ESTUDOS E PESQUISAS EM PSICOLOGIA, UERJ, RJ, ANO 1, N. 1, 1º SEMESTRE DE 2001

ARTIGO 2

AS PAIXÕES DO SER: A PARTIR DE UM CASO FREUDIANO

THE BEING'S PASSIONS: BASED ON FREUDIAN'S CASE



Sônia Alberti*

 

RESUMO
Tomando o campo das paixões como uma das maneiras que o sujeito tem de se subtrair à falta estrutural do ser falante, esse texto de um lado as diferencia do desejo e, de outro, as articula na clínica psicanalítica, em particular, com um caso publicado por Sigmund Freud em 1920. Em sua análise, o texto se apóia nas contribuições teórico-clínicas de Jacques Lacan que, por sua vez, se baseia na tríade de Spinoza para aprofundar o tema da paixão: amor, ódio e ignorância. Em última instância, trata-se de retomar um caso clínico de Freud, não tão conhecido como outros, e aprofundar questões muito atuais da clínica psicanalítica desse início do século XXI.

PALAVRAS-CHAVE:
Paixão e desejo; Amor – ódio; Ignorância; Jovem homossexual; Lacan e Spinoza.


Há três imensidões na teoria psicanalítica que jamais serão exploradas todas: as paixões, os afetos e o desejo. Trata-se de imensidões por terem, todos as três, um pé, ou mesmo meio corpo, no real. Uma via possível para alguma amarração entre elas é a ética. Uma outra é a da clínica, aliás, lugar privilegiado para o exercício da ética da psicanálise.

Comecemos por distinguir o afeto. Ele “se conota numa certa posição do sujeito em relação ao ser”*1 – é uma das proposições de Jacques Lacan, retomadas em A ética da paixão, livro de Marcus André Vieira. Assim, o afeto é uma posição subjetiva que podemos verificar a partir da relação especificada por Lacan no Seminário XI, onde sujeito, ser e Outro são produtos de uma interseção: o conjunto do Outro e o conjunto do ser só estão dados porque interseccionam – já que não é possível afirmar o ser sem o Outro, nem tampouco o Outro toma qualquer consistência sem o ser, consistência como efeito de sujeito que, nessa interseção, tantas vezes se perde.

O afeto surge como sofrimento – pathos – para o sujeito. Na neurose é efeito da falta, na demanda que ele endereça ao Outro. Seus paradigmas maiores são: a angústia (é claro) e a depressão (Alberti, 1989). Ali onde quero algo do Outro, a resposta não vem e o vazio dessa resposta produz, no sujeito, um encontro com o ser que lhe causa horror (angústia), ou desânimo: ele fica des-animado, sem possibilidades de burlar o Outro. Uma outra saída, evidentemente, é a do desejo – ali onde o Outro não responde, o sujeito ainda pode assumir um outro tipo de posição em relação ao ser: a do desejo, eis em princípio o que acontece na psicanálise. De qualquer maneira, o que vemos, é que o afeto implica o vazio, a falta na demanda do sujeito endereçada ao Outro que faz o sujeito sofrer.

A paixão não. Trata-se de um “apelo do sujeito na demanda visando o apagamento da falta” – “tentativa de preencher o Outro imaginariamente”, dando-lhe uma consistência de ser, que lhe falta*2 . Seguindo nossa trilha – o Seminário XI – podemos levantar a hipótese de que a paixão do ser pretende a união entre ser e Outro, união que, justamente, apaga qualquer possibilidade de que opere a descompletude no encontro de ambos os conjuntos. Lacan o chama de separação*3 :

Enquanto o primeiro tempo se funda sobre a subestrutura da reunião, o segundo se funda sobre a subestrutura que chamamos interseção ou produto. Ela se situa, justamente, nessa mesma lúnula em que vocês encontram a forma da hiância, da borda. (...)
(...) Nós veremos como ela surge do recobrimento de duas faltas (Lacan, 1963-4, p. 238-9).

