Estudos e Pesquisas em Psicologia
2021, Vol. 01. doi:10.12957/epp.2021.59380
ISSN 1808-4281 (online version)

 

PSICOLOGIA SOCIAL

 

"Suicídio?! E Eu com Isso?": Representações Sociais de Suicídio em Comentários de Usuários do Facebook

 

Lorena Schettino Lucas*; Mariana Bonomo**; Thais Assis Flauzino***; Vanessa Valentim Zamborlini****; Bruna Amorim Matos Ferreira*****
Universidade Federal do Espírito Santo - UFES, Vitória, ES, Brasil
Endereço para correspondência

 

RESUMO

Nos últimos anos, o suicídio vem se configurando como assunto de grande interesse nas mídias sociais, sendo pauta de inúmeras reportagens e debates públicos. Neste estudo, objetivou-se apreender as representações sociais de suicídio entre usuários do Facebook por meio da análise dos comentários em notícias veiculadas por jornais do estado do Espírito Santo. Foram coletados 2.803 comentários relacionados a notícias de suicídio publicadas entre 2015 e 2018. Os dados foram analisados através da Classificação Hierárquica Descendente e da Análise Fatorial de Correspondência, por meio do software Alceste. Os resultados indicaram que o campo representacional de suicídio está organizado em três representações sociais: (i) o suicídio como questão religiosa, (ii) como fenômeno associado às novas gerações, e (iii) como ato egoísta, com reflexos negativos no funcionamento das cidades e na rotina da população. Discutem-se as representações sociais de suicídio no contexto da cibercultura a partir dos processos de ancoragem e de objetivação. Observou-se que o contexto digital funcionou como canal de expressão de afetos predominantemente negativos em relação ao tema por parte dos comentaristas. Espera-se contribuir para a ampliação do debate sobre o assunto, tendo em vista a necessidade de ressignificação de práticas que ainda o remetem ao lugar de tabu social.

Palavras-chave: suicídio, representações sociais, mídia, internet, redes sociais.


 

"Suicide?! Why Would I Care?": Social Representations of Suicide on Facebook Users Comments

 

ABSTRACT

In recent years, suicide has been configured as a topic of great interest in social media, being the subject of numerous reports and public debates. In this study, the objective was to apprehend the social representations of suicide among Facebook users, through the analysis of comments in news published by newspapers in the state of Espírito Santo. Therefore,  2803 comments were collected related to suicide news, published between 2015 and 2018. The data were analyzed through the Descending Hierarchical Classification and Correspondence Factor Analysis, using the Alceste software. The results indicated that the representational field of suicide is organized in three social representations: (i) suicide as a religious issue, (ii) as a phenomenon associated with the new generations, and (iii) as a selfish act, with negative reflexes to the functioning of cities and the population routine. The social representations of suicide in the context of cyberculture are discussed from the anchoring and objectification processes. It hopes to contribute to broadening the debate on the subject, in view of the need to redefine practices that still refer it to the place of a social taboo.

Keywords: suicide, social representations, media, internet, social networks.


 

"¿¡Suicidio?!¿Y a Mí Qué?": Representaciones Sociales de Suicidio en Comentarios de Usuarios de Facebook

 

RESUMEN

En los últimos años, el suicidio se ha configurado como tema de gran interés en las redes sociales, siendo objeto de numerosos informes y debates públicos. Este estudio tuvo como objetivo aprehender las representaciones sociales del suicidio entre los usuarios de Facebook, a través del análisis de comentarios en noticias publicadas por periódicos en el estado de Espírito Santo. Fueron  recopilados 2803 comentarios relacionados con noticias suicidas, publicados entre 2015 y 2018. Los datos fueron analizados a través de la Clasificación Jerárquica Descendente y el Análisis de Factor de Correspondencia, utilizando el software Alceste. Los resultados indicaron que el campo representativo del suicidio se organiza en tres representaciones sociales: (i) el suicidio como un tema religioso, (ii) como un fenómeno asociado con las nuevas generaciones, y (iii) como un acto egoísta, con reflejos negativos en el funcionamiento de ciudades y en la rutina de la población. Las representaciones sociales del suicidio en el contexto de la cibercultura se discuten a partir de los procesos de anclaje y objetivación.  Se espera contribuir a ampliar el debate sobre el tema, en vista de la necesidad de redefinir las prácticas que aún se refieren al lugar de tabú social.

Palabras clave: suicidio, representaciones sociales, medios de comunicación, internet, redes sociales.


 

 

O suicídio é um fenômeno presente desde os primórdios da história, ocupando lugares e exercendo funções diferentes em cada civilização. Entender como as sociedades antigas lidavam com a morte autoprovocada pode auxiliar na compreensão de como ela é pensada na atualidade. Durante a Idade Média, por exemplo, a Igreja Católica, preocupada com o suicídio dos fiéis e com as possíveis perdas que isso poderia causar à instituição, condenava todos aqueles que realizam tentativas de dar fim à própria vida. Neste período, criou-se a aversão e a repulsa moral ao suicídio, que se fizeram presentes durante muitos séculos nas sociedades ocidentais (Marsh, 2010).

O tema começou a ser entendido através do viés científico apenas no século XIX, após a Revolução Industrial e as profundas transformações que ela causou nas sociedades da época. Foi em 1897 que Durkheim publicou sua obra "O suicídio: estudo de sociologia", marco científico que retirou o foco dos problemas individuais e ofereceu uma leitura a partir da dimensão social de análise do fenômeno. A partir disso, no século XX, iniciou-se o processo de descriminalização do suicídio em diversos países ao redor do mundo e, também, o seu entendimento como patologia e como problema científico, o que gerou aumento no número de pesquisas sobre o assunto (Botega, 2015).

Na atualidade, relatórios de pesquisas mostram que cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio em todo o globo anualmente, o que representa uma morte a cada 40 segundos. É uma das principais causas de morte no mundo: responde por 50% de todas as mortes violentas entre homens e 71% entre mulheres, além de apresentar taxa de 11 óbitos a cada 100.000 habitantes (Organização Mundial da Saúde [OMS], 2014). No Brasil, a taxa de mortalidade vem apresentando aumento desde o ano 2000, situando alguns estados brasileiros na categorização de taxas moderadas e elevadas (Machado & Santos, 2015). Tais números, tanto mundiais como nacionais, possivelmente não representam a totalidade dos óbitos por suicídio e podem ser ainda maiores, considerado-se o problema da subnotificação dos casos (OMS, 2014).

