ARTIGOS

 

O método fenomenológico crítico (ou mundano) na pesquisa em psico(pato)logia e a contribuição da etnografia1

 

The critical (or mundane) phenomenological method in research in psycho(patho)logy and the contribution of ethnography

 

 

Virginia Moreira*, I; Francisco Silva Cavalcante Junior**,II

I Professora titular do Programa de Mestrado em Psicologia da Universidade de Fortaleza/UNIFOR - Fortaleza, CE, Brasil, onde é cooordenadora do APHETO
Laboratório de Psicopatologia e Psicoterapia Humanista Fenomenológica Crítica (antigo Laboratório de Psico(pato)logia Crítica-Cultural)
Visiting Lecturer do Department of Social Medicine – Harvard Medical School
Professora Colaboradora do Mestrado em Psicologia Clínica da Universidad de Santiago de Chile
Pesquisadora da Associação Universitária de Pesquisadores em Psicopatologia Fundamental
Psicoterapeuta individual e de grupo no Enfoque Humanista-Fenomenológico

II Professor titular do Programa de Mestrado em Psicologia da Universidade de Fortaleza/UNIFOR - Fortaleza, CE, Brasil
Coordenador da RELUS - Rede Lusófona de Estudos da Felicidade
Membro efetivo da World Association for Person-Centered and Experiential Psychotherapy and Counseling (WAPCEPC), da Association for the Development of the Person-Centered Approach (ADPCA) e da Red Iberoamericana Centrada en las Personas (RICP)

Endereo para correspondncia

 

 


RESUMO

Este artigo descreve um desenvolvimento metodológico na pesquisa qualitativa em psicopatologia e psicologia, mostrando a contribuição da etnografia para o método fenomenológico mundano, de base merleau-pontyana. Descreve a fenomenologia mundana enquanto método crítico de pesquisa em Psicologia e Psicopatologia e porque ela pede, ou pelo menos recebe de bom grado a contribuição do método etnográfico. Apresenta a antropologia da experiência enquanto um enfoque que tem como foco a compreensão cultural do fenômeno estudado. Finalmente, aponta limites e possibilidades de integração entre o método fenomenológico e o método etnográfico.

Palavras-chave: Método fenomenológico crítico, Etnografia, Psicopatologia, Psicologia.


ABSTRACT

This article describes a methodological development in qualitative research applied to psychopathology and psychology. It presents the contribution of ethnography for the worldly phenomenological method as a merleau-pontyan base. It describes the worldly phenomenology as a critical method for research in psychology and psychopathology and explains why it invites or welcomes the contribution of the ethnographic method. It shows the anthropology of experience as an approach that focuses on the cultural understanding of the phenomenon under study. It finally highlights the limits and possibilities of the phenomenological and ethnographic methods integration.

Keywords:  Crtical phenomenological method, Ethnography, Psychopathology, Psychology.


 

 

Introdução

Nos últimos 20 anos, a primeira autora deste artigo vem desenvolvendo pesquisa em Psicologia e Psicopatologia, utilizando-se do método fenomenológico, com base no pensamento de Maurice Merleau-Ponty. Ao descrever este método (MOREIRA, 2004), lembra que, na medida em que existem várias e não uma única Fenomenologia, a metodologia fenomenológica de pesquisa sofre variações, de acordo com o pensamento filosófico que a sustenta. Ou seja, ainda que o pesquisador fenomenológico, em última instância, sempre busque compreender a experiência vivida, ele desenvolverá seu trabalho de forma diferente se este se apóia no pensamento de Husserl ou de Merleau-Ponty, por exemplo; se, como pesquisador, estiver buscando uma essência, no lastro de uma Fenomenologia eidética transcendental de Husserl, ou buscando compreender o significado da experiência vivida em sua facticidade, enraizada no mundo, tal como defende Merleau-Ponty em sua Fenomenologia antropológica.

Entendendo o método fenomenológico de Merleau-Ponty enquanto ferramenta crítica na pesquisa em Psicopatologia, Moreira (2004) propõe um enquadre a partir da perspectiva de múltiplos contornos (MERLEAU-PONTY, 1960), cujos pressupostos metodológicos incluem um instrumento que priorize a experiência, a utilização de variáveis descritivas e a hipótese como desconfiança. Compreendendo esta metodologia como intimista, lança-se mão do uso de trechos de falas das entrevistas que ilustrem a análise fenomenológica, de base merleau-pontyana, onde, em vez de se perquirir a essência, busca-se o significado da experiência vivida e ainda, como último passo da análise, o pesquisador deixa de praticar a redução fenomenológica para assumir sua posição mundana, evitando o pensamento de sobrevôo na forma de uma suposta neutralidade científica.

Na continuidade dessa linha epistemológica, com base no método fenomenológico mundano, a mesma autora deparou-se, gradualmente, com a necessidade de utilizar como instrumento de pesquisa não apenas a entrevista, tradicionalmente utilizada no âmbito das pesquisas fenomenológicas, mas também instrumentos da Etnografia que pudessem ocasionalmente contribuir e enriquecer a compreensão do Lebenswelt (mundo vivido) do fenômeno estudado. No âmbito da pesquisa fenomenológica, a entrevista nos proporciona a oportunidade de compreender a experiência vivida na perspectiva singular do sujeito colaborador que a vive, ou a viveu. Trata-se, com a utilização adicional de instrumentos da Etnografia, de acrescentar, mais explicitamente, uma perspectiva cultural à compreensão dessa experiência vivida, entendida esta última enquanto constituída mutuamente entre o homem e o mundo.