Trata-se tanto da falta do Outro quanto de seu correlato no sujeito, a sua própria castração. Dito de outra forma e a partir de outra referência no ensino de Lacan (o grafo do desejo*4 ), as paixões do ser se inscrevem nas respostas do sujeito frente ao Che vuoi?, se dando na janela da fantasia. Conforme o grafo do desejo, a paixão relança a pergunta que o sujeito faz ao Outro para obter deste o ditado de seu destino e reatualiza a resposta fantasmática $ <> a (matema da fantasia: todas as relações do sujeito com o objeto a, segundo Jacques Lacan), na qual envolve o objeto que ela visa. Também aqui é preciso registrar uma distinção para com o desejo, que, no grafo, está à direita: ele não pergunta, não responde, mas decide sobre o sujeito, sobre o ser do sujeito, como corte.

Não trataremos nem do desejo, nem do afeto, o texto que segue tem por objetivo examinar o tema a paixão à luz da psicanálise e servindo-se, para isso, de um caso clínico de Freud.

Estados d‘alma antes de serem psiquiatrizados como fenômenos da desordem, as paixões do ser determinam justamente o que há de mais vivo no pathos: amor, ódio e ignorância. É assim que Lacan faz referência, em vários pontos de seu ensino, a essa tríade que implica “a falta no Outro da fala”: se a falta-a-ser sustenta o amor enquanto demanda ao Outro, também o ódio e a ignorância são respostas do Outro que sempre é solicitado a completar o ser (cf. Lacan, 1958, p. 627). Amor, ódio e ignorância são paixões do ser falante.

A busca mítica do outro como complemento sexual é sempre um engodo. É no debate em torno do ‘um’ de Aristófanes, lançado no diálogo de Platão, retomado por Freud em 1920a e rediscutido por Lacan na Transferência (Lacan, 1960-1), que se verifica a negação da falta estrutural. O parceiro no amor não é um complemento, pois a possibilidade da complementação está perdida desde sempre pelo fato de que o sujeito não passa de um vivente sexual que se constitui pela falta, onde o amor é sempre um assujeitamento do desejo do sujeito ao desejo do Outro, razão do ódio seguir, tantas vezes, com sua sombra, todo amor (cf. idem, p. 628).

UM CASO DE SIGMUND FREUD

Senão vejamos, o caso de uma jovem de 18 anos (Freud, 1920), que aqui reescrevo com o objetivo de nele cernir a questão da paixão.

Ela é trazida ao psicanalista a partir de uma queixa dos pais, ou mais precisamente, do pai que está muito preocupado. Trata-se de uma bela moça, esperta, de boa família que se apaixonara por uma mulher dez anos mais velha. Esta, segundo ainda o relato do pai, vive com uma amiga casada com quem se relaciona intimamente, tendo, ao mesmo tempo, casos amorosos soltos com um sem número de homens – levando, portanto, o que se conhece por uma vida bastante promíscua.

A jovem não nega essa fama da Dama. Mas nenhuma proibição, nenhuma vigilância a impedem de aproveitar qualquer oportunidade de ficar perto da amada, descobrir todos seus movimentos quotidianos, aguardá-la por horas em frente ao portão ou na estação, enviar flores.

Esse interesse da moça pela Dama empalideceu todos os outros interesses que ela tinha anteriormente, pois já não se ocupa mais, de forma alguma, com sua própria formação, com qualquer relacionamento social, nem tampouco com quaisquer entretenimentos femininos e só mantém seu antigo contato com as amigas quando estas podem lhe ser úteis no relacionamento com a Dama e/ou quando pode trocar confidências com elas sobre sua paixão.

Os pais não sabem dizer até onde foram os carinhos, mas observam que ela não se preocupa nem um pouco com qualquer risco de vir a ser mal falada, que não mede esforços nem subterfúgios, para encontrar-se com a Dama e, finalmente, confessam buscar na psicanálise uma última tentativa de ver essa situação resolvida. Isso não dando certo, irão forçar um casamento para acabar com essa história.

Trata-se da “Jovem homossexual”, como Lacan a chamava, um caso que Freud descreveu em 1920, um exemplo paradigmático da clínica das paixões e paradigma de tantas outras questões: a homossexualidade na histeria, a clínica com adolescentes, as entrevistas preliminares, a tentativa de suicídio, a clínica do ato...