As taxas de óbito pelo fenômeno no estado do Espírito Santo têm apresentado aumento desde 2012, com média de 6 mortes a cada 100 mil habitantes em 2016 (Tavares et al., 2020). Os números entre grupos específicos são preocupantes, principalmente entre homens adultos. Destacam-se também as cidades do Norte e do Sul do estado por apresentarem os maiores índices relativos de suicídio, frequentemente em municípios com características semelhantes, como clima frio, colonização europeia e facilidade de acesso a agrotóxicos, devido à agricultura como principal meio de subsistência (Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo [SESA], 2017).

Ao não se restringir ao espaço privado, o suicídio coloca em evidência dois dogmas da sociedade ocidental contemporânea: o tabu da morte e o código de convivências entre público e privado (Marquetti, 2014). Simultaneamente ao processo histórico de esvaziamento do espaço público, há o interdito da morte, restringindo-a a espaços reservados e silenciosos (Kovács, 2003). Na atualidade, a "morte interdita" convive com uma forma de morrer denominada "morte escancarada", que se caracteriza como inesperada, violenta, ampliada pelos meios de comunicação e que invade a vida das pessoas de modo repentino, sem que elas possam se preparar (Kovács, 2003). O suicídio, ao se classificar como morte escancarada, causaria incômodo à vida social e questionaria as relações público-privadas, constituindo-se como ato social que revelaria a dinâmica das sociedades (Marquetti, 2014).

As tentativas de silenciamento da questão podem impedir que o tema seja amplamente debatido e deixe de ser visto como tabu (Ramos & Falcão, 2011). Tais práticas podem contribuir para a propagação de mitos e, inclusive, dificultar o seu reconhecimento social como questão de saúde pública (Müller, Pereira, & Zanon, 2017; OMS, 2014). Quanto mais a sociedade puder discutir acerca da problemática, mais o acesso às práticas de prevenção poderá ser viabilizado (Müller et al., 2017).

A discussão sobre o suicídio é necessária e deve ser pautada em cuidados éticos, principalmente quando disparada por veículos de comunicação em massa. A OMS publicou no ano 2000 um manual que trata especificamente de como o debate acerca do tema deve ser abordado em diferentes meios de comunicação. A publicação versa principalmente sobre a potencial influência da mídia como gatilho para novos casos. Em contrapartida, a divulgação responsável de informações verificadas, com conteúdo focado nas possibilidades alternativas ao suicídio, pode ter efeito positivo sobre a população (OMS, 2014).

É importante considerar a relevância dos veículos de comunicação em massa na elaboração e na propagação de significados associados ao tema, considerando o papel dos meios tecnológicos de comunicação na vida cotidiana das sociedades contemporâneas. As recomendações da OMS são direcionadas a todas as áreas midiáticas, tanto para veiculações tradicionais (como televisão e rádio) como para novos modos de divulgação de conteúdo (como a internet). A diferença principal entre as veiculações tradicionais e as novas é que, no segundo grupo, há a participação ativa do leitor, onde este faz parte da produção do conteúdo (Manovich, 2005).

Na atualidade, a internet se integra em todos os âmbitos da vida dos indivíduos, ocupando-se de objetos e paradigmas culturais que são distribuídos e expostos a partir do uso da tecnologia (Manovich, 2005). Tal maneira de se relacionar com os meios digitais encontra-se na origem da cibercultura, que se configura como produto da relação estreita entre as manifestações culturais e a tecnologia, em que o indivíduo necessita apropriar-se do meio digital e desenvolver capacidades simbólicas para a sua assimilação (Moya & Vázquez, 2010).

A identificação de elementos como trocas sociais, compartilhamento e apropriação de bens simbólicos, segmentação intragrupos, diferentes formas de sociabilidade e influências mútuas no espaço virtual fazem com que ele possa ser entendido como campo cultural (Tavira, 2016). Nesse campo, o suicídio vem se configurando nos últimos anos como objeto de interesse, sendo tema principal de manchetes, reportagens e debates (Bteshe, 2018). Dessa forma, o tema passa de um assunto pouco mencionado e restrito aos debates de especialistas para a pauta de discussões mais abertas, ainda que envolto em mitos e tabus.

A internet relaciona-se de modo ambíguo com o fenômeno do suicídio, visto que, ao mesmo tempo em que podem ser encontradas informações relativas à sua prevenção, alguns conteúdos potencialmente nocivos também são difundidos no meio online (Tavira, 2016). O Brasil lidera o ranking de países da América Latina que pesquisam o termo suicídio em sites de busca e os conteúdos disponíveis parecem chegar de maneira rápida, seja informando acerca de práticas suicidas propriamente ditas, seja disponibilizando informações sobre formas de promoção da vida (Abreu & Souza, 2017; Gomes, Baptista, Carneiro, & Cardoso, 2014).

Dentro desse processo de abertura ao debate público, o fenômeno se torna assunto a ser discutido quando noticiado em mídias específicas. As redes sociais, em especial, constituem um espaço convidativo para a participação de seus usuários. O site Facebook é a rede social mais utilizada em todo o mundo, sendo que mais de 83 milhões de usuários são brasileiros (Carro, 2016). Observa-se, portanto, que a internet desponta como dimensão que precisa ser entendida como interdependente ao meio social e cultural vigente (Tavira, 2016), bem como a tendência de uma cibercultura que reproduz e reconstrói os paradigmas sociais vigentes a partir da apropriação do senso comum (Manovich, 2005).

Em relação ao saber proveniente do senso comum, destacam-se as representações sociais, que se constituem como saber consensual e possuem importante papel na ressignificação da realidade social (Jodelet, 1989; Moscovici, 1988). Elas buscam dar sentido a fatos desconhecidos, se originam a partir da comunicação na vida diária e apresentam-se como formas de pensar e interpretar a realidade, circulando entre os grupos sociais para orientar suas posições, práticas e comportamentos em situações sociais concretas (Campos & Rouquette, 2003; Jodelet, 1984).

