RESENHA

 

Gestalt e gênero: configurações do masculino e feminino na contemporaneidade

 

Gestalt and gender: masculine and feminine in contemporary times

 

 

Marta Fischman Slemenson*, I

I Co-fundadora e membro honorário da AGBA–Associacion Gestáltica de Buenos Aires. Foi designada como Presidente do Congresso Internacional de Gestalt a realizar-se em Buenos Aires em maio de 2007.

Endereço para correspondência

 

 

GESTALT E GNERO: CONFIGURAES DO MASCULINO E FEMININO NA CONTEMPORANEIDADE (264 p.)

Lilian Meyer Frazo; Sérgio Lizias C. de O. Rocha (org.)
Campinas: Livro Pleno, 2005

Quando, no mês de agosto, Lilian Meyer Frazão esteve em Buenos Aires, na Argentina, para participar do IV Congresso Internacional de Psicoterapias – convidada oficialmente para integrar uma mesa que tive o prazer de coordenar – deixou como presente para a Associação Gestáltica de Buenos Aires (AGBA) um livro que me sugere alguns ensinamentos.

Refiro-me a Gestalt e gênero – Configurações do masculino e feminino na contemporaneidade, recentemente publicado pela editora brasileira Livro Pleno, de Campinas – SP, numa coleção dedicada à Terapia Gestáltica.

Tem um formato relativamente pequeno e leve (dos que se carregam numa pasta); uma capa atraente de papel brilhante e cores contrastantes: amarelo e preto com letras brancas.

Os organizadores desta Série, Hugo Ramón Barbosa Oddone e Karina Okajima Fukumitsu explicitam seus vários objetivos, dentre os quais destaco três, particularmente atinados e oportunos: estimular e difundir estudos, pesquisas, relatos e descrições fenomenológicas de experiências gestálticas; promover o diálogo entre autores e leitores; e, criar um espaço de interação nas abordagens de áreas afins.

O índice inclui uma apresentação, um prefácio, uma introdução e sete trabalhos de diferentes autores que provêm de diversos lugares do Brasil e cuja temática se desenvolve, em cada caso, com as respectivas bibliografias.

Minha intenção não é sintetizar este material, que merece que cada pessoa faça sua própria leitura, mas sim transmitir algumas considerações que poderiam ser úteis. Creio que, independentemente do seu inquestionável interesse teórico, este livro é valioso porque, como pretendem os organizadores da Série Gestalt, funciona como uma revisão das próprias vivências, um detonador de pensamentos, e uma incitação ao diálogo.

Selma Ciornai, que assina a apresentação do livro, observa que “é um livro em que os autores buscam iluminar um campo no qual estamos todos imersos, do qual todos fazemos parte”. Destaca para nós que “é mais fácil falar de novos paradigmas que vivê-los” e que é importante cultivar a percepção de que a abordagem gestáltica nunca está acabada, mas está num permanente processo de construção e reconstrução, o qual não só a vitaliza como também permite o diálogo com autores e questões da contemporaneidade.

Selma foi precursora neste tema, como em tantos outros, com seu trabalho de doutorado Da Contracultura à Menopausa (vivências e mitos da passagem). Naquela ocasião, a autora, sempre interessada no social, partiu de uma pergunta aparentemente simples: as mulheres, que - entre os anos 60 e 70 - participaram do universo da contracultura no Brasil, viveram o momento de crise que se atravessa durante a menopausa de modo igual ou diferente às que não viveram essa realidade? Dito de outra forma, aquelas experiências com todas suas variáveis – físicas, psicológicas, sócio culturais – modificaram de alguma maneira suas respectivas visões do feminino nessa etapa cronológica?

Também nesta apresentação, Selma incita-nos ao debate com uma pergunta enganosamente simples: “existe ou não uma essência ou natureza verdadeira do feminino e do masculino?”, a qual, eventualmente, permitirá o acesso à área fértil e complexa que irá se desenvolver no restante do livro.

A Introdução reflexiva dos organizadores – Lílian Meyer Frazão e Sérgio Lizias C. de O. Rocha – aborda elementos para continuar com a discussão das mudanças nas relações de gênero e para fundamentar novas propostas e idéias, com uma epistemologia e hipótese diferentes, às quais acrescentam-se ainda novas variáveis para a decodificação. Por exemplo, a importância da entrada da mulher no mercado de trabalho; a possibilidade do homem questionar os exigentes privilégios derivados da hegemonia do patriarcado; ou as novas formas de relacionamento e de subjetividade que se derivam dessas mudanças, as quais trazem consigo novos conflitos e desconformidades.

