ESTUDOS E PESQUISAS EM PSICOLOGIA, UERJ, RJ, ANO 5, N.1, 1 SEMESTRE DE 2005

Editorial


Cuidar do Humano: uma preocupao ps-moderna?

Take care of Human: a post modern concern?


 

Eleonra Torres Prestrelo

Anna Paula Uziel

Ariane Patrcia Oswald

Deise Mancebo*

 

 

 

Desde seus primrdios, a Psicologia lida com a questo da subjetividade, mesmo que com outras denominaes, como a de conscincia. Algumas correntes do pensamento psicolgico desenvolveram-se na busca do entendimento de como se davam os processos psicolgicos internamente, alm daqueles que se podiam observar, atravs do comportamento.

Essa forma de desenvolvimento do pensamento trazia, em si, uma dicotomizao: o fora, normalmente identificado como a realidade, algo objetivo, que podia, inclusive, ser mensurado e comparado. E o dentro, algo da rea do subjetivo, como aquilo que dizia respeito s a um sujeito, individual e intransfervel (ANGERAMI-CAMON, 2003).

Essa dicotomia definiu, inclusive, na Psicologia, reas de estudo e prticas que, durante anos, se consideraram quase que excludentes: a Psicologia Clnica, que tratava de questes relativas ao interior do sujeito, sofrendo, inclusive, por vezes, a crtica de se constituir numa abordagem que refora o individualismo nas pessoas, e, por conseguinte, influenciaria a formao de uma cultura individualista na sociedade. E a Psicologia Social, voltada para um entendimento mais abrangente da insero da pessoa como um ser eminentemente social, segundo a qual o homem era constitudo pelas diversas foras que compem a sociedade a cultura, os meios de produo, as instituies familiares, educacionais, dentre outros ao mesmo tempo em que as constitua.

Essa forma dicotomizada de se pensar o Homem, presente no que poderamos chamar de Psicologia tradicional, reproduzia uma tentativa modernista de buscar delinear uma verdade objetiva que pudesse caracterizar como universal. Para tanto, no havia lugar para o que no podia ser controlado, o subjetivo. Sob essa perspectiva, a cincia constituir-se-ia num tipo de conhecimento que deveria poder ser reproduzido e procurava afastar-se da idia de que o observador pudesse interferir, de alguma forma, no objeto estudado.

O pensamento ps-moderno procura, justamente, questionar a dicotomia moderna, criticando a independncia sujeito/objeto na construo de uma realidade. Se a realidade construda no processo de interao do homem no mundo, como podemos acreditar que existe uma linha de demarcao que delimitaria at onde vou e a partir de onde se constituiria o mundo fora de mim? Alm disso, questiona a possibilidade de termos certezas absolutas e universais. Traz a incerteza para o nosso cotidiano...

Hoje, no mais se pensa o sujeito com uma identidade fixa, o que implica, para a Psicologia, uma perspectiva muito mais ampla no exerccio de construo de seu saber.

Stuart Hall (2005), num texto que contribui para pensarmos o sujeito contemporneo, nos indica trs concepes de identidade: a) a do sujeito do Iluminismo, onde se pensava o indivduo como tendo um centro, uma essencialidade, que permanecia fazendo parte dele durante toda sua vida; b) a noo de sujeito sociolgico, que entende a identidade como algo formado na interao entre o Eu e a sociedade; onde permanece a idia de um ncleo, mas se constituindo na interao com o exterior e c) o sujeito ps-moderno, que no teria um ncleo de eu fixo, essencial, permanente. Assim, para Hall (2005), a identidade torna-se uma celebrao mvel: formada e transformada continuamente em relao s formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. Como assinala o autor, as sociedades ps-modernas seriam, por definio, mutantes, em oposio s tradicionais. Para se pensar, portanto, um sujeito mutante, fluido, pois sujeito constitudo e constituinte de uma sociedade tambm mutante, faz-se necessrio estud-lo em suas infinitas possibilidades e requer um exerccio de constante construo/ampliao do objeto de estudo.

