POLÊM!CA Revista Eletrônica

LIPIS

SHREK NO DIVÃ: UM OUTRO CORPO NOS CONTOS DE FADA?

Joana de Vilhena Novaes é Professora do Programa de Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade da Universidade Veiga de Almeida. Doutora em Psicologia Clínica (PUC-Rio Pós-doutora em Psicologia Médica (UERJ). Pós-Doutora em Psicologia Social (UERJ). Coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da PUC-Rio. Pesquisadora e psicoterapeuta do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social (LIPIS) da PUC-Rio. Pesquisadora correspondente do Centre de Recherches Psychanalyse et Médecine- Université Denis-Diderot Paris 7 CRPM-Pandora. Membro da Dove Global Advisory Board. Autora dos Livros O intolerável peso da feiura, Rio de Janeiro PUC/Garamond (2006), Com que corpo eu vou. Sociabilidade e usos do corpo nas camadas altas e populares Rio de Janeiro. Eds.  PUC/ Pallas. (2010). Corpo para que te quero?Usos abusos e desusos. (orgs Vilhena, J. & Novaes, J.V.) Eds PUC/Appris 2012.
 joanavnovaes@gmail.comwww.joanadevilhenanovaes.com.br

Ricardo Mendes Barros é Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Psicanálise, Saúde e Sociedade da Universidade Veiga de Almeida - UVA; Licenciatura Plena em Educação Artística com habilitação em Desenho pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ/UCAM (2010); Pós-Graduado em Docência do Ensino Superior pelo Instituto Superior de Ensinos Pedagógicos – ISEP/FABES (2003); Graduado em Desenho Industrial com Habilitação em Programação Visual pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ (1995).


Resumo: Esse artigo tem como objetivo apresentar uma análise do filme Shrek (2001), à luz da teoria psicanalítica estabelecendo uma interface com alguns autores das ciências humanas e sociais que tratarão da regulação social do corpo na cultura de consumo contemporânea. Trata-se de um Conto de Fadas remodelado, cuja proposta é a releitura, às avessas, de conflitos universais e que, adicionalmente, tem como principal argumento satirizar os contos de fadas que demonstram buscar a felicidade através da aparência.
Palavras-chave: conto de fadas, corpo, beleza, feiúra, preconceito e regulação social.

SHREK IN THE COUCH: ANOTHER BODY IN FAIRY TALES

Abstract: This article aims to present an analysis of the film Shrek (2001), in the light of psychoanalytic theory establishing an interface with some authors of the humanities and social sciences that deal with body social regulation in contemporary consumer culture. This is a fairy tale, whose proposal is a retelling of universal conflicts and additionally to that, it has as its main argument to satirize the fairy tales that demonstrate seek happiness through appearance.
Keywords: fairytale, body, beauty, ugliness, prejudice and social adjustment.



I INTRODUÇÃO

Por que Shrek? Fenômeno de bilheteria inquestionável, o filme apresenta uma narrativa inovadora, na medida em que inverte a lógica, tradicionalmente utilizada, em todos os desenhos produzidos anteriormente. Trata-se, pois, de um Conto de Fadas remodelado, cuja proposta é a releitura, às avessas, de conflitos universais. Adicionalmente, tem como principal argumento satirizar os contos de fadas, fazendo uso de tradicionais personagens fictícios, contextualizados na atualidade e que demonstram buscar a felicidade através da aparência.

A riqueza dessa obra é caracterizada através da forma crítica, contudo, cheia de humor, como aborda as relações entre personagens de distintas classes sociais, enriquecidas com nuances do mundo interno e subjetivo dos diversos atores. Além disso, a falta de caráter dos “príncipes encantados” e, sobretudo, o romance entre dois anti-heróis, tornam inevitáveis às referências à cultura pop atual e, igualmente, propõe uma visão crítica e acurada no tocante ao fenômeno social de moralização da beleza, visto que a mocinha e seu herói salvador são figuras subversivas por não encarnarem os ditames estéticos atuais que ostentam os protagonistas como veremos a seguir.

II NOSSO CONTO DE FADAS OU QUANDO OS FEIOS TEM VEZ.... 

