Estudos e Pesquisas em Psicologia
2022, Vol. 02. doi:10.12957/epp.2022.68779
ISSN 1808-4281 (online version)

 

EDITORIAL

 

Alice De Marchi Pereira de Souza**, I; Amana Mattos**, I; Anderson Pereira Mendonça**, I; Deise Maria Leal Fernandes Mendes**, I; Edna Lúcia Tinoco Ponciano**, I; Filipe Degani-Carneiro**, I; Jimena de Garay Hernández**, I; Laura Cristina de Toledo Quadros**, I; Luiz Fernando Tura***, II; Marcos Vinicius Brunhari**, I; Patrícia Lorena Quitério**, I; Rosana Lazaro Rapizo**, I; Sabrina Dal Ongaro Savegnago**, I; Vitor Castro Gomes**, I
I Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
II Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Endereço para correspondência

 

 

Prezadas leitoras, prezados leitores,

Nosso segundo número de 2022 é publicado em um momento em que as universidades brasileiras retomam as atividades presenciais após um longo período de distanciamento social e físico e inúmeras perdas. A pesquisa científica, em especial nas ciências humanas, tem enfrentado grandes desafios neste processo, bem como a produção editorial científica. Em um contexto em que vivemos constantes ataques à democracia, a articulação das universidades públicas, da pesquisa e da luta pela democracia é primordial para os avanços no conhecimento científico em suas mais diversas frentes. Neste número, trazemos artigos que percorrem diferentes áreas de investigação no campo psi, em trabalhos que valem a leitura.

A seção Psicologia Social inicia com o artigo Identidades, Identificações e Classificações Raciais no Brasil: O Pardo e as Ações Afirmativas, de Eliane Silvia Costa e Lia Vainer Schucman, em que as autoras fazem uma importante discussão sobre as identidades raciais no campo da psicologia e das políticas de ações afirmativas, trazendo uma breve discussão histórico-conceitual sobre classificações raciais brasileiras, formações de identidades raciais e identificações raciais para pensar o lugar do mestiço na constituição de sujeitos fenotipicamente negros e brancos. A seguir, o artigo Escola, Família e Relações Intergrupais: Representações e Identidade Social de Pessoas com Deficiência Visual, de Daniela Cardoso de Oliveira e Amanda Castro,discute a relação entre as representações sociais da deficiência visual e a identidade social para pessoas cegas e com baixa visão, em um estudo qualitativo com entrevistas semiestruturadas com 40 sujeitos. O artigo Ser Mulher Negra: Existência e Resistência nos Contos de Conceição Evaristo, de Sheryl Andreatta da Costa e Betina Hillesheim, discute, a partir do livro Insubmissas Lágrimas de Mulheres, de Conceição Evaristo, os modos de existência e as brechas de resistência que se mostram possíveis na vida das personagens protagonistas dos contos, pensando suas subjetividades. Já no artigo Compreensões Fenomenológicas da Reexposição ao Trauma Sexual com Base no Relatos de Mulheres, de Bruna Sterza Nicoletta, Marcelo Feijó Mello e Myrna Coelho, com base em pesquisa realizada com mulheres vítimas de violência sexual e que desenvolveram estresse pós-traumático no estado de São Paulo, são apresentados relatos de violência sexual na infância e na adolescência e sua reexposição na vida adulta, com o objetivo de trazer à luz compreensões acerca dessa vivência e abrir possibilidades de intervenções adequadas. O artigo Vinculação e Participação no PAEFI/CREAS na Perspectiva dos Usuários, de Gelson Panisson, Marivete Gesser e Marcela de Andrade Gomes, investiga o processo de vinculação junto ao Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos (PAEFI), por parte dos usuários, de modo a compreender os sentidos atribuídos acerca de sua inserção e participação nesse serviço. O artigo Atletas de Mixed Martial Arts (MMA): Trabalhadores Precários e Invisíveis, de Juliana Aparecida de Oliveira Camilo e Livia Gomes Viana-Meireles, por sua vez, busca compreender, usando o referencial da  psicodinâmica do trabalho, as condições laborais dos lutadores de MMA no Brasil a partir do método etnográfico, com observações e conversações registradas em um diário de campo no acompanhamento da rotina de dois atletas em um evento de expressão nacional. Em Práxis em Psicologia Social: Experiências de Pesquisa e Extensão na Microrregião de São João del-Rei, de Maximiliano Rodrigues, Isa Magesti Corrêa Netto, Juliana Silva de Carvalho e Marcos Vieira Silva, os autores discutem como processos grupais podem fortalecer a construção de políticas públicas locais, de forma a promover transformação social. Especificamente, a práxis que o grupo Processos Grupais e Articulações Identitárias (PGAI) vem exercendo tem possibilitado a efetivação de mudanças no cotidiano das pessoas envolvidas que, marcadas por alguns eixos de desigualdade e opressão, encontram-se em situação de vulnerabilidade social. Já em Estado da Arte sobre Violência e Escola: Análises e Problematizações Ético-Políticas, Apoliana Regina Groff, Gabriel Carvalho Leandro, Julia Polizeli Lobo, Juliana de Oliveira Alves e Marta Corrêa de Moraes apresentam uma revisão de literatura que mapeia e discute a produção acadêmica sobre violência e escola em artigos publicados entre 2003 e 2017 por autores(as) da área da psicologia, analisada desde uma perspectiva crítica e interseccional, buscando compreender quais concepções sobre violência e escola orientam os estudos. No artigo Comportamento Suicida e Políticas Públicas: Estudo Comparativo entre as Atitudes dos Profissionais da Atenção Básica, as autoras Ana Paula Araújo de Freitas e Lucienne Martins-Borges investigaram as atitudes dos profissionais que atuam na Atenção Básica das políticas de Saúde e de Assistência Social em relação ao comportamento suicida. Os resultados apontam que Profissionais da Saúde apresentaram atitudes mais positivas em relação ao paciente e maior percepção da sua capacidade profissional, e Profissionais da Assistência Social indicaram atitudes menos moralistas em relação ao direito ao suicídio. Na sequência, no artigo Jovem Nem Nem: Questionamentos a partir de Pesquisas sobre Juventude e Experiências de Jovens Pobres, os autores Paulo Roberto da Silva Júnior e Claudia Mayorga discutem a categoria jovens nem nem como os/as que nem estudam, nem trabalham, nem procuram emprego, analisando sua construção como problema social a partir de um tripé: o desconhecimento e desinteresse pelas experiências dos/as jovens pobres, a espetacularização do fenômeno e a constituição de um conjunto de práticas para solucioná-lo. As análises tomam como base 19 documentos da Organização Internacional do Trabalho/OIT, e uma pesquisa-intervenção com 14 jovens. Encerrando a seção, o artigo Estilos de Habitação na Permacultura e as Interações Pessoa-Ambiente, de Luana Bezerra Pinheiro e Raquel Farias Diniz, investiga experiências de interações pessoa-ambiente a partir da visão de dez sujeitos que aderem ao estilo de vida permacultural, experiência de habitação de caráter pró-ecológico e voltado para a sustentabilidade.

