Estudos e Pesquisas em Psicologia
2022, Vol. 02. doi:10.12957/epp.2022.68633
ISSN 1808-4281 (online version)

 

PSICOLOGIA SOCIAL

 

Ser Mulher Negra: Existência e Resistência nos Contos de Conceição Evaristo

 

Sheryl Andreatta da Costa*; Betina Hillesheim**
Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC, Santa Cruz do Sul, RS, Brasil
Endereço para correspondência

 

RESUMO

O presente artigo pretende discutir, a partir do livro Insubmissas Lágrimas de Mulheres, de Conceição Evaristo (2016), os modos de existência e as brechas de resistência que se mostram possíveis na vida das personagens protagonistas dos contos: Isaltina Campo Belo, Shirley Paixão, Lia Gabriel e Maria do Rosário Imaculada dos Santos. A escolha desses contos pautou-se na identificação das encenações em que as vozes narrativas das mulheres protagonistas relatam as experiências e os enfrentamentos de diversas formas de violências em contextos de vulnerabilidade. Percorrendo os exercícios de escrevivência realizados por Evaristo, que nos permitem acesso a experiências reais ficcionalizadas das mulheres pobres, negras e periféricas silenciadas no cotidiano brasileiro, discute-se os modos de ser dessas mulheres diante das condições de vulnerabilidade e exposição à violência. Além disso, compreende-se que tais modos de subjetivação não se referem somente à sujeição e ao silenciamento, mas também dizem respeito a práticas de liberdade e movimentos de resistência. Sendo assim, as narrativas, ao mesmo tempo em que denunciam a vulnerabilidade dessas mulheres, também as distanciam da estigmatização dessas existências, afirmando a singularidade da vida e os enfrentamentos diante das situações de violência.

Palavras-chave: vulnerabilidade, violência, resistência, mulheres negras.


 

Being a Black Woman: Existence and Resistance in Conceição Evaristo's Short Stories

 

ABSTRACT

This article proposes a discussion based on the short stories of Insubmissas Lágrimas de Mulheres (Insubmissive Tears of Women, 2016), written by Conceição Evaristo, about  depictions of possible modes of existence as well moments of resistance in its women protagonists' lives: Isaltina Campo Belo, Shirley Paixão, Lia Gabriel and Maria do Rosário Imaculada dos Santos. The short stories were chosen by identifying, through protagonists' narratives voices, the remembrance of experiences tackling various forms of violences within vulnerability contexts. Though these narratives of escrevivência, as named by Evaristo, which grants us access to fictionalized real-life experiences of poor and black women from outlying ghettos that are silenced in Brazilian daily life, we discuss these women's ways of being in the face of vulnerable conditions and exposure to violence. Furthermore, this article comprehended that such modes of subjectivation do not refer exclusively to subjection and silencing, but also to practices of freedom and movements of resistance. Thus, the narratives called out these women's vulnerability as much as it also distances them from the stigmatization of their existences, affirming the singularity of these individual lives and their confrontation of violent situations.

Keywords: vulnerability, violence, resistance, black women.


 

Ser Mujer Negra: Existencia y Resistencia en los Cuentos de Conceição Evaristo

 

RESUMEN

Este artículo pretende discutir, a partir del libro Insubmissas Lágrimas de Mulheres, de Conceição Evaristo (2016), modos de existencia y brechas de resistencia que son posibles en la vida de los personajes protagonistas de los cuentos: Isaltina Campo Belo, Shirley Paixão, Lia Gabriel y Maria do Rosário Imaculada dos Santos. La elección de estos cuentos se pauta en identificar las escenificaciones en que las voces narrativas de las mujeres protagonistas relatan experiencias y enfrentamientos de diversas formas de violencia en contextos de vulnerabilidad. Por intermedio de ejercicios de escrevivência realizados por Evaristo, que nos permiten acceso a experiencias reales pese a ficción de estas mujeres pobres, negras y periféricas silenciadas en el cotidiano brasileño, se discute sus modos de ser ante las condiciones de vulnerabilidad y exposición a la violencia. Además, se entiende que tales modos de subjetivación no se refieren solamente a la sujeción y el silenciamiento, sino que también se refieren a las prácticas de libertad y movimientos de resistencia. Así, las narrativas, al mismo tiempo en que denuncian la vulnerabilidad de esas mujeres, las alejan de la estigmatización de esas existencias, afirmando la singularidad de la vida y los enfrentamientos ante de las situaciones de violência.

