ESTUDOS E PESQUISAS EM PSICOLOGIA, UERJ, RJ, ANO 1, N. 1, 1º SEMESTRE DE 2001

ARTIGO 7
SOBRE A INVENÇÃO DO CASAL
ABOUT THE INVENTION OF THE COUPLE


Miriam Goldenberg*



RESUMO
Este artigo tem como objetivo estudar as representações existentes sobre os papéis femininos e masculinos, sobre conjugalidade e sexualidade, na cultura brasileira. Busco analisar, particularmente, as dificuldades atuais nos relacionamentos afetivo-sexuais e as perplexidades masculinas e femininas com relação aos papéis de gênero. Durante anos, tenho me preocupado em pesquisar a identidade masculina e feminina na cultura brasileira, tomando como foco os relacionamentos afetivo-sexuais. Acredito que esta preocupação científica é reflexo de uma questão existencial mais complexa: por que é tão difícil ser feliz a dois? Por que, necessariamente, os relacionamentos naufragam ou se tornam burocráticos, sem prazer e sabor? Por que a atração sexual diminui drasticamente ou acaba durante o casamento? Por que homens e mulheres, casados ou solteiros, parecem tão infelizes e insatisfeitos com suas vidas amorosas. O que fazer?

PALAVRAS-CHAVE:
Gênero; Casal; Identidade.


Este artigo tem como objetivo pensar sobre as representações existentes sobre conjugalidade e sexualidade na cultura brasileira. Busco analisar, particularmente, as atuais dificuldades dos relacionamentos afetivo-sexuais e as expectativas masculinas e femininas com relação aos papéis de gênero.

A linha de pesquisa, que venho desenvolvendo desde 1988, permite refletir sobre a construção social da identidade feminina e masculina em nosso país, a partir deste enfoque. Ao escolher a trajetória de Leila Diniz como tema de tese de doutorado estava concluindo um estudo, realizado com a socióloga Moema Toscano (1992), sobre o movimento feminista no Brasil e suas conseqüências nas mudanças sociais dos papéis femininos e masculinos. Na minha tese Toda Mulher é Meio Leila Diniz: gênero, desvio e carreira artística também discuto as transformações dos papéis femininos na sociedade brasileira. Ao compreender os comportamentos femininos que Leila Diniz passou a personificar, busquei entender a concorrência existente, na época em que ela viveu (1945-1972), entre padrões femininos considerados “normais” e outros percebidos como “desviantes”. Para tanto, os trabalhos de Erving Goffman (1975) e Howard Becker (1966) sobre comportamentos desviantes e estigma foram essenciais, assim como os trabalhos desenvolvidos por Gilberto Velho sobre as camadas médias intelectualizadas no Rio de Janeiro, que apontam as transformações que vêm ocorrendo, nas últimas décadas, no comportamento sexual e na família brasileira. Também o trabalho de Roberto Da Matta (1983) foi fundamental em minhas análises. Da Matta constata que no Brasil a mulher tem uma posição ambígua, com duas figuras paradigmáticas lhe servindo de modelo: a da “Virgem-Mãe” (a mulher que tem sua sexualidade controlada pelo homem; a “santa”, a “mulher da casa”) e a da “puta” (a mulher que não é controlada pelos homens, a “mulher da vida”, a “mulher da rua”), a quem é negado o direito de ser mãe. Esta polarização entre a representação da mulher como “santa” ou “puta” foi bastante desenvolvida na minha pesquisa sobre a trajetória de Leila Diniz, assim como em estudos anteriores sobre a identidade da amante do homem casado (Mirian Goldenberg, 1991 e 1997).

Nunca, como hoje, se debateu, tão ampla e democraticamente, a posição da mulher e do homem na sociedade brasileira. São inúmeras as questões, mas irei me deter no relacionamento afetivo-sexual, uma preocupação crescente não só de antropólogos ou sociólogos, mas de psicólogos, jornalistas, educadores, entre outros.

