EDITORIAL

 

Laura Cristina de Toledo Quadros*, I; Eleonôra Torres Prestrelo**, I; Luciana Bicalho Cavanellas***, II; Luciana Loyola Madeira Soares****, III

I Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
II Fundação Oswaldo Cruz - Fiocruz, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
III Centro Universitário Celso Lisboa - UCL, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

Endereço para correspondência

 

 

Há exatos 10 anos, publicávamos nessa mesma revista o primeiro dossiê da abordagem gestáltica marcando não apenas o amadurecimento do espaço que a Gestalt-terapia conquistou na UERJ, como também a ampliação de seu alcance em outras universidades pelo país afora. Foi um momento importante para conhecermos outros trabalhos e contribuirmos para a consolidação da produção científica da abordagem gestáltica. Faz-se fundamental ressaltar que nossa abordagem traz um certo ar rebelde, seguindo rastros de uma contracultura que questiona o instituído e busca outros caminhos para a compreensão do mundo. Portanto, o que compreendemos como ciência parte de uma noção não linear, não cartesiana, permitindo-nos criar modos de pesquisar mais abertos e vivos, abrangendo tanto a multiplicidade dos fenômenos a nossa volta quanto a singularidade de suas formas e modos de existir.

Para esse novo dossiê, trazemos como proposição "O cuidado e as práticas gestálticas - reflexões contemporâneas", considerando a relevância dessa temática na atualidade, uma vez que ela nos convoca à reflexão acerca do que estamos produzindo em tempos árduos, onde a busca pela rapidez, pela eficácia, por resultados absolutos nos afastam, muitas vezes, da delicadeza de acompanhar o que é possível para cada um.

E nesse sentido, trazemos aqui algumas discussões interessantes que perpassam diversas possibilidades de práticas de cuidado. Iniciamos com o artigo Nas Trilhas do Cuidado: A Afirmação da Dimensão Sensível da Experiência na Abordagem Gestáltica em que Laura Cristina de Toledo Quadros e Eleonôra Torres Prestrelo discorrem acerca dos desafios de atuar e ensinar Gestalt-terapia na universidade, discutindo a articulação da sensibilidade e do cuidado como uma política ontológica, bem como a responsabilidade que temos de produzir mundos com nossas práticas. No artigo A Gestalt-Terapia na Fronteira: Alteridade e Reconhecimento como Cuidado, Monica Botelho Alvim propõe uma discussão sobre os desafios da clínica da Gestalt-terapia no trabalho com populações em situação de invisibilidade social, tendo como base as noções de fronteira de contato, de alteridade e de reconhecimento como constitutivos de uma ação clínica de cuidado no campo social. No rastro dessa perspectiva de um cuidado ampliado, Jorge Ponciano Ribeiro nos apresenta um precioso texto, Ambientalidade, Co-existência e Sustentabilidade: Uma Gestalt em Movimento, colocando a original ideia de ambientalidade em diálogo com as noções de sustentabilidade e co-existência, e buscando trazer para a Gestalt-terapia discussões acerca da implicação ética e existencial que temos, enquanto Gestalt terapeutas, com o Planeta Terra.

Já Luciana Bicalho Cavanellas e Ronaldo Miranda Barbosa nos tocam de modo sensível discutindo no texto A Gestalt-Terapia em Tempos de Incerteza: A Potência do Não-Saber o cuidado como atitude necessária de inquietação e desvelo em tempos duros como o que estamos vivenciando na atualidade. Tangenciando uma temática também bastante atual, Andrea dos Santos Nascimento, Gabriela Faria de Souza, Maiara da Silva e Mário Silva de Oliveira apresentam em seu artigo "Pretitude" e o Afroperspectivismo em Psicoterapia: Desafios para a Abordagem Gestáltica uma experiência de acolhimento psicológico para homens e mulheres negras, principalmente, para universitários, discutindo sob o enfoque gestáltico demandas que são fruto do racismo estrutural que a população negra brasileira vivencia.

