ARTIGOS

 

A cultura bullying na escola a partir do olhar das vítimas

 

Bullying culture in school from the view of the victims

 

 

Larissa Chaves de Sousa Santos *, I; Milene Martins **, II; Manoel Dias de Souza Filho ***, III; Maria do Carmo de Carvalho e Martins ****, IV; Emanuelly de Maria Santos de Souza ****, V

I Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUCSP, São Paulo, São Paulo, Brasil
II Faculdade Integral Diferencial – FACID, Teresina, Piauí, Brasil
III Universidade Federal do Piauí – UFPI, Parnaíba, Piauí, Brasil
IV Universidade Federal de Piauí – UFPI, Teresina, Piauí, Brasil
V Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA, Sobral, Ceará, Brasil

Endereo para correspondncia

 

 


RESUMO

No Brasil a preocupação com o fenômeno da violência no ambiente escolar surgiu a partir da década de 1980, mas foi no final da década de 1990 e início dos anos 2000 que os estudos passaram a investigar as relações interpessoais agressivas envolvendo alunos e professores. A presente pesquisa é um estudo descritivo de abordagem qualitativa que objetivou investigar o fenômeno bullying entre escolares da rede particular de ensino de Teresina-PI, Brasil. A análise das falas dos escolares vítimas de bullying mostrou que o fenômeno bullying foi caracterizado por meio de atos de violência verbal, física e/ou psicológica realizados diariamente, os quais geraram sentimentos negativos e de mal estar entre as vítimas. Além disso, tais atos resultaram em prejuízos imediatos aos escolares, como dificuldades de concentração, comunicação, e baixo rendimento escolar, que raramente foram denunciados por conta de impunidade aos agressores.

Palavras-chave: Psicologia, Bullying, Educação.


ABSTRACT

In Brazil, the preoccupation with the phenomenon of violence in the school environment emerged from the 1980s, but it was in the late 1990s and early 2000s that studies began to investigate aggressive interpersonal relations involving students and teachers. The following research is a description of quality approach that focuses to investigate the bullying phenomenon in between the students of the private high schools of Teresina-PI, Brazil. The analysis of the bullyings victims testimonies showed that the bullying phenomenon was characterized by language, physical and/or physiological daily violence, in which has generated feelings of sickness and sadness on the victims. Also, these actions caused immediate effects on the students such as, difficulties of concentration, communication and difficulty in the learning process, that were rarely noticed given the lack of punishment to the aggressors.

Keywords: Psychology, Bullying, Education.


 

 

1 Introdução

A violência escolar é um fenômeno antigo em todo o mundo e configura um "grave problema social" que, conforme visão científica e também pelo senso comum pode ocorrer como indisciplina, delinquência, problemas de relação professor-aluno ou mesmo aluno-aluno, entre outros (ABRAMOVAY; RUA 2003).

No Brasil, a preocupação com a violência no ambiente escolar surgiu a partir da década de 1980, inicialmente com a análise das depredações e danos aos prédios escolares, passando ao final da década de 1990 e início dos anos 2000 a abranger o estudo das relações interpessoais agressivas, envolvendo alunos, professores e outros agentes da comunidade escolar (SPOSITO, 2001).

A percepção e sensação da comunidade em geral e da escola, em específico, é de que há um aumento de violência e do bullying nas escolas, assim como uma significativa elevação da gravidade desses processos (McLAUGHLIN; MILLER, 2008).

Nesse contexto, o bullying compreende todas as formas de atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivações evidentes, praticados por um indivíduo (bully) ou grupo de indivíduos com o objetivo de agredir outro indivíduo (ou grupo de indivíduos), causando dor, angústia e humilhação, e executadas dentro de uma relação desigual de poder (CRUZEIRO; SILVA; HORTA et al.,2008; DEBARBIEUX; BLAYA, 2002). O termo bullying é de origem inglesa; a palavra Bully significa "valentão", o autor das agressões, e na literatura científica esse termo também é sinônimo de "intimidação" (DEBARBIEUX; BLAYA, 2002).