Era uma vez...

Um ogro grande e verde, mal encarado e que vivia só e isolado em seu pântano. Para espantar os curiosos e possíveis caçadores atrás de recompensas, Shrek pintava e fincava suas próprias placas com os dizeres “CUIDADO OGRO” ao redor de seu pântano.

Sua fatídica história começa em outro canto da floresta, onde soldados recrutavam e pagavam por personagens dos contos de fadas que possuíssem algum tipo de poder fantástico.

Em um dado momento, antes de Gepeto vender o boneco Pinóquio por dez moedas, uma senhora tenta vender, insistentemente, um pequeno burro aos soldados dizendo que o animal era falante, porém ao pedir que o animal falasse algo, nada falava. Foi quando, acidentalmente, cai sobre o Burro um pouco do pó mágico da Fada Sininho que estava tentando fugir e, com isso, o intrépido burrico começa a voar e também a falar “estou voando, estou voando”. Quando o pó mágico perde o efeito, o Burro cai e todos os soldados, ao verem que realmente falava, correram para pegá-lo, mas o animal desembestou floresta adentro até que dá de encontrão com Shrek pregando as suas placas e se esconde atrás dele. Os soldados chegam, assustam-se com o ogro e fogem desesperados. Ao ver os soldados correrem, o Burro vai atrás de Shrek para agradecer e começa a puxar papo, mas o ogro ignora-o e continua andando. O Burro insiste até que Shrek dá um enorme grito com a intenção de assustá-lo, porém o quadrúpede falante, sem mostrar qualquer tipo de reação, apenas reclama de seu horrível bafo. Burro o segue até o pântano, cantarolando e elogiando o ogro e implora para ficar em sua casa. Shrek deixa com a condição de ser apenas por uma noite, mas dormindo do lado de fora.

Cai a noite. Shrek se prepara para jantar. De seu ouvido protuberante tira um punhado de cera e o acende como vela quando percebe um barulho e vê um vulto. Acha que é o Burro, mas em seguida nota os três ratinhos cegos sobre a sua mesa de jantar, fazendo a festa e derrubando tudo ali havia sobre a mesa. Shrek levanta e pega os danados, quando mais que de repente é colocado sobre a mesa o caixão de Branca de Neve pelos sete anões. Olha para a sua cama e vê o Lobo Mau, vestido de vovozinha, deitado nela. Furioso e assustado, abre a porta de sua casa e se depara com dezenas de criaturas dos contos de fadas alojadas em seu “quintal”. Ao perguntar o que está acontecendo, os Três Porquinhos e Pinóquio respondem que foram colocados em seu pântano por Lord Farquaad.

Farquaad é um príncipe frustrado pelo fato de não ser rei e de pouca estatura, que estava à procura do famoso Espelho Mágico da Bruxa Malvada com a intenção de encontrar a sua futura princesa que o tornaria rei de Duloc ao se casarem. Ameaçando quebrar o Espelho em troca de uma informação, Farquaad é apresentado a três princesas: Branca de Neve, Cinderela e Princesa Fiona, sendo está última a escolhida pelo príncipe. O Espelho bem que tenta o avisar sobre um misterioso segredo de Fiona mas, entusiasmado com sua escolha, ignora-o e convoca seu exército de soldados para um duelo onde o único vencedor iria em busca de sua futura noiva.

Shrek e o Burro seguem então à caminho de Duloc para saber o motivo que fez Lord Farquaad a expulsar as criaturas que sujam seu mundo perfeito. Chegando ao castelo de Duloc, a dupla invade a arena e Farquaad ordena a seus soldados que o matem. Porém Shrek e o Burro derrotam o exército inteiro e chegam até o príncipe, que declara Shrek campeão e o faz uma proposta: ele buscaria a mulher dos sonhos do príncipe, a Princesa Fiona, que vivia adormecida, aprisionada num castelo guardada por um imenso dragão que cospe fogo, e Farquaad tiraria todas as criaturas mágicas da floresta, devolvendo o sossego ao seu pântano.