Em Gestalt-terapia e Empoderamento Feminino na Relação Terapêutica: Reverberações a partir do Atendimento Psicoterápico entre Mulheres, Giovana Fagundes Luczinski, Keyth Vianna, Renata Parente Garcia, Vanessa Hime Nunes e Alexandra Tsallis abordam o processo de empoderamento feminino em psicoterapia a partir da ênfase relacional da abordagem gestáltica e dos movimentos atuais que atravessam a experiência feminina e suas demandas em psicoterapia. Refletindo acerca da contemporaneidade, Carla Machado Alegria nos brinda com o texto Implicações da Gestalt-terapia Frente às Relações de Hiperconsumo que traz reflexões atuais acerca do imperativo do sucesso e a possível intensificação de sentimentos, como a vergonha e a inveja, destacando a abordagem gestáltica como possibilidade de libertação dessa opressão a partir do encontro dialógico. É também nessa abordagem que Adelma Pimentel nos traz o artigo O Uso Cuidadoso das Redes Sociais Virtuais, alertando sobre o uso abusivo da tecnologia e suas consequências para as relações interpessoais, ao propor um olhar cuidadoso para este fenômeno pelo viés da Gestalt-terapia.

A seguir, Luciana Loyola Madeira Soares apresenta o trabalho Plantão Psicológico Gestáltico - A Escrita de uma Experiência, onde discute a possibilidade do Plantão psicológico como campo de estágio na graduação em psicologia, compreendendo-o como uma prática política e inclusiva na atualidade. Ainda no campo das práticas, Daniela Pupo Barbosa Bianchi, Ida Kublikowski, Patricia Barrachina Camps e Maria Helena Pereira Franco discutem Possibilidades da Clínica Gestáltica no Atendimento de Crianças Enlutadas a partir da revisão bibliográfica de teóricos da Gestalt-terapia e estudos em luto na contemporaneidade, trazendo também vinhetas de casos clínicos para ampliar a compreensão e possibilidades de intervenção com crianças enlutadas na clínica gestáltica.

Numa proposição interessante, Evelyn Denisse Felix de Oliveira e Sonia Grubits apontam O Desenho na Gestalt-Terapia: A Versatilidade dos Traços em Interface com a Prática Clínica, ressaltando o desenho como importante ferramenta para a psicoterapia numa perspectiva gestáltica e discutindo suas contribuições para intervenção e atualização deste processo. Patricia Valle de Albuquerque Lima em Gestalt-terapia e Cuidado nos traz ponderações acerca do que podemos considerar como cuidado na prática clínica e suas implicações para a atuação na clínica ampliada, considerando sua experiência como supervisora de estágio na rede pública de saúde e assistência social em uma cidade do norte fluminense.

No texto Articulações entre o Pensamento de Leibniz e Robine: a Gestalt-terapia Inspirada através da Dobra, Hugo Elidio Rodrigues busca aprofundar o conceito de "dobra", mencionado pelo livro "O Self Desdobrado", de Jean-Marie Robine, articulando este conceito às contribuições de Deleuze, através de sua obra intitulada "A Dobra - Leibniz e o Barroco", produzindo interessante contribuição para nossa abordagem. Pensando nos caminhos de produção do cuidado para pais e bebês, Paulo-de-Tarso de Castro Peixoto apresenta o texto Biomusicalidade, Experiência e Awareness Coletiva: Gestalt-Terapia e Musicoterapia no Cuidado de Pais e Bebês problematizando a questão da produção de novas temporalidades nas relações entre pais e bebês dirigidas à produção do cuidado.

E, finalizando o dossiê, temos Erika da Silva Araujo e Deborah da Silva de Souza com a Resenha do Livro Situações Clínicas em Gestalt-terapia, sexto livro da Série "Coleção Gestalt-terapia: fundamentos e práticas", organizada por Lílian M. Frazão e Karina Fukumitso, obra composta por nove capítulos escritos por onze autores que têm o cuidado de apresentar diferentes situações clínicas, articulando teoria e prática na clínica gestáltica.

Esperamos que esse número temático possa, com a colaboração de tantos autores reconhecidos na área, expressar o amadurecimento da Gestalt-terapia como campo da construção de um conhecimento vivo, crítico e atualizado.

Boa leitura!

 

 

Endereço para correspondência
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Notas

* Professora Associada do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
** Professora Assistente do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro UERJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
*** Psicloga, Mestre em Filosofia e Doutora em Sade Pblica. Gestalt Terapeuta desde 1991. Editora convidada para o dossi Gestalt-terapia.
**** Professora e Supervisora de estgio do curso de graduao em Psicologia do Centro Universitrio Celso Lisboa - UCL. Editora convidada para o dossi Gestalt-terapia.

 

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