Tais atitudes preocupam jovens, pais, funcionários da escola e profissionais de saúde mental (ARSENEAULT; BOWES; SHAKOOR et al., 2010). Os grupos em que o comportamento violento é percebido antes da puberdade tendem a adotar atitudes cada vez mais agressivas, culminando em graves ações na adolescência e na persistência da violência na fase adulta (AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS, 1999).

Na América Latina, casos de violência nas escolas e de bullying especificamente, são apresentados diariamente em manchetes de jornais e revistas, facilmente encontrados em diferentes sites de notícias, blogs ou homepages (LISBOA; BRAGA; EBERT, 2009).

A cultura bullying pode ser caracterizada pela intencionalidade do ato, a prolongação no tempo e o desequilíbrio de poder físico, psicológico ou social entre os envolvidos (OLWEUS, 2003). Além disso, tem caráter multidimensional, pois embora envolva os jovens, acima de tudo, é amplificado pelo silêncio e a passividade dos adultos (DI TERRESENA; DIOLOSÀ; INGA et al., 2010).

Em geral, as crianças e adolescentes que são vítimas de bullying apresentam sinais de desconforto e problemas de adaptação (ARSENEAULT; BOWES; SHAKOOR et al., 2010), pensamentos e comportamentos suicidas (HINDUJA; PATCHIN, 2010), transtornos externalizantes e internalização, doenças crônicas somáticas (LUUKKONEN; RÄSÄNEN; HAKKO et al, 2010) e depressão (FITZPATRICK; DULIN; PIKO et al, 2010).

No entanto, o próprio conceito de bullying parece exercer um papel de adaptação, ao classificar a barbárie, e pretensamente controlá-la por essa via, pois coloca tudo em seu lugar ao tentar arrumar e justificar aquilo que fere a ideologia democrática, e acaba por mascarar as tensões e contradições que estão na base da própria barbárie, sendo esse o risco que se corre ao se utilizar a mera classificação e quantificação (ANTUNES; ZUIN, 2008).

Considerando que a escola atual tem presenciado situações de violência, as quais estão tomando proporções assustadoras em nossa sociedade, e também o fato de que o bullying vem ganhando destaque no meio acadêmico (FRANCISCO; LIBÓRIO, 2009), o presente estudo teve como objetivo investigar a percepção dos escolares vítimas de bullying, identificar suas principais angústias e dificuldades provocadas por essa violência no ambiente da escola, os sentimentos despertos pelas agressões, as reações dos escolares a essa violência, os possíveis prejuízos causados pelo bullying e a relação da denúncia contra o bullying e o sentimento de impunidade.

 

2 Metodologia

Realizou-se um estudo descritivo com abordagem qualitativa com cinco alunos vítimas de bullying em uma escola da rede particular de ensino de Teresina-PI, de ambos os sexos, na faixa etária de 11 a 15 anos.

A metodologia da pesquisa qualitativa foi escolhida por ser epistemológica e teoricamente apoiada em processos diferentes de construção de conhecimento, que tem como principal característica ser marcada pelos valores, ou seja, a interação entre pesquisador, pesquisa e pesquisado. Além disso, tal pesquisa se debruça sobre o conhecimento de um objeto complexo: a subjetividade, cujos elementos estão implicados simultaneamente em diferentes processos constitutivos do todo, os quais mudam em face do contexto em que se expressa o sujeito concreto (GONZÁLEZ, 2002).

Inicialmente foram realizadas observações do ambiente escolar. Após a análise das observações, alunos, pais ou responsáveis e professores da escola foram entrevistados, por meio de um questionário semi-estruturado, com o objetivo de identificar a existência do fenômeno bullying na instituição.

