Estudos e Pesquisas em Psicologia
2021, Vol. 03. doi:10.12957/epp.2021.62710
ISSN 1808-4281 (online version)

 

PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO

 

O Estado da Arte da Consciência do Bebê no Primeiro Ano de Vida

 

Karen Felícia de Figueiredo Maia*; Fabíola de Sousa Braz Aquino**
Universidade Federal da Paraíba - UFPB, João Pessoa, PB, Brasil
Endereço para correspondência

 

RESUMO

O presente estudo busca ampliar o conhecimento sobre formulações contemporâneas acerca do desenvolvimento da consciência em bebês no primeiro ano de vida e suas relações com o desenvolvimento global subsequente. Realizou-se uma pesquisa documental do tipo Estudo do Estado da Arte com levantamento nacional e internacional. Os procedimentos e resultados foram organizados em eixos de análise. Os resultados demonstraram um conjunto de formulações sobre o tema os quais, de forma geral, convergiram para a compreensão do bebê humano enquanto consciente desde o nascimento, mesmo que em nível mínimo. Pesquisadores defendem que bebês exibem um ‘sentido implícito' de que são seres ativos e diferenciados de outros, expressando rudimentos de consciência. Argumentou-se que nos recém-nascidos a vida psíquica em nível rudimentar está associada ao funcionamento das estruturas subcorticais, que possibilitam a construção de processos cognitivos e afetivos cada vez mais coerentes. Ressaltaram-se diferentes níveis de consciêcia no primeiro ano de vida, especialmente por volta dos dois, seis, nove e doze meses. Esta pesquisa pode colaborar para avanços na compreensão do psiquismo de bebês nos meses iniciais do primeiro ano de vida.

Palavras-chave: desenvolvimento infantil, recém-nascido, consciência, criança.


 

The State of the Art of the Consciousness of the Baby in the First Year of Life

 

ABSTRACT

The present study aims to expand the knowledge about contemporary formulations about the development of consciousness in babies in the first year of life and its relationship with the subsequent global development. A documentary research of the Study of the State of the Art type was performed with national and international survey. The procedures and results were organized into axes of analysis. The results demonstrated an arrange of formulations about the theme which in general converged to the comprehension of the human baby as conscious since birth even if just at a minimal level. Researchers argue that babies exhibit an 'implicit sense' that they are active beings and differentiated from others, expressing rudiments of conscience. It was argued that in newborns psychic life at a rudimentary level is associated with the functioning of subcortical structures, enabling them to build cognitive and affective processes that are increasingly coherent. Different consciousness levels in the first year of life were highlighted, especially around two, six, nine and twelve months. This research can contribute to advances in the understanding of the psyche of babies in the first months of the first year of life.

Keywords: child development, newborn, consciousness, infant.


 

Estúdio Sobre el Estado de la Conciencia del Bebé en el Primer Año de Vida

 

RESUMEN

El presente estudio busca expandir el conocimiento acerca de las formulaciones contemporáneas sobre el desarrollo de la conciencia en los bebés en el primer año de vida y su relación con el desarrollo global posterior. Se realizó una investigación documental del tipo Estudio del Estado del Arte con estudiosnacionales e internacionales. Los procedimientos y resultados se organizaron en ejes de análisis. Los resultados demostraron una serie de formulaciones acerca del tema que, en general, convergían en la comprensión del bebé humano como consciente desde su nacimiento, aunque sólo en un nivel mínimo. Los pesquisadores argumentan que los bebés exhiben un "sentido implícito" de que son seres activos y distintos de los demás, expresando rudimentos de conciencia. Se argumentó que en los recién nacidos la vida psíquica en un nivel rudimentario se asocia con el funcionamiento de las estructuras subcorticales, les permitiendo construir procesos cognitivos y afectivos cada vez más coherentes. Se destacaron distintos niveles de conciencia del bebé en el primer año de vida, especialmente alrededor de los dos, seis, nueve y doce meses. Esta investigación puede contribuir para avances en la comprensión de la psique de los bebés en los primeros meses del primer año de vida.

Palabras clave: desarrollo infantil, recién nacido, conciencia, infantes.


 

 

Esta pesquisa se apoia em pressupostos da Psicologia Histórico-Cultural de Vigotski 1 (1996, 2018), que defendeu o desenvolvimento humano como um processo que envolve mudanças qualitativas, e que se estrutura de forma regular, complexa e organizada, no transcurso do tempo. A partir da Psicologia Histórico-cultural de Vigotski, Pino (2010), Souza e Andrada (2013), e Veresov (2016) asseveram que esse modelo tem como pressuposto compreender o homem em sua totalidade, demarcando o meio social como "mutável fonte principal de desenvolvimento" (Volobueva & Zvereva, 2019, p. 75).

Veresov (2016) lembra que o desenvolvimento do psiquismo humano passa por um processo de reorganização qualitativa de um sistema que engloba transições de um plano interpsicológico (sociocomunicativo) para o intrapsicológico, no qual a criança interpreta e recria sua relação com os outros demonstrando "a capacidade de realização de si no mundo externo" (p. 30). Esse processo é marcado por tensões, rupturas e crises e, de forma histórica e dialética, impulsiona a constituição de funções psicológicas superiores. Nesse estudo, focaliza-se essa discussão para um tipo específico de função psicológica a saber, a consciência.