Com efeito, foi, como se sabe, o olhar de ódio, do pai, ao encontrar sua filha de mãos dadas com a Dama na rua, “olhar que não prenunciava nenhuma boa coisa”, que fez com que a moça se arrancasse da companhia da Dama, indo jogar-se por sobre o muro, na linha do bonde (cf. Freud, 1920). Esse olhar correspondia ao efeito que a homossexualidade da filha provocava no pai: “A homossexualidade da filha provocava uma profunda amargura” (idem, p. 268, nota), ele estava decidido a combatê-la com todos os remédios.

A mãe, como também se sabe, era jovem, ainda almejava impressionar por sua beleza. Conforme as palavras de Freud, não levava o fanatismo da filha para o lado trágico; ao contrário, já fora uma das confidentes da filha nas suas questões amorosas com a Dama e só se preocupava com o que a sociedade poderia achar disso. Sabemos como Freud o interpreta: a mãe leva a filha a desistir de seu lugar de mulher em favor da mãe; pois via na filha uma rival em seu anseio de ainda impressionar os homens, e via que sua filha se tornava também bela, ao mesmo tempo em que era mais jovem do que ela. Freud já havia observado que esta mãe era muito mais dura com a filha do que com seus filhos, aliás, era extremamente carinhosa com eles. Para a mãe, a escolha da homossexualidade da filha-rival seria bastante cômoda.

A posição amorosa masculina, que Freud indica logo no início do caso, é a do erastes*5 na psicologia da vida amorosa. Ela implica:
1) a idealização do objeto (a Dama) – idealização que cegava a Jovem para qualquer atribuição de promiscuidade ao objeto amado;
2) a renúncia narcísica em prol do objeto – não media esforços, nem levava em conta qualquer obstáculo para gozar minutos de companhia da Dama, e;
3) a preferência do amar sobre o ser amado – as negativas constantes da Dama jamais abalaram a Jovem em sua paixão.

Esta posição amorosa masculina fundamenta-se, certamente em grande parte, na renúncia à posição feminina, na desistência em assumir o seu lugar de mulher em favor da mãe.

Proponho agora interrompermos o relato dessa história clínica, que já conhecemos, para tentar obter dela algumas conseqüências sobre o tema em questão: as paixões do ser. Comecemos pelo ódio.

O ÓDIO

É interessante observar que o ódio, no caso, é fundamentalmente o ódio do [olhar do] pai em relação à atitude de sua filha. Esse pai é descrito por Freud como alguém “sério, respeitado”, mas, paradoxalmente, no fundo, como alguém bastante carinhoso, um pouco distanciado das crianças devido a uma rigidez adquirida (não inata). Mas “seu comportamento para com sua filha era por demais determinado pela consideração que tinha por sua mulher” (idem, p. 258, grifo meu), segundo o julgamento de Freud. Provavelmente, isso era causado, por um lado, pelo ciúme de sua esposa em relação à juventude de sua filha – conforme já comentamos – e, por outro lado, pela dificuldade que esse senhor tinha em lidar com a mulher – já que a sua própria é descrita como tendo sido neurótica por vários anos (idem, p. 259), sedutora e tão ciumenta em relação a ele, a ponto de ter ciúmes da própria filha. A interpretação que a Jovem homossexual faz da gravidez tardia dessa senhora – tal como relatada na história clínica – só pode adquirir uma significação de traição do pai por causa do contexto específico em que a filha se encontrava. De qualquer maneira, o pai da Jovem homossexual se via entre duas mulheres – a esposa e a filha – diante das quais certamente se mostrava bastante embaraçado com a pergunta: O que quer uma mulher?

Por um lado, a esposa a responderia como neurótica, repetindo com o marido, na mais bela tradição freudiana, a cada vez que queria ter um filho, a relação edípica com o próprio pai na ilusão de ainda colmatar o Penisneid. De resto, era bastante poupada (sic) pelo marido*6 , sustentando o lugar de enigma que a mulher tem para atiçar o desejo de um homem, na medida em que, no fundo, não era a ele que ela queria, fixada como estava na constelação edípica. Por outro lado, a filha. Em sua escolha amorosa – e Freud é absolutamente categórico quanto a isso – ela se vinga do pai, por ter sido traída por ele. Traída, sobretudo, como filha, já que seu pai – como ele o confessa textualmente –, praticamente não se relacionava com sua filha em consideração à sua mulher. Ora, a função paterna sustentada pelo Édipo, implica no investimento de desejo na relação do pai com a filha, e é aí que a Jovem homossexual se sente traída, o que se reatualiza no nascimento do irmão caçula, prova de que o pai – conhecedor da neurose da mãe, ou mesmo, da malvadeza da mãe em relação a ela –, escolhe não assumir aquela vertente da função paterna – a do desejo em relação à filha –, por submeter sua relação com sua filha à determinação de sua mulher.