Entendemos, nos termos dessa pesquisa fenomenológica, o conceito cultura como a interseção do significado com a experiência, tal como definido por Kleinman; Good (1985). Neste sentido, incorporar um instrumento metodológico que possibilite a compreensão do fenômeno estudado mais articulada ao conceito de cultura acima apresentado, parece-nos fundamental quando o pesquisador assume um olhar fenomenológico mundano.

Este artigo descreve um desenvolvimento metodológico da pesquisa em Psicologia e Psicopatologia, fruto da prática de pesquisa realizada no Laboratório de Psico(pato)logia Crítica-Cultural (atual APHETO – Laboratório de Psicopatologia e Psicoterapia Humanista Fenomenológica Crítica) no Programa de Mestrado da Universidade de Fortaleza. Trata-se de um trabalho que vem sendo não apenas realizado, bem como pensado em equipe.

No campo antropológico, o segundo autor vem construindo interfaces na teoria e intervenção aplicadas aos campos da Psicologia e Psicoeducação (CAVALCANTE Jr., 1998, 2001, 2005b) e estendidas nas pesquisas dos seus colaboradores (CAVALCANTE Jr., 2005a; GIAXA, 2006; JOCA, 2005; LIMA, 2005). Profundamente influenciado pelo pragmatismo de William James e pela noção de experiência em John Dewey, o segundo autor é herdeiro de uma linha epistemológica nos cenários dos estudos culturais e educacionais, que se remete aos trabalhos de Ruth F. Benedict, estudante na Universidade de Columbia (EUA),onde Dewey ensinava. Benedict, por sua vez, foi tutora de Margaret Mead, na mesma Columbia. Em continuidade, as pesquisas de Mead influenciaram o trabalho de George D. Spindler e Louise Schaubel Spindler. Os desenvolvimentos oferecidos pelo casal Splinders, anos depois, foram a base no trabalho de Harry F. Wolcott. Este último foi o orientador de Thomas H. Schram que, finalmente, teve como um dos seus estudantes de doutorado, o segundo autor deste artigo. Neste sentido, há que se ter muito claro que as bases filosóficas efetivamente não apenas exigem desdobramentos específicos nas metodologias, mas, sobretudo, no olhar conceitual do qual percebem-se e analisam-se os fenômenos estudados, neste caso, os conceitos das antropologias.

Pensando juntos a prática de uma pesquisa fenomenológica, compreendemos desde cedo que do ponto de vista epistemológico não seria viável juntarmos duas metodologias de pesquisa diferentes: a fenomenológica e a antropológica, ainda que a primeira como que pedisse uma complementação que justificasse seu caráter mundano, diferenciado da Fenomenologia tradicional baseada no pensamento eidético do primeiro Husserl.

Semelhantemente à natureza, objetos e instrumentos da pluralidade de olhares fenomenológicos, em se falando acerca das Antropologias, e o leque de suas noções singulares para cultura, experiência e escrita de campo (Etnografia), há que se mencionar, necessariamente, diferentes solos e consensos. Para efeito deste artigo, é conveniente registrar que efetuamos um recorte particular de conceitos de uma escola antropológica (familiar aos estudos da primeira autora em Antropologia Médica), bem como lentes e instrumentos de uma segunda vertente antropológica (que integrou o treinamento de campo do segundo autor em Antropologia Educacional), com o objetivo de discorrer acerca das contribuições e desafios que as referidas análises para a relação homem-cultura podem acrescentar à discussão e caracterização do Lebenswelt (mundo vivido) e do seu homem-mundano na pesquisa fenomenológica de base merleau-pontyana.

A aproximação entre Fenomenologia e Etnografia, previamente realizada por outros pesquisadores (GARRO, 2003; KATZ; SORDAS, 2003; KUSENBACH, 2003), é aqui inédita no que concerne ao método aplicado e ao enfoque tratado. Doravante, as idéias desenvolvidas neste artigo configuram-se em esforços epistemológicos, teóricos e metodológicos para a incorporação do conjunto etnográfico ao empreendimento da primeira autora, em sua caracterização mais profunda e consistente do mundo vivido a partir da lente de pesquisa na fenomenologia mundana, com fins de compreender o fenômeno estudado no âmbito da Psicologia e da Psicopatologia. Isso implica, ademais, o fato de que as exigências tradicionais da teoria e interpretação cultural, associados aos trabalhos antropológicos (BEHAR, 1996; BRANDÃO, 2002; SPLINDER; SPLINDER, 1994; WOLCOTT, 1999) que orientam a prática etnográfica do segundo autor, cedem primazia às leituras de base filosóficas que integram o arcabouço teórico-metodológico da pesquisa fenomenológica aqui apresentada.

