EDITORIAL

 

Ana Maria Jacó-Vilela*; Filipe Degani-Carneiro**; Maira Allucham Goulart Naves Trevisan Vasconcellos**

Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

Endereço para correspondência

 

 

O ofício do historiador - ou, em nosso caso, do historiador de uma disciplina - traz consigo dificuldades, como a de, a partir do presente, procurar compreender um passado do qual só se conhecem indícios, traços. Na maioria das vezes como documentos escritos, estes indícios representam o risco do oficialismo que muitas vezes procuramos contrabalançar com as memórias das pessoas que viveram ou testemunharam determinada época. Mas esta memória, sabemos, também é seletiva. Às vezes, então, é importante investigar aquilo que foi esquecido, o que não foi lembrado.

Como, por exemplo, as condições concretas - sociais, culturais, econômicas, políticas - em que ocorreram determinados fatos. Em nosso caso, a construção de teorias, de objetos de investigação ou de intervenção, da formação de profissionais, da criação de instituições etc. História Social da Psicologia significa explicitar que a história da disciplina deve considerar tais condições em que desenvolvimentos ocorreram. Ou seja, deve levar em conta a própria historicidade dos fatos.

Consideramos um desafio editar um número da revista Estudos e Pesquisas em Psicologia inteiramente dedicado à História Social da Psicologia. É, pois, com grande alegria que trazemos a público este dossiê, o primeiro número especial vinculado à Seção Clio-Psyché.

Recebemos um total de 35 textos, dos quais 22 foram selecionados para integrar este dossiê. Como resultado, temos 14 artigos mais 2 resenhas e 1 comunicação de pesquisa em português, 4 artigos em espanhol e 1 artigo em inglês. Estes dados quantitativos nos mostram que a área de História da Psicologia está em franco crescimento, com pesquisas de boa qualidade, apresentadas em excelentes narrativas. Além disto, cada vez mais esta pesquisa se internacionaliza, um importante requisito nos dias de hoje, não só pelas exigências de nossa Capes, mas porque, como historiadores da Ciência, entendemos a importância da circulação do conhecimento e de seus efeitos.

Os temas apresentados neste Dossiê abrangem diferentes campos, desdobrando diversas perspectivas historiográficas.

Escolhemos para abrir este número o artigo História da Psicologia, por quê? de autoria de Ana Maria Del Grossi Ferreira Mota, Bianca dos Santos Cara e Rodrigo Lopes Miranda, pois ele aponta que a compreensão do presente e uma formação crítica do psicólogo estão estritamente relacionadas à pesquisa e ensino em História da Psicologia.

Um outro conjunto de artigos revela o acerto de se fazer uma história local, principalmente em países de tão vastas dimensões como o Brasil e disciplinas com tantas especificidades como a Psicologia, com tantos campos, alguns já bem constituídos, outros ainda em construção. É o caso dos artigos Apontamentos sobre a história da Psicologia Social no Brasil, de Mariana Prioli Cordeiro e Mary Jane Paris Spink; Desenvolvimento científico e desafios da Psicologia do Trabalho e das Organizações brasileira, de Sonia Gondim, Jairo Eduardo Borges-Andrade e Antonio Virgílio Bittencourt Bastos; História das Psicoterapias no Brasil: o caso do Rio de Janeiro, de Cristiana Facchinetti; Psicologia e pobreza no Brasil: Histórico, produção de conhecimento e problematizações possíveis, de Kíssila Teixeira Mendes e Pedro Henrique Antunes da Costa; é também o caso de Neuropsicologia no Brasil: passado, presente e futuro, de Izabel Hazin, Isabel Fernandes, Ediana Gomes e Danielle Garcia, que relata a historicização de um campo que, embora ainda novo, já tem apresentado grandes desenvolvimentos no contexto brasileiro.

Sabemos que uma das abordagens e campo profissional mais presente na área de Psicologia é o da Psicanálise. Neste sentido, dois artigos poderiam estar agrupados no tema anterior, dos "campos" da Psicologia. Entretanto, entendemos que, por se tratarem de dois textos sobre um tema específico, deveríamos dar um relevo também especial a eles. Um discute a genealogia da "influência", e outro compara a presença da psicanálise na formação de psicólogos em Buenos Aires e no Rio de Janeiro: Influência: um problema político-terapêutico na genealogia da Psicanálise, de Tatiane de Andrade, e Psicanálise no século XXI: um estudo sobre universidades do Rio de Janeiro e Buenos Aires, de Maria Eugenia Gonzalez.

