EDITORIAL

 

Adriana Benevides Soares*; Alexandra Cleopatre Tsallis*; Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo*; Deise Mancebo**; Deise Maria Leal Fernandes Mendes*; Rita Maria Manso de Barros*

Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Endereo para correspondncia

 

 

Iniciamos este número da Estudos e Pesquisas em Psicologia, registrando nossa gratidão e reconhecimento a todos aqueles que têm participado da construção desse processo editorial. Portanto, este volume tem também o sentido de retribuir os esforços empreendidos pela equipe, consultores e autores. Sem essa colaboração, não teria sido possível concretizar mais essa etapa. Assim, nutridos por esse momento, reafirmamos nosso compromisso de seguir continuamente na criação de uma revista que contribua para o aprofundamento das questões da Psicologia, entendo-a como campo onde os saberes e fazeres "psi" se fortalecem por uma política de acesso livre. Dessa forma, sustentamos o exercício de fazer da ciência um território vivo, que possa ser cada vez mais partilhado por todos. Neste número, estão disponíveis dezesseis artigos de várias áreas, através deles o leitor terá a oportunidade de vislumbrar a Psicologia que está em ação nos dias atuais.

Apresentamos inicialmente três estudos que partem do campo das Habilidades Sociais. No primeiro grupo, temos a pesquisa "Transtorno de ansiedade social e habilidades sociais de falar em público: estudo experimental" de Antonio Paulo Angélico (UFSJ), José Alexandre S. Crippa (USP) e Sonia Regina Loureiro (USP), que caracterizou e comparou dois grupos de universitários em relação ao Transtorno de Ansiedade Social. Para isso, os autores utilizaram o Teste de Simulação de Falar em Público, concluindo que esta é uma importante ferramenta para planejar o treinamento de habilidades sociais referentes a essa dificuldade. Já as pesquisadoras Alessandra Turini Bolsoni-Silva e Laura Moreira Borelli da Universidade Estadual Paulista, com o artigo intitulado "O treinamento de habilidades sociais educativas parentais: comparação de procedimentos a partir do tempo de intervenção", estudaram dois grupos de intervenção com duração distinta e buscaram implementar a melhoria das interações sociais entre pais e filhos. As autoras afirmam que o grupo de maior duração evidenciou uma melhor consolidação das habilidades conquistadas. Da Universidade Federal de Juiz de Fora, Marisa Cosenza Rodrigues e Renata de Lourdes Miguel da Silva apresentam uma pesquisa-intervenção, "Avaliação de um programa de promoção da empatia implementado na educação infantil", que promove, junto a crianças, um programa que visa o desenvolvimento de habilidades empáticas. As autoras enfatizam a importância de ações preventivas no campo educativo que, por sua vez, entendam a empatia como um fator de proteção do desenvolvimento infantil.

Ainda estudando crianças, podemos encontrar "Um estudo bioecológico das relações de amizade em sala de aula inclusiva" no qual Rosana Assef Faciola, Fernando Augusto Ramos Pontes e Simone Souza da Costa Silva da Universidade Federal do Pará investigam uma sala de aula inclusiva por meio das interações de uma aluna com deficiência visual e seus colegas. Muito embora as preferências de amizade da aluna com deficiência visual estejam relacionadas a situações de compartilhamento vividas com os colegas, o mesmo não acontece da parte deles para com ela.

Um segundo grupo de artigos compõe uma discussão sobre as questões relativas ao trabalho.  No estudo "Reabilitação profissional: o que pensa o trabalhador sobre sua reinserção" de Elisabete Cestari  e Mary Sandra Carlotto da Universidade Luterana do Brasil foram feitas entrevistas semi-estruturadas nas quais se percebeu uma falta de integração entre o Programa de Reabilitação do INSS e as empresas. Essa situação culmina no simples retorno do trabalhador ao local de trabalho e à mesma função, acrescentando-se a isso apenas uma restrição das tarefas a serem realizadas por ele. Já os pesquisadores Etienne Andrade de Medeiros Dantas (UFRN) e Livia de Oliveira Borges (UFMG) apresentam os resultados de uma pesquisa empírica acerca da "Saúde organizacional e Síndrome de Burnout em escolas e hospitais", na qual constataram a precariedade da saúde organizacional das instituições pesquisadas bem como a alta prevalência da Síndrome entre os trabalhadores.

O terceiro grupo trata da violência e é composto por dois trabalhos. Discutindo a questão das torcidas organizadas, o artigo, de base psicanalítica, "Futebol e violência: Freud explica?" de Gustavo Hermínio Salati Marcondes de Moraes (FGV) e Olga Salati Marcondes de Moraes (Secretaria de Estado da Educação de São Paulo), destaca a importância de tomar a violência para além do âmbito subjetivo, de modo que seja elucidada sua interface com os aspectos econômicos, culturais e sociais. Da Universidade São Francisco (SP) temos os pesquisadores Fermino Fernandes Sisto, Dario Cecilio Fernandes e Fernando José Silveira estudando, por meio de uma escala de avaliação de tendência à agressividade, o "Funcionamento diferencial de condutas agressivas em jovens infratores e universitários agressivos". Os autores concluem que o primeiro grupo se caracteriza por uma conduta de intimidação e vingança enquanto o segundo apresenta um comportamento de irritar pessoas.