A Jovem homossexual passeia, de braços dados com a Dama, debaixo da janela do escritório de seu pai para atingi-lo em cheio; ela passeia para além da janela de sua fantasia que tem como única função colmatar a castração e assim o atinge em seu ser, vingando-se. Já tive a oportunidade, noutra ocasião – Alberti, 2000 –, de verificar o ódio como reação à mulher que aponta para o homem a sua castração. Na ocasião, falava da devastação em Nelson Rodrigues como reação do homem à mulher que não é toda dele, simplesmente pela mulher ser não-toda referida ao falo. Aqui, ao contrário, quando a jovem interpreta que seu pai lhe diz: você não é nada para mim, é aí que ela lhe dá o troco e se atira por cima da linha do bonde, como diz Freud, para atacar mortalmente o objeto dela – ele. Aliás, é um pouco o que a Jovem homossexual também faz com Freud na transferência. Ele se esmera em lhe explicar uma referência teórica e ela, com ar blasê, reforca: “Ah! Mas isso é mesmo muito interessante!”

A IGNORÂNCIA

Freud não perde a ocasião, nesse texto, de se espantar frente à ignorância da própria vida amorosa que o sujeito pode demonstrar na clínica. No caso da Jovem homossexual, era tal o esforço por uma ignorância que o sujeito deixa absolutamente de lado qualquer investimento em outra coisa que não o amor pela Dama. Já na primeira entrevista, o pai se queixava de que ela deixara de lado a sua formação. Nota-se que há algo nessa queixa que está para além de uma simples inibição escolar. A incapacidade para aprender, estudar, prestar atenção, como inibição, é uma reação do eu frente ao conflito que se instala entre o isso e o supereu – os dois senhores aos quais o eu deve servir, conforme Inibição, sintoma e angústia (Freud, 1926). O eu, não dando conta disso, começa a antecipar imaginariamente as situações que julga perigosas e, a partir daí, acredita poder se precaver contra os conflitos que emanam da sua relação com a exigência daqueles dois senhores. Nada disso está em jogo aqui: a jovem, deliberadamente, não quer saber, faz tudo para não entrar em contato com o saber. Para começar, ironiza as próprias intervenções de Freud: “Ah! Isso é mesmo muito interessante...!” (Freud, 1920, p. 272). Ao não querer saber, nossa Jovem já anunciava sua posição na lúnula da interseção dos dois conjuntos, entre ser e Outro que, mais tarde, iria ativar na passagem ao ato suicida, quando ela caiu como objeto da separação. O que a leva à paixão da ignorância é, em última instância, o não querer saber da castração, onde a ignorância é o apelo do sujeito na demanda, visando apagar a falta do Outro. Evidentemente, essa posição subjetiva da Jovem se devia a sua resistência que, como sabemos, também é do analista – para Freud, ainda era muito estranho, nessa época, não acreditar que a moça foi feita para o rapaz e vice-versa.

Mas a ignorância, no caso, também associa-se a um outro ponto do relato de Freud nem sempre salientado: o da prática corriqueira da mentira, do uso de subterfúgios e a invenção de histórias que o pai já trouxera como queixa e que se confirma na transferência, quando a Jovem tentava fazer Freud acreditar em seus sonhos inventados, que atestavam uma cura milagrosa de sua homossexualidade. Eis a ignorância como falta com a verdade, como falta para com o Outro da verdade, reforçando a escolha pela alienação (cf. Alberti,1996 [1999:61s]).