Esse nmero da revista Estudos e Pesquisas em Psicologia, nos artigos apresentados, caracteriza-se por uma predominante preocupao com o cuidado, nas suas mais diversas formas de expresso, desde o cuidado com o resgate da histria da Psicologia no Maranho, com os valores que orientam as relaes humanas atualmente, at o tipo de edificao mais indicada educao infantil.

Mrcia Antonia Piedade Arajo, com o artigo Conhecendo a Psicologia no Maranho, tem o cuidado de resgatar o surgimento da Psicologia em seu estado, a partir de uma contextualizao poltica, social e cientfica, ressaltando, com isso, a importncia do entendimento dos determinantes locais para a compreenso dessa disciplina.

No artigo Sujeitos Monetrios da Modernidade, Marcos Rodrigues Alves Barreira nos contempla com uma reflexo crtica sobre os efeitos do processo de modernizao capitalista na subjetividade contempornea reflexo baseada na crtica marxista da economia poltica. O autor coloca, de forma muito bem articulada, o carter indissocivel do processo de construo da subjetividade com os valores pregnantes da sociedade na qual ela se constitui. Como aponta no texto: [...] Marx afirmou que o capitalismo sempre compreendido como um modo de produo especfico no cria apenas mercadorias para os consumidores, mas igualmente, produz os consumidores de suas mercadorias (p.9). Desenvolve, ento, seu texto, sob o vis reflexivo dos desdobramentos que abrangem a transformao social do sujeito em sujeito do consumo, discutindo a transformao das relaes humanas em relaes entre coisas.

Ana Maria Szapiro, em Tempos de ps-modernidade: vivendo a vida saudvel e sem paixes trabalha um aspecto da problemtica do sujeito ps-moderno, que, sem ideologias, vive um processo de des-subjetivao, aprisionado na sua liberdade e na busca de uma vida saudvel e sem riscos. A eleio do biolgico como regulador da vida, incluindo-se a, a iluso da negao da morte, faria surgir uma nova forma de subjetivao e sociabilidade, a biossociabilidade (RABINOW, 1999). A vida estaria regida pelo cuidado com o excesso, com tudo o que da ordem das paixes e dentro dessa perspectiva que se coloca a liberdade de cada um. A autora amplia sua reflexo, creditando como responsveis pelo aprisionamento humano, o desamparo, a desafiliao e a ausncia de referncias, caractersticos de um estar provisrio e sua conseqente dessimbolizao.

Seguindo linha de pensamento semelhante, temos a resenha de Gisela Verri de Santana sobre o livro Espaos de esperana para um mundo melhor, de David Harvey, identificada como uma leitura fcil e instigante. O autor, diz ela, [...] nos prope uma reformulao interior como uma das alternativas para transformar e melhorar o mundo em que vivemos (p.162). Alm de suas impresses sobre a ascenso e declnio do Capital, obra de Marx, da qual seria um profundo estudioso, Harvey nos traria, segundo ela, numa mistura de prosa e cientificidade, uma viso de como as mudanas ocorridas na sociedade, nos ltimos anos, tm transformado a forma de se enxergar a realidade. Como exemplo, Harvey discute a globalizao, movimento edificado em prol dos interesses americanos, que constri desigualdades socioeconmicas e polticas, mas tambm sua prpria fragilizao. Numa analogia ao mosqueteiro, o autor se coloca como um DArtagnan, numa luta anticapitalista, apregoando que h [...] necessidade de persuadir as pessoas a ver para alm das fronteiras do mope mundo da vida cotidiana que todos habitamos necessariamente , ressalta a autora.

Ainda no sentido de podermos refletir sobre como podemos cuidar do Humano, o artigo de Daniele Pinto da Silveira e Ana Luza S. Vieira Reflexes sobre a tica do Cuidado em Sade: Desafios para a Ateno Psicossocial no Brasil traz baila uma importante discusso acerca dos referenciais de cuidado adotados nos modelos de ateno em sade coletiva e de sade mental, a partir da Reforma Sanitria e Psiquitrica no Brasil. As autoras colocam em relevo questes cruciais para a criao de uma nova tica do cuidado: o acolhimento, a responsabilidade e o vnculo. Ressaltam, portanto, aspectos relativos a uma prxis que se orienta numa perspectiva de humanizao cada vez maior dos servios de sade, chamando a ateno dos profissionais dessa rea para que pautem suas aes nas necessidades e nos problemas da comunidade de referncia e no em solues [...] tecnicistas, medicalizadas e institucionalizadas (p.9). (no esquecer de ver depois o nmero certo quando a revista estiver pronta).

