ESTUDOS E PESQUISAS EM PSICOLOGIA, UERJ, RJ, ANO 1, N. 1, 1º SEMESTRE DE 2001

ARTIGO 5

 

MULTIDISCIPLINARIDADE E TRABALHO EM EQUIPE

MULTIPROFESSIONAL AND WORK TEAMS



Helmuth Krüger*


RESUMO
Foram dois os objetivos deste trabalho: estabelecer critérios para a comparação de pesquisas científicas e analisar alguns problemas psicossociais que podem ocorrer em equipes multiprofissionais. Conclui-se que os critérios de comparação podem ser os quatro componentes de qualquer disciplina científica: o conjunto dos pressupostos filosóficos, o objeto a investigar, a metodologia de pesquisa e a linguagem técnica empregada na elaboração de teorias. Quanto às equipes multiprofissionais, foram analisados 3 problemas: a atribuição de papéis sociais, a confidencialidade das informações e as diferenças de prestígio social entre os membros dessas equipes.

PALAVRAS-CHAVE:
Equipes multiprofissionais, gerontologia de intervenção, ética profissional.

 


A especialização, cada vez mais acentuada na pesquisa científica e tecnológica, vem produzindo muitos efeitos na cultura e na sociedade, sendo por isso desejável insistir na análise filosófica desse processo, a fim de conhecê-lo melhor e minimizar algumas de suas conseqüências negativas. Neste sentido, uma das questões a estudar é a dificuldade de se obter uma interpretação global e logicamente articulada da realidade ou até mesmo do objeto de pesquisa, numa época como a nossa em que cresce o número de especialistas, cujas referências teóricas estreitam-se significamente. É verdade que o problema da dispersão das disciplinas científicas, e dentro de cada uma delas, o do contínuo aumento de especializações, começou a ser enfrentado a partir da Filosofia Moderna. Dois fatos ocorridos naquele período dão a medida da preocupação que havia em relação ao assunto ora focalizado: a proposta de Comenius (1592-1670) da criação da pansofia, que seria uma sistematização de todo o conhecimento filosófico e científico disponível, formulando-se então uma síntese compreensiva capaz de nos levar à contemplação da essência de toda a realidade; e a organização, pelos iluministas franceses do século XVIII, da primeira enciclopédia dos conhecimentos humanos.

No Brasil, o debate em torno desta questão vem sendo ampliado nos últimos anos, dando origem a mudanças em cursos de pósgraduação e em instituições de fomento da pesquisa científica e tecnológica. Tais mudanças visam a favorecer a formação de estudiosos e pesquisadores para a realização de projetos de investigação conjunta ou combinada. Tudo isso ocorrendo num tempo em que se constata um extraordinário aumento quantitativo da literatura científica, tornando impossível a qualquer especialista manter-se rigorosamente atualizado, ainda que se limite à sua área particular de atuação. Acerca deste fato, os resultados do levantamento realizado por alguns estudiosos são bastante esclarecedores. Segundo Solla Price (1973, p. 33-69, cap. 8), o crescimento da informação científica tende a obedecer, desde o século XVII, a uma função exponencial. Atualmente, o número de periódicos científicos em circulação aproxima-se de 100.000 títulos. Além disso, a despeito da adoção de algumas medidas corretivas, sobretudo em universidades, crescem as diferenças de conhecimento e de mentalidade entre cientistas, estudiosos, tecnólogos, pesquisadores e humanistas, como o ressaltou Snow (1974 e 1977), em duas oportunidades distintas.*1

Devido a essa situação, foram criadas algumas instituições universitárias com o objetivo de induzir a formação de grupos multidisciplinares, apoiando-os na realização de pesquisas integradas. A Universidade de Bielefeld, na República Federal da Alemanha, foi por certo o projeto mais ambicioso, idealizado por Helmuth Schelsky, para a instalação de uma universidade organizada inteiramente sob uma perspectiva interdisciplinar. Entretanto, este projeto, por diversas razões, deixou de ser implementado na escala prevista, constituindo-se então apenas um Centro para Pesquisas Interdisciplinares (Zentrum fuer interdisziplinaere Forschung, ZiP), instalado naquela mesma universidade. A despeito dessa redução, o ZiP é seguramente, na atualidade, uma das mais importantes instituições dedicadas à promoção de pesquisas multi e interdisciplinares, rivalizando com o famoso Instituto Beckman da Universidade de Illinois e o Centro de Estudos Avançados de Princeton. Estes centros de investigação gozam de prestígio internacional e são procurados por cientistas e pesquisadores de elevada qualificação. A posição tão vantajosa em que se encontram essas instituições, obriga os seus dirigentes a proceder periodicamente a rigorosas avaliações do trabalho nelas realizado. Sob este ângulo, uma boa ilustração é o livro organizado por Kocka (1987), que contém análises e informações substanciais acerca do desempenho do ZiP durante as duas primeiras décadas de sua existência.