Palabras clave: vulnerabilidad, violencia, resistencia, mujeres negras.


 

 

A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
de nosso líquido lembradiço
cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.
(Evaristo, 2008, p. 21)

 

Pensar a produção social da existência das mulheres negras no contemporâneo é refletir sobre de que sujeitos estamos falando e queremos comunicar. Requer um aprofundamento das teorias que visem dar conta das construções de si e dos atravessamentos que produzem subjetividades e modos de ser e estar no mundo. As protagonistas nos contos de Insubmissas Lágrimas de Mulheres, obra de Conceição Evaristo, evidenciam modos de ser diante das condições de vulnerabilidade e exposição à violência, ao mesmo tempo que tecem caminhos de resistência que nos convocam a ouvir suas vozes e entender seu caminhar.

Segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada [IPEA] (2015), as mulheres negras representam 23,4% do total da população brasileira, estando sujeitas, como aponta Carneiro (2008), a "múltiplas formas de discriminação social [...], em consequência da conjugação perversa do racismo e do sexismo, as quais resultam em uma espécie de asfixia social com desdobramentos negativos sobre todas as dimensões da vida" (p. 210). As discriminações de gênero e raça são, portanto, fenômenos que interagem, expondo mulheres a abusos de direitos humanos de formas diferentes dos homens, de maneira que, entre os indicadores sociais como educação, emprego, trabalho e moradia, existe uma desvantagem significativa das mulheres em relação aos homens, e do conjunto de negros de ambos os sexos em relação aos brancos.

A partir do conceito de interseccionalidade (Crenshaw, 2002), as intersecções de raça e de gênero, abordando parcial ou perifericamente classe ou sexualidade, podem contribuir para estruturar as experiências dessas mulheres. Para Crenshaw, "as mulheres racializadas frequentemente estão posicionadas em um espaço onde o racismo ou a xenofobia, a classe e o gênero se encontram. Por consequência, estão sujeitas a serem atingidas pelo intenso fluxo de tráfego em todas estas vias." (p. 177).

O indivíduo, portanto, sujeito à interseccionalidade, nas descrições da autora, está no encontro dessas várias vias, sofrendo os danos causados por impactos vindos de diferentes direções. Nesse sentido, a conjunção das relações de poder de classe, raça, gênero e sexualidade atuam de maneira dinâmica, o que também remete a um caráter dinâmico da vulnerabilidade e da exposição à violência provocados por diversos eixos de poder. Nessa perspectiva, Patrícia Collins (como citada em Pontes-Saraiva e Neves, 2021) aponta que, mediante o conceito de interseccionalidade, dá-se visibilidade a questões que ficavam encobertas nas análises tradicionais, visto que o gênero colocava-se como referente aos estudos de mulheres, raça se referia aos homens negros e classe voltava-se ao campo dos interesses estruturais. Dessa maneira, a noção de interseccionalidade possibilita sobrepujar opressões racistas, patriarcais, heterossexistas e classistas.

Além disso, Patrícia Collins ressalta, em uma entrevista, que a interseccionalidade aborda questões complexas, mas não

como uma bandeira para defender uma política de identidade retrógrada (por exemplo, o caso preocupante do populismo de extrema direita abraçar uma política de identidade romantizada de masculinidade branca), mas, antes, como um modo de avançar no exame das vidas interconectadas que estamos efetivamente vivendo. A interseccionalidade aponta para a heterogeneidade dentro de qualquer categoria aparentemente universal. (Guimarães, 2021, p. 290)

Nessa perspectiva, o conceito de vulnerabilidade que norteia este trabalho nos permite compreender que o ser humano vulnerável é aquele que, a partir de desvantagens em sua mobilidade social, não necessariamente sofrerá danos, mas está a eles mais suscetível, não alcançando patamares elevados de qualidade de vida em sociedade em função de sua cidadania fragilizada e da vivência em contextos de desigualdade social (Carmo & Guizardi, 2018).

E é esse olhar ampliado que indica, conforme observam Guareschi, Reis, Huning e Bertuzzi (2007), que a vulnerabilidade cresce nas situações de falta de acesso à informação, aos serviços básicos de educação e de falta de confiança ou credibilidade na sustentação de estratégias de ação, deixando, assim, evidente um deslocamento na atribuição da condição de vulnerabilidade, que já não se constitui como característica própria do indivíduo, mas como resultado combinado de determinados arranjos sociais e políticos que vão incidir sobre os sujeitos. Desse modo, entender a vulnerabilidade como a fragilidade no exercício da cidadania é reconhecer que ela ultrapassa os critérios individualizantes, mas remete às práticas discursivas que indicam modos de vidas em sociedade.

