ESTUDOS E PESQUISAS EM PSICOLOGIA, UERJ, RJ, ANO 4, N. 2, 2 SEMESTRE DE 2004

Editorial


A Questo da Cientificidade: Novos Paradigmas

The Question of Scientific: New Paradigms


 

Ariane P. Ewald1

Deise Mancebo

Anna Paula Uziel

Eleonora T. Prestrelo

 

 

 

O meio cientfico apresenta ainda dificuldades em chegar a um acordo sobre o que cientfico e o que no . As polmicas em torno de determinadas questes perduram como se tivessem acabado de comear e os argumentos raramente se renovam. O que torna realmente uma pesquisa cientfica, ainda no encontrou o seu consenso (OLIVA, 2003), apesar das afirmativas contundentes que geralmente costuma-se ouvir das diversas reas de conhecimento. Ser esta uma questo de paradigmas, tal como enunciado por Thomas Kuhn (1978)? Que paradigmas esto servindo de fundamento para a discusso do que ou no cientfico? Pode-se perguntar, ainda, se o mesmo paradigma deve ser utilizado pelas cincias, de forma geral, criando com isso o risco de uma generalizao uniformizadora para reas cujos objetos de estudo so to diferenciados.

Em A estrutura das revolues cientficas, Thomas Kuhn j defendia uma concepo de cincia historicamente orientada (1978, p.15) pois, para ele, a histria que permite a identificao do que se concebe, num determinado perodo, por cientfico. Defende, ainda, que mesmo que trabalhos no sejam compatveis com as concepes atuais de cincia, no significa que no sejam cientficos e que o mesmo pode ser pensado em relao s teorias obsoletas. As conseqncias desta concepo remetem ao desmantelamento de um dos principais pilares da tradicional forma de se fazer cincia: a crena de que os dados empricos no so afetados pela teoria do observador e de que o avano da cincia fornece, por acmulo, uma verdade cada vez maior sobre o mundo. Esta outra forma de conceber a cincia inviabiliza v-la como um simples processo de acrscimos, e abre a oportunidade de pensarmos o cientfico a partir da relao de concepes num determinado momento histrico, encontrando ali a coerncia interna necessria para um outro tipo de concepo de cincia. Abre-se tambm o caminho para repensarmos o processo de educao da/para a cincia nos meios acadmicos lugar em que a cincia normal efetivamente acontece e que, sem sombra de dvida, partem, na concepo de Kuhn, de um paradigma estabelecido que encaminha o conhecimento cientfico para uma concepo de moldura pr-estabelecida. Assim, a cincia normal, que a atividade na qual a maioria dos cientistas emprega a maior parte do seu tempo, baseada no pressuposto de que a comunidade cientfica sabe como o mundo e busca, vigorosa e devotadamente, forar a natureza a esquemas conceituais fornecidos pela educao profissional (KUHN, 1978, p. 24). O paradigma fornece, portanto, um modelo de pensamento completo e fechado e ao aceit-lo, o cientista j se coloca sob um padro de escolhas e decises que dizem respeito a tcnicas de pesquisa, ao que deve observar, as questes a serem formuladas, problemas, formas de explicao e interpretaes aceitveis ou no (OLIVA, 2003).

Podemos pensar, portanto, que fazer cincia no simplesmente seguir um caminho previamente estabelecido, nos moldes da histria de Joo e Maria que deixaram um caminho de migalhas de po para no se perderem no meio da floresta, sem prever que os passarinhos os comeriam. ir alm da cincia normal, refletir sobre o mundo a partir de parmetros inesperados, desestabilizar este modo normal de fazer cincia e, ainda assim, estar produzindo narrativas e conhecimentos extremamente relevantes para a compreenso das coisas do mundo vivido. Ser um pouco anrquico no pensar e no produzir conhecimento, como defende Paul Feyerabend (1977).