Este artigo foi escrito com o objetivo de atender ao convite do Serviço de Assistência Integrada ao Pessoal da Marinha (SAIPM), para a realização de uma palestra a técnicos lotados naquele órgão, subordinada ao título em epígrafe. Assim, correspondendo à estrutura dessa palestra, ocorrida no dia 26 de junho de 1997, este texto foi dividido em quatro partes. Na primeira delas apresentam-se, além de definições, os elementos que constituem qualquer disciplina científica e que, além disso, podem servir como critérios de avaliação de qualquer modalidade de pesquisa conjunta ou combinada. Na seguinte, faz-se uma análise da transição dos estudos teóricos ou das pesquisas empíricas para o campo das atividades profissionais, exemplificando-se esse processo com o caso da Gerontologia de Intervenção. A terceira parte foi reservada para a discussão de algumas dificuldades enfrentadas com freqüência por equipes multiprofissionais. E, finalmente, nas últimas páginas, encontram-se os argumentos que julguei necessário acrescentar, de modo a conceder um acabamento lógico a este trabalho.

TIPOS DE PESQUISA

Qualquer disciplina científica pode ser descrita a partir de quatro componentes fundamentais: o conjunto dos pressupostos filosóficos admitidos, o objeto a investigar, a metodologia de pesquisa e a linguagem técnica a ser utilizada, ou seja, a matriz conceitual. Parece ser um paradoxo, mas o fato é que não se torna possível elaborar e conduzir um projeto de pesquisa sem que se disponha previamente de algum conhecimento do problema a investigar. Desta maneira, o pesquisador, ao realizar o seu trabalho, orienta-se segundo algumas suposições gerais sobre as características do objeto que lhe interessa estudar ou analisar, cabendo desde logo acrescentar que essas suposições, devido ao seu grau de abstração, não podem ser submetidas a testes empíricos. Na verdade, essas proposições são axiomas ou postulados, necessárias a todas as teorias científicas e até mesmo a qualquer argumento de boa estrutura lógica que venha a ser elaborado por quem quer que seja. Os postulados, da ordem na natureza e da racionalidade humana, são bons exemplos a considerar, uma vez que vem sendo ampliado o número de estudiosos que adotam, em seus trabalhos, suposições opostas ou antitéticas às que acabam de ser apresentadas. Dispomos de uma melhor condição de entendimento da questão ora focalizada. Em síntese, axiomas, postulados ou pressupostos exercem duas importantes funções na investigação científica: proporcionar uma descrição dos aspectos essenciais do objeto a pesquisar, concedendo portanto uma direção à pesquisa a ser realizada; e, em segundo lugar, possibilitar, pela via dedutiva, a elaboração de teorias, especialmente se for nomotética*2 a perspectiva filosófica adotada.

Esta questão adquire uma importância muito especial nas ciências humanas e sociais, pois há nelas diversos modelos da natureza humana, os quais variam, por exemplo, quanto à origem e à direção de nosso pensar, sentir e agir, indo da inteira subordinação às leis naturais até os limites elevados de autonomia ou de liberdade subjetiva. É claro que ao se teorizar cientificamente sobre o Homem, algum pressuposto ou postulado desta ordem terá de ser admitido, a fim de que se possa conceder a necessária consistência à pesquisa. Entretanto, como já foi observado, a demonstração objetiva da validade de tais suposições está fora de nossas possibilidades, tratandose então de questões filosóficas ainda não decididas.*3 Uma das conseqüências deste estado de coisas é a pluralidade de tendências teóricas nas ciências aqui referidas. Enfatizando: não há teoria científica sem fundamentação filosófica, e nas ciências humanas e sociais, em particular, em virtude da existência de distintos modelos antropológicos, apresenta-se um quadro de heterogeneidade teórica muito superior ao que se encontra nas ciências biológicas e naturais. Cabe acrescentar que este estado de coisas nos leva a valorizar o princípio da tolerância teórica, mas, por igual, a insistir na admissão de critérios mais exigentes na avaliação do mérito das teorias em questão. Porém, este é um assunto que não cabe analisar neste momento.