A seção de Psicologia do Desenvolvimento traz, como primeiro artigo, o texto A Garantia dos Direitos Infantojuvenis a partir da Concepção de Infância e Adolescência, de Ana Cristina Serafim da Silva e Maria de Fátima Pereira Alberto, que investiga como a concepção de infância e adolescência adotada pelos atores sociais da Rede de Proteção norteia a atuação na garantia dos direitos das crianças e dos adolescentes, em pesquisa com dez atores sociais que fazem parte do Sistema de Garantias de Direitos de uma cidade no Tocantins. O segundo artigo, Escala de Discriminação Cotidiana para Adolescentes e Jovens: Adaptação e Evidências Psicométricas, de Márcia Kelma de Alencar Abreu, Vanessa Barbosa Romera Leme, Luana de Mendonça Fernandes, Carolina Seixas da Rocha, Verônica Morais Ximenes, Daniela Fonseca de Freitas e Susana Coimbra, traz um estudo que teve como objetivo adaptar e validar a Escala de Discriminação Cotidiana em uma amostra de adolescentes e jovens brasileiros de nível socioeconômico baixo e descrever os motivos de discriminação mais prevalentes, utilizando amostra composta de 995 estudantes. O artigo Bem-Estar Subjetivo de Estudantes: Variáveis Escolares Associadas e Medidas de Avaliação, de João Lucas Dias-Viana e Ana Paula Porto Noronha, investiga quais as variáveis escolares associadas ao bem-estar subjetivo de estudantes, bem como identificar as medidas de avaliação utilizadas, por meio de uma revisão integrativa da literatura. Já o artigo Gestação e Desenvolvimento Inicial de Gêmeos: Um Estudo a partir de Relatos Maternos, de Gabriela Marcolino Alves Machado, Laísy de Lima Nunes e Fabiola de Sousa Braz Aquino, discute as emoções das mães acerca da gravidez gemelar e analisa as suas concepções e expectativas sobre o desenvolvimento dos gêmeos nos primeiros 24 meses de vida. O artigo Escala de Motivação para Aprendizagem em Universitários: Versão Breve, de Julia Scalco Pereira, Sérgio Armando López Castillo, Ana Paula Couto Zoltowski, Marco Antônio Pereira Teixeira e Jerusa Fumagalli de Salles, propõe uma versão breve da Escala de Motivação para Aprendizagem em Universitários (EMAPRE-U Breve), que avalia três dimensões motivacionais: meta aprender, meta performance-aproximação e meta performance-evitação. Participaram do estudo 525 universitários do primeiro ano de graduação de uma universidade pública. Por fim, o artigo Características Neuropsicológicas do Desenvolvimento de Bebês Prematuros e a Termo: uma Revisão da Literatura, de Luciana Brooking Teresa Dias e Ercole da Cruz Rubini, investiga as características neuropsicológicas do desenvolvimento no primeiro ano de bebês prematuros comparados com bebês a termo, através de uma metodologia de revisão de literatura.