Leontiev (1978) compreende a consciência como uma "(...) forma superior, especificamente humana da psique, que surge no processo da interação social" (p.6), constituindo, assim, o requisito mais importante no estudo da psicologia humana. Para o autor, a consciência deve ser considerada enquanto um movimento interno originário da atividade humana que se engendra em contexto cultural. Esse aspecto fundamentalmente social do psiquismo humano é defendido por pesquisadores atuais (Delafield-Butt & Trevarthen, 2015; Depertuis & Moro, 2016; Fuchs, 2013), para quem a consciência está associada aos fenômenos culturais, derivando-se, portanto, da interação com o outro. Os autores defendem que, de maneira geral, inicialmente, a atuação do sujeito no mundo, sua exploração e engajamento principalmente com cuidadores, sustenta a regulação de dinâmicas vitais para o desenvolvimento da consciência.

Vigotski (2018) propôs que "nos estágios iniciais de desenvolvimento, determinadas funções cerebrais são executadas com o auxílio dos centros inferiores, mas, no decorrer dele, as mesmas funções transitam para os centros superiores" (p. 132). Pesquisadores contemporâneos argumentam que nos recém-nascidos a vida psíquica em nível rudimentar está associada ao funcionamento das estruturas subcorticais, por meio das quais há a possibilidade de construção de processos cognitivos e afetivos cada vez mais coerentes. Com o desenvolvimento cerebral, ocorre a transição do controle dos sistemas de um nível subcortical para o cortical (Delafield-Butt & Trevarthen, 2015; Rochat, 2011).

Striano e Reid (2006) assinalam que o bebê, no primeiro ano de vida, passa por mudanças significativas no modo em que interage com outros sujeitos, entre o segundo e terceiro mês de vida. Para esses autores, "além da sensibilidade às pistas sociais já aos três meses de vida, os bebês têm habilidades para compreender a relevância de sinais sociais necessários para a aprendizagem e comunicação" (Striano & Reid, 2006, p. 471). Rochat (2011, 2019) expõe argumentos que indicam a importância de se estudar a consciência do bebê no primeiro ano de vida, especialmente recém-nascidos. Para ele, essa consciência engloba um senso de si enquanto uma unidade, habilidade primordial para a aprendizagem e desenvolvimento no início da vida. Segundo esse mesmo autor, a ideia de que os bebês humanos expressam desde o nascimento um potencial para autopercepção e rudimentos da consciência são evidências revolucionárias visto que até pouco tempo circundava no imaginário popular e científico a ideia de um recém-nascido ou bebê incapaz de sentir dor, ou que não tinha experiências fenomenológicas. Essas ideias suscitam questionamentos sobre a gênese, as configurações, teorias, e fatores que impulsionam a emergência da consciência em bebês (Legerstee, 2013).

Nessa direção, o presente estudo busca ampliar o conhecimento relativo ao desenvolvimento da consciência em bebê no primeiro ano de vida, e tem como objetivo geral levantar e analisar a produção científica nacional e internacional sobre evidências de consciência no bebê no primeiro ano de vida. Especificamente, buscou-se mapear as produções em bases de dados científicas de periódicos e banco de dissertações e teses de doutorado; levantar os modelos teóricos utilizados e os tipos de delineamentos de pesquisa realizados sobre a consciência de bebês no primeiro ano de vida; descrever os tipos de participantes de pesquisas com bebês no primeiro ano de vida; identificar os argumentos de pesquisadores da psicologia do desenvolvimento infantil sobre o período de emergência, bem como evidências de uma consciência em bebês no primeiro ano de vida; e listar de que forma a consciência vem sendo definida em pesquisas dos últimos dez anos.

 

Método

O delineamento do estudo se configura como pesquisa documental fundamentada em uma abordagem qualitativo-descritiva do tipo Estudo do Estado da Arte, o qual possui como objetivo mapear e discutir uma "produção acadêmica em diferentes campos do conhecimento, tentando responder que aspectos e dimensões vêm sendo destacados e privilegiados em diferentes épocas e lugares, de que formas e em que condições têm sido produzidas" teses, dissertações, e publicações em periódicos (Ferreira, 2002, p. 258).

Os instrumentos utilizados foram um computador com acesso à internet, o software Microsoft Word, lápis e papel para registro e organização dos estudos levantados. A pesquisa foi conduzida por meio dos descritores controlados com a estratégia de busca usando os termos Infant AND Consciousness AND Child Development nas bases de dados Web of Science, Pubmed, SciELO, Lilacs, IndexPsi, e Pepsic, bem como na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). A escolha das fontes de informações se deu com o objetivo de abranger estudos desenvolvidos em âmbito nacional e internacional. Ao longo das buscas, foi incluída também a base de dados Medline por dispor de diversos trabalhos voltados ao tema.

Como critérios de inclusão para o levantamento foram adotados: (a) estudos teóricos, de pesquisa empírica ou de pesquisa-intervenção que abordavam a temática o período de emergência, formação e teorias sobre a consciência em bebês, no âmbito da psicologia do desenvolvimento; (b) artigos indexados sem restrição de delineamento metodológico; (c) artigos, dissertações ou teses publicadas entre os anos de 2009 a 2019. Como critérios de exclusão: (a) estudos que não abordam o bebê no primeiro ano de vida; (b) pesquisas não realizadas sobre seres humanos; (c) artigos em idiomas além de inglês, português e espanhol. Foram incluídos os estudos com o texto completo disponível.

