, considerava que “tinha tudo”: o pai “era bem sucedido”, “ganhava bem”, “fazia tudo que um pai pode fazer”. Mas era “da gandaia”, “traía” a mãe de Miro e ainda “batia” nela, de modo que muitas vezes Miro tentou impedir as surras e acabou “apanhando junto”. Porém, para Miro, as coisas se complicaram mesmo quando sua mãe saiu de casa, por não suportar mais as surras e traições do pai, e este colocou uma mulher apenas dois anos mais velha que Miro para morar na casa, no lugar da mãe. Algo “inaceitável” para Miro, que decidiu sair de casa6.

Segundo Miro, na época em que saiu da casa do pai, já ganhava razoavelmente bem, aí alugou uma casa e foi fazer um curso técnico. Foi nesse curso que conheceu amigos que o ofereceram maconha e ele, por curiosidade, aceitou. Mas, para Miro, sua vida “mudou” mesmo quando passou a usar crack. A partir daí “não conseguia fazer nada”, perdeu emprego, família, “tudo”.

Após passar por vários hospitais psiquiátricos, a mãe de Miro foi morar na roça e casou-se novamente. O pai de Miro “perdeu tudo” e foi morar em uma casa que Miro construiu. Miro também “perdeu tudo”: inclusive a casa em que morava de aluguel com a esposa e a filha, pois, quando foi demitido por “justa causa” do seu emprego, começou a vendertudo para comprar drogas, deixou de pagar o aluguel e foi despejado. Por isso, sua mulher foi embora levando a filha. Segundo Miro: “que mulher agüenta isso, né?”, “quando eu recebia o salário, passava a noite fora, gastava tudo, aí quando ela pedia dinheiro pra pagar as contas eu não tinha nada”.

Em uma das brigas, a esposa de Miro deu-lhe uma tapa na cara, mas Miro afirmou que, como prometera nunca fazer alguém sofrer o que a mãe sofreu, baixou a cabeça e só pediu que ela não fizesse mais isso. Concluiu: “em mulher minha, não bato. Não vou fazer com ninguém o que ele fez com a minha mãe”. Podemos perceber, nessa fala, que Miro tenta diferenciar-se do pai – não batendo na esposa. Porém, sua história com ela parece aproximar-se da história do seu pai com sua mãe: tal como o pai, Miro passava noites fora de casa e sua esposa, de forma semelhante ao que fizera a mãe de Miro, não agüentou e foi embora.

Despejado, sem mulher e sem filha, Miro foi para onde estava o pai – o que parece um movimento significativo para entendermos essa tumultuada relação. Nesse momento, ficou clara uma ‘confusão’: Miro já havia dito que a casa em que o pai estava morando era sua, mas depois se referiu a ela como sendo do pai. Ou seja, a confusão que já era perceptível na sua história de vida compareceu verbalmente na fala de Miro. Questionado, ele explicou-se: “o terreno era dele, mas a casa fui eu que construí”. Note-se aí uma certa (con)fusão entre Miro e o pai: suas coisas, vida e história (con)fundem-se com as do pai. Para Miro, foi ao ir morar com o pai que se “afundou” mesmo: o pai passa o dia “bebendo pinga” e ele, usando crack. Miro diz que usava crack na frente do pai, porque o pai “não pode falar nada”, pois quando ele começou a usar drogas o pai “não tinha mais nada, aí não podia dizer nada”.

Apesar de essa história parecer fantasiosa e indicar, em um primeiro momento, uma fusão do sujeito com o Outro que remeteria a uma estrutura psicótica, a partir da condução do caso, temos elementos que nos fazem sustentar a hipótese de uma estrutura neurótica, pois o uso de drogas feito por Miro configurava-se como uma forma de manter a estrutura familiar existente antes da separação dos pais. Ao usar crack na frente do pai, Miro conseguia a manutenção de um gozo da agressão, da passividade e da impotência que, antes da separação, estavam presentes nas cenas de violência física do pai com a mãe de Miro e, após a separação, se faziam presentes na relação de Miro com o crack, que o destruía. Nas cenas de violência física, Miro ocupava o lugar de espectador, mas, a partir da relação com o crack, Miro conseguia pôr o seu pai nesse lugar. Nesse sentido, a confusão de Miro com o pai é entendida como fruto de uma identificação mortífera que será analisada mais aprofundadamente adiante.

