ESTUDOS E PESQUISAS EM PSICOLOGIA, UERJ, RJ, ANO 5, N.2, 2 SEMESTRE DE 2005

Artigos


A Favela e Seus Moradores: Culpados ou Vtimas? Representaes Sociais em Tempos de Violncia

The Slum and its Dwellers: Guilties or Victms? Socials Representatios in Times of Violence


Luciene Alves Miguez Naiff*

Denis Giovani Monteiro Naiff **

 

 

 

Resumo

As favelas, suas regras, cdigos e seus moradores so objetos de estudo privilegiado por estarem cada vez mais associados a violncia nas informaes veiculadas na mdia. Utilizando a teoria das representaes sociais procuramos investigar como cidados de classe mdia baixa percebem a violncia atual, a favela e seus moradores. Os dados foram coletados atravs do mtodo de evocao livre e analisados com o auxlio do software EVOC. Os resultados apontaram para uma percepo negativa e em movimento, relacionando cada vez mais a favela e seus moradores, s principais causas da violncia na cidade. As representaes sociais que vinculam a pobreza com a criminalidade podem gerar tomadas de posio e comportamentos que reforcem o preconceito e o alijamento dos moradores de favelas, aumentando os sentimentos de no pertencimento e negao dessa parcela da populao.

 

Palavras-chave: Representaes sociais; favela; moradores de favela; violncia.

 

 

 

Introduo

 

Diante da crescente e desenfreada violncia urbana sentida no Estado do Rio de Janeiro, fica cada vez mais evidente a necessidade de dar voz aos grupos envolvidos nesse processo. A presena de situaes classificadas como violentas em uma megalpole como o Rio de Janeiro no chega a ser espantosa, pois em maior ou menor grau esse fenmeno parece acompanhar o cotidiano de todas as grandes cidades mundiais (NASCIMENTO, 1997). Entretanto, as estatsticas aqui so cada dia mais assustadoras, com nmeros de vtimas somente comparveis a pases em guerra. Mdicos dos hospitais da capital fluminense so especialistas em cirurgias para tentar salvar feridos por armas normalmente utilizadas apenas em conflitos blicos declarados.

Entender essa situao partindo de um levantamento dos ingredientes que compem essa conjuntura j forneceria por si s elementos importantes de anlise: uma cidade super povoada, um ndice de desigualdade de aproximadamente 15 vezes entre seus bairros mais ricos e os mais pobres (TOLEDO, 1998), comunidades carentes com at um milho de habitantes, presena macia do narcotrfico nestas comunidades, utilizao de armamento pesado pelos traficantes, emprego de crianas e adolescentes nas linhas de frente do trfico, um poder policial que mais mata no mundo, falta de polticas pblicas de incluso e gerao de renda para os jovens dessas comunidades carentes, falta de poltica de segurana, governantes omissos. Como conseqncia desse estado das coisas, vemos a violncia se manifestando progressivamente e acirrando dios e preconceitos entre os grupos sociais.

Em vista dessas questes, o pobre, o negro, o morador de favela e a prpria favela em si ficam no imaginrio da sociedade como os legtimos representantes da violncia e de tudo o que ela significa. Atualmente, o clamor social diante de alguns fatos significativos de violncia que ocorreram nos ltimos meses na cidade (guerra em favelas situadas em reas nobres da cidade; fechamento de importantes vias expressas de ligao entre diversos bairros; lanamentos de bombas e granadas em logradouros pblicos; nibus incendiados; fechamento do comrcio, inclusive em reas nobres da cidade, por ordem do trfico; assassinatos sistemticos de policiais; mortes de inocentes, etc.) tm provocado e aumentado o preconceito e o abismo existente entre os vrios segmentos da sociedade.

Neste contexto, torna-se premente uma discusso mais ampla que deva privilegiar as representaes sociais que vm sendo formadas diante das situaes atuais. Para dar conta da emergncia dessa nova situao de violncia exacerbada na cidade, entendemos que as representaes sociais esto sendo reformuladas e construdas no sentido de gerar uma tentativa de compreenso da realidade.

O temido marginal, fonte de todas as apreenses da populao, agora se objetifica na figura do negro, pobre, morador de favela, causando o que Jodelet (1998, p.48) chama de alteridade de dentro:

referida queles que, marcados com o selo da diferena, seja ela fsica (cor, raa, deficincia, etc) ou ligada a uma pertena de grupo (nacional, tnico, comunitrio, religioso, etc), se distinguem no seio de um conjunto social ou cultural e podem a ser considerados como fonte de mal-estar ou de ameaa.