O processo de seleção das publicações se deu, inicialmente, a partir da leitura dos títulos e resumos dos estudos localizados, havendo possibilidade, portanto, de excluir aqueles que não atendiam aos objetivos da pesquisa. Em seguida, foram excluídas produções que apresentavam duplicidade. O restante do material selecionado passou por análise integral do texto.

Os dados coletados foram agrupados por similaridade de conteúdo com auxílio do software Microsoft Word. Visando uma maior organização do material obtido, as informações advindas do levantamento realizado foram organizadas em eixos de análise norteados pelos objetivos da pesquisa e pelo estudo de Albuquerque & Braz Aquino (2018). Os eixos de análise gerados foram: ano das publicações; periódicos (nacionais e internacionais); autoria e vínculo institucional dos estudos; referenciais ou modelos teóricos das pesquisas; delineamento da pesquisa; amostra e instrumentos utilizados; principais resultados e discussões dos estudos Os resultados foram discutidos considerando a teoria do desenvolvimento humano formulada por Vigotski e autores contemporâneos que se debruçam sobre a temática em pauta (Legerstee, 2013; Striano & Reid, 2006).

No que confere à quantidade de publicações identificadas nas bases de dados, foram obtidos os seguintes resultados: Medline, 55 artigos; Web of Science, 49; Pubmed, 25; Lilacs: 6; SciElo: 1; BDTD: 3. Nas bases Pepsic e Indexpsi não foram obtidos resultados. No total, as buscas resultaram em 139 estudos. Na Web of Science, não foi possível ter acesso a três dos estudos, assim como na Pubmed. Na Medline, não foi possível acessar quatro estudos.

A partir da leitura dos títulos e resumos dos 129 estudos acessados, 100 foram eliminados por não tratarem do tema proposto, atenderem delimitações diferentes do desenvolvimento típico no primeiro ano de vida, ou serem publicados em línguas além do português, inglês e espanhol. Nove outros artigos foram excluídos por duplicação. No total, 20 artigos foram selecionados para leitura detalhada e análise de dados. Durante a leitura na íntegra e análise dos materiais encontrados, dois artigos foram eliminados por não abordarem diretamente bebês nos primeiros 12 meses de vida, o que resultou no número final de 18 estudos incluídos na presente análise. Menciona-se que dentre os dezoito artigos, estão incluídos os estudos de Delafield-Butt e Trevarthen (2015) e Isler, Stark, Grieve, Welch, e Myers (2018), por explorarem a consciência de bebês com desenvolvimento típico, além de discutir especificidades do desenvolvimento atípico e de bebês pré-termo. O processo de seleção dos estudos está representado no fluxograma da Figura 1.

 


Figura 1. Fluxograma de seleção das produções.
Autoria própria.

 

 

Resultados e Discussões

Data das Publicações e Periódicos

Com relação aos anos de publicação dos estudos, a análise dos artigos indicou que, apesar da pesquisa adotar o recorte dos anos 2009 a 2019, a frequência de publicações, como apresentada na Figura 2, é oscilante, havendo a maior concentração em 2015, com cinco estudos documentados. A partir desse ano, o número caiu abruptamente para uma publicação por ano, seguindo assim até 2018, para, no ano seguinte, cessar mais uma vez. Considerando a relevância do tema da consciência infantil para o estudo do desenvolvimento humano e suas aplicações nas mais diversas áreas, o número de publicações é reduzido, especialmente se considerado que a psicologia do desenvolvimento, especialmente infantil, é de interesse da comunidade científica desde século XIX, como foi apresentado por Mota (2005) em uma análise da história da psicologia do desenvolvimento.

 


Figura 2. Frequência das publicações no período de 2009 a 2019.
Autoria própria.

 

Em relação aos periódicos nacionais e internacionais que publicaram pesquisas sobre esse tema, dois artigos constaram de periódico específico sobre a consciência (Consciousness and Cognition), e dois de periódicos do desenvolvimento (Child Development; Developmental Review). Outro periódico com duas publicações, abordou a fenomenologia (Phenomenology and the Cognitive Sciences). Dentre os dezesseis jornais identificados, dois são brasileiros (Psicologia Clínica; Psicologia em Estudo). Os demais periódicos priorizam, além de estudos cognitivos e clínicos, temas gerais da Psicologia. Apesar de todos os estudos abordarem de forma geral o desenvolvimento humano, apenas dois foram publicados em periódicos próprios desse campo. As duas publicações brasileiras referem-se a temas gerais da Psicologia. Nota-se ainda o número reduzido de periódicos relativos à Psicologia do Desenvolvimento Humano no Brasil, havendo apenas dois, conforme periódicos da Capes e portal Pepsic (Journal of Human Growth and Development e Cadernos de Pós-Graduação em Distúrbios do Desenvolvimento).

Autoria e Vínculo Institucional

Ao que diz respeito à autoria, das dezoito produções analisadas, sete são de autoria coletiva, o que indica que a maioria, onze artigos, é de autoria individual. Dos estudos de autoria coletiva, quatro foram produzidos por autores de mesma universidade, um de autores de diferentes universidades de um mesmo país, e um de colaboração entre autores de diferentes países. Com relação ao sexo dos autores, é importante destacar que a maioria dos estudos foi desenvolvida por pesquisadores do sexo masculino, totalizando dezesseis autores, em contraste com o número de pesquisadoras do sexo feminino, no caso, treze. Já nas produções brasileiras, esse dado se modifica, visto que todas foram desenvolvidas por pesquisadoras do sexo feminino, corroborando o predomínio feminino da psicologia brasileira (Lhullier & Roslindo, 2013).