Em relação à sua gênese, apresentam-se dois processos fundamentais: a ancoragem e a objetivação (Trindade, Santos & Almeida, 2011). Ambos fazem referência a processos sociocognitivos, que buscam elucidar os mecanismos que tornam o não familiar em familiar (Bonomo, Cardoso, Faria, Brasil, & Souza, 2017; Moscovici, 1988). A ancoragem corresponde ao modo pelo qual os elementos de um objeto são incorporados em sistemas de pensamento pré-existentes, permitindo que o indivíduo assimile o objeto em um sistema de valores (Trindade, Santos & Almeida, 2011). A objetivação, por sua vez, é a operação estruturante que torna concreto aquilo que é abstrato, o processo pelo qual o novo objeto será simplificado e tido como dimensão naturalizada da vida social (Jodelet, 1984).

A partir das categorias simbólicas que constituem a realidade social e das relações estabelecidas entre os grupos sociais, as representações sociais podem ser classificadas em três modalidades. As primeiras são as representações hegemônicas, de cunho dominante e coercitivo, que podem ser compartilhadas por todos os membros de um grupo estruturado. As segundas, por sua vez, são as representações polêmicas, geradas a partir de conflitos sociais e que se ancoram nas relações conflituosas entre diferentes grupos. As terceiras são representações emancipadas, que refletem experiências de cooperação e solidariedade entre grupos sociais diversos (Moscovici, 1988).

Os fenômenos comunicacionais e os processos de sociabilidade envolvendo as representações sociais nos ambientes virtuais estão em constante transformação (Moscovici, 2006). As ciber-representações, ou as representações sociais na internet, seriam a condição de existência e de participação em determinada comunidade virtual, definindo o espaço público e o lugar compartilhado pelo grupo. Subentendem a realidade virtual, que não deve ser considerada apenas como um complemento da realidade, mas sim como concretização da própria representação social (Moscovici, 2006).

Em relação ao fenômeno em questão, as representações sociais de suicídio parecem ser construídas em torno das razões que poderiam levar o indivíduo a dar fim à própria vida (Cantão & Botti, 2017; Pacheco, 2016). Entre militares portugueses, por exemplo, há a compreensão da morte autoprovocada como saída para problemas irresolúveis, entendimento que também está presente entre estudantes de Psicologia e usuários de drogas (Cantão & Botti, 2017; Pacheco, 2016; Vieira & Coutinho, 2008).

Ainda que alguns autores venham contestando a ideia da depressão como causadora e precursora de tentativas de dar fim à própria vida, o transtorno integrou o núcleo central das representações de suicídio para profissionais da saúde de urgência e emergência, na atenção primária em saúde, para pessoas com problemas relacionados ao uso de drogas, e também aparece como fator associado em diversos estudos (Cantão & Botti, 2017; Hjelmeland & Knizek, 2017; Pacheco, 2016; Vieira & Coutinho, 2008).

Em algumas populações, as representações sociais de suicídio apresentaram associação com a descrença em Deus, posto que a fé é entendida como um fator de proteção, assim como o apoio familiar, o tratamento profissional e as relações afetivas (Cantão & Botti, 2017). O fenômeno, ancorado e objetivado pelo elemento morte e capaz de evocar julgamentos morais, é considerado comportamento inaceitável de desistência e de covardia (Pacheco, 2016). O indivíduo que tenta suicídio é representado, então, como louco, ao ser associado a transtornos mentais; desesperado, por conta de um sofrimento intenso; e abandonado, principalmente por familiares e amigos (Cantão & Botti, 2017; Pacheco, 2016).

A sua condição de tabu social e as práticas sociais comuns que tendem a relegar o suicídio apenas ao âmbito individual poderiam impedir o seu reconhecimento como questão concernente ao universo público (Ramos & Falcão, 2011). A Teoria das Representações Sociais, nesse sentido, poderia oferecer alternativas de intervenção, considerando que o estudo das representações sociais acerca de determinado objeto social se constitui, também, como um caminho de ação sobre ele (Jodelet, 1984).

Desse modo, reconhecendo o meio online como facilitador de diferentes modos de socialização, a participação ativa de usuários brasileiros nas redes sociais, a importância das representações sociais para a construção da realidade social e a relevância de conhecer as representações sociais de suicídio para o planejamento de estratégias de ação, este estudo objetivou apreender as representações sociais de suicídio entre usuários da rede social Facebook, através da análise dos comentários realizados em notícias sobre o tema veiculadas por jornais do estado do Espírito Santo.

 

Método

Para composição do banco de dados, foram considerados os comentários feitos por usuários da rede social Facebook em todas as notícias sobre suicídio publicadas em jornais de ampla circulação no estado do Espírito Santo. Como critério de escolha dos jornais para coleta dos dados, utilizou-se como referência o ranking de seguidores da mídia jornalística local, sendo eles: Gazeta Online (695.080 seguidores), Folha Vitória (288.160 seguidores) e Jornal ES Hoje (174.331 seguidores). Os comentários encontravam-se nas páginas dos jornais no Facebook, mais especificamente, nas notícias sobre suicídio publicadas por cada um deles, cujas reportagens eram acessíveis a qualquer usuário da referida rede social. O recorte temporal das notícias selecionadas para a obtenção dos comentários refere-se ao intervalo entre 2015 e 2018, visto que, em 2015, foi criada a campanha "Setembro Amarelo", que elegeu o mês de Setembro como período principal para a divulgação das ações de conscientização e prevenção do suicídio em todo o Brasil. Portanto, entende-se que a partir de 2015 o destaque para o tema do suicídio foi maior do que nos anos anteriores.

Para acessar as publicações das notícias, foi utilizada a ferramenta de busca disponibilizada pelo próprio Facebook. Com o descritor ‘suicídio', selecionou-se o filtro que limitava a busca às publicações feitas pelos três jornais escolhidos. Ao todo, foram selecionadas 47 reportagens, sendo 29 notícias veiculadas pelo jornal Gazeta Online, 13 pelo jornal Folha Vitória e 5 pelo jornal ES Hoje. Algumas notícias foram publicadas originalmente em uma data e divulgadas novamente meses ou anos depois, mas não foram desconsideradas porque essa replicação gerou novos comentários por parte dos usuários.