Quero destacar o que Lílian e Sérgio relatam sobre a rapidez e efetividade com que os colegas brasileiros reagiram perante o interesse que despertou o tema do masculino e do feminino na comunidade gestáltica. Interesse que se percebeu, primeiro em 1999, no Encontro Nacional de Gestalt-Terapia, realizado em Goiânia; depois, quando da publicação do mencionado livro de Selma Ciornai nesse mesmo ano, e multiplicado em diversos encontros, seminários, dissertações etc., até chegar no II Congresso Latino de Gestalt, em Maceió, em outubro de 2004. Foi aí, afirmam os organizadores, que se originou a idéia de unificar os aportes numa publicação, à qual tivesse acesso um maior número de leitores.

A revisão dos trabalhos mostra que os autores oferecem uma ampla perspectiva, não só no conteúdo de suas apresentações, como também no modo em que trabalham.

O primeiro e o último são ensaios sutis e versados de cada um dos organizadores: o primeiro que Lílian Meyer Frazão denomina “Alienação e resgate do feminino”; e o último, que Sérgio Lizias C. de O. Rocha intitula “Gestalt e relações de gênero: a emergência de novas masculinidades e feminilidades nos modos de ser homem e ser mulher hoje.”

Ambos os trabalhos constituem um marco interessante para enquadrar os restantes e parece-me apropriada esta modalidade – que me lembra a utilizada por Gordon Wheeler, com diferentes colaboradores – em que os compiladores escrevem uma introdução conjunta e logo diferenciam seus interesses em aprofundados capítulos individuais.

Segue o importante trabalho de Márcia Junqueira Teixeira: “Fome de Vida: a obesidade feminina à luz da Gestalt-Terapia”, que aborda o Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica (TCAP), apresentado originalmente como monografia final para um curso de especialização em Gestalt-Terapia. Integra aportes de diferentes orientações psicológicas e corporais, além da Gestalt.

Seguem duas contribuições sobre o masculino, que mostram a possibilidade de transportar-se do pragmático ao teórico, em situações com marco conceitual e circunstâncias distintas.

É o caso de Hugo Ramón Barbosa Oddone, em “Fronteiras do masculino: gestalt-experiências”, que começa desculpando-se porque 90% de sua experiência clínica foi realizada com mulheres, mas quando desenvolve distintas etapas de sua formação – com uma lembrança para nossa sempre recordada Julia Zwillinger, que me emocionou – vemos que também trabalhou com grupos de homens (nos anos oitenta, noventa e neste século), com grupos mistos e que participou de diferentes experiências corporais – como as danças circulares, com pessoas de Findhorn, Escócia ou a Biodança, de Rolando Toro – e também workshops com temas como o tabu do incesto. Vale dizer que, ainda que o material tenha sido recapitulado a posteriori das experiências em si, o trabalho está amplamente documentado. Agrupa os medos e as dificuldades relacionais no processo de mudança do que é definido como “o masculino”.

Além da modéstia de Hugo perante a idéia de colaborar com profissionais que foram seus mestres, creio que seu titubeio inicial confirma algo que não acentuamos suficientemente: o fato de que nosso treinamento profissional, diferentemente de outras especialidades centradas na busca de objetividade, supõe um aprendizado de como e com que limites usar a própria experiência, com seu conteúdo emocional e observações fenomenológicas, como um instrumento afinado para o trabalho teórico.

A apresentação de Georges Boris em "Uma nova paternidade?" é uma síntese da sua tese de doutorado em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará e foi publicada posteriormente como livro com o título de Falas de homens: a construção da subjetividade masculina. Para este trabalho, utilizou entrevistas fenomenológicas com pacientes homens, que foram atendidos pelo autor em diversos serviços psicológicos. Foram encontros onde trabalhou sobre a relação pai-filho, elaborando a influência posterior sobre esses filhos quando estes se transformam, por sua vez, em pais.

É sumamente interessante comparar ambos os trabalhos e comprovar que, na prática, a informação que surge da recompilação dos dados sobre os medos subjacentes e o processo de mudança não varia demasiadamente. O que é diferente tem mais a ver com o foco de atenção do pesquisador.

Um indicador a mais, se fosse necessário, da conveniência de comparar as conclusões a partir de diferentes psicoterapias e diferentes ciências.

No ensaio seguinte, “Homem/Mulher – Masculino/Feminino”, Maria Cecília Peres de Souto recorre à mitologia judaico-cristã, à grega, à biologia etc, para falar do andrógino em cada ser humano. Ela o faz em termos ao mesmo tempo diferentes e iguais à forma em que nos é apresentada pela filosofia chinesa (com o Yin e o Yang), como Lílian Frazão nos lembrou, ou às propostas junguianas sobre a anima e o animus.

Mais um passo é dado pelo excelente trabalho “Relações de Gênero no Espaço Escolarizado: o desafio de integrar polaridades”, de Daniela Magalhães da Silva, psicóloga escolar que estudou a fala das crianças e transformou-a no objeto da sua dissertação de mestrado.