Cludia Fernanda Rodriguez e Maria Jlia Kovcs tambm abordam tema de grande interesse para a sociedade contempornea: a viso de morte dos adolescentes e no que a educao pode contribuir para a sua elaborao. sabido que, na adolescncia, a noo do risco minimizada, surgindo da, inclusive, um alto ndice de mortes por causas inesperadas, indicado em alguns momentos, como uma problemtica de sade pblica. Atravs do vdeo Falando de morte com adolescentes e os questionrios que investigavam a percepo desta, as autoras desenvolveram um trabalho com educadores e adolescentes, com o objetivo de abrir espao para a comunicao entre eles. Terminam o trabalho ressaltando a dificuldade em se lidar com o tema da morte, apesar de sua presena no cotidiano de todos ns. Ressaltam a importncia dos profissionais educadores criarem espao para essa discusso nas escolas, um espao de facilitao da comunicao entre crianas, adolescentes e adultos.

Ainda sobre o tema da morte, temos a resenha de Hugo Ramn Barbosa Odone, sobre o livro Suicdio e Psicoterapia, de Karina Fukumitsu. O autor ressalta que, embora o suicdio seja tema de fundamental importncia, pouco se tem publicado na literatura mdica e psicolgica sobre ele, sendo encontrado, com freqncia, apenas dados estatsticos: H uma idia generalizada de que no se devem publicar dados referentes a estatsticas e motivaes para o suicdio, pois geraria na sociedade uma reao, geometricamente crescente, de aumento dos casos (p.165).

Numa articulao sensvel e generosa, Hugo nos aponta os elementos que considera fundamentais e inovadores no livro de Karina Fukumitsua, sua correlao com a gestalt-terapia e com a perspectiva fenomenolgico-existencial, na qual, inclusive, essa abordagem teraputica se fundamenta. Sobre a perspectiva fenomenolgica, o autor ressalta:

A fenomenologia, apesar de j ser uma abordagem metodolgica centenria, continua ainda chocando pessoas e instituies e sofre ainda certa resistncia por tratar-se de uma cincia de rigor inovador e que prope mudanas de paradigmas para a investigao de conhecimento (p.165).

 

 

Como contribuio para a continuada reflexo de nossas prticas, temos o artigo Do topo de uma montanha temos um timo ngulo das coisas... mas ser que podemos ver tudo? de Solange M. de Oliveira Magalhes e Ivone Garcia Barbosa, onde as autoras reconstituem as transformaes histricas do conceito de infncia, pontuando ser este, produto de construes sociais. A partir desta compreenso, buscam identificar, no decorrer do texto, alguns preceitos que orientam as prticas de ateno, criao, socializao e educao infantil na sociedade moderna.

Liana Gonalves Pontes Sodr, em seu artigo intitulado As indicaes das crianas sobre uma edificao adaptada para a educao infantil, trata da qualidade do ambiente escolar, como um espao importante para a infncia. Atravs de desenhos e explicaes, crianas de 4 a 6 anos expressaram sua percepo sobre os mesmos, permitindo a autora analisar que, apesar das edificaes escolares terem, como funo, fornecer abrigo, proteo e estimulao, isso nem sempre ocorre. Verifica, ainda, que as crianas, como usurias, so capazes de identificar tal problemtica. Em comum com estudiosos da rea, a autora reafirma a importncia de espaos de lazer abertos, onde crianas possam entrar em contato com a natureza, para o processo de desenvolvimento infantil.

A comunicao de pesquisa Espao urbano contemporneo e subjetividade: um foco especial sobre as favelas do Rio de Janeiro de Ana Lcia Gonalves Maiolino tambm aborda a interface espao/sujeito. Ainda em desenvolvimento, esta pesquisa objetiva a anlise da histria e das caractersticas de diferenciao e segregao socioespacial na cidade do Rio de Janeiro, e os impactos das polticas pblicas adotadas nesta rea.