Ainda sobre escalas, temos uma "Avaliação dos estressores no trânsito: desenvolvimento da escala de estressores trânsito (ESET)" de Marcelo Mendes dos Santos, Hugo Ferrari Cardoso e Thelma Margarida de Moraes dos Santos (USC), onde se buscaram dados para validação do instrumento criado. Por fim, o estudo constatou a validade da Escala de Estressores do Trânsito (ESET) e enfatizou, tendo em vista a ausência na literatura nacional, a importância de estudos futuros que auxiliem e enriqueçam com outras evidências esse processo.

Um quarto grupo de artigos compõe um conjunto heterogêneo de reflexões acerca do corpo. Da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, temos um trabalho no qual, a partir de entrevistas semi-estruturadas, as autoras Camomila Lira Ferreira, Liliane Pereira Braga, Ádala Nayana de Sousa Mata, Caroline Araújo Lemos e Eulália Maria Chaves Maia fazem um estudo exploratório intitulado "Repetição de gravidez na adolescência: estudos sobre a prática contraceptiva em adolescentes". O estudo investigou o quanto um grupo de adolescentes, em situação de repetição de gravidez, sabe sobre métodos contraceptivos e constatou que muito embora haja conhecimento acerca do tema é preciso pensar estratégias de informação que considerem as especificidades da adolescência. No artigo, "A noção de esquema corporal na filosofia de Merleau-Ponty: análises em torno da Fenomenologia da percepção", Danilo Saretta Verissimo (UNESP) discute o modo como a noção de esquema corporal se dessubstancializa na obra de Merleau-Ponty, dando lugar a uma formulação que concebe um corpo permeável ao outro, bem como ao mundo. Já as autoras Roseane Freitas Nicolau (UFPA) e Andréa Máris Campos (UFMG) discutem desde uma perspectiva lacaniana "O fenômeno psicossomático no rastro da letra", em que a escrita do corpo nas questões psicossomáticas suscita uma leitura capaz de operar uma possível escrita do gozo.

Encerrando esta seção, temos dois artigos: um de Tadeu Lessa da Costa (UFRJ), Denize Cristina de Oliveira (UERJ) e Gláucia Alexandre Formozo (UFRJ), intitulado "Representações sociais sobre pessoas com HIV/AIDS entre enfermeiros: uma análise estrutural e de zona muda", no qual os autores descrevem e analisam o conteúdo das representações sociais da pessoa com HIV/AIDS, junto a enfermeiros de um hospital universitário do Rio de Janeiro. Eles destacam a possibilidade da existência de uma zona muda que circunscreve elementos de caráter contranormativo. No outro artigo, da Universidade Católica de Salvador, de Elaine Pereira Rabinovich, Anamélia Lins e Silva Franco e Lúcia Vaz de Campos Moreira temos "A compreensão do significado de família por estudantes universitários baianos" em que, através de uma pesquisa qualitativa, são investigados os diferentes significados de família junto a um grupo de 170 universitários. Chega-se à conclusão, no trabalho, de que a família brasileira ruma para um modelo menos autoritário, cuja horizontalidade das relações merece destaque. 

Na seção Clio temos dois artigos: o primeiro "Los inicios de la Terapia Familiar. 1960-1979", da Universidade de Buenos Aires, de Florencia Adriana Machiolli, discute a emergência de quatro grupos conceituais, quais sejam, família-grupo, família-sistema, família-estrutura e família-múltipla, para entender o modo como a área se consolidou no campo "psi" argentino entre 1960 e 1979. O segundo, da Universidade de São Paulo, de Lia Novaes Serra e Lia Vainer Schucman, discute - pela via da pesquisa documental acerca dos projetos eugenistas da Liga Paulista de Higiene Mental e do trabalho de campo realizado através de entrevistas - o modo como a branquitude é entendida pelos paulistas. Nele, as autoras concluem que muitas das frases hoje proferidas acerca da branquitude, associadas a maior status social, se assemelham em muito a aquelas dos médicos da Liga Paulista de Higiene mental.

Na seção de comunicações temos Laura Cristina Eiras Coelho Soares (UERJ) com "‘Você não é meu pai!' - Atribuições de padrastos e madrastas em famílias recasadas após separação conjugal", que apresenta os resultados da sua pesquisa de doutorado sobre famílias recasadas e o cuidado dispensado aos enteados por parte dos padrastos e madrastas, concluindo que a definição desses papéis exige cautela no sentido de não construir um lugar de substituição das funções parentais.  O segundo trabalho, intitulado "Brincar para quê? Escola é lugar de aprender! Estudo de caso de uma brinquedoteca no contexto escolar", de Idonezia Collodel Benetti (Centro Universitário Barriga Verde - SC) apresenta a tese de Leila Lira Peters, que analisa, com base em Brougère, Ginzburg, Bakhtin e Volochínov, as significações do ato de brincar em uma brinquedoteca.

Para encerrar o presente número temos duas resenhas uma de Ademir Pacelli Ferreira (UERJ), intitulada "Violência: dimensão do humano?", que aborda o livro "Dimensões da violência: conhecimento, subjetividade e sofrimento psíquico" organizado por Mériti de Souza, Francisco Martins, José N. Garcia de Araujo, destacando o modo como se dá o enfrentamento desse tema quando tratado no âmbito do humano. Na outra resenha, que recebe o mesmo nome do livro de Analice Martins Souza "Síndrome da alienação parental: um novo tema nos juízos de família", Marcele T. Homrich Ravasio (UFRGS) enfatiza a perspicácia da autora em analisar, tomando como base o enfoque foucaultiano, a síndrome a partir das relações de gênero e dos papéis parentais.

Desejamos a todos uma boa leitura!

 

 

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Notas

*Professora Adjunta do Instituto de Psicologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
**Professora Titular do Instituto de Psicologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.



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