Desformações em rede

Felipe Carvalho, Edmea Santos

Resumo


Iniciamos esta apresentação da décima segunda edição da Revista Docência e Cibercultura (ReDoC) nos solidariezando com as famílias vítimas da pandemia da Covid-19. Infelizmente já foram ceifadas mais de 500 mil vidas no Brasil, muitas delas, poderiam ter sido evitadas se não fossem as necropolíticas – “formas contemporâneas que subjugam a vida ao poder da morte” (MBEMBE, 2016, p. 146) – adotadas na gestão da pandemia. As cecropolíticas vêm sendo operacionalizadas em diversos setores de nossa sociedade, como educação, saúde, meio ambientel, trabalho etc., refletindo na democracia e nas relações sociais e institucionais.

Entendemos que as necropolíticas potencializam a deformação na/da sociedade, deformação que “está conectada aos modos de governar que se alinham a uma inteligibilidade fascizante, voltada aos enquadramentos heterocisnormativos branco-racistas dos corpos, à desumanização dx outrx” (CARVALHO, 2021, p. 26). No extremo, as necropolíticas levam à letalização da diferença – a diferença se torna letal (POCAHY, 2018).

Por outro lado, temos acampanhando e cartografado inúmeras experiências (ciber)insurgentes que se rebelam contras as necropolíticas e também contra todas as formas de fascismos, racismo, LGBTI+fobia, machismo, xenofobia etc. (YORK, 2020; SANTOS; FERNANDES; YORK, 2020; TRANCOSO; MADDALENA; SANTOS, 2020; CARVALHO; POCAHY, 2020a; 2020b). Partimos da compreensão de que essas experiências produzem outras possibilidades de (re)existir em tempos de ódio às diferenças. Consideramos essas experiências como “desformativas” – é uma aposta de positividade (inspirações queers), no sentido da crítica aos modos de governar dentro da inteligibilidade heterocisnormativa branco-racista, de um ideal de humano que se produziu nos rastros da modernidade, que vem reverberando nos dias de hoje.

Desformação é pensada, aqui, a partir daquelas múltiplas experiências formativas que os corpos nomeados como “desviantes”, “abjetos”, produzem como alternativas para tentar se manter vivos, a partir de outras formas de habitar a vida cotidiana, de se formar e ser formado com outrxs corpos desviantes avessos aos enquadramentos normativos, subvertendo-os, insurgindo-se, sempre que possível (CARVALHO, 2021, p. 27).

 

Nesta edição da ReDoC, v. 5, n. 2, trazemos trabalhos que são desdobramentos de experiências desformativas. A seção Temática aborda “Macumba, cibercultura e luta antirracista”. Está composta por quartoze artigos: “Ogum – orixá da internet: forjando as redes sociais como ferramentas de luta antirracista” de Cristiano Sant’Anna de Medeiros, Isadora Souza da Silva e João Victor Gonçalves Ferreira; “O candomblé sob a mira do racismo e do terrorismo religioso: ataques, categorias e identidades reinventadas” escrito po Ozaias Silva Rodrigues; “As relações raciais na educação de jovens e adultos trabalhadores: desafios à ciência geográfica” de autoria de Tiago Dionisio da Silva; “Terreiro e produção de epistemologias decoloniais: narrativas de um pesquisador-filho de santo” redigido por João Augusto dos Reis Neto; “Processos de formação humana: I Encontro Nacional de Crianças de Axé” produzido por Gustavo Jaime Filizola e Aurino Lima Ferreira; “O ensino afroperspectivista em sala de aula por um olhar outro da educação” de Denis Harmony da Silva e Cecília Conceição Moreira Soares; “Entre a regularidade e o desafio da aplicação da lei 10.639/03: o ressoar e a resistência dos tambores no trato pedagógico” discutido por Waldinéia Teles Pereira e Renato Alves de Carvalho Júnior.

Ainda na seção Temática, temos os artigos “Pela boca da criança: pensando gênero e sexualidades a partir da infância de terreiro” de autoria de Adelson Cezar Ataide Costa Junior; “Macumba em escola pública no interior sergipano Tranca Rua visita escola de ensino médio em tempo integral” escrito por Jaime Rodrigues Da Silva, Cláudia Regina Cardoso Rodrigues da Silva e Bárbara Regina Cardoso Rodrigues da Silva; “Maíra Azevedo: uma influenciadora digital na rede ciberaxé” do autor Lúcio André Andrade da Conceição; “Educação para as relações étnico-raciais: possibilidade da educação e um currículo antirracista?” de Lílian Carine Madureira Vieira da Silva, Rita Cristine Basso Soares Severo; “Fé e resistência: por uma teologia do respeito” dos autores Jorge Luís Rodrigues dos Santos e Matheus Motta dos Santos; “Luta antirracista na educação infantil em tempos de pandemia: o que as táticas docentes revelam?” das autoras Daise Santos Pereira, Marcia Guerra Pereira, Alana Alves Pereira e Maria Cecília Ribeiro Paixão; “A Lei 10639 e sua maior idade. Há o que se comemorar?”de Leonor Franco Araujo fechando a seção temática.