Se por uns momentos Miro tentava sacrificar o pai ao usar crack na sua frente, em outros Miro afirmava: “não culpo ele não, ele sempre me disse pra não fazer o que ele fazia, ele dizia ‘faça o que eu falo, não faça o que eu faço!’”. Mais além do sentido das palavras, podemos dizer que essa mensagem foi recebida por Miro de forma invertida, é como se o pai tivesse dito: ‘nem liga pro que eu falo, mas faça o que eu faço’. Pois, mais além do que o pai falava, o que marcou Miro e delimitou sua identificação ao pai foi a forma de gozo que este dava a ver: um gozo desmedido que transparecia nas cenas em que ele batia na esposa e o gozo sem bordas, que transbordava na relação com a “pinga”.

A nosso ver, o fato de Miro e o pai dividirem o mesmo teto, sem que se saiba de quem é a casa, além de estarem em situação semelhante, ambos adictos, é testemunho de uma mortífera identificação de Miro ao pai. Pois, na identificação, há uma fluidez na demarcação entre o que é do eu e o que é do outro, há uma (con)fusão entre o que é do eu e o que é do outro (KAUFMANN, 1996), tal como acontecia entre Miro e o pai. Ambos perderam emprego, bens, família etc. devido a substâncias que intentam tamponar algo da ordem do mal-estar e proporcionar um gozo que se propõe a ser sem falhas.

Se antes se configurava uma cena em que estavam presentes Miro, o pai e a mãe (nos episódios de violência física), agora, estavam presentes apenas Miro, o pai, o crack e a pinga. Podemos pensar, então, serem a pinga e o crack substitutos dessa mulher/mãe?

Apesar da alegada vontade de Miro de tratar-se do vício de crack, essa busca só foi viabilizada pela intervenção de um primo que entrou “sem bater” na casa onde estavam Miro e o pai, ao que Miro implorou para ser ajudado. Miro reconheceu que se o primo tivesse “batido” na porta, ele não a teria aberto, pois fazia um mês que estava trancado em casa, apenas usando crack – o que aponta a existência de um empuxo em direção à morte. Quando o primo de Miro o tirou da casa, o pai apoiou e disse: “vá, é melhor pra você”. O pai reconheceu que Miro só teria chances se estivesse longe da configuração com o pai e a droga/mãe/pinga/mulher. Talvez essa intervenção do pai, ao possibilitar a colocação de um espaçamento na relação entre eles, torne o tratamento de Miro possível – mas não há garantias.  

Assim, se é pela relação mortífera com o crack e pela identificação ao significante “viciado” que Miro consegue afirmar-se como filho do seu pai, como pai de sua filha e como homem frente a uma mulher, temos elementos para pensar tratar-se de uma configuração chamada de ‘toxicômana’ – que ficou mais visível quando pai e filho passaram a viver juntos e se colocaram em uma relação quase de espelho, na qual só havia espaço para o crack/pinga/mãe/mulher. Outro elemento que nos faz pensar se tratar, nesse caso, de uma ‘toxicomania7’ é o fato de que, se o crack é para Miro uma espécie de substituto da mãe, isso significa que pela via da intoxicação ele está tentando efetuar uma operação de recuperação do gozo do Outro. Isso porque propomos que o gozo do Outro é a modalidade de gozo que mais se aproxima do gozo toxicômano, na medida em que Lacan (1976) definiu as toxicomanias como um rompimento com o gozo fálico.

O gozo do Outro foi conceituado por Lacan (1973/1985) como um gozo para além do falo que se situa na interseção entre o registro Real e o registro Imaginário e, portanto, representa um ofuscamento do registro Simbólico, que é o registro da Lei e da castração. Além disso, o gozo do Outro é uma forma de reencontrar o gozo pré-linguageiro, o gozo da fusão com o Outro, experimentado antes da constituição do sujeito (BRAUNSTEIN, 2007). Dessa forma, se as toxicomanias são definidas como um modo de romper com o gozo fálico e, portanto, com a castração, parece-nos possível propor uma aproximação do gozo toxicômano com o Gozo do Outro, sem que isso implique situar as toxicomanias no âmbito da psicose8. Nesse sentido, se, através da droga, Miro conseguia, ainda que momentaneamente, fazer Um com o crack/mãe e driblar, assim, a castração, é possível, a nosso ver, afirmar que se trata, nesse caso, de uma toxicomania. 