A partir de Foucault (2003), compreende-se que os discursos produzem efeitos de verdade, os quais não podem ser dissociados das relações de poder. Entretanto, "as relações de poder são relações de força, enfrentamentos, portanto, sempre reversíveis. Não há relações de poder que sejam completamente triunfantes e cuja dominação seja incontornável" (p. 232). Nesse sentido, para o filósofo, há sempre possibilidade de resistência. Dessa maneira, na medida em que se entende que aquilo que caracteriza uma população considerada vulnerável é construído pelos discursos, se reconhece que esses discursos constroem modos de ver, sentir, pensar e viver tais existências ditas vulneráveis. Porém, mais do que existências reguladas, uniformizadas ou dominadas, há sempre caminho para a resistência, mediante pequenas lutas e enfrentamentos. Pensar o conceito de resistência, assim como proposto por Foucault, está no cerne das possíveis saídas para os mecanismos de controle instituídos. Foucault (1995) indica, portanto, que é por meio das práticas de resistência que será possível elucidar as relações de poder, sendo necessário pontuar que não existem relações de poder sem resistência.

Destaca-se, ainda, que a própria noção de vulnerabilidade atrelada à existência das mulheres pode sugerir a produção de sujeitos fragilizados, entendidos como objetos de intervenção de uma política que os classifica como frágeis e, por vezes, incapazes de produzir modos de ser alinhados com práticas que vislumbrem a liberdade. Assim, neste texto, pretende-se ampliar o entendimento das violências que se apresentam nas suas vidas nas dimensões socioeconômica, racial e de gênero, buscando reconhecer os modos como se subjetivam mulheres em situação de vulnerabilidade social e de que maneira elas podem resistir às diversas violências que incidem sobre seus corpos.

Nesse sentido, o presente artigo pretende discutir, a partir de quatro contos de Conceição Evaristo - Isaltina Campo Belo, Shirley Paixão, Lia Gabriel e Maria do Rosário Imaculada dos Santos -, os modos de existência e as brechas de resistência que se mostram possíveis na vida de mulheres negras. A escolha desses contos pautou-se na identificação das encenações em que as vozes narrativas das mulheres protagonistas vivenciam e enfrentam diversas formas de violências em contextos de vulnerabilidade. Para tanto, o artigo organiza-se da seguinte forma: em primeiro lugar, discute-se os conceitos de subjetividade e modos de subjetivação, articulando-os com a escrita vivencial de Conceição Evaristo, que nos permite acesso a experiências reais ficcionalizadas de mulheres; a seguir, foca-se nas tramas que se tecem entre os marcadores de classe, gênero e raça e a condição de vulnerabilidade nos relatos dos contos, especialmente no que se refere à violência; e, finalmente, traz-se as considerações finais acerca das existências dessas mulheres e das formas de resistências que se fazem presentes nas narrativas analisadas.

Escrevivência e Modos de Subjetivação

Vozes-mulheres que nos falam sobre suas existências, limitações e possibilidades. É a partir das histórias das mulheres/personagens protagonistas dos contos Isaltina Campo Belo, Shirley Paixão, Lia Gabriel e Maria do Rosário Imaculada dos Santos, do livro Insubmissas Lágrimas de Mulheres, da autora Evaristo (2016), que é possível ouvir a voz de mulheres pobres, negras e periféricas 1 silenciadas, mas que versam sobre modos de existir poéticos e potentes.

Ao narrar e ficcionalizar sua experiência de mulher negra, assim como aponta Araújo (2019), Conceição Evaristo assume sua escolha política e leva o leitor a reflexões acerca dos governos e das estruturas de poder instituídas:"A escrevivência dá forma a um texto onde se reforça a experiência da mulher negra que fala e vive, transitando pelas margens da cidade e reclamando para si a dignidade de contar as próprias histórias" (p. 14).