 

Infelizmente, os traficantes se aproveitam da camuflagem de moradores de favela para se misturar e dificultar a ao da polcia. A prpria estrutura espacial, cheia de vielas e becos, favorece a favela como local de esconderijo. Contudo, no h como falar dos traficantes atuais sem antes buscar na histria do Brasil, e mais especificamente na histria da cidade do Rio de Janeiro, o aparecimento de enormes contingentes de jovens desempregados e a ocupao dos morros da cidade.

A libertao dos escravos no final do sculo XIX e a grande imigrao de europeus no comeo do sculo XX foram responsveis por uma demanda por empregos que a conjuntura scioeconmica da poca no conseguia absorver. Os negros ex-escravos foram libertados sem nenhuma proposta de insero no mercado de trabalho; pelo contrrio, foram colocados em situao jurdica irregular com a criao da lei de represso ociosidade, um ms aps a promulgao da Lei urea. Essa populao de escravos, somada aos imigrantes que no conseguiam se adaptar aos padres impostos pela sociedade, formaram os contingentes de despossudos que ocupavam as ruas e os cortios da cidade do Rio de Janeiro, vivendo em condies sub-humanas (COSTA LEITE, 1997).

Para agravar a situao, as tropas advindas do conflito de Canudos em 1897, sem local para se estabelecer na cidade do Rio de Janeiro, foram ocupar principalmente os morros, em especial o da Providncia, no centro da cidade, passando a cham-lo de Morro da Favela, aluso a um morro existente na regio de Canudos. O nome favela acaba virando sinnimo deste modelo de moradia e outros morros ocupados passam a receber essa alcunha.

No incio do sculo XX observamos o auge do movimento higienista, com a finalidade de diminuir a alta taxa de mortalidade da populao mais carente, residente nos cortios da cidade. O controle de algumas doenas, como a peste e a febre amarela, alm da vacinao em massa contra a varola, permitiram o aumento da expectativa de vida dos jovens pobres cariocas. Somando-se um aumento significativo de desenvolvimento econmico da cidade, o Rio de Janeiro observa um crescimento acelerado se sua populao: entre 1890 e 1920 ela passaria de 522.651 para 1.157.873 habitantes. O projeto de modernizao da cidade, proposto pelo prefeito Pereira Passos no incio do sculo XX, promove uma reforma urbana radical que, entre outras coisas, desencadeia o bota-abaixo aos cortios existentes. Sem alternativas de moradia, as populaes dos cortios da cidade tambm iro ocupar os morros.

Nos anos 50 e 60, foi a vez do xodo rural e regional ser responsvel por mais um inchao nas metrpoles brasileiras. Os nordestinos e nortistas vieram para o sul maravilha em busca de oportunidades, fugindo da misria, da fome e da seca, concentrando-se em sua maioria nos morros e nas periferias.

A classe mdia, que vivia perodo de ascenso social e econmica na cidade, via com desconfiana e preconceito essa ocupao dos morros pelas camadas mais pobres. Desde ento, o morro passou a ser visto como local de gente perigosa e marginal. Obviamente no havia ainda a influencia marcante do narcotrfico e o preconceito tinha muito a ver com a pobreza e os costumes da populao carente.

A populao nas favelas cresceu vertiginosamente nas ltimas dcadas, principalmente a partir do final dos anos 50. Atualmente, temos uma diminuio dos ndices de pobreza, camuflados pelos critrios de avaliao. Apesar de o favelado de hoje ter televiso, geladeira, fogo, vdeocassete e at microondas, essa melhora na qualidade de vida esbarra na inrcia da vivncia da excluso durante geraes. A falta de perspectiva de futuro e de empregos para as geraes mais novas retrata uma subseqente reproduo da pobreza e da excluso social (VERAS, 1999).