O ogro Shrek então parte para a sua missão, acompanhado pelo Burro Falante, em uma longa caminhada até o tenebroso castelo localizado no interior de um extinto vulcão. Ao descobrir a invasão o terrível dragão os persegue até que encurrala o pequeno e assustado Burro Falante. Ao ver que está em maus lençóis, o quadrúpede com sua lábia faz elogios ao dragão e descobre que na verdade se trata de um dragão fêmea que acaba se encantando pelo esperto e galanteador animal falante. Shrek ao ver seu amigo encurralado, prende o dragão em correntes, cata o Burro e foge em direção a ponte. Após despistar o dragão, os dois conseguem libertar a princesa que acha que Shrek é o príncipe encantado que a salvaria e daria o beijo do amor verdadeiro, mas se decepciona quando ele tira seu elmo mostrando que seu príncipe é na verdade um grande e feio ogro. Com isso Shrek abre o jogo e diz a Fiona que está a mando de Farquaad com a missão de resgatá-la e a entregar a ele.

A caminho de Duloc, e ao notar que o sol já está se pondo, Princesa Fiona insiste em acampar antes do anoitecer e se abriga em uma caverna até o amanhecer do dia seguinte. Voltando a trilha, Fiona é sequestrada por Hobin Hood e seu bando. Sem nada fazer, Shrek e o Burro assistem a princesa reagir com belos golpes. Ela salta e fica parada no ar, com a imagem congelada. A câmara movimenta-se em redor dela, mostrando a imagem em todos os ângulos, numa clara referência ao filme Matrix. Shrek e Burro ficam boquiabertos.

Após alguns momentos românticos durante a longa caminhada, como em que Fiona, acidentalmente mata um pássaro, ao cantar em um tom extremamente alto, parodiando o clássico da Disney "A Branca de Neve", o trio avista ao longe o Castelo de Duloc, o que parece ser também outra paródia da Disneylândia. Decidem acampar mais uma noite onde, Shrek e Fiona, se aproximam ainda mais. Deliciando um saboroso e suculento churrasquinho de rato, quase se beijam se não fosse o ciumento Burro Falante a interromper o clima de romance. A princesa mais uma vez percebe o anoitecer chegando e se abriga em um moinho abandonado onde decide passar a noite. Curioso, o Burro vai atrás da princesa enquanto Shrek sai para buscar lenha, e se assusta ao descobrir que ela também é uma ogra. Fiona pede segredo ao Burro e diz que, todos os dias ao pôr do sol, se transforma nessa horripilante imagem e, até encontrar o seu amor verdadeiro, o feitiço jamais irá se desfazer.  Disse também que quando era menina uma bruxa a enfeitiçou e a aprisionou naquele castelo até a chegada de seu príncipe encantado.

Shrek, aceitando estar apaixonado, chega com flores para fazer uma surpresa a Fiona quando escuta ela falando sobre ser ogro e horrível, e por não saber da história dela, acha que está falando dele,  que se decepciona e sai furioso. Mais uma vez ela pede ao Burro falante que não conte nada ao ogro.

Quando Fiona toma coragem e decide contar seu segredo ao ogro Shrek, vê amanhecer o dia, e então volta ser uma linda princesa dócil e delicada. Mesmo assim ela se aproxima dele para contar, mas com toda a grosseria que lhe é peculiar, diz a ela que já ouviu tudo que tinha para ouvir, como “quem poderia amar um ogro tão nojento e feio”, e que não faria diferença para ele, sem saber que na verdade ela falava sobre a sua estória ao amigo Burro. Nesse momento, chega ao local onde estão, Lord Farqaad e seu exército de soldados em belíssimos cavalos, equipados com suas resistentes armaduras, lanças afiadas e escudos. Ao descer do cavalo, Farqaad deixa sua armadura que prolonga as pernas de lado, mostrando a Fiona o seu verdadeiro eu. Shrek, ainda enfurecido, entrega bruscamente a princesa a Lord Farqaad em troca da posse do pântano, como já havia sido prometido. Entusiasmado com a beleza da jovem princesa, Farqaad se ajoelha e a pede em casamento, e para sua surpresa, ela aceita na mesma hora, mostrando-se ansiosa para o enlace antes mesmo do pôr do sol.