UM OLHAR SOBRE AS TRANSFORMAÇÕES DOS PAPÉIS DE GÊNERO NAS ÚLTIMAS DÉCADAS

O final da década de 1960 e início da década de 1970 são marcos fundamentais nas transformações dos papéis femininos e masculinos na sociedade brasileira. Como lembram Albertina Costa e Cristina Bruschini (1992) na década de 1970 e, principalmente, na seguinte, a produção acadêmica sobre a questão de gênero é “invejável”. Estes estudos buscam desreificar a idéia de “natureza” feminina (e masculina) e reforçar a concepção de que as características peculiares à mulher (e ao homem) são, na verdade, socialmente construídas. Cada cultura apropria-se de uma distinção biológica (macho/fêmea), seleciona alguns fatos naturais (como, por exemplo, a função reprodutiva da mulher) e os exacerba, naturalizando funções que são produtos de uma determinada educação e socialização. Utilizo, assim, o conceito de gênero (cf. Joan Scott,1990) para desnaturalizar os papéis e identidades atribuídos ao homem e à mulher. Diferencio o sexo (a dimensão biológica dos seres humanos) do gênero (uma escolha cultural, arbitrária, um produto social e histórico).

O movimento feminista, que estava sendo organizado na Europa e nos Estados Unidos, começou a repercutir no Brasil. Os jornais, as revistas, o cinema, o teatro e a televisão passaram a dar espaço para as reivindicações das mulheres. O denominador comum das lutas feministas foi o questionamento da divisão tradicional dos papéis sociais, com a recusa da visão da mulher como o “segundo sexo” ou o “sexo frágil”, cujo principal papel é o de “esposa-mãe”. As feministas reivindicavam a condição de sujeito de seu próprio corpo, buscando um espaço próprio de atuação profissional e política.

A difusão da psicanálise contribuiu fortemente para a rejeição das práticas que eram percebidas como autoritárias e repressivas e para o questionamento da obrigatoriedade de exercer a sexualidade dentro dos limites do casamento legítimo. O tom da mudança social foi dado pela reivindicação de igualdade na esfera pública e privada e pela recusa de morais sexuais diferentes para homens e mulheres. Neste período, as mulheres viveram com intensidade o dilema de “mudar” ou “permanecer”, coexistindo um padrão tradicional de ser mulher (a “virgem” e “esposa-mãe”), voltado para o mundo doméstico, e um novo modelo de mulher que trabalha, que atua politicamente, que busca o prazer sexual. Estavam em disputa diferentes modelos de “ser mulher”: o religioso, que exige da mulher a negação de sua sexualidade (virgindade) ou a contenção de seu exercício nos limites do casamento (tendo como fim a procriação); e outro, que pode ser pensado como o mais próximo do difundido pela psicanálise e pelas lutas feministas, que busca a igualdade entre homens e mulheres, defendendo o controle sobre sua própria vida.

O MOVIMENTO FEMINISTA NO BRASIL

Ao se pensar na produção acadêmica sobre a mulher brasileira nas últimas décadas, é preciso antes fazer uma retrospectiva do movimento feminista em nosso país. As transformações dos papéis e comportamentos femininos, nas últimas três décadas, contribuiram enormemente para que as mulheres brasileiras assumissem novos espaços no mundo público, tanto no mundo profissional quanto no político.

É preciso não esquecer que certos aspectos de nossa formação cultural e econômica explicam porque, entre nós, o movimento feminista se apresentou, desde o início, como um reflexo do que acontecia nas sociedades mais industrializadas, como a Europa e os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, este movimento no Brasil apresentou particularidades que explicam a inserção da mulher na vida pública. O feminismo no Brasil não foi uma mera reprodução de modelos americanos ou europeus, e suas especificidades só podem ser compreendidas no contexto da nossa formação histórica e da situação de dependência dos centros hegemônicos a que o Brasil esteve atrelado desde a colonização.

