EDITORIAL

 

Adriana Benevides Soares**; Alexandra Cleopatre Tsallis**; Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo**; Deise Mancebo*; Deise Maria Fernandes Mendes**; Rita Maria Manso de Barros**

Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ -Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Endereo para correspondência

 

 

O volume 14 número 1 da revista Estudos e Pesquisas em Psicologia apresenta nesta edição 16 artigos já organizados segundo sua nova política editorial, que visa contemplar três grandes áreas da Psicologia, a saber: Psicologia do Desenvolvimento, que estuda processos de mudança ontogenética, buscando descrevê-los e, principalmente, explicá-los por princípios gerais que se explicitam ao longo do ciclo vital, levando em conta as diversidades culturais; Psicologia Social, que estuda temas que articulam fenômenos e processos psicológicos, assim como as práticas sócio-institucionais e culturais em que eles se manifestam e se engendram. Contempla a perspectiva estadunidense, a européia emergente, bem como as concepções e discussões epistemológicas, antropológicas e históricas contemporâneas e Psicologia Clínica e Psicanálise, que estuda temas relacionados aos transtornos mentais e aos aspectos psíquicos de doenças não mentais. Seus temas incluem etiologia, classificação, diagnóstico, epidemiologia, intervenção, prevenção, aconselhamento, psicoterapia, reabilitação e acesso à saúde e avaliação. Encerrando este número temos a sessão Clio–Psyqué composta por dois artigos.

Dentro da grande área de Psicologia do Desenvolvimento temos trabalhos que discutem diferentes momentos do ciclo vital em suas interfaces com os aspectos culturais. Da Universidade Federal de São Carlos apresentamos o trabalho Estratégias para envolvimento parental em fisioterapia neuropediátrica: uma proposta interdisciplinar de Lisandrea Rodrigues Menegasso Gennaro e Elizabeth Joan Barham, em que são discutidas as estratégias utilizadas pelas áreas de Educação Infantil, Educação Especial, Educação Musical e Psicologia (Treinamento de Habilidades Sociais) no sentido de buscar um maior envolvimento parental nas intervenções de fisioterapia neuropediátrica. O tema da parentalidade é também abordado por Juliana Orrico Viana Vilar e Elaine Pedreira Rabinovich da Universidade Católica do Salvador no texto Tipos de conjugalidade e sexualidade na transição para a parentalidade de mulheres de classe média de Salvador, Bahia. As autoras, utilizando a tipologia de conjugalidade proposta por Aboim, fazem entrevistas com mulheres de classe média e sugerem que o manejo parental pode estar associado aos diferentes tipos de conjugalidade.

Passando a outro momento do ciclo vital Kamilla Sthefany Andrade de Oliveira, Marianna Carla Maia Dantas de Lucena e João Carlos Alchieri da Universidade Federal do Rio Grande do Norte fazem uma revisão da literatura a partir da busca de artigos em diversas bases de dados para investigar o Estresse em cuidadores de pacientes com Alzheimer e concluem que essa questão desencadeia uma série de problemas do ponto de vista físico, mental, psicológico e emocional. Já Betania Tanure, Antonio Carvalho Neto, Carolina Maria Mota Santos e Roberto Patrus Mundim Pena da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais estudaram o tema do estresse de executivos brasileiros frente à questão do tempo. Os autores chegaram a conclusão de que os altos executivos consideram o tempo como algo autônomo e ao qual estão submetidos a despeito de sua vontade. O detalhamento desse estudo pode ser lido em Estresse, Doença do Tempo: um estudo sobre o uso do tempo pelos executivos brasileiros.

O último trabalho desse primeiro bloco, Vida acadêmica e exploração vocacional em universitários formandos: relações e diferença vem da Universidade São Francisco, no qual Jocemara Ferreira Mognon e Acácia Aparecida Angeli dos Santos buscam verificar a relação entre a vida acadêmica e a exploração vocacional. Para tal fim utilizam a Escala de Avaliação da Vida Acadêmica (EAVA) e a Escala de Exploração Vocacional (EEV) e concluem que a universidade contribui para a exploração vocacional, porém é necessário levar em conta os estudantes em suas características pessoais.