Shrek, ao ver a princesa nos braços de Farqaad, ainda esboça um certo ciúme, mas segue enfezado e decepcionado de volta ao seu pântano, pelo fato de ter perdido definitivamente a Princesa Fiona. Ao chegar em seu lar, já livre das criaturas dos contos de fadas o ogro, muito triste, despreza o seu amigo Burro Falante que se vê mais uma vez do lado de fora da casa.

Enquanto isso, já no Castelo de Duloc, Fiona se prepara para o casório em um glamoroso cômodo, onde experimenta o seu lindo vestido de noiva, porém pensando em seu verdadeiro amor, Shrek. Paralelamente, em outro cômodo do castelo, no quarto de Farquaad,  pode-se notar que, atrás de sua cama, existem alguns quadros com a imagem do príncipe. O curioso, é que um deles mostra Farquaad saindo do oceano, numa paródia do quadro de Botticelli "O Nascimento de Vênus". Outro fato também bastante interessante é que, na entrada de seu quarto, mostra um tapete feito com a pele da Mamãe Urso. É possível notar e comprovar este detalhe, quando ao final da história junto às criaturas de contos de fadas cantando, que só estão o Papai Urso e seu filhote.

Novamente no pântano, o Burro reencontra o Dragão fêmea chorando triste na beira do lago e, com pena, se aproxima dele. Nota-se também que a mesma apaixonou-se pelo Burro e o seguiu até aquele lugar.

Em outra cena, o Burro revoltado por ter ajudado o ogro a recuperar Fiona e não ter a gratidão merecida, limita com um tronco a sua parte no pântano de Shrek. Vendo a atitude inusitada do Burro, Shrek discute com ele e acaba ouvindo uma verdade do seu verdadeiro amigo, que o convence a voltar a Duloc e recuperar o grande amor de sua vida, a princesa Fiona. Porém, achando que já é tarde demais para isso, pois a esta hora já estaria se casando com Farqaad, Shrek se desespera. Burro então assobia alto, chamando nada mais, nada menos que seu amigo e affair, Dragão fêmea. Surpreso, porém vibrante, Shrek e o Burro montam no Dragão e seguem voando a caminho do castelo onde acontece o casamento entre a Princesa Fiona e Lord Farqaad. Ao chegarem a Duloc, o ogro Shrek invade a igreja e protesta em meio os convidados o enlace matrimonial. Farqaad esnoba Shrek e, ansioso para se tornar rei o quanto antes, pede ao padre que se apresse. Os convidados, ao verem que o ogro mostra-se apaixonado pela princesa, riem demasiadamente o deixando ainda mais constrangido. Enquanto isso Fiona percebe que o sol se pôs e, perante todos, se transforma em uma ogra gorda e feia. Farqaad não acredita no que vê a sua frente e se desespera. Pega a coroa real, coloca em sua cabeça e se consagra rei. Não satisfeito, ordena que seu exército prenda Shrek e Fiona. O ogro não se entrega e luta com os soldados, porém são muitos e o seguram o impedindo de revidar, mas consegue assobiar e chamar o Dragão que entra quebrando os vitrais e devorando o insaciável Lord Farqaad.

Aproveitando o momento feliz, a igreja, o padre e os convidados, Shrek se declara a Fiona e a pede em casamento. Após a formalização do sacramento, Shrek dá o beijo do amor verdadeiro em Fiona, fazendo com que o feitiço se desfaça e Fiona, ao invés de se tornar uma princesa linda e delicada, permanece como ogra ad eternum. Ao perceber que não voltou a ser como era antes, se decepciona momentaneamente dizendo que deveria estar linda, mas Shrek em seu momento galanteador diz que ela agora está verdadeiramente linda.

A festa se prolonga para a floresta onde estão presentes todas as criaturas dos contos de fadas, ao som de I believe, cantada pelo Burro Falante.

Os noivos seguem rumo à lua de mel em uma linda e encantada carruagem feita de cebola e viveram “feios para sempre”.

III- CORPO, CULTURA E REGULAÇÃO SOCIAL: OU O TRIUNFO DO DESVIO.