Neste artigo descreveremos: 1) A fenomenologia Mundana enquanto método crítico de pesquisa em Psicologia e Psicopatologia e porque ela pede ou pelo menos recebe de bom grado a contribuição do método etnográfico; 2) A Antropologia da Experiência enquanto um enfoque que tem como foco a compreensão cultural do fenômeno estudado e 3) Limites e possibilidades de integração entre o método fenomenológico e o método etnográfico.

 

Uma Fenomenologia Antropológica2

Embora se fale freqüentemente de Fenomenologia existencial no âmbito da Psicologia, inicialmente a Fenomenologia e o existencialismo eram dois movimentos, diferenciados: Husserl criou a Fenomenologia enquanto um método descritivo que tinha como objetivo “voltar às coisas mesmas” – o fenômeno – realizando, assim, uma crítica à ciência positivista que priorizava o uso da razão experimental. Por outro lado, o existencialismo, tanto o cristão de Kierkegaard, quanto o ateu de Sartre, e antes dele, de Nietzsche, foram pensamentos filosóficos. Em termos de uma perspectiva histórica do desenvolvimento da Fenomenologia, observamos que a Fenomenologia, como método de pesquisa transcendental proposto por Husserl, assume, pela primeira vez, um caráter existencial em Heidegger, com sua filosofia ontológica do ser-no-mundo. Em Heidegger, então, encontramos o início do que podemos chamar de Fenomenologia-existencial, que é o que tem sido mais comumente utilizado no âmbito da Psicologia. Esse caráter existencial, trazido por Heidegger para o seio da Fenomenologia, encontra-se radicalizado no pensamento de Merleau-Ponty, que vai além, tratando não mais de um homem no mundo, mas de um homem mundano. Neste sentido, a partir da releitura que Merleau-Ponty realiza da Fenomenologia de Husserl, esta pode ser entendida não apenas como uma Fenomenologia existencial, tal como a encontramos em Heidegger, mas como uma Fenomenologia antropológica, ou, pelo menos, uma Fenomenologia de cunho antropológico.

A filosofia de Merleau-Ponty foge, inteiramente, ao modelo cartesiano-dualista, tradicionalmente utilizado no mundo ocidental e nas Psicologias como um todo. Trata-se de um pensamento eminentemente crítico: ainda que Merleau-Ponty tenha morrido em 1961, seu pensamento é ambíguo, superando o pensamento dualista ocidental sendo sempre movimento em uma dialética cíclica, com múltiplos contornos, em um processo de mútua constituição com o mundo. Como assinala Lefeuvre (1976), “não se trata de uma ambigüidade que seria dissipada com o progresso do conhecimento; trata-se, ao contrário, de uma ambigüidade invencível, fundada na estrutura do ser” (p. 306). Influenciado pelo pensamento de Lévi-Strauss, Merleau-Ponty (1960, 1964a) supera, definitivamente, a dicotomia entre o mundo natural e o mundo cultural através da priorização do significado do mundo vivido. É assim que seu pensamento se mantém tão atual neste início do século XXI, trazendo para o bojo de sua discussão questões cruciais da contemporaneidade, como o tema da cultura, que permeia toda a sua discussão da mundaneidade do ser humano. Na perspectiva fenomenológica, mundo não é sinônimo de cultura; a cultura é entendida como uma das dimensões do Lebenswelt (mundo vivido) já que para Merleau-Ponty (1945), assim como a natureza penetra até o centro de nossas vidas pessoais e se entrelaça com ela, igualmente os comportamentos se entrelaçam à natureza e se depositam nela na forma de um mundo cultural.

Na verdade, poder-se-ia dizer que Merleau-Ponty se antecipou aos filósofos contemporâneos que pensam a cultura, desenvolvendo uma Fenomenologia mundana, que mais que um método, é uma ferramenta crítica (MOREIRA, 2004), superando pensamentos totalitários que pressupõem verdades absolutas. Para as Psicologias, particularmente, a Fenomenologia de Merleau-Ponty é, então, um caminho consistente, dado que não se trata de uma Fenomenologia transcendental ou idealista, que busca uma essência, mas uma filosofia da facticidade, que busca o significado da experiência vivida. Quando estamos trabalhando como psicólogos de base humanista-fenomenológica, o fim último será o outro, o bem-estar, seja do paciente, na área clínica, seja do aluno, na educação, seja do funcionário, nas organizações, e assim por diante. Ou seja, existe um ser humano concreto a ser ajudado pelo psicólogo; a Psicologia é uma ciência, em última instância, aplicada. Assim, a contribuição de Merleau-Ponty no sentido de pôr a Fenomenologia de Husserl de pé no mundo, torna seu pensamento indicado para dar suporte a possíveis desenvolvimentos em Psicologia que integrem o ser humano que, além de ter uma dimensão psicológica e biológica, tem também uma dimensão cultural, política, histórica, sociológica, etc. (MOREIRA; SLOAN, 2002). Todas estas dimensões constituem os múltiplos contornos que delineiam todos os seres humanos, tal como descreve Merleau-Ponty (1960), fazendo uma analogia da sua filosofia com a pintura de Cézanne. 