Na área de Psicologia Clínica e Psicanálise temos 6 artigos. Em uma perspectiva de clínica ampliada, da Universidade Federal Fluminense, temos o texto Encontros da vida nua nos jardins do capital. Uma investigação sobre o consumo de tratamentos, em que Donati Canna Caleri e Claudia Abbês Baêta Neves analisam as questões contemporâneas que se referem a medicalização da vida através do vetores-força medicina e psicanálise. As autoras buscam as possíveis linhas de fuga para um fazer clínico que oportunize modos autônomos do cuidar de si, bem como da construção do mundo. Dando continuidade a essa perspectiva clínica Edson do Nascimento Bezerra da Universidade da Amazônia apresenta o Plantão psicológico como modalidade de atendimento em Psicologia Escolar: limites e possibilidades. O autor toma como referência a clínica ampliada em sua correlação com o Plantão Psicológico, tal como proposto pela Abordagem Centrada na Pessoa e conclui que essa pode ser uma maneira do psicólogo contribuir para o complexo cenário da escola.

Já na perspectiva de estudos de caso, o texto Fenomenologia, Hipnose e Dor Crônica: Passos para Uma Compreensão Clínica, de Mauricio da Silva Neubern da Universidade de Brasília, explora uma relação entre hipnose e dores crônicas a partir dos conceitos fenomenológicos de esquema corporal e auto-imagem em uma situação concreta de atendimento clínico. Em outra direção teórica, mas ainda apresentando um caso, segue o artigo Perfil neuropsicológico na Síndrome de Tourette: um estudo de caso de Eliana Gomes da Silva Almeida da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda, Pompéia Villachan-Lyra da Universidade Federal Rural de Pernambuco e Izabel Hazin da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. As autoras discutem uma a avaliação neuropsicológica de um adolescente diagnosticado com a Sindrome de Tourette, os resultados do estudo corroboram aqueles mencionados na literatura, isto é, preservação intelectual e da memória de longo prazo, contudo foram percebidos déficits no funcionamento executivo, assim como rebaixamento da velocidade psicomotora e mental e da memória imediata. Já da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Juliana Marcondes Pedrosa de Souza e Jacqueline de Oliveira Moreira contribuem com uma discussão acerca das inovações do Estatuto da Criança e do Adolescente em articulação com a possibilidade da escuta singularizada preconizada pela Psicanálise. No artigo Psicanálise e Direito: escutar o sujeito no âmbito das medidas socioeducativas elas concluem que as medidas socioeducativas podem colaborar no que concerne a reinserção social, enquanto a psicanálise busca oportunizar ao sujeito a possibilidade de responsabilizar-se por seus atos.

Fechando este segundo bloco temos o artigo intitulado Todo fálico e não-todo: construções lacanianas sobre a sexuação, Flavia Bonfim da Universidade La Salle apresenta, em formato de ensaio, os avanços teóricos propostos por Lacan ao introduzir no problema da sexuação a lógica dos posicionamentos masculino e feminino, através de suas diferentes modalidades de gozo.

Na área de Psicologia Social são apresentados 6 artigos que podem ser pensados dentro da perspectiva da Psicologia Social crítica tanto no que se refere às suas dimensões empíricas quanto teóricas. Da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, temos Estigma moral e sofrimento psi: problematizando a individualização do superendividamento do consumidor, no qual Inês Hennigen e João Paulo Borges discutem, a partir de Foucault e Nietzche, as implicações subjetivas do consumidor frente à situação do superendividamento e apontam para a necessidade do desenvolvimento de políticas públicas que possam enfrentar a complexidade do problema.

Em Judicialização da vida e penas e medidas alternativas: composições, tensionamentos, problematizações, Fabiana Davel Canal do Centro de Referência da Assistência Social em Vitória (ES) e Gilead Marchezi Tavares da Universidade Federal do Espírito Santo estudam com base na arquegenealogia de Foucault, as penas e medidas alternativas frente ao complexo fenômeno da judicialização da vida. As autoras alertam para importância de considerar os perigos da valorização de uma cultura punitiva.

Já Samila Marques Leão e Isabel Maria Farias Fernandes de Oliveira, ambas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, junto de Denis Barros de Carvalho da Universidade Federal do Piauí, investigam - através de entrevistas - a atuação do psicólogo nos Centros de Referência de Assistência Social. No artigo intitulado O Psicólogo no Campo do Bem-Estar Social: atuação junto às famílias e indivíduos em situação de vulnerabilidade e risco social no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), os autores discutem os desafios colocados ao psicólogo no trato da questão social, bem como no desenvolvimento de práticas profissionais consonantes com as políticas sociais do campo de trabalho.