A feiura é, atualmente, uma das mais presentes formas de exclusão social, e como tal, uma importante forma de agenciamento de subjetividade. Tomando a gordura como uma das atribuições mais representativas de feiura na cultura atual, apontamos para os processos de exclusão vividos por aquelas que nela se enquadram. (Novaes, 2006).

É também preciso ressaltar que o controle exercido através da fiscalização de um olhar minucioso sobre a aparência e com o aval da ciência, contribui para regulamentar diferenças e determinar padrões estéticos em termos daquilo que é próprio e impróprio, adequado ou inadequado, normal ou anormal. Como bem sugere Durif, “o corpo torna-se álibi de sua própria imagem.” (apud Daniels, 1999:29). Esse controle da aparência traduz-se não somente na atribuição de características estéticas, como as investem de julgamentos morais e significados sociais.

É interessante notar como os discursos que normatizam o corpo, sejam eles científico, tecnológico, publicitário, médico, estético, etc., vão, pouco à pouco, tomando conta da vida simbólica/subjetiva do sujeito. Nas palavras de Daniels, (1999):

“As instâncias que normatizam o corpo invadem as dimensões expressivas e simbólicas da corporeidade, fornecendo imagens e informações que reconfiguram o próprio âmbito do vivido corporal. O leitor é sempre aquele que possui um conhecimento muito limitado e confuso de seu corpo”. (1999:50)

Com efeito, os cuidados físicos revelam-se, invariavelmente, como uma forma de estar preparado para enfrentar os julgamentos e expectativas sociais. Da mesma forma, todo o investimento destinado aos cuidados pessoais com a estética vincula-se à visibilidade social que o sujeito deseja atingir – evitar o olhar do outro ou à ele se expor está diretamente relacionado as qualidades estéticas do próprio corpo!

As representações do que é ser belo, veiculadas pela mídia, acabam por transmitir discursos e saberes, que indicam como devemos ser. Amplamente disseminadas, essas imagens são carregadas de significações que produzem verdades, indicando formas de pensar, de sentir e conhecer, que por sua vez, ensinam ao sujeito os modos de ser e estar na sociedade e na cultura e quem está inserido. Daí advém a importância de analisar os filmes infantis, como um artefato cultural que contribui na constituição da identidade, forjando subjetividades.

Por ser um meio de produção e reprodução de informações, onde circulam concepções de gênero, classe social, sexualidade e raça, -  a mídia reafirma-se enquanto uma instância educativa. Portanto, para além da sua função de entretenimento, este artefato cultural deve ser considerado como um importante local de formação cultural e disseminação dos valores hegemônicos.

Em suas pesquisas, (FISCHER, 2002) busca demonstrar como, ao dirigir-se às pessoas de forma a ensiná-las modos de ser e estar na cultura em que vivem, a mídia transformou-se em um dispositivo pedagógico diretamente relacionado à formação das identidades, reproduzindo conceitos sobre os mais variados aspectos da vida associativa e que valorizam determinados comportamento em detrimento de outros. O conceito de regulação social refere-se a esses padrões comportamentais que ganham destaque em uma sociedade.

Com o crescente avanço tecnológico aliado à facilidade de acesso da grande maioria da população, a massificação da cultura tornou-se um fenômeno inquestionável. Cada vez mais utilizada como fonte de conhecimento, através do uso de sons, imagens e uma maior interatividade com o usuário, a mídia transformou-se num atrativo bem mais sedutor do que o livro, e, uma vez assumindo um papel fundamental na educação, passou a representar o que Giroux denominou de “máquina de ensinar”, (GIROUX, 1995).

Estudos Culturais nos mostram a necessidade de tomarmos a indústria da mídia como uma pedagogia cultural, sendo assim um possível objeto de análise. Os filmes infantis também fazem circular discursos e representações que auxiliam na constituição das identidades e subjetividades das crianças e também dos adolescentes.

