ESTUDOS E PESQUISAS EM PSICOLOGIA, UERJ, RJ, ANO 5, N.2, 2 SEMESTRE DE 2005

Editorial

 


Vozes e Ecos da Psicologia

Psychology: Voices and Echoes


 


Anna Paula Uziel 1 , Eleonra T. Prestrelo, Ariane P. Ewald, Deise Mancebo, Leila Torraca de Brito 2

 

 

 

Este nmero da revista Estudos e Pesquisas em Psicologia, apesar de manter as sees tradicionais da revista, com a diversidade temtica que lhe peculiar, inaugura uma modalidade no formato da publicao: a seo temtica. A Seo Temtica rene textos de autores com inseres institucionais variadas, de diversos pontos do Brasil e de outros pases, com o objetivo de trabalhar focos diferentes de um mesmo campo terico ou de atuao da Psicologia.

Trs artigos iniciam a revista, autnomos em relao ao tema central do nmero. O primeiro, Pode realmente haver uma cincia natural da ao humana?, de Sergio de Oliveira, critica a posio que defende a descrio universal da ao humana, tendo como norte as cincias naturais, lembrando que preciso reconstruir a riqueza dos sentidos. Se por um lado, o debate a respeito da cientificidade da Psicologia j teve sua poca urea, por outro, sempre uma questo atravessada por preocupaes mais filosficas e que tem implicaes diretas no exerccio da profisso, especialmente as ticas.

O artigo de Elizabeth Maria Arago, Maria Elizabeth Barros de Barros e Sonia Pinto de Oliveira, Falando de metodologia de pesquisa, traz importantes contribuies para as discusses sobre Metodologia de Pesquisa, sobretudo pelo entendimento das autoras de que tratar desse tema fazer escolhas ticas e polticas.

Em A influncia de estados emocionais positivos e negativos no processamento cognitivo, Mara Sizino da Victoria, Adriana Benevides e Patrick Barbosa Moratori estudam questes relativas psicologia da emoo e psicologia cognitiva. Trata-se de uma pesquisa experimental que compara a ativao de nodos emocionais e nodos cognitivos e convida o leitor para novas pesquisas na rea.

As duas resenhas tm um eixo comum: a contemporaneidade. Uma discutindo relaes amorosas, e a outra, indstria cultural. Em Os Caminhos Filosficos do Amor, ttulo tambm do livro de Maria de Lourdes Borges, Leandro Castro Oltramari retrata a temtica atual de que trata a obra: o amor, preocupao de geraes, to banal quando difcil de reflexo e menos ainda concluso. Atravs de uma viagem pela Filosofia, no livro busca-se transparecer a posio e a compreenso de diversos autores a respeito desse algo de difcil definio. To difcil e desejado que, segundo o autor da resenha, gera uma pergunta inevitvel: por que tentar racionalizar isso que no se consegue nominar, mas fascina, d vida, e ocupa lugar to fundamental na vida dos sujeitos?

A outra resenha, Narcisismo e Publicidade: uma Anlise Psicossocial dos Ideais do Consumo na Contemporaneidade, de Maria Cludia Tardin Pinheiro sobre o livro de Maria de Ftima Vieira Severiano, convida os leitores a debruarem-se sobre o cruzamento entre publicidade, consumo e processos de individuao. um trabalho comparativo entre Brasil e Espanha. Pinheiro afirma ainda que se trata de uma discusso terica sobre os possveis efeitos psicossociais da unidimensionalizao do homem numa cultura narcsica.

A Psicologia Jurdica concentra a seo temtica deste nmero, com artigos e uma comunicao de pesquisa. Nada mais natural, j que a UERJ pioneira neste campo, possui um curso de especializao na rea e diversos pesquisadores debruados sobre o tema, que conferem Universidade um reconhecimento consolidado, adquirindo cada vez mais parcerias e interlocues.

Nos ltimos anos tem crescido significativamente o campo da Psicologia Jurdica no Brasil, o que contribui no apenas para a construo de uma especialidade, com a vastido que essa proposta deve gerar, mas para a articulao de questes em torno da prtica do psiclogo, sobretudo quando dialoga com saberes em seus supostos espaos.

notrio o interesse pela rea em disciplinas de graduao, no aumento da procura pelos cursos de especializao rea que atualmente so oferecidos por algumas instituies universitrias e nas temticas de dissertaes de mestrado e teses de doutorado que versam sobre o campo. O nmero de publicaes, antes escasso, aumenta, em decorrncia desse movimento, trazendo para a academia e aqueles que atuam diretamente nos servios, uma sistematizao maior do conhecimento e das reflexes em Psicologia Jurdica.

No Rio de Janeiro, o primeiro concurso para o Tribunal de Justia contribuiu para despertar o interesse de alunos que sequer tinham tido acesso disciplina na graduao. No apenas a possibilidade de ampliao de chances no mercado de trabalho, mas o contato com contedos exigidos pelo concurso entusiasmaram um debruar-se sobre o campo, levando muitas vezes o psiclogo a buscar aprimoramento na rea.