Os critérios de inclusão dos comentários foram: a) terem sido feitos em publicações de notícias relacionadas ao suicídio em um dos três jornais escolhidos; e b) apresentar conteúdo textual. Foram desconsiderados todos os comentários que não apresentaram conteúdo textual, como aqueles que continham apenas imagens e/ou figurinhas animadas. Após a aplicação dos critérios de inclusão, foi criado um banco de dados textual com os 2.803 comentários selecionados, na íntegra.

A análise do banco de dados foi realizada através da Classificação Hierárquica Descendente (CHD) e da Análise Fatorial de Correspondência (AFC), procedidas por meio do programa Alceste. O programa fornece Unidades de Contexto Elementares (UCEs), que são trechos do corpus analisado e que contêm uma quantidade reduzida de fragmentos ou palavras, reunidas a partir de um núcleo de significação. Essas UCEs contribuem para a demonstração do uso dos termos empregados nas unidades de contexto iniciais. Na CHD, os segmentos de texto são correlacionados e formam esquemas hierárquicos que possibilitam a visualização por meio de um dendrograma formado por classes estáveis e pela relação entre elas (Lima, 2008). A AFC, por sua vez, consiste no cruzamento entre vocabulário e classes e gera uma representação gráfica em plano cartesiano, na qual são vistas as oposições entre classes (Nascimento & Menandro, 2006).

Este estudo foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Espírito Santo, sob parecer de número 2967132 e CAAE de número 88752318.3.0000.5542. Respeitando, portanto, os procedimentos éticos para desenvolvimento dessa pesquisa, as UCEs não foram apresentadas na seção de resultados por se tratarem de comentários disponíveis online, cuja exposição poderia comprometer o anonimato dos comentaristas, ou seja, dos usuários do Facebook que tiveram seus comentários nas notícias de suicídio selecionados para compor o banco de dados do estudo.

 

Resultados

Através da CHD, obteve-se 83,22% de aproveitamento do banco de dados. O conteúdo dos comentários foi dividido em dois eixos, com força de ligação equivalente a 0,02: o primeiro é formado pelas classes 1 (1310 UCEs) e 3 (459 UCEs), ao passo que o segundo é formado pela classe 2 (1282 UCEs). Na Figura 1, foram considerados os 20 termos mais significativos de cada classe, escolhidos de acordo com o valor do qui-quadrado (Chi2).

 


Figura 1. Dendrograma dos eixos e classes estáveis, segundo análise da classificação hierárquica descendente.

 

O primeiro eixo, nomeado O julgamento do suicídio e composto por duas classes com força de ligação de 0,45 entre elas, diz respeito ao julgamento moral, geracional e religioso em relação às pessoas que tentam dar fim à própria vida. A classe 1, "Condenado ou absolvido: o suicida vai para o céu?", equivale a 42,94% do corpus analisado, é a maior classe e retrata o julgamento moral e religioso em torno do suicídio, através dos termos opinião, julgar e Deus. Há a teorização sobre o suicídio com base nas crenças cristãs, além da tentativa de aconselhar o indivíduo que pensa em suicídio a partir de práticas religiosas diversas. Alguns comentários utilizam as doutrinas religiosas para impor a condenação divina, defendendo a ideia de que não existiria redenção após a morte por suicídio. Neste aspecto, também se faz presente a ideia de que somente Deus seria capaz de redimir ou condenar este feito, não cabendo à sociedade realizar tal julgamento.

Em contrapartida ao entendimento do tema a partir do viés religioso e na tentativa de afastar o suicídio desta concepção, os termos depressão e doença o aproximam do discurso médico-científico e tentam legitimar a depressão como patologia tratável estreitamente ligada ao fenômeno. Os comentários trazem o entendimento de que é necessário tratamento médico para quem sofre de depressão, sendo uma das formas de prevenir mortes por suicídio. Esse discurso, portanto, visa diminuir a condenação dos que apresentam ideação suicida, tendo em vista que a situação não estaria sob controle desses indivíduos por se tratar do resultado de uma patologia.

No conteúdo da classe 1 há também a afirmação de que as pessoas, em geral, vêm perdendo a humanidade e estariam deixando de se preocupar com as questões do próximo, ensinamentos que se configurariam como base das religiões. Portanto, os comentaristas defendem a ideia de que é necessária a atenção com quem está ao seu redor, alerta evidenciado em termos como filho, familiar, amigo e pessoa, como aqueles que precisam de ajuda.

A classe 3, intitulada ""Geração fraca": por que os jovens jogam com a vida?" corresponde a 15,04% do corpus analisado e traz o debate intergeracional vinculado às concepções a respeito da nova geração de adolescentes e crianças. As comparações valorativas entre as infâncias e adolescências da atualidade e as do passado aparecem nos termos mente, casa, lavar, falta, surra e trabalhar, que estão presentes nos confrontos entre os jovens dos dias atuais (que teriam a mente vazia, viveriam no celular e no computador e, por isso, pensariam em suicídio, segundo os comentários) e os usuários, que quando jovens tinham suas mentes ocupadas com estudo, tarefas domésticas e trabalho.

A ocorrência de termos como Baleia Azul, celular, computador, desafio, jogo e brincadeira demonstram a relação estabelecida entre o suicídio e o fácil acesso à tecnologia nos dias atuais. Há o entendimento de que a tecnologia, de forma geral, contribui para o engajamento de crianças e adolescentes em situações de risco para o suicídio. O termo pais surge ao se falar sobre a responsabilidade e vigilância dos jovens e a importância da restrição aos meios eletrônicos.

O segundo eixo, denominado "O suicídio na Terceira Ponte", equivale a 42,02% do corpus analisado e é constituído pela classe 2, nomeada "Grades de proteção: devemos intervir ou não?". O eixo trata das considerações acerca das tentativas de suicídio na Ponte Deputado Darcy Castello de Mendonça, popularmente conhecida como Terceira Ponte, que liga Vitória, capital do estado do Espírito Santo, à cidade de Vila Velha. Os termos tela, vidro, proteção, rede, resolver e colocar fazem referência à possibilidade de criação de barreiras físicas na Terceira Ponte com o objetivo de prevenir o suicídio nesse local. Nesta discussão existem diferentes posicionamentos: as opiniões favoráveis à colocação das barreiras físicas, as quais baseiam-se na premissa de que esta intervenção auxiliaria na diminuição dos números de suicídio, ao passo que os posicionamentos contrários à instalação defendem a ineficiência das barreiras, apoiados na ideia de que as pessoas procurariam outro meio ou outro lugar para tentarem suicídio.