Após a identificação de cinco alunos vítimas de bullying, esses foram convidados a participarem de uma entrevista direcionada por um roteiro semiestruturado, composto por questões subjetivas sobre a percepção e experiência desses escolares em relação ao fenômeno bullying, suas principais angústias e dificuldades provocadas por essa violência no ambiente da escola, os sentimentos despertados pelas agressões, as principais reações após os atos de violência, os possíveis prejuízos causados pelo bullying e possível sensação de impunidade por parte das vítimas.

As falas foram gravadas para um melhor acompanhamento do conteúdo das verbalizações do participante e para auxiliar na transcrição fidedigna dos dados para posterior análise do conteúdo. A análise das informações obtidas foi realizada por meio de descrição textual das informações e de construção de unidades temáticas, por meio das quais os dados foram interpretados, discutidos e analisados, seguindo os critérios de organização, exaustividade e análise final (MINAYO, 2008).

O processo de análise dos dados envolveu o emprego da Análise de Conteúdo na perspectiva de Bardin (2004), que expressa que essa técnica é na verdade um conjunto de procedimentos sistemáticos e objetivos da descrição dos conteúdos das mensagens, que permitem a análise de indicadores qualitativos e quantitativos da comunicação dos interlocutores e a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção destas mensagens.

Além disso, o número de participantes foi definido pela identificação das vítimas de bullying nesse ambiente escolar, proporcional a características institucionais, já que a escola é exclusivamente de ensino infantil e fundamental, e também pelo critério de saturação das falas nas entrevistas.

O projeto que originou esse estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade Integral Diferencial – FACID (Parecer nº 082/2008) e o estudo realizado respeitando as recomendações da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde sobre pesquisa envolvendo seres humanos (BRASIL, 1996) e as determinações da Convenção de Helsinki (WORLD MEDICAL ASSOCIATION, 2008).

Previamente à realização das entrevistas, os pais ou responsáveis pelos adolescentes entrevistados assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, após informação sobre possíveis benefícios e riscos atrelados à execução do estudo, permitindo, assim, a divulgação das falas e dos resultados encontrados. Além disso, para garantir o anonimato dos participantes, a identidade dos sujeitos do estudo foi substituída por códigos: P1, P2, P3, P4 e P5 representando, cada um, as vítimas que concordaram em participar.

 

3 Análise compreensiva

Entre os cinco escolares vítimas de bullying participantes do estudo, três eram do sexo masculino, em que dois deles tinham idade igual a 12 anos de idade (P1 e P2) e um tinha 15 anos de idade (P3), enquanto os dois sujeitos do sexo feminino tinham respectivamente idade de 12 anos idade (P4) e 11 anos de idade (P5).

A análise das entrevistas permitiu categorizar os temas em: 1. a cultura do bullying na escola; 2. sentimentos despertados pelas agressões; 3. reações às agressões; 4. prejuízos imediatos causados pelo bullying; e 5. denúncia e  impunidade.

3.1 A cultura do bullying na escola

As formas mais comuns de bullying são as físicas, psicológicas e verbais (WHITNEY; SMITH, 1993), constituindo-se em fenômeno descrito como um problema endêmico da comunidade que foi importado para as escolas (TATTUM; HERBERT, 1997). E, segundo Wang (2009), o apoio social proporcionado pela família e pela escola tem uma associação inversa com a ocorrência do fenômeno bullying entre adolescentes (WANG; IANNOTTI; NANSEL, 2009).

Concordantemente, no presente estudo, a cultura bullying foi confirmada pela existência de atos de violência verbal, física e/ou psicológica, os quais de acordo com os sujeitos entrevistados ocorriam diariamente com os escolares, independentemente de sexo, faixa etária ou classe social.