No que se refere ao vínculo institucional dos autores dos estudos, em um artigo (Kopp, 2011) a autora não possuía vínculo. Em seis artigos, os autores tinham vínculo com universidades do Reino Unido. Quatro estudos foram publicados por autores vinculados a universidades dos Estados Unidos. Além disso, outros três países da Europa (Suiça, Suécia e Países Baixos) foram identificados com uma publicação cada. A América Latina e o Oriente Médio compartilham a quantidade de dois estudos, apesar de haver monopólio brasileiro na região latina, ao contrário da divisão de um artigo em Israel e um no Chipre no Oriente. Observa-se, portanto, que a produção de conhecimentos com relação a consciência do bebê no primeiro ano de vida é predominantemente ocidental e de domínio europeu, tal como se expressa pela concentração das produções acadêmicas ainda nos dias de hoje (Barros & Coutinho, 2020; Mota, 2005).

No Brasil, um artigo foi publicado por pesquisadoras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), e o outro da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, corroborando com o predomínio histórico da região Sudeste na produção acadêmica científica do país (Nunes, Alves, Ramalho, & Aquino, 2014). Além disso, pode-se argumentar que, segundo a Biblioteca Virtual de Saúde, dos quarenta e cinco periódicos de Psicologia existentes no país, vinte e sete são publicados nessa região, contrastando com os nove no Sul, e os dois no Centro-Oeste e no Nordeste.

Delineamento das Pesquisas

Na amostra total estudada, os trabalhos se dividiram entre estudos teóricos e pesquisas empíricas. Dos teóricos, dez são pesquisas teóricas exploratórias, e quatro são revisões narrativas da literatura. Dos 18 artigos, apenas quatro foram classificados como empíricos, dos quais, dois são experimentais e dois observacionais. Os  estudos experimentais foram realizados em ambiente controlado, e os observacionais foram classificados como naturalistas. De maneira geral, as publicações que abordaram a consciência do bebê são predominantemente teóricas e qualitativas. Essa prevalência pode ser justificada pelos custos financeiros e temporais envolvidos na realização de pesquisas empíricas, especialmente as experimentais (Menegatti, Pianovski, & Löhr, 2016). Diante destes resultados, afirma-se a importância da realização de pesquisas empíricas que possam colaborar com discussões de futuros estudos. As evidências decorrentes de pesquisas empíricas podem também atingir um campo mais diverso de conhecimento, no sentido de guiar a atuação de pesquisadores e profissionais da Psicologia, da Educação Infantil e demais setores comprometidos com a infância.

Amostra e Instrumentos

No que tange à amostra das pesquisas, dos quatro artigos empíricos, dois eram estudos com bebês aos 12 meses de vida (Dupertuis & Moro, 2016; Feldman, 2009), um com bebês de seis meses (Feldman, 2009), um com bebês aos três meses (Feldman, 2009), e um com bebês aos oito meses (Dupertuis & Moro, 2016). Além disso, dois outros estudos foram realizados com bebês pré-termo (Delafield-Butt & Trevarthen, 2015; Isler et al., 2018). No geral, as amostras incluiram bebês que estavam com três, seis e doze meses. Ressalta-se, no entanto, a escassez de estudos com a amostra de bebês no segundo mês de vida, um período marcante no desenvolvimento, segundo Rochat (2011).

Dois dos estudos contaram com a participação da díade mãe-bebê, um apenas com o bebê, e um com a tríade mãe-bebê-objeto. Apesar da pouca quantidade de trabalhos empíricos encontrados neste levantamento, os resultados indicam a prevalência de estudos com interação mãe-bebê nas fases iniciais do desenvolvimento. Esses dados corroboram os estudos brasileiros sobre interação inicial mãe-bebê (Menegatti et al., 2016), reafirmam a importância das interações sociais para o desenvolvimento humano, o que torna imprescindível a realização de pesquisas que explorem as possibilidades de interações de pares, bebê-objeto, e interações triádicas, utilizando diferentes desenhos metodológicos (Seidl-de-Moura et al., 2008).

Com relação aos instrumentos, três estudos utilizaram videogravações (Delafield-Butt & Trevarthen, 2015; Dupertuis & Moro, 2016; Feldman, 2009), um deles com um sistema de seis câmeras (Proreflex 500, Qualisys) e dois microfones (Delafield-Butt & Trevarthen, 2015). Um trabalho utilizou Eletroencefalograma (Isler et al., 2018). Um (Dupertuis & Moro, 2016) fez uso de software (ELAN) e brinquedos (uma boneca com conjunto de cozinha e uma caixa de brinquedo de encaixes). Um utilizou Eletrocardiograma e programa computadorizado (Feldman, 2009). Observou-se a prevalência de intrumentos de video em pesquisas que utilizam métodos qualitativos para coleta e análise de dados. Variando de acordo com os objetivos dos estudos, as diferentes metodologias combinadas denotam a complexidade dos fenômenos interativos (Menegatti et al., 2016).