 Contamos na seção “Relato de Experiência” com o relato de Wudson Guilherme de Oliveira sobre “A decoloniedade dos Povos Bantu na luta antirracista no chão da escola: uma experiência de intervenção”. Já na seção “Produções Artísticas, Literárias e Culturais” encontramos os trabalhos “O conforto que veio do traçado das crianças de terreiro” produzido por Janaína Viana Corrêa; “Fabulações imagéticas e produção de outras existências negras possíveis” das autoras Maíra Mello e Maria da Conceição Silva Soares; “Fotos etnográficas como prática de pesquisa na pandemia – O que dizem as imagens?” de autoria de Juliana Braga Teperino; “Palavras lidas” da autora Camila Santos Pereira; e “Dois aniversários durante a pandemia” da autora Anamaria Ladeira Pereira.

Já na seção Fluxo Continuo, temos o artigo “Não sei se você entende, as coisas estão ai e a gente não consegue ver, não é não consegue ver, não consegue é entender” do autor  Gregorio Galvão de Albuquerque. Finalizamos a presente edição com a seção Resenha com o trabalho “Live-Lançamento de livro do Prof. Dr. Roberto Sidnei Macedo” escrito por Mirian Maia do Amaral.

São esses vinte e dois trabalhos distribuídos pelas seções “Temática”, “relato de Experiências “, “Produções Artísticas, Literárias e Culturais”, “Fluxo Continuo” e “Resenha” que compõem esta edição da ReDoC.  Cabe destacar que a ReDoC está disponível em suporte digital em rede. É um periódico quadrimestral, de orientação pluralista, voltado à discussão de produções originais elaboradas pela comunidade científica nacional e internacional, da área de Educação e do Ensino e suas interfaces com a cibercultura, identidade, diferença. A ReDOC aceita Artigos, Relatos de Experiência, Pontos de Vista, Resenhas, Ensaios, Entrevistas, Conversas, Bibliografias Comentadas, Produções Artísticas e Culturais, Vídeo-Pesquisa, e Resumos de Dissertações e de Teses.

Desejamos uma excelente leitura a todas, todes, todxs e todos!

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Referências


ALBUQUERQUE, Gregorio Galvão de. “Não sei se você entende, as coisas estão ai e a gente não consegue ver, não é não consegue ver, não consegue é entender”. Revista Docência e Cibercultura, v. 5, n. 2, maio-ago, 2021, p. 359-379. DOI: https://doi.org/10.12957/redoc.2021.57267

AMARAL, Mirian Maia do. Live-Lançamento de livro do Prof. Dr. Roberto Sidnei Macedo. Revista Docência e Cibercultura, v. 5, n. 2, maio-ago, 2021, p. 380-388. DOI: https://doi.org/10.12957/redoc.2021.58725

ARAUJO, Leonor Franco. A Lei 10639 e sua maior idade. Há o que se comemorar? Revista Docência e Cibercultura, v. 5, n. 2, maio-ago, 2021, p. 279-294. DOI: https://doi.org/10.12957/redoc.2021.57479

CARVALHO, Felipe da Silva Ponte de. #Pedagogiasciberculturais: como aprendemos-ensinamos a nos tornar o que somos? Tese (Doutorado) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Educação, Rio de janeiro, 2021. Disponível em: http://www.proped.pro.br/teses/teses_pdf/2013_2-1195-DO.pdf. Acesso em 30 jun. 2021.

CARVALHO, Felipe da Silva Ponte; POCAHY, Fernando. Cartografias interseccionais em rede: das insurgências à produção de territórios existenciais. In: Ana Lúcia Gomes da Silva; Jerônimo Jorge Cavalcante Silva; Victor Amar. (Org.). Interseccionalidades em pauta: gênero, raça, sexualidade e classe social. Salvador: Editora da UFBA, 2020a, p. 49-72. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/ri/handle/ri/32907. Acesso em 19 de maio de 2021.

CARVALHO, Felipe da Silva Ponte; POCAHY, Fernando. # UERJRESISTE: a politização de si através das selfies. Revista Teias, v. 21, n. 60, p. 143-152, 2020b. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/revistateias/article/view/48630/32438. Acesso em 19 de maio de 2021.

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TEPERINO, Juliana Braga. Fotos etnográficas como prática de pesquisa na pandemia – O que dizem as imagens? Revista Docência e Cibercultura, v. 5, n. 2, maio-ago, 2021, p. 344-351. DOI: https://doi.org/10.12957/redoc.2021.60504

TRANCOSO, Michelle Viana; MADDALENA, Tania Lucía; SANTOS, Edméa. Cartografía de una red de saberes: el cotidiano de un espacio social femenino en Facebook. Interfaces Científicas - Educação, v. 8, n. 2, p. 249-270, 2020.




DOI: https://doi.org/10.12957/redoc.2021.61015

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