A classe 2 também apresenta o sentimento de incômodo que os episódios de tentativas de suicídio na Terceira Ponte podem causar. Os comentários citam as possíveis interferências na vida cotidiana da população: o termo carro faz alusão ao trânsitoparadonos momentos de resgate e à impossibilidade de deslocamento pela via. A busca de corpos nomar é entendida como medida que envolve gasto de dinheiro, ao passo que a preocupação com o aumento do valor do pedágio, caso as barreiras sejam instaladas, também se refere a gastos financeiros envolvidos nessa questão.

Complementarmente à CHD, a AFC permite a visualização da dinâmica entre os significados que compõem o campo representacional referente ao objeto social suicídio a partir de relações opositivas (conforme Figura 2). No fator 1 (eixo horizontal), nomeado de Causas e desdobramentos do suicídio para a população por conter comentários sobre o que deveria ser feito para evitar o suicídio, encontram-se os seguintes polos: à esquerda, Quem se suicida e por quê?, e à, direita, O que fazer em relação aos suicídios na ponte?. No eixo vertical (O suicídio como problema social), por sua vez, encontram-se em oposição os polos Familiaridade (polo superior) e Distanciamentos (polo inferior).

 


Figura 2. Análise Fatorial de Correspondência

 

No eixo horizontal destacam-se elementos dos comentários que caracterizam a pessoa que se suicida, as possíveis causas do suicídio para os comentaristas e sugestões sobre medidas interventivas. De um lado, há ênfase no que levaria alguém a tentar suicídio e a atribuição de características a essa pessoa (polo esquerdo), e, do outro lado, o ponto central do debate seria sobre o que fazer para se evitar o suicídio (polo direito).

No polo à esquerda (Quem se suicida e por quê?), constam termos que representam a posição dos comentaristas em relação ao sujeito em sofrimento, a partir: 1) da perspectiva de ajuda/apoio ou por meio da educação, como forma de acolhimento do sujeito que sofre; e 2) da caracterização da pessoa que tenta suicídio, seja pela associação do ato suicida a um grupo específico (como os jovens), ou pela menção a possíveis relações de familiaridade com essa pessoa (como amigo e filho). Desta forma, esse polo trata de contextos mais voltados à vida privada (como a família) e a ações individuais em relação à pessoa que se suicida ou tenta suicídio. Há ainda a elaboração de conteúdo a fim de explicar por que uma pessoa recorreria ao suicídio: baseado em um discurso geracional, define-se a geração juvenil atual como fraca e deprimida, como tendo a cabeça vazia, e sendo facilmente influenciada pela internet, jogos, desafios e séries.

Já no segundo polo (O que fazer em relação aos suicídios na ponte?), à direita, observam-se as tomadas de posição sobre o que fazer frente ao suicídio na Terceira Ponte. A discussão manifesta-se centrada nas consequências geradas por atos suicidas nesse local e em possíveis intervenções, como a instalação de redes de proteção ou telas. Neste polo, o suicídio aparece como uma questão prática, em que são debatidas algumas medidas para evitar novos casos nesse local.

No segundo fator (eixo vertical), denominado O suicídio como problema social, é possível observar aproximações e distanciamentos sobre a temática em questão. No polo superior (Familiaridade) destaca-se a postura de acolhimento ao sujeito que sofre, visto que este é reconhecido como alguém próximo, podendo ser um filho ou amigo (filho, conhece, próximo, amigo e seu). Como qualquer sujeito estaria suscetível ao sofrimento e, por conseguinte, poderia precisar de uma rede de apoio, manifestam-se nos comentários conteúdos que retratam o exercício da empatia, ressaltando a ajuda como central na forma de lidar com o fenômeno do suicídio.

No polo inferior (Distanciamentos), o suicídio é visto como um problema social. Na discussão sobre a instalação de uma barreira física na terceira ponte, o suicídio é descrito como um problema por necessitar de intervenção e por gerar gastos para o governo e transtorno para a população, segundo os comentaristas. No debate, o fenômeno é representado ainda como falha da sociedade, que teria criado uma geração vulnerável e enfraquecida. Nessa atribuição de causalidades, identifica-se tentativa de distanciamento dos comentaristas em relação ao sofrimento dos indivíduos e afastamento da possibilidade de o suicídio fazer parte de sua vida, configurando-se como questão dos outros e para os outros.

 

Discussão

O estudo teve como objetivo analisar as representações sociais de suicídio nos comentários dos usuários do Facebook em reportagens sobre o tema, em três jornais do estado do Espírito Santo. Entendendo que as representações sociais são construídas a partir de práticas sociais de indivíduos vinculados a diferentes grupos socioeconômicos e culturais e que as comunidades eletrônicas são formadas por pessoas que discutem sobre diversos objetos sociais da vida cotidiana, percebe-se que esse meio social composto pelos usuários é o sujeito da representação que se analisa nas manifestações sociais do espaço virtual em questão (Moya & Vázquez, 2010).

Cada classe semântica identificada através da CHD pode ser considerada uma representação sobre objeto social suicídio, considerando que o conjunto de classes está organizado em um sistema que reflete a estabilização da atividade dos sujeitos enunciadores (Lima, 2008). Esta investigação demonstrou que o campo representacional referente ao suicídio está organizado em três representações sociais principais, que, ao armazenar e partilhar crenças estruturantes e integrar as experiências individuais (Campos & Rouquette, 2003), retratam o suicídio como questão concernente à religião, como fenômeno associado às novas gerações e como ato egoísta com reflexos negativos no funcionamento das cidades.

Enquanto fenômeno associado a "jovens fracos e desocupados", o suicídio ancora-se no conflito intergeracional entre duas gerações de forma predominantemente negativa (Campos & Rouquette, 2003). Os usuários entendem as pessoas que tentam o suicídio como transgressoras, não dignas de compaixão e cuidado, ao mesmo tempo em que trazem o fenômeno como pecado sem possibilidade de arrependimento ou absolvição divina. Tais imagens estão em conformidade com estudos de representações sobre o tema realizados em outros contextos (Cantão & Botti, 2017) e podem ser indicativos dos valores apreciados entre a população estudada.