Zigmunt Bauman, em entrevista concedida a Maria Lcia Pallares-Burke, ao ser inquirido sobre sua formao de socilogo e se a literatura pode ensinar sobre a sociedade e a condio humana, afirma que as narrativas sociolgicas, provenientes dos livros e cursos que realizou durante tantos anos, no so superiores a outras narrativas, pois tm sempre de demonstrar e provar seu valor e utilidade pela qualidade de seu produto. Eu, por exemplo, afirma Bauman, me lembro de ganhar de Tolstoi, Balzac, Dickens, Dostoievski, Kafka ou Thomas More muito mais insights sobre a substncia das experincias humanas do que de centenas de relatrios de pesquisa sociolgica. Acima de tudo, aprendi a no perguntar de onde uma determinada idia vem, mas somente como ela ajuda a iluminar as respostas humanas sua condio assunto tanto da sociologia como das belles-lettres (2004, p.319). possvel, com isto, pensarmos que a dimenso do humano nos impe outras tarefas, que vo alm da cincia normal e, ao mesmo tempo, estarmos atentos para no produzirmos o que Peter Burke (2002) chama de um dilogo de surdos dentro deste prprio fazer. Este mesmo autor lembra que o hoje clssico e elogiado estudo de Jacob Burchardt, Cultura do Renascimento na Itlia, escrito em 1860, que trata do nascimento do conceito de indivduo conceito este to caro s cincias humanas e sociais - teve pouqussima repercusso porque se baseava muito mais em fontes literrias do que em registros oficiais. Neste sentido, podemos lembrar a importncia do surgimento da Escola dos Annales (Burke, 1991) que estabeleceu um novo modo de olhar para a Histria. A inteno de Marc Bloch e Lucien Febvre era fazer com que a Histria se tornasse mais ampla e humana e assim estenderam suas reflexes procurando fazer uma interlocuo com reas como Antropologia, Geografia, Lingstica e Psicologia. Essa preocupao tambm esteve presente no trabalho de Fernand Braudel que era versado em economia e geografia e acreditava firmemente em um mercado comum das cincias sociais (BURKE, 2002, p. 31). A definio de Histria que o prprio Braudel (1992) usa em seu texto Histria e Sociologia bastante singular e ilustra bem esta discusso: no h uma histria, um ofcio de historiador, mas, ofcios, histrias, uma soma de curiosidades, de pontos de vista, de possibilidades, soma qual amanh outras curiosidades, outros pontos de vista, outras possibilidades se acrescentaro ainda (p.92, grifos do autor).

Em prefcio ao livro de Iray Carone (2003), que retoma a discusso dos paradigmas na Psicologia, Yves de la Taille relembra a relao entre Psicologia e Epistemologia, j bastante abordada por Japiassu em alguns de seus livros (1975, 1975a, 1988, 1991, 1994). Mas ele lembra a severa crtica feita por Canguilhem, nos anos 50, Psicologia, e que, oportunamente neste momento, a revista Estudos e Pesquisas em Psicologia ilustra com um artigo sobre a polmica que ali se iniciou. ele que abre este nmero da revista, relatando a polmica criada em torno do j clssico texto "Qu'est-ce que la psychologie?" de G. Canguilhem. Jean Franois Braustein, no artigo intitulado La Critique Canguilhemienne de la Psychologie, procura, antes de mais nada, situar o leitor no contexto da discusso, pois o texto surgiu de uma conferncia pronunciada em 1956 e que foi posteriormente publicada na Revue de mtaphysique et de morale. A histria do artigo e as polmicas que se desdobraram a partir dele so, como diz o prprio autor, relativamente complexas pois levam dois autores, Canguilhem e Lagache - cuja afinidade intelectual estava explicitada em seus prprios textos, a exporem diferenas que at ento no se colocavam como to relevantes. Como lembra Braustein, o artigo de Canguilhem comea por uma afirmao bastante dura, defendendo que o estatuto da psicologia pouco claro e que mistura uma filosofia sem rigor com uma tica sem exigncia e uma medicina sem controle, procurando demonstrar, ao longo do seu texto, que a psicologia no possui nenhuma unidade. Com este artigo, Jean Franois Braustein explicita o percurso que se faz na construo do conhecimento cientfico que, muitas vezes, atravessado por pontos de vistas divergentes tanto cientfica quanto pessoalmente.

No segundo artigo, O Homem sem Qualidades. Histria Oral, Memria e Modos de Subjetivao, Heliana de Barros Conde discute a histria oral como ferramenta para a construo da histria da Anlise Institucional no Brasil. Recorrendo noo de memria-composio de Alistair Thomson, a autora discute as relaes entre a prtica da histria oral, as formas de coleta de lembranas e a criao de possibilidades metodolgicas futuras neste processo. Heliana Conde parte da sua prpria memria para realizar esta discusso e no hesita, a partir dos estudos que realizou sobre histria oral, em colocar em cena as noes que, mesmo vindo de outras reas, considera importantes para auxiliar neste trabalho de reconstruo da memria da Anlise Institucional.