Compreende-se por conseguinte que para cada interpretação filosófica do Homem haveria uma metodologia e uma linguagem científica mais apropriadas à elaboração de hipóteses e teorias. A articulação lógica dos pressupostos filosóficos, com os outros três elementos constitutivos das ciências em geral, constitui um problema muito complexo nas ciências humanas e sociais, devido ao motivo já exposto, sendo que, na verdade, esta questão se encontra em todas as ciências, empíricas e formais, sem exceção. É oportuno observar que a noção de ciência corresponde aproximadamente ao conceito de disciplina científica. Neste particular, acompanhamos Japiassu (1976, p. 72), que também admite uma equivalência semântica entre os termos ora referidos. Mas essa correspondência de significado não se aplica à palavra especialização (ou especialidade). Sob o ponto de vista técnico, especialidades resultam de divisões internas de cada disciplina. Assim sendo, o número de ciências deve ser bem menor que o de especializações. Segundo Kocka (1987, p. 8), se o número de disciplinas varia entre 20 e 30, a quantidade de especializações é superior a 4.000.

Esta descrição fornece dados relevantes para a compreensão da complexa divisão de trabalho no interior de cada ciência. É inegável a importância da especialização no desenvolvimento da cultura científica, mas é verdade também que com a multiplicação do número de especialidades perdemos a visão de conjunto. Filosoficamente, portanto, a elaboração de programas e de projetos de pesquisa integrados, ou seja, intenções de pesquisa a serem concretizadas mediante o empenho de grupos de pesquisadores de formação heterogênea, é uma tentativa de obtenção de sínteses significativas, que talvez possam ser de utilidade prática. O plano imediato, em que podem ser conduzidas pesquisas combinadas, é o da própria disciplina. Para diferenciá-las das outras, que envolvem a participação de especialistas de ciências distintas, Stachowiak (1973, p. 97) denominou- as intersubdisciplinares.

Os problemas técnicos enfrentados em projetos integrados de pesquisa, desenvolvidos por especialistas de uma mesma área científica, são, certamente, menos complexos do que os que se apresentam em pesquisas multi ou interdisciplinares. E essas dificuldades são proporcionais aos graus de integração previamente estabelecidos. Considerando o critério da integração, após a pesquisa unidisciplinar, que é a tradicional, encontram-se as pesquisas multidisciplinares, que poucas diferenças apresentam em relação às convencionais. De fato, em tais pesquisas preservam-se formalmente os quatro componentes que constituem cada uma das especialidades envolvidas, estabelecendo-se apenas um acordo quanto ao tema ou o problema a investigar. Em outras palavras, em pesquisas multidisciplinares, cada especialista emprega os métodos, o vocabulário, as hipóteses e as teorias de sua disciplina, oferecendo, ao término do trabalho, um resultado científico parcial, a ser adicionado às contribuições dos demais participantes do grupo de pesquisa.

A despeito de suas limitações, ou talvez devido a elas, a pesquisa multidisciplinar é mais viável do que projetos interdisciplinares, os quais exigem uma integração mais profunda entre as disciplinas envolvidas. E isso é muito difícil de se obter, pois a desejada integração deve abranger tanto a metodologia de pesquisa quanto o vocabulário técnico. Na realidade, o principal obstáculo à interdisciplinaridade é apresentado pelos próprios pesquisadores. Como todos eles foram treinados em campos científicos bem definidos, o abandono, ainda que temporário, dos aspectos que lhes conferem uma identidade intelectual inconfundível, é muito penoso. Além disso, é de se perguntar pela qualidade dos efeitos teóricos gerados por este tipo de empreendimento. No entanto, desde logo pode ser observado que o proveito científico de pesquisas multi e interdisciplinares pode ser constatado na formação de ciências híbridas, como são, para exemplificar, a Psicolingüística, a Antropologia Histórica, a Biofísica e a Bioquímica. Dando-se continuidade à análise dos tipos de pesquisa, chegar-se-á finalmente aos projetos transdisciplinares, muito mais ambiciosos. Esses projetos baseiam-se numa terminologia e em pressupostos e métodos inovadores, supondo-se então que munidos de tais instrumentos os pesquisadores possam fazer avançar o conhecimento científico. Contudo, não há notícia de projeto de pesquisa bem sucedido com tal configuração. O programa transdisciplinar que melhores resultados vinha produzindo, até a década de 1970, quando estagnou, foi o da Teoria dos Sistemas Gerais, impulsionado sobretudo pelo esforço de Ludwig von Bertalanffy*4