Como trabalho de campo é o que melhor representa os cânones da pesquisa qualitativa. A mesma foi realizada numa escola privada mista, localizada num município do Rio de Janeiro, cuja escolaridade abarcava do nível pré-escolar ao ensino médio. Ali realizou práticas cotidianas durante cinco anos, com um sistema participativo, entrevistas semi-estruturadas com cinco professores e três inspetores, e reuniões explicativas com as crianças de escolaridade mais avançada. Também foi auxiliada por animadores infantis, que foram contratados para interagir com os menores.

Trabalhou com cinco grupos, com os seguintes temas: representação do feminino e do masculino; brinquedos e formas de brincar; papel dos pais; idade e relações entre as crianças e com seus brinquedos; práticas educativas entre os educadores e as crianças. As conclusões conectam-se com suas hipóteses sobre o desafio e as possibilidades de integrar polaridades.

Que o amplo panorama de temas, metodologias utilizadas, enfoques e estilos pessoais nos leve a deduções comparáveis é particularmente importante de ser levado em conta nos países latino-americanos, nos quais não é freqüente contar com o dinheiro necessário para fazer pesquisas, geralmente limitadas ao modelo estatístico ao qual fomos acostumados pela investigação médica e mercadológica.

O que dissemos mostra-nos a necessidade de ensinar métodos qualitativos na busca e registro de dados e de revisar e valorizar o trabalho de campo para o que fomos preparados pelas diferentes técnicas que utilizam tanto a psicologia social como a gestalt. Cada um ao seu modo, presta-se à criação de hipóteses que são parte da experimentação que subjaz ao nosso modo de fazer diagnóstico (como destaca Jean Marie Robine), e a um apreciável enriquecimento conceitual.

Ao ler alguns trabalhos, não pude deixar de pensar na riqueza do diálogo possível entre profissionais de diferentes países: que contribuições poderia fazer Patrícia Bursztein, da Argentina, com sua longa experiência com transtornos alimentares ao trabalho de Márcia Teixeira e sua abordagem dos transtornos da compulsão alimentar periódica? Quais as semelhanças e diferenças que subjazem aos sintomas aparentemente polarizados, como são o TCAP e as anorexias e bulimias, que constituem uma “praga” entre nossas adolescentes; e os modelos que são impostos como pautas a imitar pelos meios de comunicação?

Ainda que este não seja um tema em que tenha me especializado, supervisões dadas àqueles que o fizeram permitem-me confirmar que existem coincidências na predominância de mulheres com esses transtornos (10 a 1 diz Teixeira). Fiquei impressionada ao ler que a Miss Brasil 2001, de vinte e dois anos, submeteu-se a 19 cirurgias, nas quais gastou mais de R$ 15.000,00, com a intenção de preparar-se para esse concurso de beleza. Lembrei-me de uma entrevista que dei há alguns anos para uma conhecida revista de moda feminina, que escolhia anualmente modelos para incluir nas suas publicações, e que tinha a informação de que jovens de 15 a 16 anos que, avalizadas pelos pais, extirpavam uma costela para diminuir suas cinturas, antes de se apresentarem ao concurso.

Em que se parecem as abordagens com grupos de homens e aquela em que se trata a problemática pai-filho – há muito tempo já estudado em nosso país, por Francisco Huneeus, Sergio Sinai e Daniel Santinelli – com as de Barbosa Oddone ou de Georges Boris?

Poderíamos colaborar com trabalhos como os de Guillermo Leone sobre a realidade do mundo gay?

Por isso, procurei destacar algumas características que foram otimizadas por aqueles que sistematizaram este livro: é representativo de diversas camadas profissionais provenientes de várias regiões de seu país, traz novidades em seu conteúdo, utiliza variadas formas de análise e concilia uma apresentação agradável à acessibilidade econômica.

E, quiçá o mais importante, deixa aberta a possibilidade do enriquecimento temático em intercâmbios futuros: poderíamos pensar em organizar painéis e seminários compostos por membros da comunidade gestáltica de diferentes países nos próximos congressos.

Se conseguirmos, prosperaria a possibilidade de fazer publicações posteriores em forma conjunta?

Oxalá a leitura provoque muitas respostas as minhas perguntas!

 

Referências Bibliográficas

Frazão, L. M. Gestalt E Gênero. Configurações do masculino e feminino na contemporaneidade. Campinas: Livro Pleno, 2005.

 

Endereço para correspondência
E-mail: fischsle@fibertel.com.ar

Recebido em: 31/03/2006
Aceito para publicação em: 08/08/2006

 

 

Notas

* Psicóloga, socióloga e fonoaudióloga.



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