RESENHA

 

Sobre o dualismo e a técnica: o lugar da psicologia filosófica na formação do psicólogo brasileiro

 

 

Denis Barros de Carvalho

Universidade Federal do Piauí/UFPI- Parnaíba, PI, Brasil

Endereo para correspondncia

 

 

PSICOLOGIA E PSICODIAGNÓSTICO: BASES EPISTEMOLÓGICAS(251 páginas)
SENNE, W.  
Petrópolis: Vozes, 2005.

 

 

A diversidade existente na Psicologia costuma incomodar os profissionais da área, que tentam enfrentar essa existência de múltiplas formas de conceber o psicológico de modo a minimizar a aparente multiplicidade dos projetos de saberes psicológicos engendrados nos séculos XIX e XX, sob a égide da cientificidade. Uma maneira engenhosa de reduzir essa diversidade aparece no trabalho de Wilson Senne (2005), que nos propõe um dualismo constitutivo do conhecimento psicológico existente no nosso país, formando o que esse autor, pitorescamente, denominou de “a skizo da psicologia brasileira”. Essa dicotômica constituição do campo da formação teórica em Psicologia no Brasil deve-se ao fato de predominar em nosso contexto duas matrizes psicológicas: a primeira, de origem estadunidense, tem forte ênfase experimental e funcionalista, sendo bem representada pelo comportamentalismo. A segunda, remonta à filosofia continental européia, tendo origem nas raízes românticas de Freud e de sua renovação pela lingüística estrutural na França. Senne afirma também que essa dicotomia pode tem uma variação tricotômica: uma psicologia experimental (representada pelo comportamentalismo), contrastando com uma psicologia não-experimental (representada pela psicanálise e pela psicologia filosófica). Três autores representam essas abordagens: Fred Keller, que introduziu o comportamentalismo na USP; Durval Marcondes, que ensinou pioneiramente terapia e teoria freudiana também na USP e Antonio Gomes Penna, que introduziu uma preocupação com uma visão filosófica dos estudos psicológicos na Universidade Federal do Rio de Janeiro, todos os três em um momento em que os primeiros cursos de Psicologia começavam a serem organizados no Brasil.

O trabalho desenvolvido por Penna de preocupação com “uma visão filosófica dos estudos psicológicos”, é uma prática que encontra em França uma longa tradição, tendo em Merleau-Ponty e Sartre os seus maiores expoentes.

Senne desenvolve uma reflexão, a partir dessa tradição francesa de uma Psicologia filosófica, acerca do psicodiagnóstico como prática psicológica. Algumas características definiriam o psicodiagnóstico como atividade teórico-prática:

1- O psicodiagnóstico é uma forma de conhecimento;
2- O psicodiagnóstico é uma forma de conhecimento científico aplicado, o que supõe o envolvimento de teorias, métodos e técnicas.

O conhecimento científico diferencia-se do senso comum por assumir o estabelecimento de leis ou relações necessárias entre os fenômenos estudados, agrupando essas relações ou leis em teorias.

O conhecimento teórico é produzido a partir de conjunto de procedimentos pelos quais se transfere um sistema de relações de um contexto original para outro contexto, em que apenas um ou alguns elementos são mantidos sem orientação, enquanto os outros são modificados ou simplesmente eliminados do fenômeno estudado.

Senne (2005) diferencia o contexto da teorização em processo do contexto da recepção da teoria supostamente confirmada. Em suas palavras,

[...] a teorização envolve uma aventura quase sempre meio incerta do pensamento, uma problematização como percurso entre os pontos de distinção-obscuridade ou de clareza-confusão em que os fenômenos são revestidos de irrealidade para que possam ser apreendidos, mas uma vez formulada em enunciados diretos e significações explícitas e, ainda mais, encontrando aplicação ou circunstâncias ou enquadres bem determinados, a teoria passa a ser requerida não mais como problema e sim como explicação, tendendo transformar-se em sistema simbólico capaz de constituir o objeto de uma concepção metódica que serve para compor com a técnica na produção de certos efeitos [...](p.145).

O nosso autor posiciona, dessa forma, a compreensão do psicodiagnóstico no contexto da discussão sobre o papel da técnica na sociedade contemporânea, discussão essa realizada por pensadores como Heidegger, Ellul, Habermas e Sfez.

Senne (2005), ao analisar os fundamentos epistemológicos das técnicas de psicodiagnóstico, desvelou a fragilidade teórica de muitas delas. Para ele, não devemos nos contentar em aderir ou não a um pragmatismo técnico, um tipo de ação sem pensamento. A reflexão filosófica nos permitiria superar esse empirismo tecnificado.

     O psicólogo, de acordo com Senne (2005), deve-se compreender como exercendo uma função de organização da polis, como Sócrates exerceu em Atenas. Esta é uma função essencialmente política. Os antigos já sabiam que para exercer essa função não bastava o saber técnico, mas se torna indispensável um saber dispor de si mesmo, ou seja, um saber ético.

O saber ético, podendo ou não ser ensinado ou transmitido, pode ser aprendido.

Para tentar propiciar as condições para um aprendizado não apenas técnico ou orientado para fins determinados, mas também ético, haveriam muitas experiências já começadas com que aprender; valeria estimular iniciativas que impliquem atividade coletiva de organização, coordenação de ações, situações de diálogo, debates e deliberações, como idealização e realização de projetos [...] iniciativas de arte ou artivismo, assembléias estudantis, manifestações políticas, o uso informal das redes de comunicação [...] todo um elenco de atividades que sempre foram consideradas contingentes à formação, não raro vistas como obstáculos ou dissipação, poderiam ser valorizadas de um outro jeito quando consideradas na importância que possuem enquanto trabalho de organização, com familiarização com lógicas heterogêneas, diversificação de jogos-de-linguagem, criação de pontos de vista, busca de objetivos comuns...(Senne, 2005:236-237).

 Os novos espaços de trabalho para os psicólogos exigirão cada vez mais uma capacidade reflexiva e criativa destes profissionais. A psicologia filosófica pode capacitar o psicólogo a mobilizar, de acordo com as categorias habermasianas, o mundo da vida como uma reserva de sentido para humanizar o mundo do sistema.

O livro de Senne (2005) vem preencher uma lacuna na produção bibliográfica brasileira acerca dos fundamentos epistemológicos do psicodiagnóstico, além de chamar atenção para uma tradição esquecida de uma Psicologia Filosófica. Sua leitura, como os mitos para Lévi-Strauss, é bom para pensar.

 

Endereo para correspondncia
Denis Barros de Carvalho
E-mail: denispsi@bol.com.br

Recebido em: 27/03/2008
Aceito para publicação em: 16/04/2008
Acompanhamento do processo editorial: Ariane P. Ewald



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