DA PESQUISA PARA A AÇÃO

Uma das justificativas morais para a promoção das ciências é dada pelo conjunto dos benefícios que elas podem proporcionar à sociedade. Importa porém acrescentar que este é o ponto de vista do senso comum, baseado na suposição de que as atividades profissionais só devem ter lugar após a obtenção de hipóteses, teorias e técnicas devidamente testadas quanto a sua validade lógica e empírica. Em geral, esta perspectiva continua sendo respeitada, inclusive nas ciências humanas e sociais, não obstante as divergências tão vivamente manifestadas entre os especialistas das últimas, a respeito desta orientação. Os defensores da metodologia da pesquisa- ação, por exemplo, militam em favor de outro ponto de vista, qual seja, o de promover a ampliação da consciência crítica dos participantes de suas pesquisas, gerando, a partir daí, condições para a realização de mudanças sociais, em benefício da liberdade e da justiça. Diante disso, o mínimo que se pode dizer é que as características peculiares destas ciências tornam desejável o incremento da análise filosófica do assunto. As práticas profissionais podem ser definidas como ações informadas e eficazes. Ficam, portanto, assim destacados dois aspectos centrais da atividade profissional responsavelmente conduzida: a fundamentação científica e a orientação pragmática. É certo observar que esses atributos também podem ser temas de discussão, mas objetivamente não podem ser negligenciados. A Gerontologia de Intervenção*5 é um bom exemplo de campo de atuação multiprofissional estreitamente relacionado com a pesquisa científica, que conviria conhecer devido aos seus efeitos ilustrativos.

O que distingue de imediato a equipe de trabalho na Gerontologia de Intervenção de outros grupos multiprofissionais é a grande heterogeneidade de sua composição. Para que um atendimento globalizado a idosos seja possível, torna-se necessária a participação de geriatras, assistentes sociais, enfermeiros especializados, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos e advogados, entre outros especialistas. Por certo, o investimento de tantos profissionais demanda a elaboração de programas assistenciais muito bem integrados, baseados na complementaridade das ações especializadas. É desejável que tais programas contenham elementos de informação que possam orientar os membros das equipes na tomada de decisões e no permanente trabalho de prevenção de falhas e deficiências nos serviços a serem prestados. A unidade das equipes é até certo ponto assegurada pela observância de princípios gerais, como o da atividade e o da individualidade do processo de envelhecimento. O primeiro deles é de natureza claramente normativa, ao passo que o segundo aponta para o caráter pessoal do envelhecimento; mas, a partir dele, é que são decididas as condutas técnicas a adotar em cada caso ou situação particular. Entretanto, é na implementação do princípio da atividade que mais se verifica o envolvimento da equipe multiprofissional. Manter-se ativo em todos os sentidos – na cognição, na afetividade e no agir – é tanto um roteiro de prevenção de problemas que poderão se apresentar no processo de envelhecimento, quanto uma direção a ser adotada na assistência terapêutica e no acompanhamento de idosos, que estejam a sofrer com suas limitações e problemas.

A despeito da continuidade do trabalho executado na Gerontologia de Intervenção por equipes multiprofissionais, o grau de participação de cada especialista varia segundo cada caso. Não havendo problemas de maior gravidade, é de se esperar que quase todos eles venham a se envolver na assistência a clientes. Tratando-se contudo de casos graves, pode acontecer que o concurso de alguns especialistas seja mais necessário do que o de outros. Esse quadro de atendimento é claramente delineado quando se trata de situações psicológicas, sociais e físicas muito comprometidas, como as que se verificam nos casos de paralisia, demência, depressão e miséria material. Não raro, dada a extrema gravidade dos problemas diagnosticados, tem-se que optar pelo gerenciamento de situações irreversíveis.

