Estudos e Pesquisas em Psicologia
2021, Vol. spe. doi:10.12957/epp.2021.64030
ISSN 1808-4281 (online version)

 

PSICOLOGIA SOCIAL

 

Memória e Cidade, Fama e Infâmia: O Caso do Abrigo Municipal de Alienados Oscar Schneider

 

Mariana Zabot Pasqualotto*; Andrea Vieira Zanella**
Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, Florianópolis, SC, Brasil
Endereço para correspondência

 

RESUMO

Este artigo apresenta resultados de uma pesquisa que investigou a produção de memórias e esquecimentos relacionada ao extinto "Abrigo Municipal de Alienados Oscar Schneider", instituição que funcionou em Joinville/SC entre 1923 e 1942 e teve seu prédio demolido cerca de 50 anos depois da sua construção. A inauguração da instituição marcou o início do projeto de "modernização-urbanização" de Joinville, pautado em normas higiênicas centradas nas novas prerrogativas da ciência moderna. Para a realização da pesquisa, rastreamos documentos que contam a história do Abrigo de Alienados: encontramos fotografias, um cartão-postal, trechos de documentos oficiais e notícias de jornal. Com esses documentos, problematizamos o campo de produção da fama e da infâmia em relação a determinados personagens que compuseram a cena dos acontecimentos dessa instituição. O olhar para os registros do Abrigo de Alienados procurou tensionar as diversas vozes que ali se encontram para seguir os rastros insignificantes de uma história, os quais correspondem a certos fatos e sujeitos que não foram considerados dignos de serem memorados: as vidas que sofreram a experiência do confinamento no Abrigo.

Palavras-chave: cidade, memória, fama, infâmia, "Abrigo Municipal de Alienados Oscar Schneider".


 

Memory and City, Fame and Infamy: The "Abrigo Municipal de Alienados Oscar Schneider" case

 

ABSTRACT

This article presents results of a research that investigated memories and forgetfulness production related to the already extinct "Abrigo Municipal de Alienados Oscar Schneider", an institution that operated in Joinville, state of Santa Catarina, between 1923 and 1942, whose building was destroyed 50 years after its construction. The institution inauguration marked the beginning of Joinville's "modernization-urbanization" project, based on hygienic standards centered on the new prerogatives of modern science. To conduct this research, we traced documents that narrates the Alienated People's Shelter history: we found photographs, a postcard, oficial documents excerpts, and newspaper news. With these documents, we problematized fame and infamy production field in relation to some characters that were part of the institution happenings scene. Our vision to the Alienated People's Shelter aimed to tense up several voices that exist there to follow the insignificant trails of a history which corresponds to certain facts and subjects not considered dignified to be remembered: the suffering lives of the Shelter confinement experience.

Keywords: city, memory, fame, infamy, "Abrigo Municipal de Alienados Oscar Schneider".


 

Memoria y ciudad, fama e infamia: El caso del "Abrigo Municipal de Alienados Oscar Schneider"

 

RESUMEN

Este artículo presenta los resultados de una investigación que examinó la producción de recuerdos y olvidos relacionados con el extinto Abrigo Municipal de Alienados Oscar Schneider, institución que funcionó en Joinville/SC entre 1923 y 1942 y cuyo edificio fue demolido unos 50 años después de su construcción. La inauguración de la institución marcó el inicio del proyecto de "modernización-urbanización" de Joinville, basado en estándares higiénicos centrados en las nuevas prerrogativas de la ciencia moderna. Para llevar a cabo la investigación, rastreamos documentos que cuentan la historia del Abrigo de Alienados: encontramos fotografías, una tarjeta postal, extractos de documentos oficiales y noticias de periódicos. Con estos documentos, problematizamos el campo de producción de fama e infamia en relación con ciertos personajes que componían la escena de los acontecimientos de esa institución. La mirada a los registros del Abrigo de Alienados trató de problematizar las diversas voces presentes para seguir los rastros insignificantes de una historia, los cuales corresponden a ciertos hechos y sujetos que no fueron considerados dignos de ser memorizados: las vidas que sufrieron la experiencia de confinamiento en el Abrigo.

Palabras clave: ciudad, memoria, fama, infamia, "Abrigo Municipal de Alienados Oscar Schneider".


 

 

Trazemos neste artigo alguns resultados que foram produzidos em uma pesquisa que investigou a produção de memórias e esquecimentos relacionada ao extinto Abrigo Municipal de Alienados Oscar Schneider, instituição que funcionou em Joinville/SC entre 1923 e 1942 e teve seu prédio demolido cerca de 50 anos depois da sua construção. A partir de documentos encontrados em arquivos públicos, buscamos visibilizar neste texto, apoiando-nos em uma perspectiva dialógica (Bakhtin, 2013), as diversas vozes que compõem o arquivo de conteúdos relacionados ao Abrigo de Alienados.

Cabe ressaltar que, a partir das produções de Foucault (2007) sobre loucura, sabemos que ela só se torna uma categoria social indesejada na modernidade. Antes disso, a loucura era tida como sinônimo de saber esotérico e de sabedoria inacessível ao ser humano comum. Na modernidade, com sua inserção no contexto clínico, ela passa a ser calada, sua criatividade é barrada e o pensamento rompido. Foucault (2007) sinaliza que, quando a sociedade se firma centrada na racionalidade, os "loucos" perdem sua função no imaginário social que se alinha à busca pela edificação de uma cidade perfeita.