Na análise das entrevistas emergiram conteúdos como: diversidade de apelidos, agressões físicas e verbais repetitivas, e discriminação. Destaca-se que ficou evidente em todas as verbalizações, correspondendo a 100% da amostra, foi o conteúdo tempo, indicando que o comportamento bullying não é um fenômeno recente no local e é quantificado pelas vítimas em expressões, como: ano passado e ano retrasado. Tal aspecto pode ser identificado nas descrições dos alunos a seguir apresentadas:

Na sala tem um menino que desde o ano passado ele dá apelido prá mim, aí o apelido que ele colocou prá mim os outros também me chamam desse apelido (P4).
Como no ano retrasado. [...] teve muitas pessoas que ficaram me batendo, por exemplo, até o meu colega me chamado de foquinha, e ficavam me gritando e me chutando, entre outros (P3).
Acontece e muito. No ano passado mesmo aqui na escola teve um menino que todo mundo xingava ele (P2).

Um aluno está a ser provocado ou vitimado quando está exposto, repetidamente e ao longo do tempo, a ações negativas da parte de uma ou mais pessoas (OLWEUS, 1994). O autor de bullying apresenta várias características a seguir apontadas: é tipicamente popular; tende a envolver-se em uma variedade de comportamentos antissociais; pode mostrar-se agressivo inclusive com os adultos; é impulsivo; vê sua agressividade como qualidade; tem opiniões positivas sobre si mesmo; é geralmente mais forte que seu alvo; sente prazer e satisfação em dominar, controlar e causar danos e sofrimentos a outros (LOPES NETO, 2005).

3.2 Sentimentos despertados pelas agressões

Independente da forma como essa violência tenha sido vivenciada, observou-se nas falas e no conteúdo subjetivo das mesmas que as agressões geram sentimentos diversos, mas principalmente de cunho negativo. Da análise das unidades textuais foi possível destacar os seguintes conteúdos: sentir-se mal, chateado, raiva, medo, vergonha. Portanto, é possível interpretar que os sentimentos vivenciados pelo aluno vitimizado estão relacionados com sentimentos de menos valia, isolamento social, e de medo ou raiva reprimida, causando mal estar psicológico entre as vítimas.

Nesse sentido, Sourander et al. (2000) em um estudo longitudinal de 8 anos de acompanhamento, avaliaram a persistência de bullying em crianças até a adolescência, e constataram que essa violência predispõe as vítimas a uma vasta gama de problemas psicológicos, e está associada a maior número de encaminhamentos para os serviços de saúde mental infantil (SOURANDER; HELSTELÄ; HELENIUS, 2000). No presente estudo, os sentimentos negativos despertados pelos comportamentos de bullying podem ser identificados nos trechos dos depoimentos abaixo transcritos:

Me senti mal [...] o povo ficava me xingando e eu não gostava (P3).
Eu não sei te explicar, mas eu fiquei chateado (P1).
Eu me senti chateada [...] me senti com raiva de ter que escutar aquilo (P5).
Chateada. Quando eu tentava chegar próximo de alguém pra conversar, eles saíam de perto (P4).

Vale lembrar que o comportamento bullying na infância é um fator de risco para o desenvolvimento futuro de depressão e, desse modo, a triagem e a intervenção para o combate do comportamento bullying nos primeiros anos escolares é recomendado para evitar posterior interiorização de problemas no final da adolescência (KLOMEK; SOURANDER; KUMPULAINEN, 2008).

3.3 Reações às agressões

Em consequência do sentimento negativo despertado pelas diferentes formas de bullying observou-se, pela análise dos conteúdos das verbalizações dos entrevistados, que aqueles que estavam envolvidos com o bullying desenvolveram um verdadeiro sentimento de vingança e, em algum momento, passaram de vítimas a agressores. Esses comportamentos decorrem de um processo complexo que envolve a dinâmica do bullying. Por questão de sobrevivência emocional a vitima reage à agressão, tornando-se também um agressor. Dos alunos entrevistados quatro deles afirmaram que, após um tempo, não conseguiram ficar passivos às provocações e tiveram alguma reação física ou verbal ao ato agressivo. Foi observado ainda que, ao relatar estes comportamentos, os jovens pesquisados não demonstravam satisfação e continuavam a expressar atitudes de baixa estima. Tal fato pode ser evidenciado nas transcrições abaixo apresentadas:

Ele ficava me xingando de um nome lá [...] eu não gostei e devolvi, chamei ele de outra coisa (P2).
Quanto mais ele me xingava mais eu tinha vontade de ficar batendo nele (P3).
Eles não deixaram eu jogar, aí veio o L. e me azunhou, aí eu dei um murro na cara dele (P1).
Eu fico fazendo isso com as pessoas, a maioria das vezes elas fazem isso comigo também (P1).