A escravidão, a tardia emancipação do centro de dominação, o modelo fundiário desenvolvido pelo colonizador português e a influência da Igreja Católica como força política e instrumento de controle social são alguns dos elementos que permitem compreender as peculiaridades das lutas das mulheres brasileiras. São estes elementos que ajudam a entender, também, o patriarcalismo e o conservadorismo dos homens brasileiros. Esse conservadorismo se manifestava sempre que alguma mulher tentava inovar algum costume, mesmo no comportamento cotidiano (como o comprimento das saias, o corte dos cabelos ou as danças mais descontraídas). O que comandava esse conservadorismo era o medo de que tais atos de ruptura com os padrões tradicionais se refletissem sobre a família, “célula básica da sociedade, da qual a mulher era fiel guardiã.”

No período entre o final do Segundo Império e a Primeira Grande Guerra, o Brasil passou por mudanças significativas, tais como: a intensificação das relações internacionais (protagonizada pelas camadas de renda mais alta, por meio de viagens ao exterior e troca de correspondência com intelectuais de outros países) e o grande fluxo migratório do Velho Continente. Estas mudanças semearam idéias que, até então, eram restritas a pequenos grupos de intelectuais. As idéias feministas vieram no bojo deste movimento, refletindo o que ocorria na Europa, cuja tônica era a luta pela participação da mulher na vida pública e nos centros de decisão.

No entanto, toda essa reação conservadora não foi capaz de deter a luta de alguns grupos de mulheres vanguardistas. A influência dos modelos de países do centro do sistema capitalista (que o cinema, o rádio e a literatura reforçavam) fazia-se cada vez maior. Por maiores que fossem as resistências, as mudanças aconteciam, atingindo um universo cada vez mais amplo e afetando diferentes instâncias da sociedade e da família. O direito ao voto (1932) e a legislação trabalhista de proteção ao trabalho feminino (1932 e 1943, com a consolidação das leis do trabalho) são exemplos destas transformações. Esse primeiro momento do feminismo organizado não se caracterizava por ser revolucionário ou abertamente contestatório. Ao contrário, na maior parte dos estatutos das primeiras organizações de mulheres estão registradas a intenção de manter-se fiel aos princípios da ordem e da harmonia social. O conteúdo de suas reivindicações restringia-se à conquista de novos espaços no mercado de trabalho e à luta pela igualdade entre homens e mulheres. As feministas de então repudiavam a discussão sobre a sexualidade feminina, preferindo o caminho das reivindicações de cunho mais estritamente político ou trabalhista.

As resistências ao feminismo foram agravadas pelo radicalismo que caracterizou um certo momento da luta das mulheres, nos Estados Unidos e na Europa. Por muito tempo, associou-se a esta luta o que foi apenas um de seus episódios, que foi a queima de sutiãs em praça pública. Este momento foi muitas vezes usado para ridicularizar o movimento feminista por aqueles que não compreenderam a simbologia de que estava carregado. A feminista Heleieth Saffioti, em depoimento para o livro A Revolução das Mulheres, lembra o significado deste ato:

 

Os movimentos feministas só são o que são hoje porque foram o que foram no passado. Hoje nós podemos questionar as bases do pensamento ocidental porque houve um grupo de mulheres que queimou sutiãs em praças públicas. O sutiã simbolizava uma prisão, uma camisa- de-força, a organização social que enquadra a mulher de uma maneira e o homem de outra. A simbologia é essa: vamos queimar a camisa-de-força da organização social que aprisiona a mulher (Saffioti, Heleieth).

A produção teórica, nacional e estrangeira, sobre a condição feminina começou a aparecer com força crescente no Brasil. Por essa época, as revistas femininas começaram a modificar o conteúdo de suas matérias, que até então eram sobre culinária, corte e costura, moda, decoração e beleza. A grande protagonista dessa mudança foi a jornalista Carmen da Silva que, de 1963 até a sua morte (em 1985), escreveu a coluna “A arte de ser mulher” na revista Cláudia. Nesta coluna, Carmen da Silva estimulava o questionamento do papel tradicional feminino, enfatizava a busca de auto-realização, do engajamento político e profissional da mulher brasileira.