O artigo Inteligncia emocional: parmetros psicomtricos de um instrumento de medida, de Marilda Aparecida Dantas e Ana Paula Porto Noronha, trata das evidncias de validade fatorial do Mayer Salovey Caruso Emotional Intelligence Teste (MSCEIT) e de seus ndices de preciso. Relata, no decorrer do texto, os aspectos abrangidos pelo termo inteligncia emocional e a metodologia utilizada na validao deste instrumento. Embora registrando os ganhos obtidos neste trabalho, reconhece a importncia de se continuar desenvolvendo pesquisas na rea, especialmente no Brasil, pois estudos sobre o tema ainda so raros.

Temos, por fim, o artigo de Jean-Marie Robine diretor do Instituto Francs de Gestalt-Terapia: A Ggestalt-Terapia ter a ousadia de desenvolver seu paradigma ps-moderno?, traduzido por Mnica Botelho Alvim, onde o autor explora algumas das linhas de fora e paradigmas da Teoria da Gestalt-Terapia e as implicaes para sua prtica clnica.

Traa um percurso das bases epistemolgicas que sustentam sua prtica desde o incio de sua formao em Gestalt-Terapia, pontuando formas diferentes de entend-la e pratic-la, de forma, s vezes, quase opostas, como representantes de um lado, de uma forma de pensar modernista e, de outro, afinada com os preceitos de uma ps-modernidade. Passeia por temas fundamentais abordagem: suporte, frustrao, vergonha, Teoria do Self sempre atravs de sua trajetria pessoal, pois como to propriamente coloca, [...] a construo terica em si no outra coisa alm de tentar construir significado para sua experincia, e talvez a integrao dessa experincia em uma ordem maior de generalizao (p. 106-107). Num determinado momento do texto pergunta: O que nos oferece a perspectiva ps-moderna? E segue desenvolvendo seu pensamento, chamando nossa ateno para que, se perdemos em independncia, ganhamos em interdependncia, ressaltando a importncia da relao, da solidariedade, da comunidade... e a angstia decorrente dos riscos que o exerccio dessa forma de estar no mundo nos traz.

Para terminar, transcrevemos, como fundo de reflexo para o leitor, a fbula-mito do cuidado essencial (a fbula de Higino), de origem latina com base grega:

Certo dia, ao atravessar um rio, Cuidado viu um pedao de barro. Logo teve uma idia inspirada. Tomou um pouco do barro e comeou a dar-lhe forma. Enquanto contemplava o que havia feito, apareceu Jpiter.

Cuidado pediu-lhe que soprasse esprito nele. O que Jpiter fez de bom grado. Quando, porm, Cuidado quis dar um nome criatura que havia moldado, Jpiter o proibiu. Exigiu que fosse imposto o seu nome.

Enquanto Jpiter e o Cuidado discutiam, surgiu, de repente, a Terra. Quis tambm ela conferir o seu nome criatura, pois fora feita de barro, material do corpo da Terra. Originou-se ento uma discusso generalizada.

De comum acordo pediram a Saturno que funcionasse como rbitro. Este tomou a seguinte deciso que pareceu justa:

Voc, Jpiter, deu-lhe o esprito; receber, pois, de volta este esprito por ocasio da morte dessa criatura.

Voc, Terra, deu-lhe o corpo; receber, portanto, tambm de volta o seu corpo quando essa criatura morrer.

Mas como voc, Cuidado, foi quem, por primeiro, moldou a criatura, ficar sob seus cuidados enquanto ela viver.

E uma vez que entre vocs h acalorada discusso acerca do nome, decido eu: esta criatura ser chamada Homem, isto , feita de hmus, que significa terra frtil. (BOFF, 1999, p.6)

 

Homem, terra frtil, desde que devidamente cuidada...

 

 

NOTAS
* Professoras e pesquisadoras do Instuto de Psicologia da UERJ.

 

 

Referncias Bibliogrficas:

 

ANGERAMI-CAMON, W.A. Psicoterapia e subjetivao: uma anlise de fenomenologia, emoo e percepo. So Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003.

BOFF, L. Saber cuidar: tica do humano compaixo pela terra. Petrpolis, RJ: Vozes, 1999.

HALL, S. A identidade cultural na ps-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.



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