O bullying é um fator de risco para a violência institucional e social, bem como para comportamentos antissociais individuais (LISBOA, 2005).  Pode também significar uma forma de afirmação de poder interpessoal por meio da agressão, não podendo ser confundido com brincadeirinhas de crianças, nem admitido como uma situação corriqueira e natural (LISBOA; BRAGA; EBERT, 2009).

Desse modo, no comportamento bullying existiriam os intimidadores (líderes ou seguidores), as vítimas (passivas, agressivas provocadoras, e vítimas que também intimidam outros) e os indivíduos não participantes (os que poderiam entrar na categoria de intimidadores seguidores, aqueles que apenas observam, e os que defendem o colega, ou buscam por ajuda) (ANTUNES; ZUIN, 2008).

3.4 Prejuízos causados pelo bullying

Alvos, autores e testemunhas enfrentam consequências físicas e emocionais de curto e longo prazo, as quais podem causar dificuldades acadêmicas, sociais, emocionais e legais. Evidentemente que as crianças e adolescentes não são acometidas de maneira uniforme, mas existe uma relação direta com a frequência, duração e severidade dos atos de bullying (LOPES NETO, 2005).

Além do trauma imediato de sofrer bullying, as vítimas de intimidação estão em alto risco de sofrer distúrbios físicos e emocionais mais tarde, em que os agressores embora geradores desse trauma também sofrem os efeitos em longo prazo como consequência de sua participação, e em que os expectadores também não são imunes aos efeitos deletérios do bullying nem inocentes em sua ocorrência (VANDERBILT; AUGUSTYN, 2010).

Adicionalmente, características individuais como depressão e envolvimento com comportamentos delinquentes (WEI; WILLIAMS; CHEN, 2010), perfis de comportamento violentos, antissocial e ideias suicidas (LIANG; FLISHER; LOMBARD, 2007) tem sido associados ao bullying.

Na pesquisa aqui realizada não foi possível identificar prejuízos físicos ou psicológicos advindos do bullying, tais como depressão, ideação suicida ou pensamento de vingança, visto que para isto seria necessário um tempo maior de observação e acompanhamento dos casos.

Contudo, foi possível identificar como repercussões do bullying as seguintes consequências: 1. prejuízos sociais, principalmente no relacionamento interpessoal dos adolescentes, expressos por dois participantes; 2. dificuldades de concentração, verbalizadas por três adolescentes; e 3. dificuldade de comunicação, percebida subjetivamente durante a realização das entrevistas. E, esses dados objetivos e subjetivos podem indicar também uma possível dificuldade no rendimento escolar. 

Os trechos transcritos a seguir corroboram estudos citados neste trabalho e indicam também a dificuldade de conversação dos entrevistados, demonstrando comportamento retraído e timidez ao falar sobre seus sentimentos:

[...] prá aprender porque aí, por exemplo, porque xinga uma pessoa [...] ele xinga  aí discuti [...] aí atrapalha (P4).
Atrapalha de forma bruta (P5).
Eu não consigo me concentrar (P3).

Dessa forma, devido a gravidade das consequências desse tipo de violência, as escolas devem ser capacitadas para realizar encaminhamentos adequados de crianças identificadas como vítimas e agressoras para clínicas-escola ou consultórios psicológicos particulares (LISBOA; BRAGA; ERBERT, 2009).