Em um artigo intitulado “A Disneyzação da cultura infantil”, Giroux  trata da temática dos filmes infantis como um artefato cultural, através da supremacia das produções cinematográficas voltadas para o segmento infantil. Por fazerem uso de cor, sons e movimentos, cada vez mais aperfeiçoados pelo avanço tecnológico, os filmes infantis são considerados bons para as crianças, posto que: “estimulam a imaginação e a fantasia, reproduzindo uma aura de inocência e saudável aventura” (GIROUX, 1995:51)

O pensamento Moderno tem como marco a compreensão da diferença como um desvio do padrão de normalidade. Marcados por estereótipos, quase sempre relacionados à incapacidade, improdutividade e/ou doença, os grupos desviantes foram vítimas de discriminações e preconceitos, sendo, na maioria das vezes, isolados em instituições especializadas, como nas escolas especiais, por exemplo.

Portanto, compreender os filmes infantis constitui um importante objeto de reflexão, já que os mesmos expressam o ethos e as marcas do pensamento hegemônico do período no qual foram criados e por isso, são utilizados como um importante recurso pedagógico, tornando-se indispensável à compreensão dos efeitos produzidos por seu discurso, sobretudo, para que a assimilação do mesmo caminhe no sentido da superação do preconceito e da discriminação.

As mais importantes marcas da atualidade, no entanto, são as rupturas de paradigmas do universal ao múltiplo, da exclusão à inclusão, assim como a transição do modo de se compreender a diferença: do modelo Moderno, pautado no padrão, que compreende a diferença como um desvio do padrão de normalidade, ao modelo atual, vinculado ao princípio da diversidade, que compreende que todos os indivíduos são diferentes e que ser diferente não significa ser normal ou anormal, capaz ou incapaz, melhor ou pior etc, significa apenas ser diferente.

Em decorrência dos questionamentos atuais que visam superar as concepções Modernas, os filmes infantis contemporâneos têm absorvido o referencial atual - do múltiplo, da diversidade. Não se pode negar a influência das transformações que vêm ocorrendo na literatura infantil, já que grande parte desses filmes é oriunda das histórias narradas em livros. Machado (2005), ao analisar obras da literatura infantil clássica e atual, percebeu haver uma mudança no conceito de diversidade: da exclusão à inclusão.

Em seu livro Apocalípticos e Integrados (1993), Umberto Eco afirma que, segundo a visão dos apocalípticos, a cultura teria como único compromisso, - a produção e o consumo, sem qualquer apreço pela arte, já os integrados estariam com a atenção voltada para a capacidade da cultura de massas em disseminar valores culturais. Esses valores, por sua vez, seriam difundidos e veiculados por uma comunidade de intérpretes da sociedade em que vivemos.

Historicamente, é possível notar um deslocamento de sentidos no que diz respeito ao modo de se compreender a diferença. Enquanto na modernidade o modelo era pautado no princípio do padrão, ao modelo contemporâneo estaria vinculado o princípio da diversidade. Essa mudança pode ser ilustrada através da fala do personagem do burro falante na fábula - amigo de Shrek-, que uma vez sem vontade de voltar ao local onde vivia, tenta convencer o ogro a deixá-lo ficar em sua companhia. Nesse sentido, as palavras no animal nos parecem representativas do argumento apresentado: "por favor, eu não quero voltar para lá, é muito chato ser considerado anormal".

Esse discurso parece partir da premissa de que todos são diferentes e que, portanto, não haveria padrão de normalidade. O personagem do burro falante é apresentado com a clara noção de que, em seu lugar de origem, todos o consideravam anormal. Contudo, agora, em seu novo lugar, sentia-se livre ao lado de Shrek, posto que ali o consideravam, perfeitamente, ajustado. Além de expressar a ideia de exclusão social, o discurso do burro aponta para algo ainda muito importante: o ato de resistência, observado no fato de negar incorporar àquela avaliação moralmente depreciativa, associada ao lugar de diferenciação. E é justamente por não ter hospedado dentro de si um discurso opressivo, que o personagem pôde, novamente, sentir-se integrado ao cenário externo.