O artigo de Ivone G. Barbosa e Solange M. O. Magalhes, Mtodo dialtico: uma construo possvel na pesquisa em educao da infncia, se prope a refletir, do ponto de vista metodolgico, sobre as prticas educativas que so usadas na educao da infncia. Procura ento, a partir de estudos e investigaes j realizadas e sobre eles exercendo uma reflexo crtico-metodolgica, perceber a possibilidade de uma orientao dialtica para a criao de paradigmas terico-metodolgicos que possam dar conta da dinmica inerente ao seu objeto de estudo, reforando as palavras de Adam Schaff (1991) de que preciso assumir que o conhecimento um processo infinito de verdades parciais que a humanidade estabelece nas diversas fases do seu desenvolvimento histrico (p. 97).

O artigo Trabalho Infantil e Ideologia nas Falas de Mes de Crianas Trabalhadoras, de Izabel Feitosa e Magda Dimenstein, parte de grupos focais de mulheres que so mes de crianas que estudam e trabalham para perceber que a insero da ideologia do trabalho est imersa nas suas prticas discursivas e analisar como elas atuam como reprodutoras de uma vivncia de trabalho para seus filhos. Para as autoras, quando se trata da criana pobre, o trabalho infantil apresenta-se como uma prtica que vem sendo reforada historicamente pela famlia.

Por fim, o texto de Carla Ribeiro e Denise Leda, O significado do trabalho em tempos de reestruturao produtiva, investiga o significado do trabalho na sociedade contempornea, caracterizado pelo desemprego, pela precarizao e pela desvalorizao do fazer humano. Destacam o crescente esvaziamento do valor social e psicolgico do trabalho e a tendncia de mercantilizao do mesmo.

Na seo de comunicao de pesquisa, apresentado o trabalho de Leonardo Cruz da Silva sobre identidade masculina. Sob o curioso ttulo Playboy, a revista para ser lida com uma s mo: produo ou apropriao de sentido da identidade masculina?, o autor parte de alguns questionamentos em torno da masculinidade para, atravs da anlise de propagandas publicadas na Revista Playboy nos anos 80, pensar a produo de sentido de uma identidade masculina.

A seo Resenha apresenta, atravs da escrita de Maria da Graa Gonalves, o livro de Fernando Gonzlez-Rey, Sujeito e Subjetividade: uma aproximao histrico-cultural, livro em que o autor analisa o curso histrico da construo do conhecimento sobre sujeito e subjetividade, assumindo uma perspectiva dialtica e de profundo interesse para as temticas da Psicologia.

 

 

NOTAS

1 Professoras e pesquisadoras do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

 

 

Referncias Bibliogrficas:

BAUMAN, Z.; PALLARES-BURKE, M. L. G. Entrevista. Tempo Social. Revista de Sociologia da USP, Departamento de Sociologia, Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo, v. 16, n.1, p. 301-325, jun. 2004.

BRAUDEL. F. Escritos sobre a Histria. So Paulo: Perspectiva, 1992.

BURKE, A Escola dos Annales, 1929-1989. So Paulo: UNESP, 1991.

_____. Histria e Teoria Social. So Paulo: UNESP, 2002.

CARONE, I. A Psicologia tem paradigma? So Paulo: Casa do Psiclogo; FAPESP, 2003.

FEYERABEND, Paul. Contra o Mtodo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977.

JAPIASSU, H. Introduo epistemologia da Psicologia. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

_____. O mito da neutralidade cientfica. Rio de Janeiro: Imago, 1975a.

_____. Introduo ao pensamento epistemolgico. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988.

_____. As paixes da cincia: estudos de histria das cincias. So Paulo: Letras & Letras, 1991.

_____. Introduo s cincias humanas: anlise de epistemologia histrica. So Paulo: Letras & Letras, 1994.

KUHN, T. S. A estrutura das revolues cientficas. So Paulo: Perspectiva, 1978.

OLIVA, Alberto. Filosofia da cincia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

SCHAFF, A. Histria e Verdade. So Paulo: Martins Fontes, 1991.

 



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