O AMOR

A ignorância da própria vida amorosa espanta Freud nesse texto, dela ele nos oferece alguns exemplos clínicos: mulheres deprimidas que não haviam se dado conta, antes da análise, do quanto influiu nesse estado uma relação passageira com um homem; ou homens que tiveram relações passageiras com mulheres e, só depois, descobrem seu amor por elas; as conseqüências jamais pressentidas de abortos induzidos artificialmente e cuja decisão parecera tão simples. Freud conclui:

Nos vemos assim obrigados a dar razão aos poetas que adoram contar histórias de pessoas que amam sem o saber, ou que não sabem se amam, ou ainda, que acham odiar aqueles que amam (Freud, 1920, p. 276).

Não devemos, no entanto, nós mesmos nos enganar: esse amor não é o da paixão, no caso, a paixão é a ignorância. O amor aqui ignorado está no campo do desejo, aquele frente ao qual o neurótico se acovarda, aquele ao qual cede, o que tem por conseqüência, a culpabilidade – Freud o desenvolve, como é sabido, em Mal estar na cultura (Freud, 1930).

Por sua vez, para o amor enquanto paixão, o caso da Jovem homossexual é, sem dúvida, um paradigma na obra freudiana, – não é o único, certamente, Schreber também é outro.

Como acontece o apaixonamento pela Dama?

Freud diz que, nesse caso, há um enamoramento por mulheres. Inicialmente, este apaixonamento aborrecia os pais (mais o pai do que a mãe), mas eles não o levavam muito a sério. É preciso observar que a Dama não foi a primeira mulher que interessara à Jovem, Freud relata que houve mesmo uma professora na infância. Na época,ela própria percebera o quanto fora tomada por esse primeiro enamoramento, mas as sensações ainda eram poucas (sic). Não havia sensações intensas do enamoramento, “até que, a partir de uma determinada Versagung, surge uma reação totalmente excessiva que põe à mostra que aqui se trata de uma paixão arrebatadora (vezehrenden Leidenschaft), de força elementar” (Freud, 1920, p. 275). E Freud conclui: aqui também havia ignorância, pois a Jovem jamais antes prenunciara que se tratava de tal tempestade anímica, ou seja, era ignorante quanto a seus efeitos.

Essa última frase nos mostra que Freud julga os enamoramentos anteriores como tendo tido a mesma raiz de sua última paixão, pela Dama, somente a Jovem ainda não se dera conta disso. Ela só foi se dar conta, por ser então arrebatada, no momento do desencadeamento, conseqüência da Versagung. De que forma essa observação de Freud pode nos ajudar ainda hoje a esclarecer a vertente da paixão no amor?

Sabemos que a questão em jogo, determinante no caso, foi o nascimento do último irmão da Jovem, quando ela já tinha quinze anos, revelando-lhe que seu pai continuava a escolher a esposa (sua mãe) como parceira, o que era entendido pela Jovem como traição do pai. Freud desenvolve seu raciocínio à luz da teoria do complexo de Édipo: ela estaria vivendo a fase da revivescência do complexo de Édipo infantil, típica da puberdade, quando sobreveio a decepção com o pai que em vez de fazer um filho com ela, o fez com sua mãe. Isso a teria levado a romper com o pai e a provocar nele o ódio – afinal, não havia melhor meio de atingir o pai do que se envolver com uma mulher, ela já o sabia a partir de reações anteriores do pai. É essa decepção com o pai que Freud denomina de Versagung e é ela que desencadeia o acting-out da Jovem: mostrar-se acompanhada da Dama para o pai. Assim, o amor apaixonado pela Dama, essa terceira paixão, revela sua origem: a Versagung.

Se Lacan condena a tradução de Versagung por frustração, coqueluche da psicanálise de meados do século, a palavra em alemão aponta uma não realização, algo de não realizado. Nos Escritos, Lacan o traduz por renúncia*8 . Em seu Dicionário, Luiz Hanns (1996) o associa com a falha, a recusa, a rejeição. É porque a fantasia edípica não se realiza, é porque essa não realização põe à mostra uma falha, e mesmo uma impossibilidade, em última instância, a castração, que a Jovem, negando-se a reconhecê-la, desenvolve uma paixão que tem por função velá-la.