A partir desta perspectiva na pesquisa em Psicologia e Psicopatologia, perceber-se-á o pesquisador e o sujeito colaborador como seres intrinsecamente interligados ao mundo, que é sua própria história e sua possibilidade de transfiguração. Estamos falando de um mundo cultural, como já enfatiza Merleau-Ponty (1945). O pesquisador, o sujeito colaborador e a sociedade fazem parte da mesma contextura carnal. Para elaborar o conceito de carne, Merleau-Ponty (1964 b, c) parte da idéia de intercorporeidade, na qual carne é aquilo que o meu corpo é, ativo-passivo, visível e vidente. Carne não é a síntese homem-mundo, é uma forma de abordar o ser que escapa à representação. Não é matéria nem espírito, mas está entre ambos. É o sentido do corpo em sua relação com os objetos, já que, para o filósofo, o homem não tem uma consciência constituinte das coisas, como propõe o idealismo, mas que “visível e móvel, meu corpo está no número das coisas, é uma delas, é captado na contextura do mundo e sua coesão é a de uma coisa. Mas, já que se vê e se move, ele mantém as coisas em círculo em volta de si, elas são um anexo, ou um prolongamento dele mesmo, estão incrustadas na sua carne, fazem parte da sua definição plena, e o mundo é feito do próprio estofo do corpo” – afirma Merleau-Ponty (1964 c, p. 19).

Para a Fenomenologia antropológica de Merleau-Ponty, que tem como o eixo o Lebenswelt (mundo vivido), homem e mundo existem em mútua constituição, abolindo-se, assim, uma visão de homem dicotomizada, que divide o ser humano em interioridade e exterioridade, em individual e social. Na medida em que o homem é sujeito e objeto, mistura-se na geléia geral que compõe o mundo, o homem, a história, ao mesmo tempo em que se singulariza com suas ações, pensamentos e discursos (MOREIRA, 2001 e 2002a).

Nesta perspectiva, tanto o sujeito colaborador como o pesquisador são, portanto, entendidos como seres intrinsecamente interligados ao mundo, que é sua própria história e sua possibilidade de transfiguração: o mundo já não é considerado como objeto, assim como o sujeito colaborador ou o pesquisador já não são vistos apenas como sujeito; ambos são simultaneamente sujeito e objeto. Estamos falando de um mundo cultural, como enfatiza Merleau-Ponty (1945), em que tanto o paciente como a sociedade fazem parte da mesma contextura carnal. 

O conceito de Lebenswelt (mundo vivido), fio condutor de todo o pensamento ambíguo merleau-pontyano, é, nas palavras de Bidney (1973) “o ponto de conexão entre a Antropologia moderna e a Fenomenologia. Antropólogos contemporâneos frequentemente descrevem culturas como ‘os desenhos para viver’, historicamente construídos pelo homem para a vida em sociedade [...] Cada mundo cultural vivido é um mundo subjetivo; é o mundo histórico criado pelo esforço e pensamento humano o que tem significado e valor para os membros de uma sociedade em um determinado tempo e lugar” (p. 133, negrito nosso).

É assim que se fala da fenomenologia antropológica de Merleau-Ponty (MOÑOZ, J, 1975). Tendo em vista seu caráter antropológico e sendo a Etnografia o método utilizado na antropologia, é que, como pesquisadores, nos propusemos a aproximar a Etnografia com a Fenomenologia a partir do conceito de Lebenswelt (mundo vivido), trabalho que se deparou com limites, tal como descreveremos adiante. Mas antes de chegar a esta discussão, passemos à contribuição da antropologia da experiência, com base na tradição de pesquisa desenvolvida por Kleinmann; Good.

 

A Antropologia da Experiência

A antropologia da experiência é uma vertente relativamente nova na antropologia, que vem se desenvolvendo no seio da antropologia médica, uma área também nova, que tem alguns de seus principais expoentes no Departamento de Medicina Social, de Harvard Medical School, através do brilhante e significativo trabalho desenvolvido pelos professores Byron Good e Arthur Kleinman. Na medida em que estes autores entendem a cultura em seu sentido antropológico, como a interseção entre o significado e a experiência (KLEINMAN; GOOD, 1985), a experiência terá, também, um significado ideológico, além de seu significado cultural, o que explicita a necessidade de uma abordagem crítica do fenômeno psicopatológico e/ou psicológico estudado (FOX; PRILLELTENSKY, 1996; PRILLELSTENKY, 2001), que enxergue sua complexidade política e histórica como um produto do contexto cultural particular no qual emerge. Como sugere Kleinman (1995), isso significa que a doença mental deve ser estudada como uma forma de experiência cultural, surgindo não só a partir de estruturas e processos clínicos, mas também a partir de fatores políticos e sociais. Ou seja, mais do que considerar a experiência como um fenômeno existencial intensamente humano, devemos considerar também como seu processo está relacionado às forças sociais, culturais e políticas específicas (DESJARLAIS, 1994).