Se apresentamos até agora história de campos específicos, é importante salientar que outro profícuo recurso para a História Social da Psicologia são as biografias de personagens e instituições, ambos entendidos como nós que constroem a rede de conhecimentos constitutiva da disciplina. O artigo A contribuição de Robert Mearns Yerkes para o surgimento da engenharia humana: uma primeira aproximação, de André Vieira dos Santos, apresenta a Psicologia Comparada proposta por Robert Yerkes, trazendo à baila a questão da engenharia humana como um dos instrumentos de dominação da sociedade estadunidense. A importância da construção de redes para a produção e circulação de conhecimento, por sua vez, nos é apresentada de forma exemplar por Marc Ratcliff & Ramiro Tau, ao tratarem da epistemologia genética, em A networking model. The Case of The International Center of Genetic Epistemology. Já Melline Ortega Faggion e Maria Lucia Boarini nos recordam da eugenia, para lembrar que seus pressupostos muitas vezes estão imiscuídos em nossa vida cotidiana, no texto A Psicologia pela lente de Renato Kehl. Dois importantes artigos, por suas vezes, tratam da interface entre Psicologia e Educação por meio da análise da produção de dois importantes nomes latinos. Assim, Maria Amélia Güllnitz Zampronha e Odair Sass narram as Contribuições da Psicologia à educação: a crítica social de Dante Moreira Leite e Patricia Viviana Scherman, Laura Vissani e Nilda Fantini nos trazem Piaget por meio de sua leitura por Emilia Ferrero: Lecturas de Piaget en América Latina: Emilia Ferrero, la lectoescritura y el fracasso escolar.

A história social é, ela, também, histórica… Neste sentido, alguns temas que recebiam pouca ou nenhuma atenção na História da Psicologia, agora se fazem presentes, necessitando ser ouvidos/nos obrigando a ouví-los: não mais podemos ser indiferentes. Destacamos, aqui, por sua quantidade expressiva neste dossier, os textos sobre gênero, quais sejam os artigos Del aula al laboratorio, tres mujeres científicas en la historia de la psicología argentina, de Maria Andrea Piñeda; Genero y enfoque historico-social. Las mujeres en el tiempo, de Rosa Falcone; Ainda assim me levanto: uma perspectiva histórica da construção do eu feminino, de Ana Carolina Cerqueira Medrado e Monica Lima de Jesus; La mujer golpeada en la Argentina. Derivas entre Estado, sociedad y psicología (1983-1995), de Mariela González Oddera.

Entretanto, novos atores entraram em cena e aqui estão presentes. Assim, temos o texto de Hildeberto Vieira Martins, intitulado Outros personagens entraram em cena: o movimento negro e a emergência de uma "política racializada" e o de Cleber Michel Ribeiro de Macedo, Horacio Federico Sívori sobre a homossexualidade, ou, mais especificamente, sobre a polêmica envolvendo a Resolução 001/1999 do Conselho Federal de Psicologia, que proíbe a patologização da orientação sexual e um grupo de "psicólogos cristãos" que almejam realizar tratamento psicológico para a reversão da homossexualidade, objeto do artigo Psicologia confessional e repatologização da homossexualidade.

Além disso, temos uma comunicação de pesquisa de Juliana Ferreira da Silva, Letícia Dias Albuquerque, Marcela Matias Santos e Milena Almeida da Costa de Oliveira intitulada Diálogos com o feminino: pelas ondas do rádio - mulheres que fazem psicologia para mulheres. Esta pesquisa, que tem por objetivo investigar a psicologia "feita por mulheres e para mulheres" apresenta o programa de rádio "Elas por Elas", produzido por Irede Cardoso, jornalista e mestre em Psicologia Social, enfocando a contribuição desse programa para a articulação da pauta feminista com a Psicologia.

Encerramos o número com duas resenhas, sempre excelentes indicações para nossos leitores: Formas contemporâneas de fazer pesquisa em História da Psicologia, de Kely Cristina Garcia Vilena, Marciana Vieira de Souza Xavier e Rodrigo Lopes Miranda; e Partindo de um museu: uma introdução à história social da psicologia, de Sergio Cirino e Deborah Hoffmam.

Nossa pretensão, com este número especial, foi demonstrar a pujança da área de História da Psicologia, objetivo que consideramos plenamente alcançados, pois os diferentes textos apontam para o caráter crítico, situado, analítico, das narrativas que fazemos sobre como a história da disciplina tem seus contornos, suas trajetórias, decorrentes de opções autorais, decisões institucionais, filiações teóricas, disputas de objeto.

Esperamos que este número contribua para novas leituras e debates na construção da História da Psicologia no Brasil e na América Latina.

 

 

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Notas

* Professora Associada do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
** Pesquisador(a) do Laboratório de História e Memória da Psicologia – Clio-Psyché da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Editores convidados para o dossiê História Social da Psicologia.

 

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