Ora, são absolutamente comuns em nossa clínica os casos de moças que se apaixonam por Damas ou por outras moças. Freud, aliás, ao reler o caso Dora anos depois, se dá conta do que então chama de bissexualidade das histéricas, ou seja, também Dora se apaixona pela Sra. K. É que na adolescência da moça já não é mais possível velar a falha do pai que não pode responder sobre a mulher. A moça ama outra mulher por lhe supor um saber sobre o que é a mulher, particularmente, quando essa mulher é sedutora e, mais particularmente ainda, quando ela é capaz de seduzir o pai – é o caso da Sra. K, em Dora. A Versagung certamente vem daí: se até antes da adolescência o sujeito faz de tudo para atribuir uma consistência ao pai – sempre imaginária –, a falha do pai já não pode ser velada com a entrada da adolescência, a não ser que o sujeito procure velá-la de outra forma, pela via da paixão. No caso da Jovem em questão, ela sobrevêm nas três versões que discutimos nesse trabalho: o ódio, a ignorância e o amor.

Mas isso porque, no caso dela, a reação frente a castração mobiliza tal ódio que renuncia ao pai – conforme o ditado popular, poderíamos dizer, joga fora o bebê com a água, ou seja, odeia não só o pai que a trai com a mãe, como também o pai da função paterna. Assim, não pode se servir do pai para sustentar suas próprias escolhas. O que fica não realizado no caso da Jovem homossexual é o desejo do pai na função paterna, e é disso que ela se vinga com a Dama, já o vimos quando falávamos do ódio. Esse desejo seria, sem dúvida, a possibilidade de uma resposta do sujeito à pergunta do Che vuoi?, decidindo sobre ela. Na falta desse desejo, que aponta a falta fundamental, que Freud chama de desamparo fundamental e que é, no fim das contas, a prova para o sujeito de que o Outro só existe no simbólico, a Jovem desenvolve sua paixão na tentativa de colmatar o rasgo real que o fura, ou seja, continua se sustentando a partir da fantasia edípica, respondendo de forma fantasmática à sua questão, indignada diante do pai real – agente da castração.

A paixão pela Dama surge então na tentativa de preencher o Outro imaginariamente, dando-lhe o ser que lhe falta, conforme a direção que Lacan nos deixou em seu Seminário XI.

NOTAS
* Psicanalista e Professora Adjunta do Instituto de Psicologia da UERJ. Doutorada em Psicologia pela Université de Paris X – Nanterre.
*1 Lacan in Vieira, 1998, p. 134.
*2 As referências são ainda de Vieira, idem.
*3 No parágrafo 4 do capítulo sobre a “Alienação”, Seminário IX.
*4 Lacan, 1960, p. 815.
*5 Termo grego que corresponde a “amante”, e que Jacques Lacan pode desenvolver a partir dos diálogos do Banquete de Platão, em contraposição ao termo “amado” (cf. Lacan, 1960-1).
*6 “Ela própria tinha sido neurótica por muitos anos, alegrava-se por ter sido bastante poupada por seu marido, tratava seus filhos de forma bem desigual (...)” (idem, p. 259).
*7 Idem, p. 272. Conhecemos, de Dora, como isso pode atingir Freud em seu ser...
*8 “[...] Versagung, o que implica renúncia e, portanto, grifa toda diferença do simbólico para o real, [...] sobre a qual podemos dizer que a obra de Freud se resume em lhe dar o peso de uma nova instância” (Lacan, 1956, p. 460)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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VIEIRA, M.A. L‘Éthique de la passion. Rennes: PUR, 1998.

ABSTRACT

Passions are here taken as one of the possibilities the speaking being has to avoid his structural fault. On one hand, the text distinguishes passion and desire, on the other one, it articulates the field of passions with the psychoanalytical clinic, in particular, a case published by Sigmund Freud in 1920. Its analysis is supported by the theoretical and clinical contributions of Jacques Lacan who thinks the field of passions based, on his turn, on Spinozas triad: love, hate and ignorance. Futhermore, the interest is to reread a particular case of Freud, not as known as others, and answer some questions related to this case which could resolve many problems issued out
of our contemporany clinical experiences as psychoanalysts.

KEYWORDS:
Passion and desire; Love – hate; Ignorance; Young homosexual; Lacan and Spinoza.



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