A escrita de Evaristo vem, portanto, acompanhada de vivências. No livro Becos da Memória, com seus traços autobiográficos, a autora, assim como aponta Oliveira (2009), chama de escrevivência a escrita de um corpo, de uma condição, de uma experiência negra no Brasil. Dessa forma, há nas personagens um existir que ultrapassa a ficção e revela a realidade, sendo traduzido pelo seguinte depoimento da própria escritora:

Em síntese, quando escrevo, quando invento, quando crio a minha ficção, não me desvencilho de um 'corpo-mulher-negra em vivência' e que por ser esse 'o meu corpo, e não outro', vivi e vivo experiências que um corpo não negro, não mulher, jamais experimenta. (Evaristo, 2009, pp. 18)

Em Insubmissas Lágrimas de Mulheres, treze contos apresentam, a partir da narrativa das personagens/mulheres, as vivências atreladas à condição de ser mulher negra. As protagonistas da obra enfrentam o sexismo, as agressões físicas, o racismo e outras diversas formas de violências às quais são submetidas, nos revelando modos de insubordinação e subvertendo, assim, as narrativas nas quais as personagens femininas negras são silenciadas ou marginalizadas. A própria autora revela esse planejamento:

Apenas tracei um plano. Eu queria escrever histórias de mulheres, mas não deixando mais minhas parentas sucumbirem à morte. Não as deixaria se degradarem na fome e no desamparo. Passariam por tudo, mas recuperariam a vida. Queria escrever sobre as dores mais profundas dessas mulheres. Queria falar de um sofrimento e de uma carência que não significassem somente a falta do pão, de água e do teto. Queria escrever sobre mulheres vitoriosas, insubmissas ao destino, apesar de. Parece que consegui. (Evaristo, 2014, p. 32)

Para a análise dos contos, o referencial teórico-metodológico se pautou nos estudos foucaultianos. Como aponta Loureiro (2015), é apenas a partir dos anos 1970 que Foucault passa a relacionar experiência e subjetividade, momento em que a produção foucaultiana tem por foco os modos de subjetivação, a ética e a governamentalidade. Sobre essa relação, o filósofo completa:

A experiência é a racionalização de um processo, ele mesmo provisório, que resulta em um sujeito ou, antes, em sujeitos. Chamarei subjetivação o processo pelo qual se obtém a constituição de um sujeito, mais exatamente, de uma subjetividade, que evidentemente é apenas uma das possibilidades dadas de organização de uma consciência de si. (Foucault, 2004, p. 262)

Compreende-se a subjetividade como um processo de produção dos sujeitos no qual múltiplos componentes se apresentam e participam. Esses componentes resultam da apreensão que realizamos, de forma permanente, em uma multiplicidade de elementos atuantes no contexto social. Na dinâmica dos processos de subjetivação, os componentes sociais, como a linguagem, a tecnologia, o trabalho, o capital e a mídia, ganham importância coletiva e são atualizados de maneiras diversas no cotidiano de cada sujeito. Por isso mesmo, cabem modificações e reinvenções em um vir a ser que não termina em si, dando movimento aos fluxos sociais. A existência e a produção de subjetividades são um processo constante de luta, o que implica pensar que qualquer mudança social está diretamente ligada à produção de subjetividades (Guattari & Rolnik, 1996).

Nessa perspectiva, como discutido por Bernardes e Hoenisch (2003), o conceito de subjetividade rompe com a noção de um sujeito soberano e uno. Portanto,

subjetividade não é o ser, mas os modos de ser, não é a essência do ser ou da universalidade de uma condição, não se trata de estados da alma, mas uma produção tributária do social, da cultura, de qualquer elemento que de algum modo crie possibilidades de um 'si', de uma 'consciência de si', sempre provisória. (p. 117)

Dessa maneira, entende-se que são os processos de subjetivação, os quais não são algo de ordem individual, mas se fazem mediante interpelações discursivas, que produzem modos de existência. Assim, as escrevivências de Conceição Evaristo convidam a pensar sobre como vão se constituindo experiências/modos de subjetivação, formações discursivas e práticas que posicionam as mulheres em relação a situações de vulnerabilidade, bem como possibilidades de resistência, especialmente diante da violência, que aparece de forma recorrente nos contos.

As Marcas da Vulnerabilidade

A vulnerabilidade social, assim como definida por Abramovay et al. (2002), é indicativa de uma situação em que os recursos e as habilidades de um dado grupo social são insuficientes e inadequados para lidar com as oportunidades sociais. E são essas oportunidades que constituem uma forma de ascender a maiores níveis de bem-estar ou diminuir probabilidades de deterioração das condições de vida. Assim, embora o conceito de vulnerabilidade social esteja indiretamente vinculado com o de mobilidade social, essa dificuldade de mover-se socialmente não pode ser reduzida às questões de pobreza, pois, como aponta Guareschi et. al (2007), a vulnerabilidade não se restringe à categoria econômica, passando por organizações políticas de raça, orientação sexual, gênero e etnia. Dessa forma, as organizações simbólicas também estão intimamente ligadas ao conceito de vulnerabilidade social.