Com a égide do capital, corpos são separados entre produtivos e improdutivos, e assim a prática de internação do "louco" (como também dos "leprosos") se aproxima da prática penitenciária a partir do século XIX; todas respondem à necessidade de afastar do meio social corpos improdutivos ao funcionamento do capitalismo (Foucault, 2007).

É esse entendimento sobre o surgimento da loucura como desvio indesejável ao funcionamento da cidade moderna o pano de fundo da existência do Abrigo de Alienados Oscar Schneider e das análises aqui trabalhadas a respeito das produções de memórias e esquecimentos relacionadas a essa instituição.

A construção do Abrigo de Alienados Oscar Schneider foi feita em 1922 através de uma ação filantrópica, num terreno doado pela prefeitura, que ficava nos fundos do Cemitério Municipal. Nesse período em Joinville houve também a criação de uma "Sociedade de Embelezamento", que não só se preocupava com a "beleza do cenário urbano" como também ditava as normas do convívio em sociedade através da criação de "códigos de posturas". Quanto a essas iniciativas na cidade, Fontoura (2005) destaca que "Mais do que desenhar uma nova feição para a cidade – sem cortiços, meia água e fandangos, [elas] delimitam um espaço do limpo, do belo e não propício a aglomerações." (p. 87).

Para Fontoura (2005), é por meio de tais medidas e discursos produzidos sobre a arquitetura e o espaço, como também sobre o comportamento e as relações de convívio de determinados grupos, que se dá o início do projeto de "modernização-urbanização" de Joinville, pautado em normas higiênicas baseadas nas novas prerrogativas da ciência moderna. Esse projeto, segundo a autora, "Enuncia, ainda, uma preocupação ‘nacionalista' imbuída de práticas e discursos associados a uma perspectiva eugênica/sanitarista para a modernização da cidade" (Fontoura, 2005, p. 91), que passava a se preocupar com a saúde física, moral e intelectual da população.

Foi então, dentro dessa lógica eugenista, que se fundou o Abrigo de Alienados em Joinville. Com o passar dos anos, a instituição enfrentou uma série de problemas devido à precariedade de sua estrutura física e do atendimento aos internos, e teve suas portas fechadas após quase vinte anos de funcionamento. As pessoas que estavam ali confinadas foram encaminhadas à recém-inaugurada instituição psiquiátrica estadual, "Colônia Sant'Ana", no município de São José/SC, distante aproximadamente 187 km de Joinville.

A remoção dos pacientes foi feita no contexto em que se inicia no Estado o processo de institucionalização da loucura em uma perspectiva médico-hospitalar. Para isso, criou-se "(...) durante o governo do interventor Nereu Ramos (de 1937 a 1945), (...) o Serviço de Assistência a Psicopatas (1940) e o Hospital Colônia Sant'Ana (1941)." (Borges, 2013, p. 1532). O Hospital Colônia Santana tornou-se, ao longo dos anos, um "depósito" marcado pela superlotação e pelo descaso com os pacientes (Borges, 2013).

Após o encerramento institucional do Abrigo de Alienados, o prédio passou a servir como Presídio Político (1942 – 1945) na época em que o país vivia as tensões políticas decorrentes da segunda Guerra Mundial (Fáveri, 2009). O prédio, marcado pela existência dessas duas instituições da clausura, serviu ainda, após o ano de 1945 até o inicio da década de 1970, como moradia para famílias de policiais militares que se mudavam para Joinville e ali permaneciam, fazendo das antigas celas suas casas até terem condições de procurar nova moradia. Até o momento não foi encontrado nenhum documento que oficializa publicamente a demolição do prédio. Alguns relatos apontam que a necessidade de ampliação do cemitério foi o motivo principal.

Diante do tensionamento de diferentes vozes sociais, alguns vestígios relacionados à presença do Abrigo de Alienados e aos outros usos que se deram à construção foram endereçados ao futuro, e podem ser encontrados em arquivos públicos, ou sob a posse de testemunhas (como fotos, textos, etc); outros, produtos de um processo de apagamento, viraram cinzas, ou desapareceram assim como a própria a estrutura física do prédio.

Dentro das (im)possibilidades de analisar ou comunicar um acontecimento e o exercício da exotopia que nessa dimensão temporal se implica (Zanella, 2014; Amorim, 2006), apresenta-se neste texto uma discussão sobre alguns vestígios encontrados a respeito do Abrigo de Alienados. Tais vestígios configuram-se como fragmentos de sentidos (Assmann, 2011), como um espaço, uma imagem ou uma palavra, rastros e restos da presença do lugar que abrigou, em diferentes tempos, populações consideradas infames na cidade. Esses vestígios nos fazem atentar para a interação de diferentes vozes sociais e tempos que se apresentam no arquivo de conteúdos do Abrigo de Alienados. Dedicamos nosso olhar a algumas dessas vozes, em especial as que anunciam a produção social de fama e infâmia vinculadas a esse lugar.