3.5 Denúncia e impunidade

Em geral, devem-se encorajar os alunos a participarem ativamente da supervisão e intervenção dos atos de bullying, pois o enfrentamento da situação pelas testemunhas demonstra aos autores de tais atos que eles não terão o apoio do grupo (LOPES NETO, 2005).

Porém, a análise dos discursos dos sujeitos aqui investigados evidencia que somente alguns casos de agressões foram denunciados para um adulto, uma vez que o pedido de socorro que poderia aliviar o sofrimento daqueles que o procuram não ocorria por conta da certeza de impunidade por parte das vítimas, e isso inibia o ato de denúncia, conforme pode ser evidenciado no relato a seguir transcrito: não ajuda, piora as agressões verbais (P3).

Além disso, a qualidade das relações de amizade e o desejo de alcançar um status maior na escola (popularidade) para se manter no poder demonstra a desigualdade de tratamento e a proeminência dos indivíduos dentro do grupo. Ademais, a possibilidade de rejeição faz com que os seus membros se submetam às normas do grupo, embora essas não sejam formais e explícitas (LISBOA; BRAGA; EBERT, 2009).

Assim, a própria vítima teme denunciar seus agressores seja por conformismo seja por vergonha de se expor perante os colegas, pois teme virar motivo de gozações. E, muitas vezes teme ainda a reação dos próprios familiares, os quais amenizam os episódios por receio de que a vítima sofra represálias dos seus agressores, o que pode agravar ainda mais a situação (FANTE, 2005). Tal fato foi evidenciado nas seguintes descrições:

Minhas amigas geralmente pedem ajuda, mas aí às vezes não dá resultado (P5).
Ninguém sabe do que acontece (P3).
Não conto prá ninguém, só às vezes (P4).
Algumas vezes eu conto prá minha mãe (P1).
Não sou muito de falar das minhas coisas não (P2).

As consequências do bullying afetam todos os envolvidos, porém os maiores prejudicados são mesmo as vítimas diretas, que suportam silenciosamente o seu sofrimento (FANTE, 2005), como pode ser observado nos trechos de depoimentos abaixo apresentados:

Às vezes eu defendo minhas amigas e por eu defender ela, às vezes falam (P5).
Eu não pude fazer nada, senão ele podia me xingar (P2).

De acordo com Fante (2005), os próprios companheiros, expectadores passivos, embora sejam testemunhas oculares, não se atrevem a denunciar os agressores, pois se sentem coagidos à omissão, à conivência e à cumplicidade, uma vez que não querem envolver-se ou têm medo de se tornarem um novo integrante do "time das vítimas".

Segundo Lopes Neto (2005), todas as pessoas esperam que as escolas ofereçam ambiente seguro e saudável que possibilite às crianças e adolescentes as condições necessárias para assegurar o desenvolvimento pleno de seus potenciais intelectuais e sociais e, dessa forma, não se deve admitir a ocorrência de violências contra os estudantes que tragam danos físicos e/ou psicológicos, ou que ao testemunharem tais fatos calem-se para não serem também agredidos ou que acabem por achá-los banais ou ainda que, diante da omissão e tolerância dos adultos, adotem comportamentos agressivos.

Dessa forma, os profissionais da educação devem lidar e resolver efetivamente os casos de bullying, enquanto as escolas devem aperfeiçoar suas técnicas de intervenção e buscar a cooperação de outras instituições, tais como centros de saúde, conselhos tutelares e redes de apoio social (FEKKES; PIJPERS; VERLOOVE-VANHORICK, 2005).

A inexistência de políticas públicas que indiquem a necessidade de priorização das ações de prevenção ao bullying nas escolas, objetivando a garantia da saúde e da qualidade da educação, significa que inúmeras crianças e adolescentes estão expostos ao risco de sofrerem abusos regulares de seus pares (LOPES NETO, 2005).