Ainda na discussão acerca de situações de alta complexidade social temos o trabalho que traça o Perfil sociodemográfico e padrão do uso de crack entre usuários em tratamento no Centro de Atenção Psicossocial. Nadja Cristiane Lappann Botti da Universidade Federal de São João Del Rei, Jacqueline Simone de Almeida Machado, da mesma Universidade e Felipe Viegas Tameirão da Universidade Presidente Antonio Carlos concluem que o perfil dos usuários de crack na macrorregião oeste do estado de Minas Gerais não difere daquele encontrado em outras regiões do país, qual seja: homens, jovens, solteiros e com baixa escolaridade. Seguindo em território mineiro, no texto A análise dos dados da História Oral: fundamentos para a uma Psicologia Crítica as autoras Mara Salgado da Universidade Federal de Santa Catarina e Kety Valéria Simões Franciscatti da Universidade Federal de São João Del-Rei, partem da pesquisa “Narrativas de artesãos: documentos da memória mineira” para discutir os limites e as potencialidades da História Oral em articulação com as contribuições dos autores da Teoria Crítica da Sociedade.

Para encerrar este bloco de trabalhos, contamos com um artigo que discute as pesquisas com células tronco. No texto, Vida humana, mídia e mercado: uma perspectiva sociotécnica das pesquisas com células tronco embrionárias, Júlio Cesar de Almeida Nobre do Centro Universitário de Volta Redonda e Rosa Maria Leite Ribeiro Pedro da Universidade Federal do Rio de Janeiro cartografam, sob a perspectiva da Teoria Ator-rede, as controvérsias existentes em torno dessa temática. Os autores concluem que as células tronco articulam fortemente novas biotecnologias da reprodução, mídia, bem como interesses do mercado.

A sessão Clio-Psyché é composta por dois artigos, no primeiro, intitulado, A Psicologia na formação de enfermeiros, Carolina Silva Bandeira de Melo da Ecole de Hautes Etudes en Sciences Sociales, Rodrigo Miranda, Sérgio Dias Cirino e Regina Helena de Freitas Campos da Universidade Federal de Minas Gerais analisam o ensino de Psicologia na formação de enfermeiras nas primeiras décadas do século XX. Para isso utilizam fonte documental e concluem que essa questão contribuiu para o estabelecimento da Psicologia como disciplina no Brasil. O segundo trabalho de Alan da Silva Véras da Universidade Federal da Bahia e Nádia Maria Dourado Rocha da Faculdade Ruy Barbosa apresentam a Produção de artigos sobre Logoterapia no Brasil de 1983 a 2012. Foram encontrados 51 artigos distribuídos em 29 periódicos, em sua maioria com Qualis A2. Além disso, com o passar dos anos, constataram que houve um número crescente de artigos publicados o que permitiu apontar o crescimento do interesse dos brasileiros nesta abordagem.

Fechando este número da Revista temos a resenha, Crianças invisíveis atrás do volante: humilhação social, perversão e confusão de línguas em Linha de passe, de Walter Salles e Daniela Thomas. O autor Renato Tardivo da Universidade de São Paulo apresenta o filme revelando a sutileza dos processos de humilhação social em interface com a perversão, tal como discutida pela Psicanálise.

Por fim o corpo editorial da revista Estudos e Pesquisas em Psicologia agradece o trabalho de todos os autores, revisores e equipe, desejando que o presente número protagonize bons momentos aos nossos leitores.

 

 

Endereço para correspondência
Comissão Editorial
Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, Rua São Francisco Xavier, 524, Bloco F, 10° andar, sala 10.005, Maracanã, CEP 20550-013, Rio de Janeiro-RJ, Brasil
Endereço eletrônico: revispsi@gmail.com

 

 

Notas

* Professora Titular do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
** Professora Adjunta do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.



Licença Creative Commons
A revista Estudos e Pesquisas em Psicologia esta licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Não Comercial 3.0 Não Adaptada.

 

Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Instituto de Psicologia
© Estudos e Pesquisas em Psicologia
Rua São Francisco Xavier, 524, bloco F, sala 10.005, 10° andar, CEP 20550-013, Rio de Janeiro-RJ, Brasil
Telefone: (21) 2334-0651

E-mail: revispsi@gmail.com