Tempo-espaço, Memória e Cidade

Na imersão na dimensão espaçotemporal que envolve esta pesquisa, recorre-se à discussão de Bakhtin (2003) sobre a capacidade de ler os indícios do tempo no espaço. Para o autor, tal capacidade envolve perceber o preenchimento do espaço como um cenário em contínua formação, como acontecimento.

Seja na natureza, na forma de um tempo cíclico ou nos sinais mais visíveis de períodos longos, como também nos vestígios da criação humana, como a cidade, as ruas, casas e obras de arte, o tempo mostra que não se constitui um fundo imóvel ou acabado, mas, antes, preenche o espaço em diferentes graus de intensidade (Bakhtin, 2003).

As noções de tempo e espaço são discutidas por Bakhtin (2003), que tenta visibilizar a existência de outras relações entre essas duas categorias. Nessa intenção, o autor resgata a visão artística do tempo em Goethe1, evidenciando a cultura do olhar do escritor:

Ao viajar para o Pirmont por uma estrada que passa pelo vilarejo de Einbeck, o olhar de Goethe logo percebe que cerca de trinta anos antes essa cidade tivera um excelente prefeito (Anais, p. 76). O que ele terá visto de especial? Viu muito verde, muitas árvores, percebeu seu caráter não casual, notou neles um vestígio de uma vontade humana única que agia de modo planejado, e pela idade das árvores, que ele definiu aproximadamente de vista, percebeu o tempo em que essa vontade foi realizada de forma planejada. (Bakhtin, 2003, p. 233)

Nessa passagem, destaca-se a marca essencial e viva do passado no presente da visão goethiana do tempo histórico, na qual "ruínas mortas" não se apresentam desprovidas de vínculo com a "atualidade viva" (Bakhtin, 2003, p. 234). Ao contrário, para além de uma simples continuidade temporal, Goethe entendia que a atualidade se manifesta em sua diversidade de tempos, naquilo que Bakhtin (2003) nomeia como heterogeneidade temporal, por envolver no presente "os remanescentes e embriões do passado, as tendências do futuro." (p. 227).

Por isso, as "ruínas mortas" ou o "passado nu" eram estranhos a Goethe. Ele os via como verdadeiros fantasmas do passado. Essa sua aversão ao passado "em si e para si", ou ao olhar romântico que não busca vínculo com o presente, é por ele superada na importância que passa a dar à criação de laços concretos com o presente, onde se entende o par espaço e tempo em sua mobilidade criadora, e o passado, nunca insulado, é percebido inscrevendo-se no presente através de seus vestígios (Bakhtin, 2003).

Nesse sentido, pensamos junto a Costa (2014) que os elementos da cidade, sua arquitetura, seus monumentos, suas ruas e ruínas, são vestígios que também testemunham vozes de tempos diversos e constituem nossa contemporaneidade. Como uma grande variedade de arquivos, a cidade comporta elementos que falam sobre as fronteiras que segmentam aqueles considerados ou não cidadãos; comportam os arquivos da infâmia urbana.

A leitura de um espaço onde já não restam muros ou grades que evoquem lembranças, como também – e talvez, em parte, por consequência disto – não circulam de modo evidente na cidade narrativas sobre a existência do Abrigo de Alienados, do Presídio Político e da residência para famílias de policiais militares, instigou a investigação da heterogeneidade de tempos ali presentes: quais são os vestígios da vontade humana de criação, funcionamento, fechamento e, em última instância, demolição da edificação que glorificou aquele espaço e no decorrer de algumas décadas assistiu à sua decadência e transformação em lugar de mortos? Como esses vestígios interagem entre si e constituem o cenário atual de um espaço tomado por um cemitério?

Sobre a Pesquisa: Perscrutando Histórias, Rumores, Vozes e Lacunas

Para a realização da pesquisa, rastreamos documentos que contam a história do Abrigo de Alienados em Joinville/SC. Encontramos fotografias, um cartão-postal, trechos de documentos oficiais e notícias de jornal. Com esses documentos, problematizamos o campo de produção da fama e da infâmia em relação a determinados personagens que compuseram a cena dos acontecimentos dessa instituição.

A análise dos documentos que se encontram em arquivos públicos e que visibilizam as diferentes vozes que produziram o lugar social do Abrigo de Alienados em Joinville/SC na sua época de funcionamento nos permite tensionar seu apagamento atual. Para tanto, retomamos a visão goethiana sobre a região ou a paisagem que, segundo Amorim (2006), demonstra a preocupação de Bakhtin em destacar "a existência de uma maior ou menor capacidade do texto ou do autor de revelar a indissolubilidade entre geografia (ou topologia) e a história (ou a temporalidade)." (p. 112).

Complementar a essa discussão, o conceito de exotopia relaciona-se à ideia de acabamento, da construção do todo. Na criação estética isso se torna mais claro ao saber que o artista, nas infinitas possibilidades de retratar uma imagem, encontra-se na tensão entre dois olhares, aquilo que vê e o ponto de vista do retratado; isto o coloca diante do gesto exotópico de acabamento e totalização da obra (Amorim, 2006).