Os anos 70 marcaram uma reviravolta no movimento feminista, que passou a colocar como um dos eixos da sua luta a questão da relação homem-mulher e a necessidade de reformulação dos padrões sexuais vigentes. Os acontecimentos de maio de 1968, na França e na Alemanha, foram um marco importantíssimo nessa transformação. A questão do “específico feminino” se insere nesse clima de contestação geral. A falta de representatividade feminina nas áreas de poder, as desigualdades no mercado de trabalho e no plano educacional propiciaram um clima de inquietação que logo se traduziria em forte predisposição para uma ação política organizada.

Com as conquistas femininas consolidadas nas últimas décadas transformamos nossas vidas públicas e privadas. No entanto, é preciso reconhecer que muitas mulheres ficaram mais estressadas, mais competitivas, preocupadas com necessidades que não preocupavam tanto as mulheres de antigamente, como dinheiro, consumo, sucesso, carreira… Criamos novas exigências, novos desejos, novas ambições e novas culpas. Buscamos novas experiências, brigamos mais e, muitas vezes, nos sentimos profundamente solitárias.

A feminista americana Betty Friedan responde a esta angústia ao alertar a mulher dos anos 90: “Cuidado com o retorno da nostalgia dos dias simples em que a mulher não tinha escolha. Em meio ao medo e até ressentimento das difíceis escolhas que a mulher enfrenta hoje, cuidado com a tentação a acreditar que é possível, e desejável,retroceder. Temos de formular novas perguntas para nos livrar de conflitos desnecessários antes de poder resolver problemas reais, dos quais nos esquivamos, sustentando ilusões de escolha, onde a escolha não existe. É perigoso para as mulheres se iludirem sobre a existência de uma escolha real que pode evitar os problemas complexos que encaram hoje em dia ao tentar uma nova configuração para a família, para o trabalho e para o amor”.

HOMEM-MULHER: UMA DIFÍCIL CONVIVÊNCIA

Durante anos, tenho me preocupado em pesquisar a identidade masculina e feminina na cultura brasileira, tomando como foco os relacionamentos afetivo-sexuais. Acredito que esta preocupação científica é reflexo de uma questão existencial mais complexa: por que é tão difícil ser feliz a dois? Por que, necessariamente, os relacionamentos naufragam ou se tornam burocráticos, sem prazer e sabor? Por que a atração sexual diminui drasticamente ou acaba durante o casamento? Por que homens e mulheres, casados ou solteiros, parecem tão infelizes e insatisfeitos com suas vidas amorosas? O que fazer?

Apesar de inúmeras pesquisas, resenhas, artigos e livros publicados, ainda não consegui descobrir o segredo do sucesso de alguns relacionamentos que “dão certo”, enquanto a maioria dos mortais vive o “fracasso conjugal”.

As queixas se multiplicam e as respostas não aparecem. A busca de terapias tradicionais ou alternativas cresce criando um mercado de infelicidade bastante rentável. Livros de auto-ajuda vendem, aos milhões, ensinando que o sucesso é ser feliz. Remédios milagrosos prometem a felicidade e o prazer instantâneos. Encontros virtuais substituem a difícil convivência de um casal. Cada vez mais, a grande imprensa e a televisão debatem a questão. Apesar da evidência de um problema generalizado, ainda são poucos os estudos científicos que ajudam a compreender esta epidemia de insatisfação amorosa. A exacerbação do individualismo, e a reivindicação de espaço e de realização pessoal têm anulado qualquer possibilidade de tolerância necessária para uma convivência pacífica dentro de quatro paredes.