Tendo posto que a vulnerabilidade não é um conceito que se aplica ao indivíduo, mas diz respeito a determinadas condições que trazem uma certa desvantagem social, Butler (2015), em Quadros de Guerra, apresenta uma reflexão sobre os enquadramentos da violência, que produzem e configuram olhares e normas que, por sua vez, apreendem determinadas vidas como não vivíveis, portanto, vidas mais vulneráveis à violência e menos passíveis de luto. Pensar a vulnerabilidade na existência das mulheres negras exige entender o quanto a lógica racista presente na sociedade brasileira opera desumanizando e violentando corpos negros, em uma restrição profunda de suas existências. Assim como no encontro com as violências marcadas pelo gênero, mulheres negras são marginalizadas e invisibilizadas e, portanto, sujeitas a uma condição de maior precariedade.

A perspectiva da interseccionalidade nos auxilia a pensar como se entrecruzam os eixos de opressão que produzem consequências estruturais e dinâmicas relacionadas às intersecções entre os vários eixos de subordinação, entendendo especificamente a forma pela qual o racismo e as relações de gênero e classe criam desigualdades básicas que estruturam as posições relativas de mulheres (Crenshaw, 2002). Esse entrecruzamento, para este artigo, é entendido como analisador que nos permite problematizar as vulnerabilidades a que estão expostas as mulheres, ao mesmo tempo que acolhe as singularidades da vida, de maneira que não podemos falar sobre violência de gênero sem levar em consideração que mulheres negras carregam mais de uma opressão em seus corpos.

A violência alcança o corpo feminino em todas as narrativas de Insubmissas Lágrimas de Mulheres, sendo necessário considerar a relacionalidade histórica do corpo, assim como exposto por Butler:

O que limita quem eu sou é o limite do corpo, mas o limite do corpo não pertence a mim. A sobrevivência depende menos do limite estabelecido para o self do que a sociabilidade constitutiva do corpo. Mas ainda que o corpo, considerado social tanto em sua superfície quanto em sua profundidade, seja a condição de sobrevivência, é isso também que, em certas condições sociais, põe em perigo nossa vida e a nossa capacidade de sobrevivência. (Butler, 2015, p. 87)

A hierarquização social dos gêneros e das raças reforça as inscrições corpóreas que produzem vulnerabilidades. Carneiro (2003) afirma que "o papel da mulher negra é negado na formação da cultura nacional; a desigualdade entre homens e mulheres é erotizada; e a violência sexual contra as mulheres negras foi convertida em um romance" (p. 49). Isaltina Campo Belo 2 nos relata, a partir de sua história, a violência vivenciada enquanto mulher negra e lésbica:

Um dia, em que ele desejava beijos e afagos, e eu sem desejo algum, sem nada a palpitar por dentro e por fora [...] Ele, sorrindo, dizia não acreditar e apostava que a razão de tudo deveria ser algum medo que eu trazia escondido no inconsciente. Afirmava que eu deveria gostar muito e muito de homem [...] Ele iria me ensinar, me despertar, me fazer mulher. E afirmava, com veemência, que tinha certeza de meu fogo, pois afinal, eu era uma mulher negra, uma mulher negra... (Evaristo, 2016, pp. 63-64)

Em Isaltina Campo Belo, o corpo negro reconhecido inicialmente como objeto de desejo e erotizado torna-se imediatamente o corpo violentado por desconhecidos que se identificam como iniciadores em um acesso à heterossexualidade. Butler, partindo das formulações de Michel Foucault, abor­da o processo de produção de uma verdade sobre o sexo que se produz a partir da regulamentação de normas de gênero. Nesse processo de normatização é instituída a heterossexualização dos desejos, que requer e institui a produção de oposições discriminadas e assimétricas entre "feminino" e "masculino", em que estes são compreendidos como atributos expressivos de "macho" e "fêmea" (Butler, 2003, pp. 38-39). A autora nos convida a deixar de pensar "homem" e "mulher" como permanentes, compreendendo seu caráter provisório e temporal, e a entender sujeitos produzidos a partir de normas já estabelecidas de forma que "não se pode dizer que os corpos tenham uma existência significável anterior à marca de gênero"(Butler, 2003, p. 27).