TRÊS DIFICULDADES ENFRENTADAS POR EQUIPES MULTIPROFISSIONAIS

Atualmente, carecemos de teorias que nos permitam explicar e prever dificuldades que poderão ocorrer no trabalho conjunto, realizado por grupos humanos. Em todos eles são experimentadas situações contingentes, as quais variam sob critérios os mais diversos. Variáveis como a personalidade dos membros, objetivos a alcançar, circunstâncias ambientais e disponibilidade de recursos, que de fato são muito importantes, não esgotam porém o elenco de fatores que influem, positiva ou negativamente, conforme o caso, na atuação de grupos de trabalho, como são as modernas equipes multiprofissionais. Não existem portanto teorias psicossociológicas abrangentes, aplicáveis a esses grupos, que pudessem esclarecer a sua dinâmica operacional e que possibilitassem inclusive a prevenção de possíveis problemas que neles viessem a suceder. Por isso, na seleção dos membros, no treinamento e na avaliação do desempenho dessas equipes, observam-se geralmente procedimentos e critérios práticos, ora provenientes da experiência acumulada de trabalho, ora oriundos de pesquisas sobre tópicos muito restritos, relacionados, por exemplo, com a coesão, conflitos intragrupais e comunicação interpessoal. Por ser oportuno, cabe acrescentar que em equipes que atuam em serviços assistenciais, três itens, dentre outros, merecem muita atenção: a atribuição justa e tecnicamente correta de papéis sociais aos membros do grupo, a obrigatoriedade moral de assegurar a confidencialidade das informações fornecidas pelos clientes e, em terceiro lugar, a elevada conveniência de se prevenir possíveis desequilíbrios dentro das equipes, decorrentes da valorização das diferenças de status ou prestígio profissional.

Em todos os grupos humanos verifica-se a representação de papéis sociais, os quais podem ser entendidos, segundo Dahrendorf (1969), como padrões mais ou menos objetivos de conduta correspondentes a cada uma das posições que podem ser ocupadas pelos membros do grupo, no contexto social em que este se encontra. É claro que as condutas socialmente admitidas como apropriadas só virão a se manifestar se as pessoas delas puderem dispor sob a forma de representações mentais e, em segundo lugar, se essas pessoas concordarem em manifestá-las. Este é, precisamente, o sentido da socialização, ou seja, preparar todos os membros dos grupos e da sociedade em geral para o desempenho de papéis sociais. Por isso, uma socialização eficaz contribui significativamente para o estabelecimento de relações interpessoais mais equilibradas e cooperativas, inclusive nas áreas de atuação profissional. O tema da socialização e, pela via da inclusão, o dos papéis sociais, não é apenas uma matéria muito rica de exploração teórica nas ciências sociais, é sobretudo uma questão prática, com a qual lidamos a todo momento. Por conseguinte, em equipes multiprofissionais não deve ser menor o interesse por esse assunto, uma vez que o desempenho global, harmonioso e competente desses grupos depende antes de mais nada do conhecimento mútuo dos papéis sociais, legal e socialmente estabelecidos, de todos os membros da equipe. E,adicionalmente, da atribuição interna de responsabilidades profissionais, que seja compatível com o delineamento do papel social de cada componente do grupo.

A confidencialidade é uma questão que se apresenta invariavelmente no trabalho de equipes multiprofissionais, notadamente naquelas que atuam no campo assistencial. O atendimento proporcionado por tais grupos aos clientes que os procuram é em grande parte individualizado, quer dizer, cabe a cada membro da equipe em atividade dedicar-se à pessoa que o procurar, atendendo-a segundo os limites de sua competência profissional. A atuação da equipe como um todo sucede em fases antecipadamente previstas, mas que variam de acordo com a instituição, a natureza do caso a atender e as decisões tomadas pela própria equipe. Porém, de modo geral, tendo sido ultrapassada a fase do diagnóstico individualizado, as reuniões promovidas pelas equipes multiprofissionais servem para que se obtenha um quadro mais completo das dificuldades apresentadas pelo cliente e, a partir dessa compreensão, estabelecer um plano integrado de atendimento, a ser implementado em seu benefício. É precisamente na oportunidade dessas reuniões que surge a questão do sigilo, de cumprimento obrigatório para todos os profissionais sujeitos a códigos de ética que contenham tal norma restritiva. Embora não caiba no momento discutir esta questão em seus aspectos filosóficos, pode ser lembrado que o sigilo profissional visa proteger o cliente de possíveis prejuízos que poderiam advir da divulgação de informações acerca de seus problemas particulares. Moralmente, a suspensão parcial do sigilo profissional, de modo a possibilitar aos membros de grupos multiprofissionais tomar conhecimento de diagnósticos e de informações, obtidas através de outros levantamentos, da situação vivida pelos clientes por eles atendidos, só pode ser efetivada mediante a concordância formal da pessoa interessada. Mas, cabe a cada profissional, depois de haver recebido a indispensável autorização do cliente, a responsabilidade de estabelecer o limite máximo quanto aos dados a divulgar no âmbito da equipe por ele integrada.