Ancorada na dimensão religiosa está a compreensão do assunto como fenômeno que não deveria ser julgado pelos homens, tendo em vista que a sua condenação ou absolvição é decisão que compete unicamente às entidades divinas. Esta representação emancipada (Moscovici, 1988) apresenta autonomia em relação ao segmento que a produz e desempenha função complementar de solidariedade por parte dos comentaristas. As representações sociais emancipadas são o resultado da comunicação entre grupos, não apresentam teor coercitivo e podem gerar práticas de solidariedade (Moscovici, 1988). Aparece em contrapartida à condenação do suicídio pelas instituições religiosas e à concretização de sua imagem como pecado, e é resultado do compartilhamento do conjunto de interpretações a respeito do suicídio pautado nos ensinamentos religiosos referentes à fraternidade e amor ao próximo.

A associação do suicídio com os transtornos mentais, principalmente com a depressão, é outra questão que se destaca. A imagem do suicídio como consequência do estado depressivo ancora-se nos conhecimentos científicos das ciências da saúde e nos seus sintomas clínicos (Vieira & Coutinho, 2008). Tal concepção, em consonância com os achados da literatura (Cantão & Botti, 2017), aparece como tentativa de sensibilizar e atenuar o julgamento condenatório do suicídio. Essa dinâmica demonstra ambiguidades no campo representacional e orienta diferentes tomadas de posição, uma vez que o indivíduo que tenta suicídio é visto ora como alguém que precisa de ajuda, ora como pecador que não é digno de solidariedade.

No discurso geracional, o afastamento do suicídio ocorre por meio da comparação valorativa entre as gerações. Os comentários que se referem ao fenômeno em crianças e adolescentes organizam um campo representacional negativo (Campos & Rouquette, 2003), onde o suicídio é visto como característica de uma juventude fraca, influenciável e desocupada. Tal imagem dos jovens parece estar ancorada no confronto entre: a) a geração dos usuários, punida por meio de repressões físicas e ocupada pelas tarefas domésticas, pelo trabalho e pelos estudos; e b) a nova geração, que é entendida como privilegiada e, consequentemente, enfraquecida. Portanto, como representação social polêmica, parece decorrer de um conflito social intergeracional, produzido por relações sociais antagônicas no contexto de oposição entre as duas gerações em questão. As representações polêmicas (Moscovici, 1988) são resultantes de conflitos sociais e de disputas entre grupos, e ancoram-se em grupos antagônicos. Conforme dados apresentados, manifesta-se na dinâmica do fenômeno em estudo uma contradição dialógica que concebe o suicídio em crianças e adolescentes como reflexo de uma falha social, mas que, ao mesmo tempo, o categoriza como consequência da falta de esforço pessoal. Assim, o jovem que tenta tirar a própria vida é visto como ingrato e preguiçoso por não superar tal falha social, além de não valorizar as oportunidades e facilidades que foram conquistadas pelas gerações anteriores.

Na discussão sobre as ocorrências na Terceira Ponte, a compreensão acerca do suicídio parece basear-se na impulsividade do ato e ancorar-se na imprevisibilidade da morte. O conteúdo imagético relacionado à Terceira Ponte suscita a ideia de inevitabilidade do suicídio, uma vez que essa representação está ancorada no elemento morte, e esta, por sua vez, é entendida como fenômeno irreversível e inerente à vida humana (Vieira & Coutinho, 2008). Especificamente neste debate, faz-se presente a concepção de que quem quer suicidar-se encontra outras formas para atingir tal objetivo quando algum meio não lhe é acessível, ainda que esta concepção já tenha sido contestada por diversos estudos acerca do fenômeno (OMS, 2014). Seguindo este raciocínio, as intervenções nesse local são consideradas inúteis por parte dos comentaristas, uma vez que as pessoas, teoricamente, tentariam contra a própria vida de outras formas.  Portanto, tal representação do suicídio, ancorada na inevitabilidade da morte, orienta a tomada de posição contrária à colocação de barreiras físicas na Terceira Ponte por uma parcela dos comentaristas.

Ainda em relação às ocorrências na Terceira Ponte, os episódios de suicídio neste local mobilizam afetos negativos (Campos & Rouquette, 2003). A pessoa que tenta o suicídio é vista como incômodo, como alguém que gera gastos para o Estado (e, consequentemente, para a população), atrapalha a livre circulação das pessoas e prejudica a vida do cidadão capixaba, residente na Grande Vitória, de forma geral. Aquele que tenta suicídio neste local é, portanto, considerado egoísta por não levar em consideração as consequências sociais deste acontecimento.

A representação da pessoa que tenta suicídio na Terceira Ponte como egoísta e a sua carga afetiva predominantemente negativa podem estar associadas à concepção de que o espaço público não é apropriado para o ato suicida. O lugar a ser ocupado pelo suicídio como tabu deve ser aquele restrito ao privado, ao oculto e ao silencioso, sem que incomode ou que interrompa o cotidiano da população. Quando há a possibilidade de aproximação da comunidade com o suicídio, a partir das tentativas na Terceira Ponte, há a pressão para a volta à uniformidade rotineira e a evocação de julgamentos morais. O suicídio é, então, entendido como atentado violento, agressivo e misterioso, e o sentimento de repulsa desencadeado por tais episódios na Terceira Ponte é utilizado como forma de manter a ordem social (Kovács, 2003).

Por ancorar-se em sistemas de pensamentos que o associam à inevitabilidade da morte, o suicídio é rejeitado pelo contexto social em questão por aproximar os indivíduos da própria finitude. A própria morte se torna mais possível, mais real e mais materializada através da familiarização do suicídio proporcionada pelos processos de ancoragem e de objetivação. A percepção da própria finitude pode desencadear sentimentos de temor e pavor, portanto, os conhecimentos que evocam a fragilidade humana tendem a ser reprimidos (Kovács, 2003). O esforço de manter o suicídio afastado caracteriza-se como intento de defesa de si e dos pares, daquilo que é entendido como pecado, inevitável e característico de pessoas egoístas, fracas e desocupadas.