Não existe muita clareza do que é considerado norma ou desvio nos relacionamentos conjugais. Ao mesmo tempo em que sobrevive, em cada um de nós, um modelo de família nuclear (pai-mãe e filhos), a realidade nos mostra inúmeras formas de relacionamentos afetivo-sexuais inimagináveis há poucos anos atrás. O mesmo ocorre com os modelos de masculinidade e feminilidade. Nunca, como hoje, homens e mulheres foram tão parecidos em comportamentos, visões de mundo e desejos. É verdade que algumas diferenças permanecem, principalmente no espaço privado. As divisões sexuais do trabalho doméstico continuam pendendo para o lado da mulher. Não podemos culpar apenas os homens por este foco de resistência às mudanças de gênero.

Uma resposta fácil para esta dificuldade de convivência é a maior autonomia e independência feminina, relativamente recentes, resultado da sua imersão no mercado de trabalho. As mulheres passaram a exigir muito mais de seus relacionamentos afetivo-sexuais. Quanto mais independente economicamente é a mulher, mais exigente ela se torna com o seu parceiro amoroso. O quadro atual do trabalho feminino demonstra que não são poucas as mulheres que podem “escolher” livremente um relacionamento amoroso de acordo com os seus desejos. O conceito de “campo de possibilidades” (cf. Gilberto Velho, 1981) explica muito bem quem pode e quem não pode “escolher” na sociedade brasileira, e por quê. Capas recentes de revistas brasileiras e americanas mostram que as mulheres não querem mais casar a qualquer preço. Preferem viver sós do que malacompanhadas e têm mais medo da solidão a dois do que da vida sem um parceiro amoroso. Por outro lado, também é possível detectar um movimento de mulheres que preferem largar o trabalho e cuidar só da casa e dos filhos, se o marido puder sustentar a família com o seu salário. São as chamadas “mulherzinhas”, que não têm vergonha de abrir mão da autonomia e da realização profissional porque se sentem mais felizes protegidas dentro do lar. Parece estranho que na sociedade ocidental moderna valores tão antagônicos convivam aparentemente sem conflitos.

Outro problema é a excessiva valorização da sexualidade presente na sociedade brasileira que obriga todos, mesmo aqueles que já estão casados há dezenas de anos, a sentirem atração sexual por seus parceiros como dois recém-casados. Muitos casais que poderiam ser felizes, como amigos e amantes, sentem-se bombardeados pela propaganda do sexo e passam a questionar a sua felicidade sexual, comparando-a com a de outros casais imaginários. A fantasia parece mais real do que a própria realidade e a sensação de que estamos longe da felicidade possível nos traz insatisfação. Será que só existem relações doentes, neuróticas, dependentes, compulsivas, infelizes, medíocres fora das novelas das oito?

Escuto, muito freqüentemente, em minhas pesquisas um mesmo tipo de reclamação. Em debates em que participo, aulas, conversas informais, sempre aparece a mesma queixa: nada mudou depois de tantas discussões e brigas entre os sexos, na verdade, tudo ficou muito pior. Essa queixa vem tanto de mulheres quanto de homens esclarecidos, que acreditam que os desencontros atuais, as inúmeras separações e a insatisfação masculina e feminina são os principais resultados do movimento de libertação da mulher dos anos 60 e 70. Afinal, dizem eles, parece que os homens e as mulheres falam línguas diferentes, desejam relacionamentos incompatíveis e não conseguem conviver sem um clima permanente de guerra. Enquanto a principal queixa dos homens é a de que as mulheres são muito exigentes, reclamam de tudo, e eles não conseguem satisfazê-las nunca (por mais que tentem); as mulheres reclamam que falta homem interessante no “mercado” e que os poucos que existem são muito ausentes e prestam mais atenção ao jogo de futebol do que às necessidades femininas.