Esther Arantes (2004) retoma a crtica de Canguilhem (1973) Psicologia, saber que ele define como, muitas vezes, uma mistura de filosofia sem rigor, tica sem exigncia e uma medicina sem controle (p. 104/105). Ela recorre a este autor para falar do incmodo gerado pelo lugar que o psiclogo ocupa quando trabalha junto s instituies do Direito e lana um desafio importante: encontrar um rigor prprio s Cincias Humanas.

A Psicologia Jurdica experimenta diferentes dificuldades no seu exerccio e nem sempre so de responsabilidade da hegemonia da justia, ou das demandas por ela encaminhadas Psicologia, como muitas vezes diagnosticado. A construo da verdade, to bem discutida por Michel Foucault, aparece de diferentes formas nesta relao com o Direito e nem sempre os dois campos tm as mesmas preocupaes e entendimentos: a respeito do sujeito e da prpria verdade.

No entanto, no possvel atribuir a responsabilidade pela normatividade do trabalho do psiclogo ao pedido formulado pelo Direito burocrtico, dogmatizado e repressor (VERANI, 1994). O conjunto dos artigos a seguir inspira-se na busca de alternativas de atuao profissional na esperana, como diz Arantes (2004), de que a Psicologia possa ser exercida de uma outra forma, alm de trazer luz o enorme sofrimento causado pelo encarceramento de adolescentes (p. 46) e de tantos outros encarceramentos a que estamos submetidos e submetemos.

bastante diversificada a atuao do psiclogo neste campo, cobrindo desde rgos governamentais como Tribunal de Justia, Conselhos de direitos da mulher, sistema prisional, abrigos, at organizaes no jurisdicionais como os conselhos tutelares e ONGs parceiras de projetos do Estado ou que desenvolvem suas atividades de forma autnoma na rea da infncia, por exemplo. Nessa sesso temtica, vamos tratar de algumas dessas reas de discusso e atuao.

Infncia e juventude uma das reas mais ricas e diversificadas da Psicologia Jurdica. Especialmente a infncia pobre no Brasil acaba sendo atriz principal das situaes que envolvem a criana e o adolescente com a lei. Tanto quando comete o ato, quanto em situaes em que objeto. Em ambos os casos, a compreenso e o exerccio da legislao atual parecem perpetuar o conceito de situao irregular que dava sustentao ao antigo Cdigo de Menores. Com a pobreza cristalizada, o difcil estranhar o aumento de infraes, de crianas nas ruas, a crise da rede de assistncia. Consolida-se, de forma bastante perversa, o binmio pobreza-criminalidade. Embora sejam ambos efeitos da falta de polticas pblicas, com muita facilidade se olha para a situao individual de cada criana, perdendo-se a dimenso de produo social do problema.

As chamadas classes perigosas, expresso que d nome ao livro de Ceclia Coimbra (2001), produzem e reproduzem essas crianas que circulam no espao pblico das cidades, insistindo em demonstrar a desigualdade que a Psicologia no deve iluminar como problema de cada um. O texto de Maria Lvia do Nascimento e Estela Scheinvar, Infncia: discursos de proteo, prticas de excluso, resgata a produo histrica dos equipamentos de proteo infncia, problematizando o contexto em que foram gerados, para tratar de forma cuidadosa o discurso protetivo que exclui.

A adoo uma das conseqncias da pobreza e da falta de polticas pblicas. De tempos em tempos a adoo ganha a mdia, seja atravs de casos que envolvam violncia ou personalidades, seja no formato de poltica pblica, em aes municipais ou estaduais. A demanda nos processos de habilitao para adoo e a funo dos dispositivos judiciais, texto de Jos Csar Coimbra, discute em que medida os procedimentos judiciais podem influenciar na definio de demandas nos casos de adoo. No Rio de Janeiro, segundo o autor, a preferncia por crianas com menos de dois anos de vida, branca e de sexo feminino. Assim, busca-se analisar como as restries impostas escolha do perfil do adotando poderiam - dentro de certos limites - criar novos tipos de demanda de adoo.

Ainda sobre infncia e juventude, a discusso que envolve os conflitos com a lei um tema que tem atrado olhares da mdia, dos governantes e da sociedade civil como um todo. Irene Rizzini (2005) diz que

a despeito da nfase nas idias e nas prticas de democracia e direitos humanos, o mundo ainda no conseguiu resolver a contento o que fazer com a populao jovem que infringe a lei, para alm de submet-la aos velhos presdios. (...) Os esforos de humanizao do passado, buscando sobrepor a educao punio dos menores de idade, vm perdendo fora diante dos desafios de governabilidade impostos pelo acelerado crescimento das cidades e pela escalada da violncia agravada pelo fcil acesso a drogas e armas (Rizzini, 2005, p. 9).

Este trecho oferece a dimenso do contexto em que se colocam as questes discutidas por Cludia Regina Brando Sampaio Fernandes da Costa, em Possvel Construir Novos caminhos? Da Necessidade de Ampliao do Olhar na Busca de Experincias Bem-Sucedidas no Contexto Socioeducativo. O artigo busca refletir acerca das possibilidades das aes efetivas destinadas ao adolescente em conflito com a lei, com o intuito de promover transformaes na vida desses jovens que passam pelo sistema. Apesar do quadro no ser muito promissor, h como localizar intervenes bem sucedidas em vrios municpios do Brasil. A autora propicia uma reflexo acerca da importncia das ferramentas do psiclogo, em especial a escuta, para o atendimento desses meninos, podendo gerar mudanas significativas em suas vidas.