Do ponto de vista epistemológico, a Antropologia da experiência vem se contrapor à biomedicina, esta, por sua vez, embasada no dualismo cartesiano entre corpo e espírito, através de uma concepção mecanicista de corpo e de suas funções dentro de uma visão reducionista dos fenômenos saúde e doença; doença, aqui, entendida como um problema físico ou mental, biológico ou psicossocial, mas nunca como fenômeno multidimensional (SCHEPER-HUGUES; LOCK, 1987; UCHOA; VIDAL, 1994). A contribuição da antropologia é, então, de caráter epistemológico porquanto possibilite uma perspectiva crítica que favorece um novo paradigma na abordagem da saúde e da doença. Através do desenvolvimento da corrente interpretativa em antropologia, com sua nova concepção da relação entre indivíduo e cultura, decorre-se uma visão integrativa na abordagem dos fenômenos patológicos. Geertz (1973) foi o precursor desta corrente interpretativa antropológica, concebendo a cultura como o universo de símbolos e significados que permitem aos indivíduos interpretar a experiência e guiar suas ações, sendo a cultura o contexto no qual se constroem as realidades sociais e psicológicas. Nesta perspectiva, a cultura constrói qualquer fenômeno humano, inclusive o fenômeno de adoecer (UCHOA; VIDAL, 1994), e como afirma Kleinmann (1995), “a doença é uma realidade socialmente construída, a qual o etnógrafo tem um acesso privilegiado” (p. 95).

O Grupo de Harvard é um dos principais representantes da corrente interpretativa em antropologia médica. Seguindo a tradição de Hallowell (1955), que através de sua obra clássica Cultura e Experiência foi o precursor dos estudos etnográficos com ênfase na experiência, as pesquisas etnográficas coordenadas por Good e Kleinman seguem a distinção paradigmática preconizada por Leo Eisenberg (1977), ex-professor e atual colega sênior de ambos no Departamento de Medicina Social de Harvard: a doença como processo (disease) e a doença enquanto experiência (illness), onde a doença-processo diz respeito às anormalidades de estrutura ou funcionamento de órgãos ou sistemas e a doença-experiência refere-se ao vivido subjetivo no mal estar que acomete o doente. Kleinman (1995) desenvolve esta idéia, definindo doença (disease) na perspectiva médica, doença (sickness) na perspectiva do senso comum do contexto social e doença (illness) na perspectiva da experiência vivida do doente. Ainda segundo Kleinman (1980), as atividades de cuidado em saúde são respostas organizadas socialmente frente à doença, devendo ser constituídas pela interação de três diferentes perspectivas: a profissional, a popular e a do doente. Nas palavras de Kleinman (1995),

a tendência antropológica para criar arquétipos culturais dos sempre confusos e incertos detalhes de uma história pessoal de doença – uma abordagem para a qual nós também temos contribuído – é uma interpretação inválida do sofrimento humano tanto quanto a tendência biomédica para criar uma metáfora biológica pura para a dor (p. 101).

 

Método Fenomenológico versus Etnografia

Como vimos, o objetivo da Antropologia da experiência é compreender o significado da experiência dentro de um enquadre cultural mais amplo, sendo a etnografia o método por excelência da Antropologia.  O objetivo da fenomenologia mundana é compreender o significado da experiência vivida, entendendo que homem e cultura - sendo a cultura entendida como uma dimensão do mundo (MOREIRA, 2002 a e b) – são mutuamente constituídos.

Pensamos que o método fenomenológico com base em Merleau-Ponty, na medida em que se distancia de um idealismo transcendental e se enraíza no mundo, muito se aproxima da Etnografia da experiência. Na verdade, a própria definição do conceito de experiência proposto por antropólogos da experiência faz muito sentido para pesquisadores fenomenólogos de base merleau-pontyana. Em ambas as perspectivas, tanto a fenomenológica mundana como a etnográfica da experiência, entende-se experiência não como um fluxo natural ou instintivo do ser humano, mas como um fenômeno intersubjetivo, que se dá na interseção do homem com o mundo. No entanto, do ponto de vista epistemológico, entendemos que a Etnografia tem como foco primeiro a explicitação dos conteúdos culturais da perpetuação e transformação a cada instante do ser humano, portanto, ao referir-se à experiência, como “tudo aquilo que criamos a partir do que nos é dado, quando tomamos as coisas da natureza e as recriamos como os objetos e os utensílios da vida social” (BRANDÃO, 2002, p. 22). Já a Fenomenologia, mesmo a mundana – ou crítica, na medida em que também se preocupa em explicitar aspectos culturais, políticos e ideológicos (MOREIRA, 2002ª; 2004) – não se restringe a um foco específico, estando aberta para buscar a compreensão de todos os fenômenos emergentes, relacionados ao fenômeno estudado, numa compreensão de homem-mundo onde o homem é feito do mesmo estofo do mundo, o mundo é homem e o homem é mundo (MERLEAU-PONTY, 1945). O método fenomenológico deixa de ser fenomenológico se ele se fecha em um foco a priori: sua característica primordial é a de estar aberto, deixar emergir o fenômeno mesmo.

Em se tratando do método fenomenológico crítico, o que temos desenvolvido, no sentido de ir além da simples emergência dos significados, é uma análise fenomenológica que inclui, como último passo, o “sair dos parênteses”. Ou seja, o pesquisador pode ter um foco, ou uma hipótese inicial, vinculada às características culturais e ideológicas do fenômeno estudado, mas, durante a pesquisa, deverá colocar este foco “entre parênteses”. Como último passo da análise fenomenológica, o pesquisador “sai dos parênteses” e assume este foco, sem nunca esquecer que a maior característica da redução fenomenológica é que ela nunca se completa (MERLEAU-PONTY, 1945). No entanto, os passos anteriores, que analisam todos os significados emergentes, não podem deixar de acontecer.