Modelos e Referenciais Teóricos

Com relação aos modelos teóricos, duas pesquisas adotaram um modelo neurofisiológico e integrativo do desenvolvimento da consciência (Feldman, 2009; Isler et al., 2018). Um trouxe a perspectiva evolucionista do desenvolvimento humano (Kopp, 2011), e outro se baseou no modelo construtivista (Fiore-Correia, Lampreia, & Sollero-de-Campos, 2010). Semelhantemente, apenas um adotou uma perspectiva maturacionista (Lagercrantz, 2016) e neurológica (Weber, 2010). Três estudos adotam o modelo de desenvolvimento da autoconsciência com base no funcionamento cerebral, "brain-based model of developing self-consciousness" (Rochat, 2010, 2011, 2015a). Um trabalho apresentou uma teoria cultural da maturação do cérebro, "brain maturation-cultural theory" (Lewis, 2011), e outro defendeu uma metáfora de níveis de desenvolvimento da consciência, "onion metaphor of consciousness development" (Rochat, 2015b).

No que confere aos referenciais teóricos dos autores, destaca-se que três estudos foram embasados por ideias do desenvolvimento da consciência de Damásio (Feldman, 2009; Fiore-Correia, Lampreia & Sollero-de-Campos, 2010; Tronick & Beeghly, 2011), três pelas ideias de Zelazo (Demetriou, Makris, Kazi, Spanoudis, & Shayer, 2018; Kopp, 2011; Rochat, 2010), assim como três pelos estudos de Stern (Delafield-Butt & Trevarthen, 2015; Fiore-Correia et al., 2010; Rochat, 2015b). Dois estudos tiveram seus argumentos embasados na teoria de Vigotski (Dupertuis & Moro, 2016; Gomes, 2013); dois na teoria de Piaget (Demetriou, Makris, Kazi, Spanoudis, & Shayer, 2018; Tronick & Beeghly, 2011); dois nas de Bruner (Trevarthen, 2015; Tronick & Beeghly, 2011), e dois nas de Tronick (Trevarthen, 2015; Rochat, 2015a). Percebe-se uma diversidade téorica nos estudos analisados que abrange fundamentos ora maturacionista e neurocognitivo, ora em perspectivas cognitivistas, e outros que defendem o desenvolvimento da consciência como produto da regulação mútua de estados emocionais, além daqueles que defendem a interdependência entre a base biológica e a sociocultural.

Concepções Acerca da Consciência do Bebê no Primeiro Ano de Vida, Evidências e Períodos de Emergência

No que concerne às definições de consciência propostas nos artigos, a ideia que mais se destacou, em oito das dezoito pesquisas, foi a de que a consciência é a capacidade de perceber o próprio corpo, a si mesmo e ao mundo, ou seja, perceber sua condição de existência enquanto um ser com possibilidade de experiência com o mundo (Demetriou et al., 2018; Dupertuis & Moro, 2016; Feldman, 2009; Lagercrantz, 2015; Rochat, 2011, 2015b; Weber, 2010; Tronick & Beeghly, 2011). A isso, estariam relacionadas representações mentais, bem como o fluir da atenção.

Três pesquisas (Kopp, 2011; Rochat, 2011, 2015b) defendem a consciência enquanto um processo que varia em diferentes níveis, no sentido de uma hierarquia ou capacidade de meta-processamento e experiência do sentir. É ressaltada, em três estudos (Demetriou et al., 2018; Gomes, 2013; Trevarthen, 2015), a interconexão da consciência com a experiência afetiva, indicando-se a articulação dos afetos com os processos cognitivos: os fenômenos afetivos são afirmados como primordiais para o desenvolvimento da inteligência racional ou consciência cognitiva. Outras quatro pesquisas (Feldman, 2009; Isler et al., 2018; Lewis, 2011; Tronick & Beegly, 2011) propõem que há correlação entre a consciência e os processos de integração, capacidade de processar e integrar informações. Essas informações podem servir de base para que ocorra o desenvolvimento e aumento da capacidade de percepção da própria consciência.

Três publicações (Delafield-Butt & Trevarthen, 2015; Feldman, 2009; Kopp, 2011) definem a consciência seguindo uma visão neurobiológica, ligando-a ao funcionamento do sistema nervoso central, especialmente ao tronco cerebral e ao desenvolvimento do córtex pré-frontal. Já o aspecto social da consciência é defendido em três artigos (Delafield-Butt & Trevarthen, 2015; Dupertuis & Moro, 2016; Fuchs, 2013), percebendo-a como um fenômeno cultural e derivada da interação com o outro. Em complemento a essa discussão, dois artigos (Delafield-Butt & Trevarthen, 2015; Tronick & Beegly, 2011) referem uma compreensão da consciência enquanto geradora de significados e engajamentos.

Considerou-se relevante explorar as concepções dos autores acerca do bebê, visto ser o objeto fundamental da pesquisa. Sete estudos (Delafield-Butt & Trevarthen, 2015; Fiore-Correia et al., 2010; Gomes, 2013; Lewis, 2011; Rochat, 2011, 2015a; Trevarthen, 2015; Tronick & Beegly, 2011) concebem o bebê como um ser expressivo, responsivo, sensível e ativo, que possui disposições, intenções e representações mentais já nos primeiros meses de vida, mesmo que de forma rudimentar. Para Rochat, esse é um ponto de vista recente na área da psicologia do desenvolvimento, já que rompe com a concepção de que o bebê está em confusão ou não diferenciação com o meio, ou até mesmo tão somente responsivo a estímulos.

Considerando o desenvolvimento da consciência, dois grandes aspectos complementares se destacaram por meio das análises das discussões dos artigos: o foco na experiência e nas interações sociais, e outro em uma visão mais neurológica.