O trfico de drogas, nesses ltimos anos, teve um excelente espao para aumentar e se multiplicar nas favelas cariocas e de outras cidades do pas. Todas as condies da pobreza brasileira foram favorveis ao seu crescimento, alm do descaso e conivncia dos poderes polticos e econmicos. O trfico um grande e lucrativo mercado, seu funcionamento global e extremamente organizado, envolvendo vrios pases, consumidores de todas as classes sociais e executivos estrategistas. Iluso pensar em acabar com essa prtica apenas com propostas repressivas aos jovens que esto no ltimo escalo dessa estrutura. Temos que procurar entender a favela, suas regras e cdigos atravs da vivncia de seus moradores e de seu impacto na sociedade. So nas relaes humanas que as estruturas sociais fixam sua existncia. Para isso importante investigar as representaes sociais que vm sendo formadas e reformuladas dessa realidade, utilizando esse conhecimento como justificativa para propostas de mudanas e polticas inclusivas de cooperao e solidariedade.

Os pressupostos tericos e metodolgicos do presente trabalho seguem a orientao da teoria das representaes sociais, originalmente proposta por Serge Moscovici (1961/1979) e que, atravs de um esforo conceitual, pode ser entendida enquanto um conjunto organizado e hierarquizado de julgamentos, atitudes e de informaes que um grupo social elabora a propsito de um objeto (ABRIC,1996, p.11).

Deste modo de extrema importncia entender como a sociedade, atravs dos grupos sociais que a compem, percebe a excluso social em suas mltiplas facetas. Segundo Abric (1996) as representaes sociais muito tm a contribuir para a anlise e busca de solues dos problemas sociais. O autor sugere que as investigaes das representaes sociais estejam presentes em todo o sistema social de relaes, desde a auto-representao que os indivduos excludos tem de sua identidade e de sua problemtica at as representaes presentes nos agentes sociais, institucionais e profissionais, que pretendam intervir nessa realidade.

Objetivamos neste trabalho identificar elementos que comporiam as representaes sociais que moradores de classe mdia baixa, que vivem prximos favelas, teriam sobre a violncia, o morador da favela e a prpria favela em si.

 

 

Metodologia

 

Foram entrevistados 152 sujeitos de ambos os sexos, estudantes de uma Faculdade localizada na cidade de So Gonalo, segundo maior colgio eleitoral do Estado do Rio de Janeiro, que relataram j terem sido vtimas de alguma violncia.

Quanto condio scioeconmica, 92 sujeitos declararam possuir entre R$ 1.000,00 e R$ 2.000,00 de renda familiar; 45 possuam menos de R$ 1.000,00 e somente 15 tinham como renda familiar mais de R$ 2.000,00.

Entre as opes plurimetodolgicas normalmente associadas perspectiva terica aqui privilegiada, tem-se mostrado bastante eficaz para os nossos objetivos a tcnica de evocao livre desenvolvida por Vergs (1999). Nesta pesquisa, ela serviu ao levantamento dos possveis elementos centrais e perifricos das representaes sociais, a partir das evocaes desencadeadas pelos estmulos: violncia, favela e morador de favela; levando a uma melhor aproximao possvel dos elementos que comporiam a organizao interna da representao, em termos de seus sistemas central e perifricos (ABRIC, 1994).

As evocaes produzidas pelos sujeitos foram registradas na ordem exata em que foram emitidas, permitindo a contagem de duas ordens de dados para anlise: a freqncia em que cada elemento foi evocado e sua ordem mdia de evocaes (se foi a primeira a ser evocada, a segunda, etc.), considerando todos os sujeitos que o fizeram.

A anlise combinada da freqncia e da ordem de evocao das respostas cumpre a funo de colocao em evidncia das propriedades de salincia e de conexidade dos diferentes elementos de uma representao, de modo a prover um levantamento inicial daqueles mais suscetveis de fazer parte do ncleo central (S, 1996, p.115).

As respostas evocadas aos termos indutores foram analisadas com o auxlio do programa de computador EVOC (VERGS,1999).

A figura 1 representa um esquema de distribuio dos resultados encontrados na evocao dos sujeitos ao termo indutor. Identificam-se como provveis elementos centrais da representao os temas localizados no quadrante superior esquerdo, que foram ao mesmo tempo os mais freqentes e os mais prontamente evocados. Por outro lado, no quadrante inferior direito, esto localizados os elementos claramente perifricos, com baixa freqncia e menos prontamente evocados. Nos outros dois quadrantes, misturam-se elementos que tanto podem constituir uma espcie de periferia prxima ao ncleo central, quanto outros mais distantes nessa subordinao estrutural.

