ESTUDOS E PESQUISAS EM PSICOLOGIA, UERJ, RJ, ANO 5, N.1, 1 SEMESTRE DE 2005

Resenha

 


Espaos de Esperana para um Mundo Melhor

Spaces of Hope for The Best World


 Gisela Verri de Santana*

 

A verso brasileira do livro Espaos de Esperana, do antroplogo e professor David HARVEY, traduzida a partir do ingls, foi publicada originalmente em 2000. O autor tambm escreveu conhecidos livros como Condio Ps-Moderna, com seis edies publicadas em portugus (6 ed., 1996), e A Justia Social e a Cidade (1980). De forma geral, seus estudos perpassam contedos e abordagens da antropologia social e da geografia humana relacionadas ao capitalismo e seus impactos sobre a sociedade.

Em Espaos de Esperana, que de fcil e instigante leitura, ele nos prope uma reformulao interior como uma das alternativas para transformar e melhorar o mundo em que vivemos.

A partir dos seus 12 captulos; agrupados nos macrotemas que abordam Desenvolvimentos geogrficos desiguais, Dos corpos e das pessoas polticas no espao global, O momento utpico e, Conversaes sobre a pluralidade de alternativas; Harvey, fortemente baseado nos ideais de Karl Marx, aborda entre outros assuntos, a questo do ser da espcie, quando se refere aos indivduos e nossa responsabilidade perante a natureza e a prpria natureza humana.

Ele inicia o livro relatando sua trajetria de mais de 20 anos de estudos, em forma de cursos para universitrios, dedicados ao Capital de Karl Marx. E, apresenta vises desta obra ao longo de diversas geraes.

Alm de suas impresses sobre a ascenso e declnio desta obra ao longo dos tempos, Harvey nos oferece um precioso mapa de obras e autores que devem ser lidos para uma melhor compreenso do clssico de Marx.

De forma leve, Harvey parece conversar com o leitor, explicando-lhe seu raciocnio, ao longo do texto. Numa mistura de prosa e cientificidade, elucida fatos de como as mudanas ocorridas nos ltimas dcadas tm transformado o modo de se enxergar a realidade, conduzindo-a a uma espcie de conto de fadas. Entre as mudanas discursivas contemporneas, nos fala da emergncia do conceito da globalizao e da re-significao do corpo enquanto O referente de todos referentes, enquanto locus irredutvel da determinao de todos os valores, significados e significaes.

A globalizao abordada por Harvey como um projeto geopoltico empreendido pelos Estados Unidos com o apoio de alguns aliados como a Gr-Bretanha, sobretudo no perodo tatcherista. E que, desde 1945, os EUA vm pensando localmente e agindo globalmente, sobretudo por meio das suas polticas externa, militar e comercial.

Ao longo do livro, Harvey vai construindo sua tese para defender a idia de que a globalizao, fabricada e edificada em prol dos interesses norte-americanos, ao mesmo tempo em que produz desenvolvimentos geogrficos desiguais e disparidades scio-econmicas e polticas, tambm constri sua prpria fragilizao, atravs dos seus aspectos negativos e desmobilizadores.

Baseado nas contradies e paradoxos da prpria globalizao, Harvey afirma que estes oferecem oportunidades para que uma poltica progressista alternativa possa emergir, criando um conjunto sem precedentes de condies para uma mudana radical.

Ainda embasado no pensamento marxista, Harvey se transforma em um DArtagnan da luta anticapitalista. Parafraseando o mosqueteiro, ele afirma que: um por todos e todos por um, na luta anticapitalista, continua a ser um slogan vital. (HARVEY, 2004, p. 116) Com o olhar voltado para as lutas de classes, ele tambm levanta a questo de que a globalizao nos obrigou a considerar as regras e os costumes por meio dos quais podemos nos relacionar uns com os outros numa economia global em que todos, de uma ou de outra maneira, se relacionam com todos, assim como dependem de todos. (HARVEY, 2004, p. 118) E que a disseminao dos modos ocidentais de pensar a auto-satisfao e a auto-realizao desencadeou um conjunto de intensas foras de crescente frustrao econmica, social e cultural (HARVEY, 2004, p. 127). Sobretudo, pela evidente caracterizao do neoliberalismo como violador dos direitos humanos.

Baseado na idia de que o homem, ou o corpo a medida de todas as coisas, ele ir fazer uma srie de analogias deste com o ambiente e com a mercadoria. E ir reforar a idia de que neste ser uno, como membro de um conjunto, pode estar A soluo para as questes de conflitos existente no mundo. neste momento, do livro Espao de Esperana, que Harvey retoma a questo do tempo e do espao, j tratada por ele em seu outro livro a Condio Ps-Moderna. Aqui, ele afirma que as necessidades do corpo so fixadas e sabidas em um dado espao e num dado tempo e que estes sero determinantes. Ele afirma: h [...] a necessidade de persuadir as pessoas a ver para alm das fronteiras do mope mundo da vida cotidiana que todos habitamos necessariamente (HARVEY, 2004, p. 310) e que os interesses, as prticas polticas e arquitetnicas, inseridas em um dado tempo e em um dado espao, tm condies de moldar os outros a se adaptar a suas concepes e desejos pessoais e particulares (HARVEY, 2004, p. 308) e que, portanto, todos os fatores a envolvidos se expressam e so determinantes nesta concepo de pessoa.

nesta direo que Harvey convoca a todos para sermos arquitetos rebeldes. Para reservar e produzir um espao no apenas para a reflexo crtica, mas, sobretudo, para o florescimento desta autotransformao. Onde a negociao, que est sempre na base de todas as prticas polticas e arquitetnicas e que envolve as pessoas que buscam transformar umas s outras e ao mundo, assim como a si prprias (HARVEY, 2004, p. 309) possa ser utilizada como ferramenta neste processo de renovao.

 

NOTAS

* Doutoranda do Programa de Ps-Graduao em Psicologia Social da UERJ, Mestre em Desenvolvimento Urbano e Regional pela UFPE.

 

 

Referncias bibliogrficas

 

HARVEY, D. Espaos de Esperana. Spaces of Hope. Traduo de Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonalves. So Paulo: Edies Loyola, 2004.

 

 

Recebido em: 16/08/2005

Aceita para publicao em: 09/09/2005

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