Se os integrantes desses grupos experimentarem dificuldades no relacionamento interpessoal, com certeza ficará comprometido o trabalho a ser realizado por todos, em prejuízo, evidentemente dos clientes. Dentre os fatores, que são muitos, capazes de produzir conseqüências tão indesejáveis, encontra-se a do prestígio social das profissões. É sabido que há diferenças de status entre profissionais de áreas diferentes, devido a crenças socialmente compartilhadas quanto à importância relativa das atividades por eles exercidas. Este é portanto, de um lado, um fato a ser investigado por cientistas sociais, mas, de outro, um problema a ser discutido franca e honestamente pelos membros de equipes multiprofissionais que vierem a ter o seu nível de desempenho diminuído em razão desta dificuldade.

OBSERVAÇÕES FINAIS

A reflexão e o debate sobre as tendências e formas da pesquisa científica e tecnológica são sempre desejáveis, pois desses processos podem resultar decisões capazes de influir positivamente na obtenção de conhecimento e de recursos instrumentais valiosos para a satisfação de necessidades e interesses individuais e coletivos. A rigor,se o principal objetivo da investigação científica é a obtenção de teorias de boa qualidade lógica e compatíveis com os fatos da realidade, permitindo-nos explicá-los e compreendê-los, então tudo o que se fizer no sentido da elevação da qualidade da produção científica e tecnológica só poderá ser bem recebido. As ciências formam o núcleo de qualquer sistema cultural dotado de alguma complexidade, concluindo-se, portanto, que em sociedade nas quais a cultura já tenha atingido este ponto, o desenvolvimento econômico, político e institucional fica inexoravelmente condicionado pelo desempenho de todos aqueles que se dedicam à invenção e à criação científica.

De outro lado, a inevitabilidade da especialização científica, cujo reflexo na educação superior é muito significativo, acarreta dificuldades práticas no exercício de profissões cientificamente fundamentadas. A alternativa da formação de equipes multiprofissionais é, na atualidade, a melhor alternativa a escolher com o propósito de elevar os níveis de eficácia e eficiência das intervenções profissionais, reduzindo as limitações com as quais se deparam especialistas que atuam de maneira mais ou menos autônoma. Naturalmente, de modo diverso do que acontece na pesquisa, que é legitimada pela própria busca de conhecimento, o exercício de qualquer profissão é avaliado pragmaticamente através dos resultados obtidos. Não é necessário demonstrar que a falta de atendimento a justificadas expectativas sociais tem o poder de anular o sentido do trabalho realizado por quaisquer especialistas ou equipes multiprofissionais. No fundo, qualquer profissão só se justifica eticamente enquanto ela venha a ser amadurecida e praticada em benefício da sociedade, e não para contemplar de modo exclusivo interesses ou ambições particulares de seus profissionais.

NOTAS
* Professor Titular do Departamento de Psicologia Social e Institucional do Instituto de Psicologia da UERJ.

*1 Na realidade, a obra de Snow (1977) aqui referida foi publicada pela primeira vez em 1956, provocando nos anos seguintes algum debate em círculos acadêmicos norte-americanos, em torno dos problemas nela focalizados. O ponto de vista de Snow é o seguinte: devido ao desenvolvimento quantitativo e qualitativo das ciências, humanistas e pesquisadores têm pouco entendimento do trabalho realizado por uns e por outros, cabendo aos educadores tentar colaborar na correção deste estado de coisas, em benefício de todos.

* 2 Os termos “nomotético” e “idiográfico” referem-se a duas perspectivas gerais de desenvolvimento teórico nas ciências humanas e sociais, decorrentes de pressupostos antropológicos adotados na elaboração de hipóteses e teorias nessas disciplinas. Assim, admitindo-se que nossos processos psicológicos sejam determinados por leis naturais, adotaríamos coerentemente uma orientação nomotética, pois visaríamos a generalização de nossas hipóteses e teorias. Se, porém, atribuirmos a cada um de nós um grau significativo de autonomia ou liberdade pessoal, então não seria cabível generalizar nossas conclusões. Neste caso, deveríamos escolher a orientação ideográfica.