Segundo Paulo Freire (2004), somente a partir do momento em que o sujeito toma consciência de sua situação de oprimido e, igualmente, quando não permite ser hospedeiro do opressor, é que terá êxito na luta pela sua libertação. Na fábula, por nós aqui analisada, Shrek, nosso protagonista, só consegue libertar-se da prisão na qual está condenado, vivendo apartado de todos, sozinho no pântano, quando se insurge decidindo exercer uma função distinta da Besta Fera, temida por todos. Entretanto, quando ao contrário, o dominado hospeda dentro si os preconceitos que lhe foram atribuídos, assimilando o discurso dominante de maneira acrítica, tem-se um eficiente instrumento de dominação, que dispensa a força física, posto que aprisiona o sujeito alimentado pelo seu próprio sentimento de insuficiência e inadequação, sendo, por isso, uma estratégia de regulação muito mais eficaz.

Com uma abordagem afiada no tocante à temática dos estigmas relacionados à aparência, o desenho apresenta uma grande riqueza de diálogos nesse sentido, como revela a cena em que Shrek se queixa das pessoas o julgarem antes mesmo de conhecê-lo. Com isso, o personagem reafirma a crueldade e injustiça presentes no olhar preconceituoso que o imaginário social demonstra lançar em relação à feiura: "Olha, não sou eu que tenho problemas, ok? É o mundo que parece ter um problema comigo. As pessoas olham para mim e: Ah! Socorro! Um ogro enorme e horrível! Elas me julgam antes de me conhecerem".

Ainda na esteira dos prejuízos causados pelos estigmas sociais, Oliveira (2006, p. 40) nos atenta para o fato de que "os estigmas definem não pelas características totais da pessoa, definem-se, sim, pela leitura social que se faz delas". Considerando que a arte imita a vida e vice e versa, no caso do filme, assim como na vida real, os personagens interpretam a condição de "ser ogro", como um estigma. A imagem de Shrek, parece, automaticamente, disparar nos outros personagens do filme, a imediata associação da sua figura com o estereótipo de uma figura má. Sendo assim, julgam Shrek antes mesmo de conhecê-lo, como se todos os ogros e ogras possuíssem as mesmas características pessoais.

Ao que parece, as pessoas bonitas têm prerrogativas. Ao vermos uma bela figura parecemos desculpar todo e qualquer tipo de defeito de caráter. Inversamente proporcionais aos comentários depreciativos em relação às pessoas gordas, são aqueles associados aos indivíduos de bela de aparência. Aos belos, tudo é desculpado e permitido, pois a beleza, em si, é a moeda de troca.

Não havendo qualquer tipo de restituição simbólica que possa despertar a piedade alheia, os gordos são mantidos excluídos, feito párias sociais, pois já não participam das regras do jogo social. Não à toa, na sociedade contemporânea, os obesos são denominados “malignos” ou “malditos” – como no jocoso termo empregado por Fischler. Possuem também, um comportamento visto como depressivo e por isso, desprovido da obstinação necessária para a contenção de suas medidas corporais. Enfim, sua imagem demonstra um certo desânimo perante à vida, remetendo ao fracasso no agenciamento do próprio corpo e dos seus limites.

Numa sociedade como a nossa, na qual o máximo da valoração social não reside na realização das ideologias/utopias, mas na realização dos projetos individuais – nada, então, mais antipático e que desperte menos solidariedade do que um indivíduo incapaz de empenhar-se no projeto pessoal da boa aparência.

Partindo, então, da premissa de que os imperativos estéticos são, simultaneamente, produzidos e reforçados por expectativas socialmente instituídas. Portanto, concluir-mos-emos que é a relação com a alteridade, ou seja, com o olhar do outro, que atribui uma avaliação demasiadamente depreciativa a respeito da imagem corporal que o sujeito constrói sobre si. Nota-se, contudo, que ao descrever a própria imagem, o indivíduo tende em querer desvencilhar-se dos adjetivos mais depreciativos, fazendo uso de eufemismos e diminutivos para mascarar sua real aparência.

Fischler (op.cit) sublinha, ainda, outro tipo de julgamento moral que surge de forma recorrente no imaginário social. Nele, indagamo-nos se os gordos são vítimas do seu metabolismo e da sua carga genética ou, culpados por um comportamento transgressor com relação à comida.