A seção Psicologia Clínica e Psicanálise inicia com o artigo "Quem Dança Seus Males Espanta": Processos Terapêuticos em Práticas Grupais de Dança e Movimento, de Rafaella Medeiros de Mattos Brito, Idilva Maria Pires Germano e Zulmira Aurea Cruz Bomfim, que identifica e discute os processos terapêuticos vivenciados por participantes de práticas grupais com foco na dança e no movimento, com o objetivo de compreender de que forma essas terapias corporais proporcionam benefícios e transformação pessoal. O segundo artigo, Fatores de Risco Associados ao Suicídio em Universitários: Uma Revisão de Escopo, de Rosário Martinho Sunde, Nicolas Cardoso de Oliveira, Caio Cesar Jaeger Filho, Larissa Fenalte Esteves, Bernard Martins Paz e Wagner de Lara Machado, propõe uma revisão de escopo que objetivou investigar os fatores de risco acadêmicos associados a ideação e tentativas de suicídio em estudantes universitários. O artigo Esquemas Iniciais Desadaptativos em Adultos com Histórico de Eventos Estressores Precoces, de Giselle do Nascimento Pessoa, Ismael Ferreira da Costa e Melyssa Kellyane Cavalcanti Galdino, investiga a relação entre os subtipos de Eventos Estressores Precoces e os Esquemas Iniciais Desadaptativos em adultos. As análises de correlação revelaram que cada subtipo de abuso e negligência se relacionou de diferentes formas com os Esquemas Iniciais Desadaptativos, sugerindo que a influência diferencial de cada tipo deve ser estudada. Fechando a seção, o artigo Evidências de Validade de Conteúdo da Beck Cognitive Insight Scale, Versão Brasileira, de Marco Antônio Silva Alvarenga, Flávio Hastenreiter, João Vinícius Salgado, Maria Fernanda Gusmão Rego, Karolina Isabela Ribeiro Pereira, Carollina Souza Guilhermino, Tiago Geraldo de Azevedo e Daniele do Nascimento Portela, propõe a adaptação transcultural da Beck Cognitive Insight Scale (BCIS) para o português do Brasil por meio da evidência de validade de conteúdo.

A seção Clio-Psyché traz o artigo Adoecimento Mental, Antipsiquiatria e Antidiagnóstico: Notas a Partir de Elso Arruda, de Ana Maria Del Grossi Ferreira Mota e Rodrigo Lopes Miranda, que identifica e caracteriza tensionamentos no campo psi referentes à Psicologia Clínica a partir de publicações de um de seus personagens, Elso Arruda, em uma investigação sociobibliométrica, que se insere na interseção entre a História Social da Psicologia, a História da Psiquiatria e a História da Psicanálise.

Encerrando este número, temos a resenha Sobre a Força de "Mães do Crack": A Produção de uma Anormalidade, de Diana Marisa Dias Freire Malito, apresenta o livro "Mães do Crack": A produção de uma anormalidade, de autoria de Zelia Caldeira, sublinhando suas contribuições para psicólogos e outros trabalhadores das subjetividades que se debruçam sobre os processos de exclusão social.

Desejamos a todas e todos uma boa leitura!

 

 

Endereço para correspondência
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Notas

* Professora Associada do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
** Professor/a Adjunto/a do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
*** Pesquisador associado do Laboratório História, Saúde e Sociedade do Instituto de Estudos de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

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