Evidencia-se, por meio disso, a dimensão espacial da relação espaço-tempo, no entanto, também é possível pensar em sua implicação temporal – como a posição no tempo a qual ocupa o pesquisador que investiga outra época. Se o exercício da exotopia implica-se sempre no trabalho de fixação e enquadramento, como uma fotografia que se faz do movimento, essa objetivação produzida requer extrair-se do puro movimento; e, por assim dizer, entendemos que o autor ou o pesquisador, mesmo participando dos tempos e acontecimentos, vivenciam um outro acontecimento:  o acontecimento do próprio pensar (Amorim, 2006).

As noções de acontecimento e movimento exotópico dialogam entre si na discussão de Bakhtin sobre o artista em relação ao seu trabalho criador. Para o autor, o artista vivencia sua criação, entretanto, trata-se de um vivenciamento sob uma condição outra, que não vê ou escuta a si mesmo, mas apenas ao produto ou objeto que se visa criar; gesto exotópico que o coloca na posição de distanciamento, como um ouvinte/leitor/expectador daquilo que é produzido (Zanella, 2014).

Na vida, esse movimento de distanciamento também ocorre em relação à eventicidade da existência na tentativa de analisar um acontecimento. Da mesma forma, há que se haver com a complexidade do humano em suas (im)possibilidades da linguagem também na pesquisa que se entrelaça na escuta de testemunhos (Zanella, 2014). Sob esse viés demonstram-se os limites e as possibilidades do pesquisador que se coloca a ler o texto de determinada dimensão espaçotemporal: sua leitura faz-se a partir de um distanciamento, não apenas de um tempo outro, mas no exercício de acabamento a partir daquilo que sua própria condição permite entender.

Nos documentos de uma época passada, as palavras que um dia foram produzidas para referirem-se às vidas enclausuradas nesse espaço e ao exercício de institucionalizá-las versam sobre os tensionamentos entre a cidade e a loucura/infâmia presentes nas práticas discursivas que foram tecendo a trama de acontecimentos da história desse território. A análise desses documentos se dá a partir da perspectiva dialógica proposta por Bakhtin (2013), para quem a palavra nunca se apresenta despovoada das vozes dos outros.

Se a vida é dialógica por natureza e viver é participar de um grande diálogo, a palavra, assim como cada pensamento e cada vida, constitui resposta a diferentes vozes, encontra-se povoada de sentido, pois "é inacabável o diálogo com o sentido polifônico em formação." (Bakhtin, 2013, p. 335). Em uma tentativa de aproximar-se ao discurso que domina em determinada época e em dada corrente, proposta metodológica presente em Bakhtin (2013), buscou-se tomar cada elemento de análise "como ponto de vista da refração de forças sociais vivas" (Bakhtin, 2013, p. 312).

Na categoria de pesquisador-arquivista (Fonseca, 2014), daquele que explora as jazidas do tempo procurando produzir escuta aos rumores enterrados como forma de crítica reflexiva sobre a infâmia que se abateu sobre determinado lugar, o fazer pesquisa torna-se testemunho,

uma vez que, com sua necessária observação sensível e pacienciosa, funcionam a contrapelo do arquivo, escovam-no ao contrário das camadas dos tempos empilhados, buscando encontrar, em algum momento e em qualquer espaço, um pequeno ninho de restos que insistem e subsistem sob a densa camada dos enunciados proferidos. (Fonseca, 2014, p. 46)

A história contada apenas pelas poucas palavras redigidas nos documentos de autoridades da época fizeram-nos trabalhar em um limiar entre os resquícios que pairavam no plano do dito e aquilo que apenas uma leitura sensível, a contrapelo (Benjamin, 1994), do arquivo e suas intenções poderia fazer revelar.

Assim se construiu a forma de relacionarmo-nos com esse objeto de estudo, que se pretendeu sensível ao atentar aos pequenos achados, aos restos dessa história, porém balizada pela crítica à produção da infâmia de um tempo passado em seus laços com o presente.

A Produção Social da Fama e da Infâmia

Procurando pistas, rastros de uma existência que se erigiu – tijolo por tijolo, palavra por palavra – e foi enterrada sob o solo da cidade, sendo coberta por túmulos, a pesquisa foi realizada em diversos lugares onde se depositam os registros oficiais do passado. Nesses lugares a história que subjaz à transformação do território do cemitério municipal era recebida com desconhecimento e surpresa; as respostas não estavam dadas, mas nos inclinavam à investigação de um arquivo documental, de uma história que não estava presente no discurso das pessoas com quem conversávamos, de memórias historicamente apagadas.

O arquivo de documentos existentes permitiu à pesquisa adentrar a história de um espaço marcado pela existência da clausura. No Arquivo Histórico de Joinville e, posteriormente, no Arquivo Público do Estado (em Florianópolis), encontraram-se os enunciados que produziram no passado a institucionalização de muitas vidas, as vozes daqueles que representavam o poder político da época a contar sua versão dos fatos sobre o contexto de criação do Abrigo de Alienados, que serviria para abrigar os ditos loucos.