O primeiro aspecto identificado nas análises foi defendido em quinze publicações (Delafield-Butt & Trevarthen, 2015; Demetriou et al., 2018; Dupertuis & Moro, 2016; Feldman, 2009; Fiore-Correia et al., 2010; Fuchs, 2013; Gomes, 2013; Isler et. al, 2018; Lewis, 2011; Kopp, 2011; Rochat, 2010, 2011, 2015b; Tronick e Beeghly, 2011; Lagercrantz, 2015), as quais indicaram que a consciência se desenvolve a partir de processos de socialização, exploração e atuação do sujeito no mundo. Por meio de suas ações, em especial as autodirigidas, o bebê abre possibilidades de conhecer a si mesmo, o outro e o ambiente, gerando experiências que promovem o desenvolvimento mental, de habilidades, pensamento, emoções e processos de regulação e controle. As interações triádicas (adulto-bebê-objeto) permitem a aquisição de maior flexibilidade, expansão de perspectivas e internalização de dinâmicas sociais, o que favorece processos de reconhecimento e reflexão. No que se refere à relação da linguagem com a consciência, três artigos (Dupertuis & Moro, 2016; Fiore-Correia et al., 2010; Rochat, 2010) argumentam que a consciência e o pensamento se desenvolvem através da linguagem e, portanto, do processamento de elementos do mundo cultural.

Para Demetriou et al. (2018), o desenvolvimento cognitivo, parte da consciência, é responsável pela emergência de novas formas de representação e pelo aumento de associações e habilidades. Semelhantemente, Tronick e Beeghly (2011) defendem que significações a cada momento formam um estado de consciência, e que, com o tempo e reiteração, os significados se acumulam e são incorporados pela criança.

O desenvolvimento da consciência a partir de uma perspectiva neurológica, abordado em oito publicações (Delafield-Butt & Trevarthen, 2015; Feldman, 2009; Gomes, 2013; Lewis, 2011; Kopp, 2011; Rochat, 2010, 2011; Tronick & Beeghly, 2011) indica que, com o desenvolvimento cerebral, ocorre a transição do controle dos sistemas de um nível subcortical para o cortical. O processamento de informações ocorre via circuitos tálamo-corticais que envolvem principalmente o funcionamento do córtex pré-fontal, responsável pelo aumento de complexidade da consciência cognitiva e recursiva. A atividade e conectividade da rede neural aumentam com o tempo, juntamente com o nível de consciência. Com a complexidade, há também o desenvolvimento qualitativo de estruturas de controle executivo, sensório-motor e de integração afetiva.

No que tange à emergência da consciência do bebê, as análises indicam diversidade de perspectivas, havendo autores que defendem a existência de potencial para consciência desde poucas semanas de gestação, e outros que negam essa ideia, colocando essa possibilidade para o final do período pré-natal. Apesar dos embates, foram identificados diversos pontos de concordância entre os autores sobre o tema da emergência da consciência no primeiro ano de vida. Dos estudos encontrados, seis indicam que há potencial para consciência já no período fetal.

Delafield-Butt e Trevarthen (2015) propõem que na décima semana gestacional há indicação de motivação para percepção primaria de si. Rochat (2010, 2011), embasado no fato de que por volta da trigésima semana gestacional as conexões tálamo-corticais tornam-se funcionais, refere que a consciência fenomenológica e potencial para autopercepção pode estar presente nesse período. Essa proposição é também defendida por Feldman (2009) que reitera que processos regulatórios habilitam a consciência já no pré-natal. Em contraponto, Lagercrantz (2015) e Weber (2010) indicam que a consciência fetal é pouco provável já que o feto está constantemente sedado devido ao baixo nível de oxigênio e atuação de neuromoduladores inibidores.

Onze publicações referem que o recém-nascido dispõe de um senso de si e é um ser consciente, mesmo que em nível mínimo ou de maneira implícita (Demetriou et al., 2018; Fiore-Correiaet. Al., 2010; Fuchs, 2013; Gomes, 2013; Lagercrantz, 2015; Lewis, 2011; Rochat, 2010, 2011, 2015a, 2015b; Trevarthen, 2015). Já Kopp (2011, p. 181), expõe que "às duas semanas de vida, a rede padrão está incompleta". No entanto, a autora defende que durante o primeiro ano faz-se presente uma consciência corporal, parte do um degrau inicial da consciência humana, alegando também que há "aumento da ativação do córtex pré-frontal por volta de um ano de idade" (Kopp, 2011, p. 174).

No segundo mês, há um salto no desenvolvimento da consciência, como apontado em cinco artigos (Delafield-Butt & Trevarthen, 2015; Rochat, 2010, 2011, 2015a, 2015b), especificando então um diferente nível de consciência no primeiro ano de vida. A partir desse período, chamado por Rochat (2011) de revolução dos dois meses, o bebê demonstra engajamento em protoconversação e comportamentos que indicam uma intersubjetividade primária. Demonstram também diferenciação em relação aos objetos, além de manifestar propósito ou intenção nas suas ações sobre objetos e pessoas. Rochat (2015b) defende que aos seis meses, o bebê demonstra identificação de si, a partir de, por exemplo, traços da própria face. Entre o sétimo e o nono mês, há o desenvolvimento da intersubjetividade secundária, outro salto qualitativo no desenvolvimento da consciência do bebê (Delafield-Butt & Trevarthen, 2015; Dupertuis & Moro, 2016; Fuchs, 2013; Rochat, 2010, 2015a, 2015b). A partir desse período, os bebês começam a se apropriar dos usos dos objetos, demonstrando engajamento em situações de atenção conjunta e protoconversações sobre objetos e eventos. Delafield-Butt e Trevarthen (2015) indicam que nesse período os bebês demonstram mais atenção à forma e direção de seus gestos e orientações, bem como detêm maior controle consciente das próprias ações. Apresentam também maior flexibilidade cognitiva, podendo perceber e compreender sinais de intenção de outras pessoas e, por exemplo, participar de brincadeiras nas quais espontaneamente realizam inversão de papéis (Fuchs, 2013; Rochat, 2015b).