Nesse entendimento, Fontinele e Costa (2019) reforçam, a partir da perspectiva foucaultiana, que a materialidade do gênero acontece através de uma prática constante de reiteração de normas regulatórias como efeitos das relações de poder, e as normas funcionam qualificando os corpos e operando distribuições no entorno social. São elas que abrem o caminho para "a fabricação de uma subjetividade que está de acordo com os valores definidos social e politicamente, regulando a forma como os indivíduos se colocam no mundo" (p. 6).

Dessa forma, os discursos que impõem aos corpos das mulheres (dos quais se esperam atitudes controladas, delicadas e submissas) um lugar de passividade normatizam construções sociais que reforçam e estruturam, mediante relações de poder, as posições desiguais entre homens e mulheres e são essas marcas históricas dos discursos que invadem os corpos femininos desde a infância. Assim, como relata Shirley Paixão sobre os abusos praticados pelo então marido à enteada Seni, uma criança de doze anos: "E avançou sobre Seni, gritando, xingando os maiores impropérios, rasgando suas vestes e expondo à nudez aquele corpo ainda meio-menina, violentado diversas vezes por ele, desde quando a mãe dela falecera" (Evaristo, 2016, pp. 31-32).

Há de se considerar nesse contexto, conforme aponta Ribeiro (2017), que, ao se falar em mulheres, deve-se sinalizar de que mulheres se fala, uma vez que mulheres não podem ser vistas como uma categoria unitária, já que possuem diferentes pontos de partida e intersecção. Ao universalizar essa categoria, segundo a autora, se assume o risco de manter na invisibilidade aquelas mulheres que combinam ou entrecruzam opressões.

Sendo assim, ao entender que a violência física imposta ao corpo feminino expõe sua vulnerabilidade aos maus tratos, precisa-se considerar que os discursos que versam sobre o corpo feminino negro reproduzem a desconstrução da sua humanidade, distanciando a identificação que nos permite compreender nossa interdependência enquanto seres humanos e produzindo uma ética da violência ainda mais cruel para dominar e submeter, assim como nos conta Lia Gabriel:

Era uma tarde de domingo, eu estava com as crianças assentadas no chão da sala, fazendo uns joguinhos de armar, quando ele entrou pisando grosso e perguntando pelo almoço. Assentada eu continuei e respondi que o prato dele estava no micro-ondas, era só ligar. Passados uns instantes, ele, o cão raivoso, retornou à sala, avançou sobre mim, arrastando-me para a área de trabalho. Lá, abriu a torneira do tanque, e tampando a minha boca, enfiou minha cabeça debaixo d'água, enquanto me dava fortes joelhadas por trás. Não era a primeira vez que ele me agredia. (Evaristo, 2016, p. 101)

As práticas discursivas que constroem mulheres são atravessadas, portanto, por jogos de verdade, o que permite compreender, como apontam Souza e Fonseca (2009), que as relações entre mulheres e homens são produzidas discursivamente, indicando que o discurso é uma prática que não tem somente uma função de nomear as pessoas e os objetos, mas de atribuir sentidos sobre as pessoas e o mundo. Ele cria ao mesmo tempo em que descreve as pessoas e os objetos sobre os quais fala, conferindo-lhes status de existência. Assim, o discurso é constituído por e nas relações de poder, instituindo verdades sobre o "sujeito", produzindo, assim, modos de existência e processos de subjetivação que se dão a partir de diversas verdades e falam sobre os lugares possíveis de serem ocupados. Por isso, pensar nesses processos é pensar também nos silêncios e nos silenciamentos do corpo feminino negro e de sua história pela violência, como nos narra Isaltina Campo Belo:

Tenho vergonha e nojo do momento. Nunca contei para ninguém o acontecido. Só agora, depois de trinta e cinco anos, neste exato momento, me esforço por falar em voz alta o que aconteceu. Os mais humilhantes detalhes morrem na minha garganta, mas nunca nas minhas lembranças. Nunca mais voltei ao trabalho. Hoje eu reagiria de outra forma, tenho certeza. Mas, na época, fui tomada por um sentimento de vergonha e impotência. Senti-me como o símbolo da insignificância. Quem era eu? (Evaristo, 2016, pp. 64-65)

Tais silenciamentos invisibilizam as narrativas femininas e constituem modos de ser mulher enquadrados na passividade e na submissão. Olhar o campo constitutivo das forças requer, assim como problematizado por Foucault, pensar nas forças que colocaram as mulheres nesse lugar de silenciamento histórico, nas suas condições de emergência e no silêncio dos homens em relação a uma história que também é feita por mulheres. A partir disso, é possível desnaturalizar e desconstruir essas forças (Mattos, 2013).