Ao nos depararmos com esta limitação de ordem epistemológica, nos demos conta, enquanto equipe de pesquisa pensante do caminho que percorríamos, que seria impossível juntar os dois métodos: o fenomenológico e o etnográfico. No entanto, pensamos que seria possível e útil ao método fenomenológico mundano incorporar instrumentos da Etnografia que complementassem as entrevistas, o instrumento mais tradicionalmente utilizado por pesquisadores fenomenólogos. Assim, passamos a utilizar o método fenomenológico crítico, utilizando-nos, para tanto, de dois instrumentos: a entrevista fenomenológica (integrante do método fenomenológico tradicional) e o diário de campo, fruto da observação participativa (integrante do método etnográfico) realizada na imersão do pesquisador no campo de investigação. Realizamos a análise fenomenológica das entrevistas e a análise cultural das vinhetas, produto do diário de campo, e, finalmente, cruzamos estas duas análises para uma discussão final dos resultados.

Podemos citar alguns exemplos de pesquisas realizadas nesta inspiração, começando com o próprio projeto no qual pensamos esta metodologia, onde investigamos a experiência vivida do estigma na doença mental e HIV/AIDS no Nordeste do Brasil3. Neste projeto, dividimos a equipe de pesquisa em dois grupos: 1) A equipe clínica, que está realizando entrevistas fenomenológicas com pacientes de um hospital público de Fortaleza. Estes pesquisadores, quando se encontram no hospital, fazem, também, observação participativa e produzem vinhetas, a partir desta imersão no campo, o hospital e 2) A equipe da comunidade, que neste projeto desenvolveu 4 estudos de caso etnográfico com 4 destes pacientes entrevistados, onde pesquisadores acompanharam estes pacientes em suas casas, suas comunidades, com visitas semanais ao longo de todo o ano de 2005. A análise dos resultados está sendo realizada a partir dos resultados dos dois instrumentos: a análise fenomenológica e as vinhetas.

Em uma outra pesquisa realizada como dissertação de mestrado, a pesquisadora estudou o fenômeno do envelhecimento enquanto um processo inevitável, mas que se torna indesejável na contemporaneidade atual do culto ao corpo e ao ideal de juventude eterna (NOGUEIRA, 2005). Neste estudo, foi escolhido como campo de pesquisa uma clínica de estética na cidade de Fortaleza. Em suas várias visitas a esta clinica, a pesquisadora fez observação participativa, conversando com pacientes e funcionários, ou simplesmente observando o que se passava. A partir de sua imersão neste campo, ela convidou alguns clientes que se dispuseram a ser entrevistados, dentre aqueles que se submetiam a tratamentos de rejuvenescimento, realizando então as entrevistas fenomenológicas.

Ainda em um terceiro exemplo, a pesquisadora queria estudar a experiência vivida do cardiopata, tendo, então, não apenas realizando entrevistas fenomenológicas com 15 pacientes, como também visitado durante um período de tempo o hospital do coração, onde realizava observação participativa, a partir das quais produzia vinhetas (NUNES, 2005).

Em comum, todos os trabalhos acima referidos seguem três ações complementares, que na Etnografia de Wolcott (1999), são denominados de os “3 Es”: (1) experienciar, (2) entrevistar e (3) examinar.

(1) Experienciar: utilizando-se da metáfora de Clifford (1998), de que “o pesquisador começa com um relacionamento de uma criança com uma cultura adulta, e termina falando com a sabedoria da experiência” (p. 97), solicitamos aos colaboradores que se dirigissem a um campo que, inicialmente, era-lhes estranho, munidos de um caderno para notas antropológicas, e nele registrassem tudo que viam e ouviam como fruto de suas imersões no campo estudado. Essas anotações foram transformadas em vinhetas, por meio de uma narrativa minuciosa dos fenômenos observados e ouvidos no campo de pesquisa, como ilustra, por exemplo, a passagem seguinte:

Seguimos andando por sua alameda, que possui um nome romântico e singelo. Nela, existem casas grandes e pequenas, coloridas e sem cor, de portas abertas à rua, como extensões do espaço privado, que nos informam quem possui, ou não, melhores condições financeiras (dentro do próprio bairro há disparidade de classes!). Sávio nos leva até a sua casa, pedindo para que não a reparássemos, pois não era muito “arrumada”. Quase em frente a ela, uma academia de ginástica é reformada. Som alto, música frenética, professor gritando. As cores são fortes, em tons de laranja e vermelho, o que contrasta com as paredes sem tinta, tanto do exterior quanto do interior, da casa de Sávio, cujo portão de entrada é enferrujado e a porta da casa, de madeira velha, comida pelo cupim (ali, pareceu-nos que não era apenas a porta da casa que era comida pelo cupim, mas, especialmente, os sonhos de uma família desestruturada pelas circunstâncias de uma vida sofrida). [...] (vinheta, fevereiro de 2005).