Entre os jornais da época, relatórios da Superintendência Municipal, atas da Câmara, correspondências e ofícios entre instâncias municipais e estaduais, essas pessoas eram retratadas como "pobres infelizes" (sic), e medidas construíam-se para tentar reparar a situação crítica em que se encontravam. Nas fichas de registro do livro intitulado "Livro de Alienados", nos registros ínfimos de suas passagens naquele lugar, palavras produziram esses sujeitos como loucos em sua época.

No entanto, dentre os vestígios não existem marcas deixadas por eles próprios a testemunhar suas experiências de clausura e nos colocar diante de suas formas de resistir ao isolamento a que eram destinados. O fato de os prontuários dos pacientes internos, se de fato existiram, não terem sido escolhidos para perdurar entre os documentos que hoje se encontram no Arquivo Municipal sobre o Abrigo de Alienados demonstra de que maneira se deu a seleção do que se gostaria de rememorar sobre essa história, e que vozes foram lançadas ao esquecimento.

Nesse contexto, passa-se a tensionar a memoração dos mortos (Assmann, 2011), direcionada aos dignos de serem lembrados e obscurecida para aqueles destinados ao esquecimento e que participaram da trama que envolveu o processo de construção e funcionamento do primeiro Abrigo de Alienados da cidade.

Para tanto, partimos da compreensão da produção da fama e da infâmia através do que Assmann (2011) nos explica sobre a memoração cultural, ou memoração dos mortos. Segundo a autora, memorar os mortos possui uma dimensão religiosa e outra mundana: a primeira, nomeada pietas, refere-se àpiedade, obrigação dos vivos de perpetuar a memória dos mortos; já a segunda, a fama, seria a memoração das glórias que cada um pode conquistar para si em tempo de vida.

A fama se volta ao futuro e às gerações que estão por vir, serve para conservar acontecimentos considerados inesquecíveis. Com ela envolveram-se os poetas da antiguidade, "funcionários da fama" que eternizaram os nomes dos heróis, inscrevendo-os na memória da posteridade, função que, mais tarde, passou a ser realizada pela imprensa. Pietas, por sua vez, remete ao passado e avança pelo esquecimento seguindo rastros soterrados. Dessa forma, produzem-se as imagens de uma segunda existência, aquela pós-morte, em que o tempo opera delineando o que se extingue ou perdura dela. Nesse contexto, passamos a entender que os vestígios de uma história se encontram indissociavelmente atrelados à recordação e ao esquecimento, àquilo que se quis lembrar ou deixar esquecido.

Na tentativa de se aproximar das diferentes vozes sociais que compuseram a trama da inauguração do Abrigo de Alienados, passamos, agora, a seguir outras pistas. Escolhemos, inicialmente, o trecho em que a nomeação da instituição é explicada no Relatório da Superintendência, em que se anuncia:

Depende da instalação de água e de algumas pequenas obras imprescindíveis ao seu bom funcionamento a inauguração do novo hospício de alienados, mandado construir e oferecido ao município pela Exma. Snra. Da. Francisca Schneider, em cumprimento a última vontade de seu finado marido, o saudoso conterrâneo Snr. Oscar Antonio Schneider. (Lobo, 1922, p. 126)

Ao mesmo tempo em que se anuncia a ação filantrópica e sua autora, Francisca Schneider, faz-se menção ao fato de tal empreendimento haver sido pensado por Oscar Schneider, um dos ex-prefeitos da cidade que faleceu sete anos antes da inauguração da instituição. A expressão "em cumprimento a última vontade de seu finado marido, o saudoso conterrâneo Snr. Oscar Antonio Schneider" nos indica que tal feito é construído em memória de alguém digno de ser recordado.

Um único fragmento da trajetória política de Oscar Schneider que se aproxima da sua ligação com o projeto da construção do Abrigo de Alienados é encontrado no Relatório da Superintendência referente ao período de sua atuação como prefeito (1907 – 1911). Em um trecho desse documento, assinado pelo mesmo, descreve-se a condição do "Hospício de Alienados", antigo prédio desativado como hospital do município onde, anteriormente à existência do Abrigo de Alienados, foram alocados os "loucos indigentes", da seguinte maneira:

O hospício, parte integrante não preenche em sentido algum as exigências estabelecidas pela sciencia2. Além de não oferecer o edifício, que serve de hospício, espaço bastante para nelle recolherem-se esses infelizes desequilibrados de suas faculdades mentaes, que no município existem, elle carece de tudo que a natureza da doença de seus reclusos exige para o tratamento especial. (...) É dever inadiável e imprescindível do Governo providenciar que seja creado um estabelecimento especial em que sejam recebidos todos os alienados existentes neste Estado. (Schneider, 1907)

Nesse enunciado não apenas se retrata a condição do lugar em que se confinavam tais pessoas, como também anuncia-se a demanda pela existência de uma instituição psiquiátrica, ou seja, um local supostamente de tratamento e não somente de moradia.

Esse registro do relatório assinado por Oscar Schneider foi o único encontrado, na pesquisa realizada no Arquivo Histórico de Joinville, dentre os relatórios assinados por demais prefeitos que cumpriram mandato anteriormente à construção do Abrigo de Alienados, a fazer menção à necessidade da criação de uma instituição psiquiátrica.