Um silenciamento que se faz de diversas formas. No conto sobre Maria do Rosário Imaculada dos Santos, mulher negra roubada de seus familiares ainda criança, ela diz:

Eu tinha um desejo enorme de falar da minha terra, da minha casa primeira, de meus pais, de minha família, de minha vida e nunca pude. (...) Todas as noites, antes do sono me pegar, eu mesma me contava as minhas histórias, as histórias da minha gente. (Evaristo, 2016, p. 47)

Maria do Rosário Imaculada nos conta ainda sobre o lugar possível enquadrado para mulheres negras, que permanecem em um lugar invisível e silenciado, precarizado em seu acesso a direitos e limitado à servidão dos fazeres domésticos, desumanizadas também enquanto trabalhadoras:

Eu trabalhava intensamente, aprendi a cozinhar, a passar e a cuidar de crianças. O rádio, que eu levara, acabou perdendo a função. Recebi ordens para não o ligar, para não gastar luz e não me distrair no trabalho. Aguentei esse inferno durante sete anos e só tinha um objetivo: o de juntar dinheiro e voltar para Flor de Mim. Mas o tempo foi passando. Dali, saí para outra casa e mais casas. Nunca mais soube do casal que me roubou de meus pais. Nunca entendi qual foi a intenção deles. (Evaristo, 2016, pp. 50-51)

Nessa perspectiva, ao pensar o corpo da mulher negra, evidencia-se o controle ao qual está submetido, vulnerável ao trabalho precarizado e à violência física, subjetiva e sexual. Se, por um lado, os discursos sobre os corpos negros femininos posicionam as mulheres em um lugar de erotismo, por outro, elas são constantemente enquadradas em um papel social de servidão. É possível perceber que o corpo em discussão, historicamente, ocupa uma condição de corpo coisificado, ora satisfazendo o desejo sexual, ora desprezado e servindo para o serviço braçal (Barrios & Caetano, 2018).

Nesse sentido, os caminhos de resistência das mulheres negras atravessam os cotidianos de agressões sofridas no trabalho, na rua, em casa, em um misto de racismo, misoginia e pobreza, que coloca seus corpos entre os assujeitamentos e a resistência. Assim como nos lembram Silveira et al. (2014), a teoria foucaultiana fala da intransigência da liberdade e de quanto o poder também é produtivo, pois, assim como produz assujeitamentos, também produz a necessidade de lutar, de criar estratégias para dinamizar o jogo de forças que as opressões impõem. Uma vez que o conjunto de regramentos sociais no qual o sujeito está imerso não permite a inexistência de dominação, a capacidade de resistir se faz presente quando existe liberdade.

As mulheres/personagens que se narram a partir das escrevivências de Conceição Evaristo constroem modos de ser dentro de molduras de papéis femininos naturalizados, a mãe, a cuidadora, voltada exclusivamente para a família, o marido, os filhos e o trabalho doméstico. Ao mesmo tempo, encontram brechas para resistência justamente nesses modos de existir. Lia Gabriel relata o renascimento de si e de sua família após por fim na relação de violência doméstica:

E foi nessa ocasião que tomei, sozinha, a diretriz de minha vida [...]. Deixei a escola em que trabalhava pelas manhãs [...] e passei a dar aulas particulares em casa [...]. Trabalhar em casa foi a solução encontrada [...]. Nas horas vagas, ou seja, na solidão das madrugadas, comecei a fazer pequenos consertos em aparelhos domésticos e, hoje, sou a única mulher que tem uma oficina eletrônica na cidade. Desde menina eu tinha certo pendor para montagens de rádio, televisão, etc. Transformei essa habilidade em profissão. Consertei a minha vida, cuja mola estava enferrujando. Eu mesma imprimi novos movimentos aos meus dias. Fiz por mim e pelas crianças. (Evaristo, 2016, pp. 98-99)

Shirley Paixão, ao mesmo tempo, encontra força para enfrentar as violências sofridas a partir do lugar de mãe e da "irmandade feminina" construída com as filhas, que amplia vínculos de reconhecimento entre as mulheres:

Hoje, quase trinta anos depois desses dolorosos fatos, continuamos a vida. Das meninas, três já me deram netos, estão felizes. Seni e a mais nova continuam morando comigo. A nossa irmandade, a confraria de mulheres é agora fortalecida por uma geração de meninas netas que despontam. Seni continua buscando formas de suplantar as dores do passado. Creio que, ao longo do tempo, vem conseguindo. Entretanto, aprofunda, a cada dia, o seu dom de proteger e de cuidar da vida das pessoas. É uma excelente médica. Escolheu o ramo da pediatria. (Evaristo, 2016, p. 34)

Já Isaltina Campo Belo, que se sentia como "o símbolo da insignificância" diante da violência que sofrera, descobriu no olhar da professora, pouco tempo depois, no jardim de infância da filha, o caminho para o recomeço:

Foi então que me descobri mulher igual a todas e diferente de todas que estavam ali [...] Busquei o olhar daquela com quem eu aprenderia e me conhecer, a me aceitar feliz e em paz comigo mesma. (Evaristo, 2016, p. 66)

Poéticas do Existir e a Produção de Subjetividades nos Contos de Conceição Evaristo

As narrativas de Insubmissas Lagrimas de Mulheres trazem à cena mulheres negras e periféricas que, diante de contextos de vulnerabilidade atravessados por marcas de violência, resgatam e ressignificam suas histórias através da narrativa, transformando as vivências que atravessam seus corpos em atos de resistência. Dessa maneira, por mais duras que sejam as situações narradas nos contos, as personagens/mulheres resistem aos poderes que as constituem. Ao tensionar os discursos que normatizam e regulamentam as experiências enquanto mulheres negras, Conceição Evaristo permite que as protagonistas experienciem modos de ser mais alinhados com práticas de liberdade, focando os movimentos de resistência que as distanciam de uma possível estigmatização relacionada à ideia de vulnerabilidade, que possa tentar posicioná-las em um lugar de fragilidade e incapacidade. Mas, ao mesmo tempo, a narrativa traça a singularidade das suas histórias e faz eco para permitir visíveis as dores, angústias e violências que atravessam suas existências.

Como pensado por Foucault (1995), a liberdade acontece no interior das relações de poder-saber, e esses sistemas que instauram os discursos não esgotam por completo as possibilidades de resistência, pois, "[...] no centro da relação de poder, 'provocando-a' sem cessar, existe a rebeldia do querer e a intransitividade da liberdade" (p. 244). Dessa forma, contemplar a escrevivência de Evaristo é adentrar no movimento de resistência próprio da autora, que se propõe a tensionar os discursos instituídos ao questionar o que é ser mulher e negra na sociedade brasileira.

Entendendo a interseccionalidade que pauta a vivência de mulher nos contos aqui descritos, podemos ampliar o olhar para outras tantas mulheres que se constituem entre vias com outros cruzamentos, marcadas por opressões em suas combinações mais diversas e cruéis. Parte-se da riqueza da obra de Evaristo para acessar a história de mulheres que, expostas a contextos de desigualdade, traçam percursos de resistência, enfrentando batalhas constantes pelo protagonismo na própria história.

Uma história que seja também escrita por mulheres. Mulheres e sua construção histórica, e seus atravessamentos, e sua liberdade de resistir. Mulheres e suas subjetividades e todas essas definições que demarcam o feminino em termos de público e privado. É reconhecer as forças que normatizam seus corpos, sua sexualidade e seu modos de viver, e suas formas de existir e resistir nesse apanhado de forças.

Para além da vulnerabilidade, a existência. Para além das normas, a resistência.

 

Referências

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Recebido em: 01/12/2020
Reformulado em: 15/07/2021
Aceito em: 09/08/2021

 

 

Notas

* Psicóloga. Especialista em Psicologia Hospitalar. Mestranda do Mestrado Profissional em Psicologia (UNISC).
** Psicóloga. Doutora em Psicologia (PUCRS). Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação e do Mestrado Profissional em Psicologia (UNISC).
1 A noção de periférico aparece aqui como uma referência à própria condição de brasileiras, visto que muitas das produções acadêmicas são centradas na Europa ou Estados Unidos. Nessa perspectiva, Patrícia Collins coloca que ainda existe uma ideia de que o Brasil não teria problemas raciais, sendo pouco conhecidas as pesquisas realizadas no país (Guimarães, 2021).
2 A partir daqui trechos dos contos analisados aparecerão entrelaçados com a discussão.

 

Agradecimentos: As autoras agradecem aos integrantes do grupo de pesquisa Políticas Públicas, Inclusão e Produção de Sujeitos pela leitura e pelas sugestões.

 

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