Parece-me que quem reclama que nada mudou (ou que piorou) não consegue enxergar em sua própria vida as transformações da relação homem-mulher nas últimas duas décadas. Acreditam que por não terem ainda uma relação totalmente satisfatória e igualitária, não têm nada. É zero ou cem. Como não mudou tudo, então não mudou nada. Não percebem que séculos de uma cultura escravagista e de silêncio feminino não mudam em dez ou vinte anos e que mais do que uma ruptura definitiva com o passado, estamos vivendo um processo, até bastante acelerado, de transformações dos papéis masculinos e femininos na sociedade brasileira. Existe, também, uma certa nostalgia do passado, quando os papéis destinados a homens e mulheres eram muito melhor delimitados, em casa e na rua. Era muito mais fácil saber o que se ia ser quando crescer: variações em torno de pai, médico, engenheiro ou advogado; esposamãe, dona-de-casa ou professora primária. O sonho era ter uma casinha, filhos saudáveis, uma geladeira branca, um telefone preto e um carro Ford ou Chevrolet de segunda mão. A sociedade atual não permite sonhar com o futuro, preocupados que estão todos de viver hedonisticamente o presente, consumindo ao máximo, bens materiais e relações afetivo-sexuais.

É fácil constatar que homens e mulheres mudaram profundamente, mas que muitos estereótipos sobre os sexos ainda permanecem. Para muitas mulheres, todos os homens são “galinhas”, têm inúmeras parceiras sexuais ao longo de suas vidas e não perdem uma oportunidade de ter novas aventuras. Estudos recentes mostram que a realidade não é bem assim. São muitos os homens que tiveram poucas parceiras sexuais e que não repetem o comportamento tradicional masculino de dissociar a esposa da amante, a mãe de seus filhos da prostituta ou da mulher que tem prazer sexual. Enquanto isso, o estereótipo da mulher como vítima indefesa e frágil continua sendo alimentado por homens e mulheres. A coitadinha que não pode enfrentar as dificuldades do mundo profissional e político e precisa ser permanentemente defendida por homens fortes e poderosos.

A preocupação atual de muitos pesquisadores de gênero é refletir sobre o que existe de novo nessa discussão. Acredito que muito mais pode ser acrescentado a esta discussão, desde que todos os envolvidos deixem de lado a postura de vítimas, para enxergar as transformações sociais que estão ocorrendo e pelas quais somos todos responsáveis.

O QUE FAZER?

Mas se mudou tanto, porque ambos continuam insatisfeitos? Penso que a insatisfação permanente é inerente ao ser humano e não haverá nunca um relacionamento perfeito para os dois. Considerar a insatisfação como uma prova de que nada mudou me parece algo extremamente ingênuo.

Afinal, o que quer a mulher? E, como conseqüência desta pergunta clássica de Freud, o que quer o homem? Após mais de vinte anos de intensos debates sobre a desigualdade entre homens e mulheres, o que realmente mudou na sociedade brasileira e o que permanece o mesmo?

Acredito que a relação entre homens e mulheres mudou muito e mudou para melhor.

Simone de Beauvoir afirmou, em O Segundo Sexo, que o casal equilibrado não é uma utopia. Ela acreditava que alguns casais são unidos por um grande amor sexual que os deixa livres em suas amizades e ocupações; outros são ligados por uma amizade que não proíbe sua liberdade sexual; e outros ainda são, ao mesmo tempo, amigos e amantes, mas sem procurar um no outro sua razão exclusiva de viver. Assim, numerosas possibilidades existem nas relações de um homem com uma mulher: a camaradagem, o prazer, a confiança, a ternura, a cumplicidade, o amor. A célebre feminista acreditava que não são os indivíduos os responsáveis pelo malogro do casamento, mas a própria instituição, desde a origem, pervertida. Declarar que um homem e uma mulher devem se bastar de todas as maneiras durante toda a vida é uma monstruosidade que engendra necessariamente hipocrisia, mentira, hostilidade, infelicidade. Simone de Beauvoir apostava em casais equilibrados, em que as noções de vitória e derrota dariam lugar a uma idéia de reciprocidade. É a própria Simone quem nos dá a chave para essa discussão, quando diz que interessando-se pela transcendência, superação e expansão dos indivíduos, ela não se preocupa com a questão da felicidade, já que não se sabe muito bem o que esta categoria significa, e sim da liberdade. Liberdade e reciprocidade me parecem as categorias que melhor representam as profundas transformações que resultaram nos atuais arranjos afetivo-sexuais entre homens e mulheres.