Ordem mdia de evocao

 

 

 

Freqncia mdia

1. quadrante

Alta evocao + alta freqncia

2. quadrante

Baixa evocao + alta freqncia

3 . quadrante

Alta evocao + baixa freqncia

 

4. quadrante

Baixa evocao + baixa freqncia

 

Figura 1: representao esquemtica da distribuio das cognies das representaes sociais no modelo de evocao livre.

 

 

Resultados: Anlise e Discusso

 

Apresenta-se a seguir o primeiro quadro de resultados (figura 2) relativo aos elementos evocados pelos sujeitos perante a presena do termo indutor violncia. Verifica-se que o provvel ncleo central dessa representao social representado pelos elementos do primeiro quadrante esquerdo reflete um sentimento generalizado que vem assustando e paralisando os moradores das grandes cidades do Rio de Janeiro: o medo, responsvel pelo maior nmero de evocaes. Sem recursos para garantir a proteo atravs de seguranas, carros blindados e moradias protegidas, a maioria dos cidados se v completamente indefesa nesse contexto de aumento de violncia na cidade. Morte e maldade foram elementos relacionados tambm ao provvel ncleo central das representaes sociais da violncia. Essas construes sociais acompanham a idia do medo da vivncia da violncia, pois, atualmente, qualquer assalto mais simples vem acompanhado de situaes reais de risco de vida. A falta de educao, no sentido de estudo formal, e a falta de amor so possveis buscas de fatores causais para a forma como a violncia se caracteriza nos dias atuais.

O fim da violncia talvez seja a cobrana mais importante que a sociedade faa a seus governantes. O clima de insegurana que impera nas grandes cidades do Rio de Janeiro e o destaque dado pela imprensa aos eventos violentos colocam esse tema como emergente no cotidiano dos cariocas. Refletindo o discurso massivamente veiculado pela mdia, encontramos no quadrante superior direito uma tentativa de problematizar a violncia como conseqncia do comrcio das drogas e o desejo de que ela tenha fim o mais rpido possvel.

 

 

< 2,9

 

Ordem de Evocao

 

 

> 2,9

 

Medo

 

43

 

Tristeza

 

19

Morte

34

Tem que acabar

18

Assalto

26

Drogas

16

Falta de educao

20

 

 

Falta de amor

18

 

 

Maldade

18

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Freqncia ≥16

 

 

 

 

Freqncia <16

 

 

 

 

 

 

 

Estupro

15

Raiva

14

Guerra

15

Fome

12

Ruim

14

Desigualdade Social

08

Covardia

13

Falta de oportunidade

08

Abuso de Poder

11

 

 

Dor

11

 

 

Desrespeito

09

 

 

Culpa do Governo

07

 

 

Desemprego

07

 

 

 

 

 

 

 

FIGURA 2 Quadrantes de distribuio das evocaes livres ao tema violncia.

 

 

O quadrante inferior esquerdo sugere tanto tentativas de objetivao da violncia, atravs de estupros e situaes de guerra, quantos sentimentos difusos relacionados vivncia da violncia. Como elementos perifricos no processo de construo dessa representao, o quadrante inferior direito traz as questes scioeconmicas envolvidas no contexto da violncia urbana.

O que se conclui em relao s representaes sociais do termo violncia que, para esse grupo social composto basicamente por indivduos de classe mdia baixa e universitrios, a baixa ressonncia que encontra nas suas representaes o discurso, relacionando o aumento nos ndices de violncia situao scioeconmica que atravessa o pas. O assalto associado falta de escolaridade e de amor entre os cidados estaria gerando situaes de aumento da violncia, provocando um medo generalizado na populao. Em uma periferia prxima ao ncleo central temos o desejo de que essa situao tenha fim e a escolha por culpados para essa situao mais grave atual: o comrcio de drogas.

interessante observar que o provvel ncleo central relativo anlise das evocaes do termo Favela (figura 3), composto de idias, que refletem de um lado a influncia do trfico de drogas e de outro a vivncia em condies de excluso social. Esta ltima dimenso no diferente do contexto histrico de onde se originaram as favelas e que se perpetua at os dias atuais.

O quadrante superior direito, uma possvel periferia prxima ao ncleo central, revela uma favela como local violento, gerador de preconceito aos seus moradores, e conseqncia da falta de opo mais digna de moradia destinada populao empobrecida.