Com relação às evidências dos estudos para defender a consciência no primeiro ano de vida, o argumento mais empregado foi relativo a expressões de responsividade social, explorado em dez publicações (Delafield-Butt & Trevarthen, 2015; Depertuis & Moro, 2016; Feldman, 2009; Lagercrantz, 2015; Kopp, 2011; Rochat, 2010, 2015a, 2015b; Trevarthen, 2015; Tronick & Beegly, 2011). Essas expressões englobam principalmente engajamento em protoconversações, intersubjetividade, expectativas sociais, emergência do sorriso social, ansiedade frente a estranhos e comportamento de acordo com expectativas sociais. O experimento still face demonstra as expectativas sociais do bebê (Rochat, 2010, 2015a; Trevarthen, 2015; Tronick & Beegly, 2011), majoritariamente defendida como emergente entre o segundo e o oitavo mês de vida. Com relação às expectativas sociais, esses comportamentos ocorreriam explicitamente a partir do nono mês de vida, indicando a capacidade de planejamento (Rochat, 2010).

Outra evidência da consciência no primeiro ano de vida diz respeito à capacidade de imitação de comportamentos básicos e expressões faciais (Depertuis & Moro, 2016; Fiore-Correia et al., 2010; Lagercrantz, 2015; Rochat, 2010, 2015a, 2015b; Trevarthen, 2015; Tronick & Beegly, 2011), o que implica a capacidade de reconhecimento de faces, e habilidade de categorização. No que se refere à capacidade de autopercepção, Delafield-Butt e Trevarthen (2015) propõem que por volta da décima semana o feto apresenta movimentos direcionados a partes do próprio corpo. Rochat (2011) afirma que, pela trigésima semana gestacional, ocorrem as primeiras experiências sensoriais, possibilitando minimamente a autopercepção. Rochat (2010, 2011, 2015a, 2015b) defende que desde o nascimento, bebês discriminam, mesmo que em um nível básico, o que corresponde ao seu próprio corpo e o que corresponde a corpos externos, além de exibirem coordenação sistemática entre mão e boca. Em contraste com essas proposições, Demetriou et al. (2018), defendem que apenas a partir do quinto ou sexto mês os bebês passam a diferenciar a si mesmos dos objetos. Rochat (2010) refere que nesse período há maior grau de autopercepção e desenvolvimento relacionado à maturação do córtex cerebral.

Em quatro das publicações selecionadas foram abordadas a sensibilidade e a experiência da dor pelos bebês recém-nascidos. Lagercrantz (2015) indica que essa possibilidade da dor está relacionada ao desenvolvimento de áreas cerebrais que, no recém-nascido, apresentam maior conectividade. Três artigos (Rochat, 2010, 2011; Weber, 2011) defendem a existência dessa capacidade durante o período gestacional. O desenvolvimento do funcionamento motor e controle executivo está atrelado a mudanças das estruturas corticais e funções cerebrais durante os anos iniciais (Demetriou et al., 2018; Kopp, 2011; Rochat, 2010). Com relação ao desenvolvimento da memória, Weber (2011) defende que tem início já no útero, enquanto uma formação de memória implícita. No decorrer do primeiro ano, bebês passam a esperar sucessões de eventos com base em experiências passadas (Rochat, 2015a). Com o avançar da idade e desenvolvimento, há o aumento da atividade neural, lida por Isler et al. (2018) como consciência.

Foi verificado, portanto, através das análises e discussões dos artigos, que, de uma forma geral, a consciência vem sendo abordada na última década como uma capacidade de sentir e perceber a si mesmo enquanto um ser inserido e atuante no mundo (Demetriou et al., 2018; Dupertuis & Moro, 2016; Feldman, 2009; Lagercrantz, 2015; Rochat, 2011, 2015b; Weber, 2010; Tronick & Beeghly, 2011). Essa capacidade emerge a partir da relação do sujeito com o mundo e em interação com processos de maturação ou desenvolvimento cerebral. A consciência, portanto, é resultado de um movimento dialético que, ao longo do desenvolvimento, a torna mais complexa, profunda, nos diferenciando em relação às outras espécies. Vigotski (2018, p. 98) demarcou essa dialética e propõe que "o próprio desenvolvimento consiste na diferenciação de certas funções", inicialmente indiferenciadas no todo da consciência. Para o autor da Psicologia Histórico-Cultural, o organismo e o social estruturam sua consciência a partir da apropriação de significações (Schuster, 2016).

O bebê, enquanto objeto de estudo dessa pesquisa, foi caracterizado de forma geral enquanto um sujeito expressivo, responsivo e ativo, que explora o mundo e a si mesmo (Delafield-Butt & Trevarthen, 2015; Fiore-Correia et al., 2010; Gomes, 2013; Lewis, 2011; Rochat, 2011, 2015a; Trevarthen, 2015; Tronick & Beegly, 2011). Pode-se fazer um paralelo com as proposições de Vigotski, que compreendia o homem como um ser biológico, histórico e social, portanto, percebido como alguém que se constitui no social, que modifica e é modificado pelo meio (Schuster, 2016).