Esta tentativa de afastamento do suicídio fornece bases para o posicionamento social de isenção de responsabilidade com a vida do indivíduo que tenta findar a própria vida. Como o ato deste indivíduo é temido pelo meio social por trazer à tona a finitude e a fragilidade humanas, ele passa a ser visto como incômodo, desviante, egoísta e desocupado. Estes estereótipos negativos baseiam-se na esfera afetiva e estimulam a criação de preconceitos (Bonomo, et al, 2017), que foram percebidos, neste estudo, através do julgamento condenatório do suicídio e da isenção de responsabilidade social com quem tenta cessar a própria vida. Por fim, observou-se neste processo que o contexto digital funcionou como canal de expressão de afetos predominantemente negativos por parte dos comentaristas, suscitados por este fenômeno que não é tolerado pelo meio social em questão (Jodelet, 1984).

 

Considerações Finais

Este estudo objetivou apreender as representações sociais de suicídio entre usuários da rede social Facebook, através da análise dos comentários realizados em notícias sobre o tema veiculadas por jornais do Estado do Espírito Santo. Os resultados apontaram para a organização do campo representacional referente ao suicídio a partir de três representações sociais principais, que são responsáveis por gerar e orientar outras representações associadas ao fenômeno em análise (Moscovici, 1988). Os sujeitos da representação discutem o suicídio como questão concernente à religião, como fenômeno associado às novas gerações e como ato egoísta com reflexos negativos no funcionamento das cidades e na rotina da população do estado do Espírito Santo.

É importante salientar que a pesquisa com coleta de dados na internet se restringe, em grande parte dos casos, à população que conta com o acesso à internet e que pode não ser representativa da população geral. Este estudo, ainda, limita-se à rede social Facebook e à população que a utiliza como forma de acessar os principais veículos midiáticos do estado do Espírito Santo. Os resultados encontrados, por sua vez, estão de acordo com a literatura da área, o que aumenta a validade da investigação realizada.

Reitera-se a importância de novas investigações que considerem a cibercultura nos estudos acerca do suicídio, principalmente em relação ao campo afetivo, tendo em vista que o meio virtual é, em si, a concretização da própria representação e um dos locais onde conhecimentos e informações são apropriados e reconstruídos coletivamente (Moscovici, 2006).

 

Referências

Abreu, T. O., & Souza, M. D. (2017). A influência da internet nos adolescentes com ações suicidas. Revista Sociais & Humanas, 30(1), 158-173. doi: 10.5902/2317175825868

Bonomo, M., Cardoso, G. K. A, Faria, J. M. G., Brasil, J. A., & Souza, L. (2017). Os eternos estrangeiros: Contato, campo afetivo e representações sociais de ciganos entre não ciganos da grande Vitória/ES. Pesquisas e Práticas Psicossociais, 12(3), 1-19. Recuperado de http://www.seer.ufsj.edu.br/index.php/revista_ppp/article/view/2615

Botega, N. J. (2015). Crise Suicida: Avaliação e manejo. Porto Alegre: Artmed.

Bteshe, M. (2018). O suicídio na mídia: Reflexões para o cuidado em saúde mental. Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde, 12(3), 252-257. Recuperado de https://www.reciis.icict.fiocruz.br/index.php/reciis/article/view/1597/2222

Campos, P. H. F., & Rouquette, M. L. (2003). Abordagem estrutural e componente afetivo das representações sociais. Psicologia: Reflexão e Crítica, 16(3), 435-445. doi: 10.1590/S0102-79722003000300003

Cantão, L., & Botti, N. C. L. (2017). Representação social do suicídio para pessoas com problemas relacionados ao uso de drogas. Avances en Enfermería, 35(2), 148-158. doi: 10.15446/av.enferm.v35n2.61014

Carro, R. (2016). Analysys by country: Brazil. In N. Newman, R. Fletcher, D. A. L. Levy, & R. K. Nielse (Orgs.), Reuters Institute digital news report 2016 (pp. 82-83). Oxford: Reuters Institute for the study of Journalism. Recuperado de https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/sites/default/files/research/files/Digital%2520News%2520Report%25202016.pdf

Gomes, J. O., Baptista, M. N., Carneiro, A. M., & Cardoso, H. F. (2014). Suicídio e internet: Análise de resultados em ferramentas de busca. Psicologia & Sociedade, 26(1), 63-73. doi: 10.1590/S0102-71822014000100008

Hjelmeland, H., & Knizeth, B. L. (2017). Suicide and mental disorders: A discourse of politics, power, and vested interests. Death Studies, 41(8), 481-492. doi: 10.1080/07481187.2017.1332905

Jodelet, D. (1984). La representación social: Fenómenos, concepto y teoría. In S. Moscovici (Org.), Psicología Social II: Pensamiento y vida social, Psicología Social y problemas sociales (pp. 469-494). Barcelona: Paidós.

Jodelet, D. (1989). Folie et représentations sociales. Paris: PUF.

Kovács, M. J. (2003). Educação para a morte: Tema e reflexões. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Lima, L. C. (2008). Programa Alceste, primeira lição: A perspectiva pragmática e o método estatístico. Revista de Educação Pública, 17(33), 83-97. Recuperado de http://132.248.9.34/hevila/Revistadeeducacaopublica/2008/no33/6.pdf

Machado, D. B., & Santos, D. N. (2015). Suicídio no Brasil, de 2000 a 2012. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 64(1), 45-54. doi: 10.1590/0047-2085000000056

Manovich, L. (2005). Novas mídias como tecnologia e ideia: Dez definições. In L. Leão (Org.), O chip e o caleidoscópio: Reflexões sobre as novas mídias (pp. 24-50). São Paulo: Senac.

Marquetti, F. C. (2014). O suicídio e sua essência transgressora. Psicologia USP, 25(3), 237-245. doi: 10.1590/0103-6564D20140006

Marsh, I. (2010). Suicide: Focault, History and Truth. Cambridge: University Press.

Moscovici, S. (1988). Notes towards a description of Social Representations. European Journal of Social Psychology, 18(3), 211-250. doi: 10.1002/ejsp.2420180303

Moscovici, S. (2006). Memórias, rituais e ciber-representações. In F. Casalegno (Org.), Memória Cotidiana (pp. 70-83). Porto Alegre: Sulina.