Relacionar favela, trfico de drogas e violncia so concepes atuais, levando em conta o tempo que o narcotrfico ocupa os morros na cidade. Historicamente, desde o final do sculo XIX, os morros da cidade so ocupados pelas classes mais pobres. No entanto, remonta dcada de 60 e 70 o fortalecimento das redes de trfico de drogas nas favelas. Essa situao s se tornou impactante e relevante para a classe mdia nos ltimos 20 anos. Isso reflete que as representaes desse espao social esto em constante movimento e sugerem que em outros grupos sociais possam j haver mudanas.

Os dois quadrantes inferiores apresentam elementos mais perifricos da representao social e revelam a diversidade de sentidos negativos destinados a esse objeto social. Local sujo, triste, miservel, perigoso, sem saneamento bsico, moradia de bandidos ou desempregados, so apenas uma pequena mostra das cognies construdas sobre a favela.

 

 

< 2,9

 

Ordem de Evocao

 

 

> 2,9

 

Trfico de drogas

 

74

 

Violncia

 

38

Pobreza

69

Discriminao

18

Falta de moradia

34

Sem opo

16

Fome

26

 

 

Desigualdade Social

20

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Freqncia ≥16

 

 

 

 

Freqncia <16

 

 

 

 

 

 

 

Desorganizado

15

Bandidos

15

Tristeza

15

Culpa do Governo

12

Desemprego

13

Marginalidade

13

Falta de oportunidade

12

Falta de oportunidade

08

Misria

10

Abandono

12

Falta de saneamento

11

Falta de educao

12

Falta de condies

11

Medo

11

Sujeira

09

Descaso

10

Pessoas honestas

07

Perigo

10

Carncia

06

Menores abandonados

08

Necessidade

06

Crime

07

Comunidade

05

Morte

07

 

 

Injustia

05

 

 

 

 

FIGURA 3 Quadrantes de distribuio das evocaes livres ao tema favela.

 

 

 

Uma das dimenses formadora da representao social do morador de favela est representada na figura 4. O possvel ncleo central dessa representao reflete a personificao da figura do favelado em trs personagens emblemticos: os traficantes, mais prontamente evocados, personificando a violncia que assola a cidade; os miserveis, personificando os excludos sociais, a pobreza extrema; e os moradores honestos, personificados na figura dos trabalhadores pobres.

Estes personagens freqentemente acabam se misturando no imaginrio da populao, gerando um incremento no preconceito e na discriminao, principalmente com o homem jovem, morador de favela. No podendo identificar claramente os diferentes tipos criados e compartilhados pelos seus grupos sociais, aqueles que no moram nos morros tendem a identificar o morador atravs da personificao de seu maior pesadelo: o traficante de drogas. Opinio compartilhada pelos moradores de favelas que reclamam que a sociedade esquece que a favela tambm moradia de pessoas honestas e trabalhadoras e no somente de bandidos (PANDOLFI; GRYNSZPAN, 2003).

Os quadrantes inferiores so compostos por elementos perifricos da representao do morador de favela: um guerreiro, trabalhador e muito mais vtima do que culpado por sua condio. Infelizmente, o recrudescimento dos ndices de violncia urbana tem diminudo a importncia destes elementos na constituio da representao do morador das comunidades mais pobres. A tendncia cada vez mais demoniz-lo e responsabiliz-lo por sua condio e, pior, v-lo como conivente da situao de violncia e expanso do narcotrfico em sua comunidade.

  

 

< 2,8

 

Ordem de Evocao

 

 

> 2,8

 

Traficantes

 

57

 

 

Pobres

51

 

 

Discriminado

41

 

 

Trabalhador

26

 

 

Sem opo

25

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Freqncia ≥ 22

 

 

 

 

Freqncia < 22

 

 

 

 

 

 

 

Falta de educao

21

Falta e oportunidade

15

Ser humano

15

Medo

15

Desempregado

13

Excludo

10

Sofredor

12

Violncia

10

Humilde

10

 

 

Pessoa honesta

11

 

 

Falta de moradia

11

 

 

Guerreiro

09

 

 

 

 

 

 

 

FIGURA 4 Quadrantes de distribuio das evocaes livres ao tema morador de favela.

 

 

Os grupos sociais da sociedade brasileira, que diferem pela situao socioeconmica, so impactados de forma diferente pela percepo da violncia, da favela e de seus moradores. O abismo est crescendo e as representaes sociais, por sua vez, se modificando e se adaptando apreenso da realidade que esses grupos em suas idiossincrasias precisam ter.