No lugar das antigas categorias utilizadas pelas feministas, e disseminadas para a sociedade em geral, como luta por igualdade e reivindicação dos direitos da mulher, temos hoje novas idéias que expressam melhor o que efetivamente ocorre no cotidiano de um casal, como respeito às diferenças e ao espaço do outro, negociação diária, diálogo permanente, troca, crescimento mútuo. Muito mais do que modelos sociais a serem reproduzidos, homens e mulheres têm que inventar suas formas de parceria amorosa. Casar, separar, casar de novo, namorar, cada um na sua casa, ter um(a) amante, ter um filho sem casar... São tantas as possibilidades que a escolha parece cada vez mais difícil.

Cada um de nós, mesmo vivendo alternativas vanguardistas de conjugalidade, convive interiormente com um modelo tradicional de família e de casamento. A forma tradicional de relacionamento afetivo-sexual vem sofrendo inúmeras modificações, mas o casamento continua a constituir um problema que homens e mulheres sentem de maneira diferente. Trocamos a segurança e a estabilidade das relações antigas pela batalha permanente. Hoje, mais do que nunca, homens e mulheres são quase iguais, escolhem- se mais livremente, podem muito mais facilmente separarse, há entre o casal menor diferença de idade e de cultura do que antes, cada parceiro reconhece com maior boa vontade a autonomia e espaço que o outro reivindica, algumas vezes partilham em igualdade de condições os cuidados da casa e dos filhos, têm amigos, prazeres e distrações comuns. A mulher não passa mais os dias em casa esperando a volta do marido, o marido não espera ser o único responsável econômico da família nem alguém que deve ser sempre forte e potente. A fidelidade que é valorizada pelos casais, é baseada não em prescrições morais, mas em uma disposição consciente de pessoas que se amam, que exigem direitos iguais no domínio da sexualidade e que têm medo de destruir um relacionamento amoroso em função de uma aventura. As expectativas do casal são tão grandes que são quase impossíveis de realizar. Assim, os casamentos são mais facilmente desfeitos e novos casamentos se realizam. Acontece o que pode ser chamado de casamentos monogâmicos sucessivos, uniões em que os pares são fiéis e vivem intensamente tudo de forma partilhada, mas cuja duração não ultrapassa alguns poucos anos.

Fazemos parte de uma geração de transição, que aposta e investe em uma maior qualidade do relacionamento amoroso. Mudar implica perdas e riscos, abrir mão de privilégios e questionar as imposições sociais, ter uma atitude criativa e crítica frente à própria vida, deixando de lado falsos mitos de felicidade.

Temos a oportunidade – e o desafio – de inventar o casal, o casamento, a família, a vida que queremos para nós. Nesta invenção, em que os estereótipos sobre “ser homem” e “ser mulher” não deveriam ter lugar, acredito que ganham homens e mulheres que, sentindo-se responsáveis pela construção cotidiana da relação amorosa, não aceitam falsas promessas de uma existência mais fácil e segura, não adotam posturas de vítimas e não gastam suas energias em acusações mútuas, cobranças e chantagens.

NOTAS
* Doutora em Antropologia Social, professora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/UFRJ) e autora de A Outra e Toda Mulher é Meio Leila Diniz.

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ABSTRACT
This essay aims to study the existing representations on the feminine and masculine roles, on conjugality and sexuality, in the Brazilian culture.
I search to analyze, particulary, the current difficulties in the affective-sexual relationships and the masculine and feminine perplexities with relation to the kind of gender roles.
During the last 15 years I have benns researching the masculine and feminine identity in the Brasilian culture, focusing upon the
affective-sexual relationships. I believe that this scientific concern is reflected in a more complex existencial question:
Why it is so difficult for a couple to be happy?
Why, necessarily, does the relationships become bureaucratic or borken?
Why does men and women,married or single, seem so unhappy and unsatisfied with their love lives?
What to do?

KEYWORDS:
Gender; Couple; Identity.



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