* 3 A fundamentação filosófica das ciências é um assunto que vem merecendo uma ampla análise, sendo copiosa a literatura especializada já disponível sobre esta matéria. Os pressupostos filosóficos das ciências podem receber diversas classificações, de acordo com a sua natureza. Em estudo que já ficou um pouco antigo (Krüger, 1984, cap.3), dei a seguinte classificação aos pressupostos da Psicologia Social: ontológicos, epistemológicos, lógicos e axiológicos. Menciono-a aqui por julgar que ela pode ser de alguma utilidade no estudo dos axiomas e postulados de outras disciplinas e especializações científicas.

* 4 Ludwig von Bertalanffy foi um biólogo molecular de certa importância e autor de conceitos de teses, que foram fundamentais na formação da Teoria dos Sistemas Gerais. O livro mais conhecido de Bertalanffy (1973) contém informações históricas e técnicas muito valiosas.

* 5 É volumosa a literatura especializada sobre a Gerontologia de Intervenção, mas ela é ainda infelizmente pouco conhecida no Brasil. Isto não quer dizer que o atendimento proporcionado a pessoas idosas neste país esteja muito defasado das teorias e técnicas, que orientam o trabalho de especialistas neste setor em sociedades mais desenvolvidas. Não é bem assim, mas o desconhe- cimento da Gerontologia de Intervenção inibi a elaboração de programas integrados e eficientes, capazes de garantir uma melhor assistência a idosos que, por esta ou aquela razão, requeiram para si serviços especializados. Em artigo já publicado (Krüger, 1994), procurei descrever mais pormenorizadamente a Gerontologia de Intervenção.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERTALANFFY, Ludwig von. Teoria geral dos sistemas. Petrópolis: Vozes, 1973.
DAHRENDORF, R. Homo sociologicus. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1969.
JAPIASSU, Hilton. Interdisciplinaridade e patologia do saber. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
KOCKA, Jürgen (Org.). Interdisziplinaritaet: Praxis - Herausforderun-Ideologie. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1987.
KRÜGER, Helmuth. Fundamentos da Psicologia Social. 160f. Tese (Doutorado em Psicologia) – Fundação Getúlio Vargas, 1984.
__________. Aspectos psicossociais da Gerontologia de Intervenção. Arquivos Brasileiros de Psicologia, Rio de Janeiro, v. 46, n. 1/2, p. 111-124, 1994.
PRICE, Derek de Solla. Hacia una ciencia de la ciencia. Barcelona: Ariel, 1973.
__________. A ciência desde a Babilônia. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Ed. da USP, 1976.
SNOW, C. P. The two cultures and a second look. Cambridge: Cambridge University Press, 1974.
__________. Las dos culturas. Ciencia y Desarrollo, México, n. 14, 1977.
STACHOWIAK, Herbert. Allgemeine Modelltheorie. Viena: Springer, 1973.

ABSTRACT
Two were the main purposes of this text: to establish criteria for the comparison of different types of research and, secondly, to discuss some of the psychosocial problems that may occur in multiprofessional teams. It was concluded that the criteria for the comparison of the different types of research can be the four components of any scientific discipline: the set of philosophical suppositions, the object of the research, the research methodology and the technical vocabulary employed in the elaboration of the theories. Concerning the multiprofessional teams, three problems were analysed: the allocation of social roles, the confidenciality of the obtained information and the social prestige differences among the members of these teams.

KEYWORDS:
Multiprofessional teams, Intervention Gerontoly, Professional Ethics.

KRÜGER, Helmuth. Multidisciplinaridade e trabalho em equipe. Estudos e Pesquisas em Psicologia, v.1, n.1, jan./dez. 2001.

 



Licença Creative Commons
A revista Estudos e Pesquisas em Psicologia esta licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Não Comercial 3.0 Não Adaptada.

 

Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Instituto de Psicologia
© Estudos e Pesquisas em Psicologia
Rua São Francisco Xavier, 524, bloco F, sala 10.005, 10° andar, CEP 20550-013, Rio de Janeiro-RJ, Brasil
Telefone: (21) 2334-0651

E-mail: revispsi@gmail.com