Ainda assim, entendemos que o discurso da necessidade de criação de uma instituição não se constrói a partir, apenas, de um personagem, que aqui se refere a Oscar Schneider, mas foi construído – dialogicamente – no contexto da sua época. Como nos faz pensar Agamben (2008), a enunciação presente nesses registros e documentos não se refere propriamente ao texto do enunciado, mas ao fato desse texto ter um lugar, por isso não se colhe de uma enunciação aquilo que se diz, mas o acontecimento da linguagem como tal; o puro dizer.

Nos documentos encontrados no Arquivo Público do Estado, têm-se, por exemplo, já no início do século XX, nas pautas dos planos políticos estaduais, registros sobre a necessidade da criação de uma instituição nos moldes da chegada da ciência psiquiátrica no Brasil naquele momento (Schmidt, 1901; Junior, 1905).

Como nos diz Bakhtin (2013), a consciência é essencialmente plural, ou seja, deve ser reconhecida na pluralidade de suas vozes. Isso nos leva a pensar que, para além da personificação de uma idealização, um "desejo", há outras vozes em cena – como essas presentes nos documentos estaduais, a dialogar sobre o projeto de construção de uma instituição psiquiátrica para atender à demanda de todo o Estado.

Voltamos ao documento sobre a inauguração do Abrigo de Alienados, citado inicialmente para destacar outro trecho que se dá na sequência da sua leitura, fazendo a descrição do estabelecimento prestes a ser inaugurado:

Compõem-se o prédio de um corpo principal na frente, com alas lateraes e uma ala intermediária. A ala do centro está dividida em uma sala de jantar, cozinha, um quarto, banheiro e W.C. e é destinada a direção e funcionários. A da direita em um quarto para enfermeiro, banheiro e W.C. e sete cellas e um terraço. A da esquerda possue idênticos cômodos e é destinada a doentes do sexo feminino. No corpo principal estão localizados oito quartos para doentes não agitados e duas salas destinadas à Secretaria e à Diretoria. Na parte superior do edifício foram construídos três quartos com divisões de madeira, destinados ao pessoal empregado. (Lobo, 1922, p. 126)

O Abrigo Municipal de Alienados Oscar Schneider teve sua inauguração um pouco tardia em comparação ao momento em que surgiram instituições psiquiátricas em outras regiões do país (Fontoura, 2005), e seguia, em suas características arquitetônicas, alguns ideais ligados à emergência dessas primeiras instituições nas cidades. Tais características da sua estrutura física, assim como o seu isolamento urbano, eram comuns aos primeiros manicômios que se construíram no Brasil, e condizem, em parte, com algumas sistematizações presentes em Tratados e Regulamentações construídos na França que previam especificidades do espaço manicomial, a fim de torná-lo compatível com os ideais médicos produzidos sobre a loucura. Dentre tais especificidades, requeria-se que as instituições psiquiátricas garantissem a salubridade dentro e fora da edificação, o afastamento de qualquer vizinhança para segurança e conforto de ambos os lados, uma separação mínima dos internos entre adultos e crianças e entre gêneros, o isolamento dos convalescentes e furiosos e a vigilância sobre os pacientes. Além disso, os locais para a construção deveriam "agradar à vista" e ter geometria retangular dispersiva, o que era favorável à classificação dos pacientes (Costa & Fonseca, 2008).

Ao contrário, porém, das construções de outros manicômios brasileiros que continuam fazendo parte da paisagem das cidades, mesmo com as mudanças movidas pela Reforma Psiquiátrica, essa estrutura foi totalmente demolida, o que, em parte, também contribuiu para o processo de seu esquecimento.

A respeito de Oscar Schneider, menciona-se, por último, o fato de existir uma placa de rua, presente hoje na cidade, que recebeu o nome de "Oscar A. Schneider" e se localiza em uma das vias que passa ao lado do Cemitério Municipal e dá acesso à capela.

A placa da rua, a localizar-se próxima ao local onde existiu o Abrigo de Alienados, nos soa como uma pista a indicar o nome que se quis preservar de uma história. Se a intenção tivesse sido a de homenagear o ex-prefeito pelas suas contribuições outras à cidade, aquelas relacionadas ao processo de urbanização – que, em alguns registros, encontra-se como lembrança única da sua participação política –, talvez não se tivesse escolhido a rua ao lado do espaço que no passado recebeu a instituição. Em algum momento emergiram vozes a situar o que do passado seria endereçado ao presente.