Moya, M., & Vázquez, J. (2010). De la Cultura a la Cibercultura: la mediatización tecnológica en la construcción de conocimiento y en las nuevas formas de sociabilidad. Cuadernos de Antropología Social, (31), 75-96. Recuperado de https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=180915525004

Müller, S. A., Pereira, G., & Zanon, R. B. (2017). Estratégias de prevenção e pósvenção do suicídio: Estudo com profissionais de um Centro de Atenção Psicossocial. Revista de Psicologia da IMED, 9(2), 6-23. doi: 10.18256/2175-5027.2017.v9i2.1686

Nascimento, A. R. A., & Menandro, P. R. M. (2006). Análise lexical e análise de conteúdo: uma proposta de utilização conjugada. Estudos e Pesquisas em Psicologia, 6(2), 72-88. Recuperado de http://pepsic.bvsalud.org/pdf/epp/v6n2/v6n2a07.pdf

Organização Mundial da Saúde. (2014). Preventing Suicide: A Global Imperative. Estados Unidos: Organização Mundial da Saúde. Recuperado de http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/131056/1/9789241564779_eng.pdf?ua=1&ua=1

Pacheco, J. R. F. (2016). Representações sociais do suicídio em futuros Comandantes de Polícia (Dissertação de Mestrado). Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna, Lisboa, Portugal. Recuperado de: https://comum.rcaap.pt/bitstream/10400.26/15559/1/Disserta%c3%a7%c3%a3o%20-%20Joaquim%20Pacheco.pdf

Ramos, I. N. B., & Falcão, E. B. M. (2011). Suicídio: Um Tema Pouco Conhecido na Formação Médica. Revista Brasileira de Educação Médica, 35(4), 507-516. doi: 10.1590/S0100-55022011000400010

Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo. (2017). Boletim Epidemiológico: Vigilância das doenças e agravos não transmissíveis. Espírito Santo: Autor. Recuperado de https://saude.es.gov.br/Media/sesa/DANTS/BOLETIM%20VIGILANCIA%20DAS%20DANTs_.pdf

Tavares, F. L., Borgo, V. M. P., Leite, F. M., C. L., Cupertino, E. G. F., Pereira, J. A., Alves, R. N. R., & Rosa, M. (2020). Mortalidade por suicídio no Espírito Santo, Brasil: Análise do período de 2012 a 2016. Avances en Enfermería, 38(1), 66-76. doi: 10.15446/av.enferm.v38n1.79960

Tavira, L. V. (2016). Sofrimento Psíquico e Comportamento Suicida em uma página do Facebook (Dissertação de Mestrado). Universidade de Brasília, Brasília, Brasil. Recuperado de http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/22579/1/2016_LarissaVasquesTavira.pdf

Trindade, Z. A., Santos, M. F. S., & Almeida, A. M. O. (2011). Ancoragem: Notas sobre consensos e dissensos. In A. M. O. Almeida, M. F. S. Santos, & Z. A. Trindade (Orgs.), Teoria das Representações Sociais - 50 anos (pp. 41-75). Brasília: Technopolitik.

Vieira, K. F. L., & Coutinho, M. P. L. (2008). Representações sociais da depressão e do suicídio elaboradas por estudantes de Psicologia. Psicologia: Ciência e Profissão, 28(4), 714-727. doi: 10.1590/S1414-98932008000400005

 

 

Endereço para correspondência
Lorena Schettino Lucas
Universidade Federal do Espírito Santo
Programa de Pós-Graduação em Psicologia
Avenida Fernando Ferrari, 514, Goiabeiras, Vitória, ES, Brasil. CEP 29075-910
Endereço eletrônico: lorenaschettino@hotmail.com
Mariana Bonomo
Universidade Federal do Espírito Santo
Programa de Pós-Graduação em Psicologia
Avenida Fernando Ferrari, 514, Goiabeiras, Vitória, ES, Brasil. CEP 29075-910
Endereço eletrônico: marianadalbo@gmail.com
Thais Assis Flauzino
Universidade Federal do Espírito Santo
Programa de Pós-Graduação em Psicologia
Avenida Fernando Ferrari, 514, Goiabeiras, Vitória, ES, Brasil. CEP 29075-910
Endereço eletrônico: thaisassisflauzino@gmail.com
Vanessa Valentim Zamborlini
Universidade Federal do Espírito Santo
Programa de Pós-Graduação em Psicologia
Avenida Fernando Ferrari, 514, Goiabeiras, Vitória, ES, Brasil. CEP 29075-910
Endereço eletrônico: zamborlinivanessa@gmail.com
Bruna Amorim Matos Ferreira
Universidade Federal do Espírito Santo
Programa de Pós-Graduação em Psicologia
Avenida Fernando Ferrari, 514, Goiabeiras, Vitória, ES, Brasil. CEP 29075-910
Endereço eletrônico: bru.amf@gmail.com

Recebido em: 30/10/2019
Reformulado em: 02/06/2020
Aceito em: 04/07/2020

 

 

Notas

* Psicóloga, graduada pela Universidade Federal do Espírito Santo, Mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo, professora da Faculdade Multivix Vila Velha.
** Psicóloga, graduada pela Universidade Federal do Espírito Santo, Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo, professora da Universidade Federal do Espírito Santo.
*** Graduanda em Psicologia na Universidade Federal do Espírito Santo.
**** Graduanda em Psicologia na Universidade Federal do Espírito Santo.
***** Graduanda em Psicologia na Universidade Federal do Espírito Santo.

 

Financiamento: A pesquisa relatada no manuscrito foi financiada pela bolsa de mestrado da primeira autora (CAPES, No. Processo 1712565, Código de financiamento 001) e pela bolsa de PIBIC concedida à terceira autora (UFES, No. Processo 23068.000184/2019-47).

 

Este artigo de revista Estudos e Pesquisas em Psicologia é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Não Comercial 3.0 Não Adaptada.



Licença Creative Commons
A revista Estudos e Pesquisas em Psicologia esta licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Não Comercial 3.0 Não Adaptada.

 

Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Instituto de Psicologia
© Estudos e Pesquisas em Psicologia
Rua São Francisco Xavier, 524, bloco F, sala 10.005, 10° andar, CEP 20550-013, Rio de Janeiro-RJ, Brasil
Telefone: (21) 2334-0651

E-mail: revispsi@gmail.com