Em relação ao desenvolvimento da consciência, dois grandes aspectos complementares se destacaram nas discussões acerca do tema nos últimos dez anos. O primeiro indica que esse desenvolvimento é atrelado a experiências e interações sociais. Por meio da atuação no mundo, o bebê abre possibilidades de conhecimento e promoção de desenvolvimento mental, de habilidades, pensamento, emoções e diferenciação de funções psicológicas (Delafield-Butt & Trevarthen, 2015; Demetriou et al., 2018; Dupertuis & Moro, 2016; Feldman, 2009; Fiore-Correia et al., 2010; Fuchs, 2013; Gomes, 2013; Isler et. al, 2018; Lewis, 2011; Kopp, 2011; Rochat, 2010, 2011, 2015b; Tronick & Beeghly, 2011; Lagercrantz, 2015). Direcionando essa discussão para a Psicologia histórico-cultural, Pino (2010, p. 747) defende que para Vigotski, "a apropriação progressiva de cada uma das funções humanas (...) cria em cada uma das novas etapas dessa apropriação pela criança novas formas de ela relacionar-se com o meio social no concernente às diferentes funções humanas". Além disso, para Vigotski, o primeiro ano de vida é caracterizado pelo desenvolvimento do pensamento e a formação de conceitos (Pino, 2010).

O outro aspecto identificado nas publicações foi o desenvolvimento de consciência de acordo com uma perspectiva neurológica, havendo um consenso entre os autores de que durante o primeiro ano, a cognição e o funcionamento psicológico geral do bebê se tornam mais complexos e organizados, devido ao desenvolvimento do cérebro (Delafield-Butt & Trevarthen, 2015; Feldman, 2009; Gomes, 2013; Lewis, 2011; Kopp, 2011; Rochat, 2010, 2011; Tronick & Beeghly, 2011). O funcionamento passa, portanto, de um nível subcortical para cortical. Vigotski (2018) já havia argumentado que no curso do desenvolvimento a execução das funções passa de centros inferiores para os centros superiores. Contudo, propõe um modelo que coloca o meio cultural como fonte do desenvolvimento humano.

 

Considerações Finais

Por meio desta pesquisa verificou-se que, na última década, a consciência do bebê vem sendo abordada majoritariamente como uma capacidade de o bebê sentir e perceber a si mesmo enquanto um ser inserido e atuante no mundo. No que tange à emergência da consciência do bebê, foi identificada uma diversidade de perspectivas, assim como pontos de concordância entre os autores sobre o tema.

Entende-se que a realização de uma pesquisa do tipo Estudo do Estado da Arte contribui para uma compreensão atualizada e científica fundamentada do tema. Os resutados do levantamento demonstram a complexidade que abarca o estudo sobre a consciência do bebê no primeiro ano de vida, bem como a relevância da continuidade desses estudos para um melhor aprofundamento acerca do psiquismo infantil tanto para pesquisadores do campo da psicologia do desenvolvimento quanto para profissionais de atuam em contextos de educação infantil. Na esteira dessas considerações, afirma-se que esse tipo de pesquisa pode disponibilizar informações relevantes para a formulação de programas de intervenção em espaços públicos de educação e saúde, além de favorecer a ressignificação nas concepções de profissionais da Psicologia e da Educação Infantil acerca da consciência do bebê no primeiro ano de vida.

Aponta-se a necessidade de investimento em pesquisas nacionais acerca do tema, visto a escassez de artigos, teses e dissertações que se concentrem no estudo do psiquismo do bebê, suas habilidades e fatores que promovem ou interferem negativamente para seu desenvolvimento. Afirma-se o valor preventivo atrelado ao alcance deste estudo, por possibilitar reflexões acerca da identificação precoce de problemas na cognição social e na linguagem. Embora não tenha sido objetivo do presente estudo, menciona-se como limitações não ter inserido em seu levamento e análise pesquisas e relatos de experiência publicados em outras formas de comunicações cientificas tais como livros e Anais de Congressos de Psicologia do Desenvolvimento.

Do exposto, sugere-se a realização de pesquisas empíricas que investiguem as concepções de educacores infantis sobre o desenvolvimento da consciência de bebês no primeiro ano de vida e suas repercussões nas interações estabelecidades entre educadores e bebês, e no planejamento de atividades para esse grupo, em espaços de educação infantil. Ademais, essa pesquisa destaca sua importância para intervenções de psicólogas(os) no âmbito da Educação Infantil e para subsidiar produções de materiais informativos e publicações científicas direcionadas principalmente ao referido contexto.

 

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Recebido em: 07/10/2020
Reformulado em: 21/02/2021
Aceito em: 16/03/2021

 

 

Notas

* Estudante, graduanda pela Universidade Federal da Paraíba. Membro do Núcleo de Estudos em Interação Social e Desenvolvimento Infantil.
** Doutora em Psicologia (PPgPS, UFPB). Docente do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social (UFPB). Pesquisadora do Núcleo de Estudos em Interação Social e Desenvolvimento Infantil (UFPB).
1 Deliberou-se a utilização da grafia do nome Vigotski devido à transliteração do russo direto para a língua portuguesa, conforme utilizado por Prestes e Tunes (2012).

 

Financiamento: A pesquisa relatada no manuscrito foi financiada pela bolsa de iniciação científica da primeira autora (CNPq).

 

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