Os Rumores a Circular pela Cidade

Nas únicas notícias que fazem referência ao Abrigo de Alienados encontradas no jornal do município da época, o "Jornal Joinville", encontramos testemunhos sobre a forma como o cotidiano da instituição ressoava pela cidade. Na primeira notícia, temos o seguinte feito anunciado:

O sr. Francisco Cunha3, adiantado commerciante nesta praça, acaba de ter um gesto que, nestes tempos rudes de egoísmo, merece a mais larga divulgação e os maiores louvores. Nomeado diretor do Hospício de alienados "Oscar Schneider", pelo actual superintendente municipal, nesse cargo que não se pode dizer que seja honorífico, porque constitue um posto de incommodos e até sacrifícios, o sr. Francisco Cunha fez as respectivas despesas, na importância de 3:270$ pelo seu bolso particular. Hontem comunicou ao sr. Dr. Humberto Souza não querer ser indenizado pelos cofres municipaes, julgando-se feliz de poder concorrer para melhorar a sorte dos infelizes recolhidos ao Hospício. O sr. dr. Superintendente, na sessão de hontem, comunicou ao Conselho Municipal o bello e nobre gesto do sr. Francisco Cunha, pedindo que fosse o facto consignado na acta da sessão. ("Hospicio de alienados, Um bello gesto do seu diretor", 1927)

O texto claramente exalta a figura do então diretor do Abrigo de Alienados ao realizar doação financeira à instituição: faz isso de maneira a demarcar a contradição do belo gesto daquele que ocupa um cargo de sacrifícios, uma nobre ação destinada aos infelizes, ou seja, a construção do louvor de um personagem às custas da murmuração sobre aqueles a quem se destina tal ação. Na construção desse jogo de palavras encontra-se, de forma minuciosa, as intencionalidades de uma época, as definições conclusivas e reificadoras (Bakhtin, 2013) de determinados fatos e personagens.

A forma escolhida para retratar tal personagem é diferente da maneira como são retratados os internos do Abrigo, como veremos em seguida na publicação de uma "Nota policial" sobre uma situação de resistência por parte de uma das pessoas internas ocorrida na instituição. Mais do que retratar aos seus contemporâneos o que se passava na instituição isolada do convívio citadino, as notícias projetavam as lembranças do Abrigo de Alienados e, assim, inscreviam as (in)glórias relacionadas à sua existência na cidade.

A imprensa, nesse sentido, também contribuiu para incidir a luz da fama a determinados representantes e tornar obscuras as passagens dos ditos loucos pela confinação, cabendo àqueles que agora se debruçam a pesquisar sobre tais vidas infames recolher seus restos.

De acordo com Assmann (2011), essa é uma condição dada no processo de construção para a inclusão da memória dos mortos: de um lado tem-se a "grandeza heroica" e, por outro, a produção de vítimas do esquecimento cultural. Lembramos também de Benjamin (1994) que nos diz que "Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento à barbárie" (p. 225).

Ao invés de reafirmar a fama que tentou se construir sobre determinados sujeitos, tensionamos as diversas vozes que participaram desse acontecimento, aquelas enaltecidadas e outras emudecidas. Entre essas últimas, encontram-se, especialmente, aquelas que sofreram a experiência do confinamento no Abrigo.

Se compuseram, tais vidas infames, o mesmo acontecimento histórico de criação e funcionamento de um Abrigo de Alienados do qual participaram os demais atores envolvidos na estratégia de criação desse espaço, os enaltecidos nos registros encontrados, o que é deixado "às suas memórias" ou em cumprimento "às suas últimas vontades"?

As Vidas Mal-ditas

Passamos agora a perscrutar os rastros das vidas enclausuradas a partir de uma notícia do Jornal de Joinville, que nos conta sobre uma situação ocorrida dentro dos muros e grades do Abrigo de Alienados. A notícia narra aos citadinos um fato isolado no cotidiano da vida urbana, trazendo o contato com a estranheza daquilo que se quis deixar longe da vista "dos vivos".

Assim se relata na íntegra o acontecimento noticiado à época que ocorreu com um dos pacientes do Abrigo de Alienados:

Hontem, seriam aproximadamente 7 horas da tarde, foi recebido na Delegacia de Policia um telephonema do hospício "Oscar Schneider", solicitando urgentemente a comparência do pessoal disponível do destacamento policial, afim de obstar de João Souza, condenado por crime de morte pelo Tribunal de Jury da Comarca de Campos Novos, depois de fiado na sua corpulência e musculatura, haver praticado na Penitenciária do Estado vários atentados e depredações, foi removido para o manicômio de Joinville. Insubordinando-se há três dias, com ameaças de morte ao pessoal do Hospício, caso não lhe dessem liberdade, tornou-se necessário algema-lo e enclausura-lo no mais forte dos cubículos destinados aos loucos furiosos. Pacientemente, apezar de algemado, conseguiu fazer do cabo duma colher de estanho um afiado punhal, para depois assim armado, quebrar as algemas e investir contra as jaulas que dão para o pateo. O novo Sansão, certo de que apezar da fortaleza das jaulas, estas acabariam por ceder à força vigorosa dos músculos, o encarregado do Hospício solicitou o comparecimento da polícia, que para ali imediatamente se dirigiu. A entrada no cubículo ofereceu sérias dificuldades pois que, de punhal em punho, o sentenciado João ameaçava ferir aos que ousaram transpor as celas. O primeiro a entrar foi o soldado Carlos Silva contra quem João investiu, saltando a seguir o investigador Pedro Costa em acto contínuo as demais praças, que o subjugaram, sendo-lhes colocadas novas algemas ("Notas Policiaes", 1935).

A notícia que circula pela cidade um dia após o episódio ocorrido no Abrigo de Alienados apresenta aos leitores atentos à coluna de "Notas Policiais" o cotidiano da instituição onde habitam "loucos furiosos". Retrata-se nela uma entre tantas outras vidas enclausuradas; apresenta-se seu nome e sobrenome, e sua (criminosa) trajetória até o internamento.