 

 

CONCLUSO

 

Devemos estar preparados e atentos para o perigo que representaes sociais, vinculando a pobreza com a criminalidade, possam gerar em termos de atitudes, tomadas de posio e comportamentos. Trabalhos como este pretendem ampliar a discusso da temtica da violncia e da excluso para que, ouvindo os vrios grupos sociais que compem a sociedade, possamos estar contribuindo para entender como essas situaes vo sendo incorporadas no dia a dia de uma cidade como o Rio de Janeiro. O cidado carioca de classe mdia cada vez menos acredita na justia ou em polticas de segurana. Os cidados das classes mais baixas, por sua vez, tambm esto cticos quanto s promessas de mudanas e oportunidades de incluso social. Isso coloca grupos sociais de classes socioeconmica diferentes como inimigos em uma guerra na qual no h vencedores (ESCOREL, 1999).

Zaluar (1997, p. 11) aponta para a dificuldade de problematizar e propor resolues para a situao de violncia, tanto do ponto de vista prtico quanto ideolgico, quando argumenta acerca do que necessrio para melhorar esse estado das coisas:

tornar complexa a anlise dos contextos sociais mais amplos e mais locais para entendermos os motivos pelos quais cada vez um nmero maior de jovens (de todos os estratos sociais) comete crimes, o que nem sempre significa a adoo de uma carreira criminosa, e por que alguns deles passam a exercer um tipo de poder militar nas comunidades onde as instituies encarregadas de manter a lei ou esto ausentes ou tornaram-se coniventes com o negcio ilegal ou so fracas; onde as organizaes vicinais se desagregaram ou foram esvaziadas pela competio poltica entre partidos e grupos religiosos; onde figuras paternas e maternas no mais oferecem modelos nem so capazes de controlar seus filhos.

 

 

A proposta de Zaluar (1997) e o compromisso de nossa pesquisa favorecer e ampliar a discusso da violncia na cidade do Rio de Janeiro. No podemos permitir que esse assunto seja tratado e manipulado poltica e partidariamente por quem tem a responsabilidade constitucional de modificar o rumo das coisas.

Zaluar (1997, p. 18) prope que essa discusso englobe o panorama mundial de crescimento da violncia, pois

no h como negar a necessidade de se entender essa onda de violncia no apenas como efeito geolgico das camadas culturais da violncia costumeira no Brasil, mas tambm dentro do panorama do crime organizado internacionalmente, do crime, tambm ele globalizado, com caractersticas econmicas, polticas e culturais sui generis, sem perder algo do velho capitalismo da busca desenfreada do lucro a qualquer preo.

 

 

Fica a sugesto de continuidade dessa pesquisa, buscando nas representaes sociais de outros segmentos que compem nossa sociedade o entendimento da realidade de violncia, preconceito e excluso social de grupos cada vez mais marginalizados e marginais, e o desafio de fazer da produo desse conhecimento propostas para serem utilizadas nas intervenes polticas e sociais. Esse o nosso compromisso social.

 

 

Referncias Bibliogrficas

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COSTA LEITE, L. Razo dos invencveis. Petrpolis: Vozes. 1997.

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Abstract

Favela shanty towns, their rules, codes and residents are favoured objects of study because they are increasingly associated with the violence portrayed in information broadcast by the media. Using the theory of social representations we seek here to investigate how members of the lower middle class perceive present-day violence, favelas and their residents. The data were gathered using the free-evocation method and analysis was assisted by EVOC software. The results pointed to an adverse, shifting perception that increasingly relates favelas and their residents with the major causes of violence in Rio de Janeiro. Social representations linking poverty with criminality can lead to the adoption of positions and behaviours that reinforce prejudice and exclusion against favela residents, thus enhancing feelings of not belonging and of denial among this portion of the population.

 

Keywords

Social representations; slum residents; violence.

 

 

Recebido em: 07/12/2004

Aceito para publicao em: 25/01/2005

Endereo: lunaiff@hotmail.com; dnaiff@hotmail.com

 


* Doutora em Psicologia social pela UERJ, Professora do Mestrado em Psicologia Social da Universidade Salgado de Oliveira. Pesquisadora do Centro Internacional de Pesquisa e Estudos sobre a Infncia da PUC Rio.

** Doutor em Psicologia Social pela UERJ, Mestre em Psicologia do Desenvolvimento Humano no contexto scio-cultural pela Universidade de Braslia - UnB e psiclogo pela UnB.

 



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