 

Algumas considerações sobre os casos

A partir dos relatos de caso de Maurício e Miro, analisaremos alguns elementos que estiveram presentes nas falas de ambos. Essa retomada se justifica por haver, nessas histórias, aspectos que, apesar de remontarem à singularidade de cada sujeito, oras se assemelham oras se diferenciam, o que requer que sejam confrontados.

No caso de Maurício, é explícita a colocação das drogas em uma série na qual comparecem outros objetos: cerveja, cigarro, trabalho etc. Objetos que o conferem uma identidade e possibilitam a sua integração a um grupo que o permite encontrar um lugar no laço social9 e, assim, fazer o trabalho de desligamento da autoridade dos pais e inserção no mundo social mais amplo. Acerca disso, pôde-se perceber que o movimento feito por Maurício, através inclusive do uso de drogas, representou uma tentativa de crescer: tornar-se homem, marido e pai.

E nesse intuito, a cocaína desempenhou uma função significante importante: um pó branco que, de tão semelhante ao fermento (substância que faz crescer), é muitas vezes misturada a ele, como Maurício fez questão de ressaltar. Nesse sentido, diferentemente das drogas desencadearem um rompimento com os laços sociais, representou uma forma de Maurício ter acesso a eles. Por isso afirmamos que o uso de drogas de Maurício se dava tanto pela vertente identificatória com o Outro grupal como pelo viés do apelo ao pai. A esse respeito, vale notar o lugar do qual o pai de Maurício respondeu a esse apelo: afirmando sua limitação ao âmbito da casa, o que retroagiu para Maurício fazendo-o pensar em parar de usar drogas e parar algum tempo depois.

Por sua vez, no caso de Miro, se inicialmente as drogas entraram em sua vida como algo a mais, também pela via do grupo de amigos, após um tempo, esta função mudou de estatuto e o crack passou a desempenhar, em sua economia psíquica, uma função exclusiva, monótona, rompendo com o gozo fálico, tal qual a definição lacaniana de ‘toxicomania’ (LACAN, 1976). Desse modo, a nosso ver, é possível afirmar uma distinção entre as drogas utilizadas na vertente de mais um gadjet, articuladas ao mais-de-gozar, e as drogas como objeto do gozo monótono das ‘toxicomanias’. Tal diferenciação se articula ao fato de que os gadjets, como objetos referidos ao mais-de-gozar (LACAN, 1969/1992), implicam o gozo fálico, descrito por Lacan (1976) como com o quê as ‘toxicomanias’ permitem romper. Assim, se, no uso, as drogas desempenham a função de objeto mais-de-gozar, sempre faltoso, nas ‘toxicomanias’, a função é de objeto causa de gozo10 (cristalização do objeto a na droga) – um gozo que não passa pela regulação fálica, definido como um modo de recuperação do gozo do Outro, o que supomos ter encontrado no caso de Miro.

Tal distinção entre as funções desempenhadas pelas drogas nas diferentes configurações de consumo tem conseqüências no laço social por elas engendradas. Pois muitos autores reconhecem que atualmente as drogas, lícitas ou ilícitas, podem fomentar uma nova forma de laço social (ALBERTI, 1998; PEREIRA, 2006). Tal fato, restrito a certas modalidades de uso, é mais notável na adolescência, principalmente por esta se caracterizar na nossa sociedade por uma passagem abrupta da infância para a vida adulta que não conta mais com ritos de passagem e iniciação solidamente constituídos e, por isso, o sujeito precisa encontrar outras formas de marcar essa passagem do âmbito familiar para a ordem social mais ampla. Por outro lado, a colagem do sujeito à droga com a conseqüente desvalorização dos demais objetos, como aconteceu com Miro, é mais indicativo de um consumo que os autores têm chamado de ‘toxicômano’ do que de outras formas de uso reguladas pelos laços sociais.

Outro aspecto a ser ressaltado é o fato de Maurício e Miro terem atribuído grande importância à pessoa do pai no desenrolar da relação estabelecida com as drogas. Por isso, consideramos que, nesses casos em especial, a paternidade é um balizador relevante para o posicionamento do sujeito, devido à importância do personagem paterno na constituição subjetiva. Mas é necessário diferenciar o movimento realizado por Maurício e por Miro: enquanto naquele há um apelo ao comparecimento do pai enquanto representante da lei, neste, há a identificação a um gozo que faz semblante de ilimitado, apreendido na relação do pai com o álcool e outrora com a mulher.