Trata-se de um personagem principal de um evento que se escolheu virar notícia. Por sua "rebelião", essa vida foi digna de figurar em uma notícia do jornal, nesse caso, nas páginas policiais. Se no internamento era reconhecido por um número de prontuário, emerge, quando "insubordina-se" em relação à condição de clausura, como "Sansão"4: ressalta-se a "fama", ou melhor, a "espetacularização" da infâmia, vinculada à construção da imagem do "louco" como criminoso e perigoso.

Buscamos pensar esse personagem construído na sessão de "Notas policiaes" do jornal a partir de Foucault (2006), que, em "A vida dos Homens infames", aborda as vidas que deixaram seus ínfimos rastros de existências em poucas linhas (queixas, denúncias, ou ordens de prisão) de documentos e livros que registraram seus encontros com o poder, e no choque desses encontros foram revestidas com o "rosto da infâmia".

Nesse sentido, entendemos que esse indivíduo em confronto com diferentes instâncias do poder – choca-se com o presídio, depois com o Abrigo de Alienados, com o soldado e o investigador – deixa "sinais de si", como nos diz Foucault (2006) sobre as vidas a resistir nesse contexto. Para o autor, isso "é o que lhes dá, para atravessar o tempo, o pouco de ruído, o breve clarão que as traz até nós." (p. 208).

Deparamo-nos com essas poucas linhas de uma notícia que poderiam passar despercebidas entre tantas outras. O encontro com a mesma aproxima-nos dos restos, reais ou fictícios, de uma existência. Foucault (2006) nos faz entender que apenas pelo ruído – que ainda ressoa ao lermos tais palavras – é que essas vidas perduram em seus vestígios e, ao acaso, chegam até nós. Tomadas como personagens nos relatos que as retrataram, o autor observa que as vidas tornadas infames faziam parte de histórias reais que, por algum motivo, foram atravessadas por palavras que as anunciaram com "grandeza assustadora", ou como vidas "dignas de pena", tornando suas trajetórias obscuras e desventuradas.

A forma como se retrata no jornal a situação ocorrida, com destaque para o teor das palavras escolhidas para descrever o evento, constrói a imagem daquela cena, transforma-a numa lenda; assim, provavelmente, tal episódio ressoou pela cidade e hoje chega até nós, incapazes de distinguir entre o "clamor das palavras" e a "violência dos fatos", já que a história contada se inscreve no limiar entre o fictício e o real (Foucault, 2006).  Sem outras informações sobre esse indivíduo que foi internado no Abrigo de Alienados e sua vida, bem como sobre as condições da clausura e o acontecimento em si a que a notícia se refere, resta-nos apenas a possibilidade de sentidos outros, de escavar histórias outras.

 

Considerações Finais

As relações entre tempo e espaço, o olhar que se guia no aparente vazio ou esquecimento dessa história e busca produzir sentidos outros na implicação com os restos e vestígios de um tempo, delineiam a maneira como a pesquisa se relacionou com a memória urbana nesse contexto.

O olhar para os registros do Abrigo de Alienados procurou tensionar as diversas vozes que ali se encontram para seguir os rastros insignificantes de uma história, que correspondem a certos fatos e sujeitos que não foram considerados dignos de serem memorados, e fazer desse território um cenário em que sentidos outros encontram guarida.

Recolhendo tais insignificâncias, restos de uma existência, construiu-se o olhar ético e político que pretendeu, ao visibilizar fatos e sujeitos obscurecidos nessa trama, afirmar a presença da infâmia que se abateu sobre o lugar e compor uma escrita que privilegiasse vozes outras, silenciadas, porém que participaram ativamente do processo social de construção de sua fama e infâmia.

 

Referências

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Endereço para correspondência
Mariana Zabot Pasqualotto
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Endereço eletrônico: mariana.zabot@gmail.com
Andrea Vieira Zanella
Universidade Federal de Santa Catarina
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Endereço eletrônico: avzanella@gmail.com

Recebido em: 08/04/2020
Reformulado em: 15/04/2021
Aceito em: 19/04/2021

 

 

Notas

* Psicóloga, doutoranda no Programa de Pós-graduação em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina.
** Professora titular da Universidade federal de Santa Catarina (UFSC/Brasil).
1 Para Bakhtin (2003), as ideias de Goethe, herdeiro da época do Iluminismo (tendo-a concluído), representam o ponto culminante na literatura da passagem de uma compreensão do tempo em seu caráter cíclico às perspectivas históricas (como exemplo: o tema da idade dos homens converte-se no tema das gerações). Esta passagem ocorreu, segundo Bakhtin (2003), mais rapidamente e de forma mais profunda na criação literária do que nas concepções ideológicas abstrato-filosóficas e também históricas dos iluministas.
2 Na transcrição dos documentos preservou-se a grafia vigente à época em que se redigiram os mesmos.
3 Todos os nomes de pessoas que aparecem nas notícias de jornais neste texto foram alterados.
4 Personagem bíblico reconhecido por sua força extrema.

 

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