Esta ação de observação participante consiste na captação de informações que são geradas através dos sentidos, porém, na incapacidade do registro de todos eles, restringimo-nos, nesta proposta de trabalho, à audição e à visão. A redação de vinhetas originadas da experiência vivida, no campo (em interações), pelo pesquisador, nela incluindo seus pensamentos e sentimentos, além das observações no que concerne o colaborador, é o principal diferencial observado no modelo de Fenomenologia Mundana com aproximações Etnográficas, confirmando o lugar do pesquisador que assume a sua posição mundana. Transpondo-se o lugar da neutralidade na ciência, o pesquisador é o próprio sujeito na coleta de dados, participando e inserindo-se no campo de experiências do colaborador. Essa inserção possibilita-o falar, a partir da sua vivência em primeira pessoa como pesquisador, de um campo de experiências que foi tornado comum em sua relação pesquisador-colaborador, ou seja, acessar, participar e comunicar acerca das experiências vividas, até então exclusivas ao universo privado do sujeito pesquisado. Por meio dessa coleta-participativa, pesquisador e colaborador influenciam-se e constituem-se mutuamente, na medida em que estão ambos atravessados pela experiência indissociável de ser com o outro. Em termos metodológicos, esta inserção do pesquisador na vivência mesma de si com o outro possibilita-lhe, uma vez fora dos “parênteses” proposto pela Fenomenologia, trazer consigo confirmações ou refutações de suas hipóteses mundanas iniciais, não enquanto racionalizações, mas experiências dele, pesquisador, no e com o mundo vivido-pesquisado do colaborador.

(2) Entrevistar: duas formas de entrevistas foram utilizadas na coleta de dados. Uma primeira realizada no campo de pesquisa da comunidade objetivou responder às dúvidas geradas, no pesquisador, às informações por ele ouvidas ou vistas, como, por exemplo, ilustra a passagem seguinte:

Em um de nossos encontros com Sávio, ele relata-nos que gosta muito de escrever. Perguntamos então se ele pode escrever alguma coisa para nós. Ele decidiria a temática. Ele concorda. Em dois encontros seguidos a este, ele esquece a “redação”, lembrando-se no terceiro encontro, para a nossa surpresa. Havia escrito: “[...] Enfim, eu digo, a vida não muda, pois é somente as diferentes formas de uma mesma pintura em um quadro. Isso não é ruim. Toda a vontade de viver é puxada pela possibilidade de coisas novas, que possam ser usadas com meio de atingir uma eternidade, e tais coisas sobram na vida. A visão de ter uma visão calma e serena da vida como tinha em 1997, é uma coisa estimulante. Mas não é só isso. A vida em si, a idéia de vida em si, pura, sem outras noções, vida simplesmente, é boa. Simplesmente viver, para qualquer pessoa, é “normal” e deve ser encarada assim. Isto sob várias circunstâncias” (vinheta, setembro de 2005).

Ao mesmo tempo em que uma das equipes coletava dados na comunidade, uma outra, denominada de equipe clínica, realizava entrevistas fenomenológicas, com o mesmo colaborador, dentro do Hospital. Estas entrevistas (semi-estruturadas, com uma pergunta inicial ampla desmembrada em outras perguntas menores que auxiliassem a descrição do fenômeno estigma), tinham por objetivo aprender com o sujeito colaborador sobre a experiência vivenciada do estigma na perspectiva dele, o doente.

Especificamente, nas entrevistas, observamos, claramente, a aproximação da Fenomenologia e da Etnografia, no que diz respeito à coleta de “falas” em ambas as situações, atendendo a objetivos e aplicações diferentes conforme suas origens epistemológicas. No exercício de entrevistar, o diferencial da proposta aqui apresentada consiste na ampliação dos fenômenos observados, que se complementam ao serem reunidos em uma mesma equipe de pesquisa. Em se tratando de uma investigação de base fenomenológica, a diferença nos contextos e relações com estes estabelecidos pelos colaboradores (contexto do hospital, contexto da comunidade) refletem diferentes modos de existir que se traduzem e repercutem nas falas a respeito do vivenciado. Por esta razão, a associação entre categorias de falas provenientes dos distintos campos fenomênicos e interações dos colaboradores oportuniza diferentes experiências para análise e compreensão mais expandida do fenômeno.

(3) Examinar: Essa terceira ação consiste na reunião de documentos que, porventura, sejam complementares e informativos ao que foi observado e ouvido no campo de pesquisa. Aqui, no exemplo da pesquisa sobre estigma, fizemos usos de publicações sobre os programas de HIV/AIDS, dados demográficos das comunidades, informações sobre o hospital, reportagens de jornais, folders e outros impressos. Diferentemente das metodologias fenomenológicas, que buscam compreender o significado do vivido somente a partir do ponto de vista da experiência construída pelo sujeito em seus modos de existência, a Etnografia, no intuito de construir cenários mais amplos de uma cultura onde o sujeito está inserido, busca reunir artefatos que veiculem sentidos e significados portadores das condições de experiência que o sujeito depara-se habitualmente em seus contextos de origem. Desta forma, considerar, por exemplo, matérias jornalísticas sobre o sistema de saúde municipal em suas particularidades e nuances falam, de algum modo, a respeito daqueles que adentram e relacionam-se com aquele espaço, sendo por eles impactados. A construção dos sentidos para essas interações será, em último caso, relativa ao sujeito em sua história de vida, inclinações e disposições; no entanto, busca-se, dessa maneira, um recorte do panorama mais amplo no qual este sujeito está inserido.