Assim, enquanto o pai de Maurício é apresentado pelo filho como um pai carente – um mestre castrado, cujo exemplo clássico na história da psicanálise foi o pai de Dora –, o pai de Miro aparece como um pai que aponta para a existência de um gozo sem palavras (a-dicto: sem dicção). Consideramos que tais divergências balizaram as formas diferentes de relação desses sujeitos com as drogas: para Maurício, as drogas foram carentes como seu pai e, para Miro, adquiriram caráter totalizante, também semelhante ao que ele apreendia do lado paterno.

 

À guisa de conclusão

Para concluir, vale salientar que este trabalho consiste em um esforço de marcar as diferenças teóricas e clínicas entre um tipo de consumo de drogas que parte dos autores tem chamado de ‘toxicomanias’ e as demais formas de uso. Mas reconhecemos que esse esforço não esgota uma questão tão complexa. Sendo assim, é necessário que as questões aqui colocadas continuem a ser pensadas, visto que muitas delas permanecem irrespondidas – e nem era nossa pretensão respondê-las todas. Um tema tão amplo requer uma discussão igualmente ampla, pois seu estudo trará conseqüências importantes sobre muitos aspectos tanto da vida dos sujeitos que fazem uso de drogas como da sociedade em geral: legislações, políticas públicas, formas de atendimento etc. Temas que ficam aqui apontados como possibilidades de trabalhos futuros.

 

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Endereo para correspondncia
Cynara Teixeira Ribeiro
Universidade Federal Rural do Semi-Árido, BR 110, Km 47, Costa e Silva, CEP 59625-900, Caixa-Postal 137, Mossoro, RN, Brasil
Endereço eletrônico: cynara_ribeiro@yahoo.com.br

Recebido em: 22/02/2010
Reformulado em: 10/05/2010
Aceito para publicação em: 01/06/2010
Acompanhamento do processo editorial: Rita Maria Manso de Barros

 

 

Notas

*Professora Assistente da Universidade Federal do Semi-Árido – UFERSA, Mestre em Psicologia Social pela PUC/SP, Doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia - UFBA.
1Estatisticamente, nem 10% dos que usam drogas viram toxicômanos (ARAÚJO, 2007).
2É importante salientar que, apesar de o próprio Freud (1930/1996) haver concluído que o mal-estar que afeta o ser humano é resultante da sua imersão na cultura, na perspectiva freudiana, não há entre cultura e sexualidade uma relação direta na qual a primeira supostamente reprimiria a segunda.
3Os pais de Maurício também casaram porque a mãe engravidou de Maurício.
4Maurício deixou o uso de drogas por decisão própria – sem fazer nenhum tratamento.
5Essa comparação pauta-se no relato de Maurício de que essas substâncias são misturadas e no seu imenso receio em inalar fermento – mais até do que cocaína.
6Apesar de a história de Miro parecer, em um primeiro momento, mirabolante, a ponto de nos fazer aventar a possibilidade de uma estrutura psicótica, ela chegou a ser confirmada por um primo de Miro. Além disso, o próprio desenrolar do caso de Miro nos faz acreditar que se trata de uma estrutura neurótica.
7Existem muitas definições de toxicomania em psicanálise. Dentre estas, privilegiamos a que a conceitua como “um modo de tratar a sensação de desamparo por meio da dissolução do laço social, numa passagem ao ato que visa fazer coincidir Grande Outro e Objeto pequeno a” (VORCARO, 2004). 
8A importância dessa ressalva feita aqui, de que situar o gozo das toxicomanias como sendo da modalidade do gozo do Outro, se faz porque é muito comum no campo teórico da psicanálise associar o gozo do Outro com a psicose e o gozo fálico com a neurose. Essa associação é limitada, pois o próprio Lacan (1973/1985) afirmou que o gozo do Outro pode se fazer presente também nas estruturas neurótica e perversa (através do gozo feminino e do gozo místico, por exemplo).
9O laço social refere-se aos vínculos sociais que o sujeito consegue estabelecer com os outros a partir da sua entrada na ordem Simbólica e do conseqüente aparelhamento do gozo pela linguagem. Nesse sentido, o laço social é concebido como decorrente da aceitação de uma perda fundamental e necessária para que o infans possa advir como sujeito humano.
10Esse termo foi utilizado por Lacan (1968) para falar da tentativa de anular o Outro por meio da cristalização do objeto. Miller (1993) retoma-o para falar das ‘toxicomanias’.



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