Nesta perspectiva e diante dos resultados aqui apresentados, considera-se que o fenômeno bullying deve ser discutido amplamente por pais, professores e estudantes para que as atitudes preventivas sejam planejadas. E, desse modo, de posse de conhecimento sobre o assunto, escola e família passem a deixar de agir de forma empírica e desorganizada sem atentar-se para os reais prejuízos aos quais estão sujeitos todos os envolvidos nesse processo.

 

4 Considerações finais

A análise dos dados do presente estudo mostrou que o fenômeno bullying ocorreu por meio de atos de violência verbal, física e/ou psicológica realizados diariamente e que persistiam por vários meses, gerando sentimentos diversos e contraditórios de menos valia, raiva reprimida, baixa autoestima, isolamento social e abandono entre as vítimas. Em virtude desse turbilhão de emoções, em algum momento, passaram de vítimas a agressores. Além disso, tais atos resultaram em prejuízo, principalmente nas relações interpessoais desses adolescentes, que tem como elo afetivo com a escola o contato com o grupo de iguais. Esses comportamentos agressivos podem também ter contribuído para o aparecimento de dificuldades de concentração e para a redução da capacidade de memorização, verbalizados pelos entrevistados. Não foi possível estabelecer correlação direta entre a cultura bullying e o baixo rendimento escolar, pois não foi realizado nenhum acompanhamento longitudinal do desempenho acadêmico ou de avaliação do rendimento escolar dos pesquisados, já que não era o objetivo da presente pesquisa. Outro elemento evidenciado na pesquisa foi que as vítimas não se sentiam capazes de denunciar o que estavam passando por conta da impunidade aos agressores e também pela falta de informação ou por descaso das figuras de autoridade no ambiente escolar. A pesquisa contribuiu para ampliar a discussão sobre um tema contemporâneo que deixa sequelas emocionais em todos os envolvidos e que, se não for trabalhado no ambiente no qual é desencadeado – a escola, pode trazer consequências duradouras para a vida acadêmica, social, afetiva e familiar das vítimas.

 

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Endereo para correspondncia
Larissa Chaves de Sousa Santos
Rua Martiniano de Carvalho, nº 960, Apto 53, Bairro Paraiso, CEP 01321-000, São Paulo - SP, Brasil
Endereço eletrônico: laricsantos@hotmail.com
Milene Martins
Rua Veterinário Bugyja Brito, nº 1354, Bairro Horto Florestal, CEP:64052-410, Teresina, Piauí, Brasil
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Manoel Dias de Souza Filho
Rua Equador, No118, Conjunto Jardim Esperança 3, Bairro Ceará, CEP 64.215-620, Parnaíba – PI, Brasil
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Maria do Carmo de Carvalho e Martins
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Emanuelly de Maria Santos de Souza
Rua Equador, No119, Conjunto Jardim Esperança 3, Bairro Ceará, CEP 64.215-620, Parnaíba – PI, Brasil
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Recebido em: 13/10/2010
Reformulado em: 13/05/2011
Aceito para publicação em: 13/12/2011
Acompanhamento do processo editorial: Deise Mancebo

 

 

Notas

* Mestre em Psicologia Experimental pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Graduada em Psicologia pela Faculdade Integral Diferencial (FACID) - Teresina-PI-Brasil.
** Mestre em Educação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Graduada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Professora dos cursos de Psicologia, Farmácia e Direito da Faculdade Integral Diferencial (FACID) - Teresina-PI-Brasil.
*** Mestre em Ciências e Saúde pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).  Professor de Psicofisiologia no curso de Psicologia e de Ciências Fisiológicas no curso de Biomedicina da UFPI - Parnaíba-PI-Brasil.
**** Doutora em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Professora do Programa de Pós-Graduação em Alimentos e Nutrição e do Departamento de Biofísica e Fisiologia da Universidade Federal do Piauí (UFPI), e Professora do Centro Universitário UNINOVAFAPI - Teresina-PI-Brasil.
***** Pós-graduanda em Psicomotricidade. Graduada em Pedagogia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA, Sobral-CE.



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