 

Conclusão

Se por um lado nossa experiência como pesquisadores nos levou a enxergar limites epistemológicos entre o método fenomenológico (mesmo o mundano) e o método etnográfico, por outro, a possibilidade de utilizar instrumentos complementares, de ambos os métodos, integrados à lente fenomenológica mundana, contribui para uma maior densidade deste método que, sendo mundano, é eminentemente crítico, na interface de novos caminhos de integração na pesquisa qualitativa. Neste sentido, este artigo descreve um passo adiante no método fenomenológico de Merleau-Ponty, enquanto ferramenta critica na pesquisa em psicopatologia e psicologia (MOREIRA, 2004), e agora estendido para além das entrevistas fenomenológicas semi-estruturadas, sem perdê-las de vista. Através destas, alcançamos o significado da experiência vivida do sujeito colaborador no seu prisma. Ou seja, ao estudarmos a experiência, por exemplo, de adoecer, as entrevistas nos subsidiam a oportunidade de conhecer a doença (illness), quer dizer, aprender sobre o fenômeno na perspectiva do doente.

No entanto, como Kleinman (1980, 1995), acreditamos na importância de conhecer a experiência de adoecer em diferentes perspectivas, ou com diferentes lentes. Assim, quando incluímos a observação participante como instrumento integrante do método fenomenológico mundano, introduzimos a possibilidade de aprender sobre o fenômeno estudado na perspectiva profissional (no caso da doença disease) e na perspectiva popular, do senso comum (no caso da doença sickness). Pensamos, assim, que a tentativa de alcançar a compreensão da experiência vivida do adoecer nestas três perspectivas concomitantes está muito mais próxima de uma compreensão do fenômeno em seus múltiplos e complexos contornos, tal como preconiza a fenomenologia de Merleau-Ponty.

O conceito de experiência – chave tanto na Fenomenologia mundana como na Antropologia da experiência – merece novas investigações, que contribuam para o desenvolvimento metodológico da pesquisa qualitativa nesta área. Neste sentido, esperamos que este artigo venha a ser um convite para que outros pesquisadores estudem o Lebenswelt (mundo vivido) – em especial do fenômeno psicopatológico, sobre o qual tão pouco sabemos (MOREIRA, 2006). O desafio é o de construir o que, desde já o sabemos, nunca será uma verdade absoluta, sendo, ao contrário, aberta, opaca, movimento no mistério de seus múltiplos contornos.

 

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Endereo para correspondncia
Virginia Moreira
E-mail: virginiamoreira@unifor.br
Francisco Silva Cavalcante Junior
E-mail: cjunior@unifor.br

Recebido em: 05/03/2007
Aceito para publicação em: 26/10/2007
Acompanhamento do processo editorial: Ariane P. Ewald

 

 

Notas

*Psicóloga (UFC), psicoterapeuta e supervisora clínica no enfoque humanista-fenomenológico com Formação em Abordagem Centrada na Pessoa com John Keith Wood (Center of Studies of the Person – La Jolla) e Rachel Rosemberg (USP-SP), Doutora em psicologia clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Pós-doutora em Antropologia Médica (Harvard Medical School).
** Psicólogo graduado pela Universidade de Fortaleza – UNIFOR, com formação de “Psicoterapeuta no referencial teórico Humanista e Fenomenológico Existencial”, ministrado pela Profa. Dra. Virginia Moreira. Mestre em Educação Especial e Ph.D. em Leitura e Escrita/Antropologia Cultural, ambos pela University of New Hampshire (USA).
1Agradecemos a toda a equipe da Pesquisa Estigma, no APHETO – Laboratório de Psicopatologia e Psicoterapia Fenomenológica Crítica (antigo Laboratório de Psico(pato)logia Crítica – Cultural) da UNIFOR, que, durante o período 2003 -2006, nos possibilitou ir além, criando, de um jeito sempre sério, divertido, novos caminhos de pesquisa. Em especial, agradecemos a Karynne Melo, Fernanda Nogueira, Letícia Nunes, Erisneuda Araújo, Kristine Evangelista, Taís Castelo Branco, Anne Meneses e Angela Vasconcelos. A primeira autora deste artigo agradece ainda a seu mestre, Byron Good (DSM-HARVARD), pela confiança e estímulo na parceria de pesquisa DSM-HARVARD/UNIFOR. Agradece ainda à UNIFOR, CAPES e FULBRIGHT, que financiaram seu Pós-Doutorado em DSM-HARVARD no período 2002-2003.
2 Este tópico encontra-se, em parte, publicado anteriormente em Moreira, V. (2007). Psicología humanista-fenomenológica. In: A. Stecher; A. Paulino (Eds.)  Materiales para una cartografía de la psicología contemporánea: tradiciones teóricas y campos profesionales. Vol. I. Santiago: LOM. Aqui ele se repete, com as devidas reformulações, de forma a fundamentar o método de pesquisa que descrevemos neste artigo.
3 Projeto VPPG 0444 – Universidade de Fortaleza – UNIFOR, em colaboração com o Prof. Byron Good (DSM – Harvard Medical School).



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