A leitura de De jvenes, actos delictivos y responsabilidades, de Liliana E. Alvarez., refora a idia de que a situao dos meninos e meninas pobres que cometem atos delituosos no Brasil no realidade exclusivamente nacional. Ela trabalha com a idia de vulnerabilidade social e entende que a violncia , muitas vezes, uma retomada do valor de si e a possibilidade de simbolizar algo que no foi possvel para aquele jovem em um momento em que foi vtima dessa violncia. O trabalho evidencia a dimenso de solido desses jovens que se constroem em situaes de anonimato. A autora toma para si o desafio de pensar se o jurdico pode ser um dispositivo que propicie a responsabilizao subjetiva, no relegando a segundo plano a responsabilidade social.

Luciene Alves Miguez Naiff e Denis Giovani Monteiro Naiff, em A Favela e Seus Moradores: Culpados ou Vtimas? Representaes Sociais em Tempos de Violncia, investigam como cidados de classe mdia baixa percebem a violncia atual, a favela e seus moradores. Os autores revelam a construo de uma relao direta entre os moradores da favela e a criminalidade, o que refora a negao dessa populao ao direito ao pertencimento.

Percia de danos psicolgicos em acidentes de trabalho, de Roberto Moraes Cruz e Saidy Karolin Maciel, trabalha a partir da idia de percia psicolgica como uma prova consubstanciada em processos judiciais, adquirindo carter de vistoria. As solicitaes periciais resultam da necessidade de avaliar as condies de trabalho e repercusses no plano da sade humana no que se refere aos aspectos psicolgicos. A avaliao de dano psicolgico constitui um desafio por parte dos profissionais psiclogos: no aspecto terico, no sentido de definir dano psicolgico; no metodolgico, na caracterizao das estratgias de diagnstico de dano psicolgico e no desenvolvimento de competncias profissionais.

PIVETES: uma singular experimentao, como o prprio nome diz, um breve relato do ousado e instigante trabalho de Cecilia M. B. Coimbra, Estela Scheinvar, Lygia S. M. Ayres, Maria Lvia do Nascimento, realizado na UFF. O prprio nome do projeto suscita um entendimento sobre seu objeto de cuidado. No entanto, a sigla j provoca um deslocamento necessrio que evidencia a postura e o olhar que essas profissionais tm sobre a temtica: Programa de Interveno Voltado s Engrenagens e Territrios de Excluso Social.

Contemplar uma seo temtica sobre Psicologia Jurdica pretende significar um convite, um desafio, uma provocao para que psiclogos, operadores do Direito, assistentes sociais, estudantes, professores, enfim, todos aqueles profissionais que interagem com esses campos se sintam implicados na construo de novos olhares. Pois acreditamos, como diz Suely Rolnik, que nossas prticas constituem-se num suporte privilegiado, embora no exclusivo, para a viabilizao das mudanas que se impem na atualidade (ROLNIK, 1992, p. 8).

Este volume convida as leitoras e os leitores a uma reflexo tica sobre saberes que se cruzam e sustentam o cotidiano psi. Inspiradas em Canguilhem, podemos arriscar afirmar que longe de ter um campo pronto de trabalho e reflexo, a Psicologia deve aproveitar seu exerccio de escuta para dialogar com o novo e estranhar o familiar.

 

 

 

Referncias Bibliogrficas

CANGUILHEM, G. O que a Psicologia, Epistemologia, 2, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro n. 30/31, jul./dez. 1973.

COIMBRA, C. Operao Rio: o mito das classes perigosas, um estudo sobre a violncia urbana, a mdia impressa e os discursos de segurana pblica. Niteri: Intertexto/Oficina do Autor, 2001.

ARANTES, E. Pensando a Psicologia aplicada justia. In: Gonalves, H. S.; Brando, E. (Orgs.). Psicologia Jurdica no Brasil. Rio de Janeiro: Editora NAU, 2004. p. 15-49.

RIZZINI, I. Prefcio. Caminhos para alm das grades de ferro. In: ZAMORA, M.H. (Org.). Para alm das grades: elementos para a transformao do sistema socioeducativo. Rio de Janeiro: Editora PUC/Edies Loyola, 2005. p. 9-12.

ROLNIK, S. Cidadania e alteridade. Trabalho apresentado no IV Encontro de Psicologia Social da ABRAPSO, So Paulo, abr. 1992.

VERANI, S.S. Alianas para a liberdade. In: BRITO, L.T. Psicologia e instituies de Direito: a prtica em questo. Rio de Janeiro: UERJ/CRP, 1994. p. 5-9.

 



[1] Professoras do Instituto de Psicologia da UERJ, editoras da revista.

[2] Professora do Instituto de Psicologia da UERJ, que participou da organizao da sesso temtica de Psicologia Jurdica



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