De acordo com a enquete feita pelo autor, um número expressivo de pessoas atribui aos obesos a responsabilidade por sua condição, ou seja, são considerados, simultaneamente, descontrolados e com uma voracidade desmedida. Embora, socialmente, compreendidos possuidores de uma espécie de compulsão, no caso da glutoneria, o sentimento moral de culpa e responsabilidade não lhes é aliviado.

Como bem aponta o autor, as categorias que representam a gordura, a magreza e a obesidade mantém-se, relativamente, estáveis ao longo dos séculos. Contudo, é preciso que estejamos atentos, pois são os critérios que determinam o limiar entre uma e outra, que sofrem grandes variações. Nas palavras do autor: ”era preciso sem dúvida, no passado, ser mais gordo do que hoje para ser julgado obeso e bem menos magro para ser considerado magro” (1995:79)

Outra ruptura trazida pelo filme, diz respeito à aceitação da diferença. No filme, é superada a ideia de que para ser feliz é preciso ajustar-se à norma, deixando de ser diferente pela correção dos "desvios" ou pela união a seus iguais. A fábula do “Patinho Feio", nos parece paradigmática nesse sentido. Conforme destacou Machado, (2005, p. 76), o final feliz ocorre quando, ao crescer, o "patinho" que era discriminado - por ser feio e diferente dos outros patos - torna-se um belo cisne, juntando-se aos demais iguais a ele. “Dessa forma, o conto transmite, ao leitor, a ideia de que só é possível ser feliz caso anulemos as diferenças”.

No caso de "Shrek", o burro falante alcança a felicidade ao tornar-se livre para viver junto aos que não o tratam como desviante, não precisando, dessa forma, juntar-se a outros burros falantes, nem, tampouco, sendo necessário deixar de falar para ser integrado aos outros burros, - as suas características individuais foram mantidas.

Resta saber, por que a princesa Fiona não se transformou em humana após libertar-se do feitiço? Por que precisou manter-se ogra, como Shrek, para ficarem juntos? Estaria aí, sendo produzido, o sentido de que a felicidade só pode ocorrer entre iguais? Fica a nossa indagação....

IV- CONSIDERAÇÕES FINAIS OU PARA QUE SERVEM CONTOS DE FADA?

Para elaborar os problemas psicológicos do seu crescimento, superar decepções narcísicas, atravessar dilemas edípicos e rivalidades fraternas, bem como ser capaz de abandonar algumas dependências infantis; alcançar um sentimento de individualidade e igualmente de integridade, e, se tudo der certo, finalmente, criar uma instância interna responsável pela introjeção de determinadas obrigações morais – tudo isto está condicionado ao fato da criança ter a compreensão de certos conteúdos de seu mundo interno.

Segundo BETTELHEIM (1977) essa compreensão é atingida e com isto a habilidade de lidar com seus conflitos, não através da compreensão racional da natureza do seu inconsciente, mas a partir da familiaridade que o infante adquire através de devaneios prolongados. Mecanismos psíquicos intrínsecos ao nosso aparelho nos levam a ruminar, reorganizar e fantasiar sobre específicos elementos da estória e são uma resposta às pressões inconscientes. Somente a partir desse trabalho inicial de organização mental, é que a criança pode adequar o conteúdo inconsciente, às fantasias conscientes, o que, por sua vez, a capacita para lidar com o mesmo. É nesse ponto que os contos de fadas têm um valor inestimável, pelo que oferecem referente às novas dimensões que a imaginação infantil consegue alcançar. Quando esse processo de desenvolvimento emocional ocorre de forma saudável, esta descoberta dar-se-á numa relação conjunta, - num espaço de criação provocativo e bastante fértil, gerado entre a criança e as suas leituras. E ainda, a forma e estrutura como são pensados os contos de fadas, sugerem imagens com as quais, a criança, pode estruturar seus devaneios e com isso conferir um novo significado à sua vida.

CORSO &CORSO (2011, P. 19) partem da premissa que passamos um terço da vida dormindo e, portanto, sonhando. Quando despertos, nossos devaneios ocupam um tempo muito maior do que imaginamos, uma vez que somos a todo momento capturados pelos mesmos, sem darmo-nos conta de tal fato. Segundo os autores, gastamos, diariamente, grande parte do nosso tempo, fantasiando estar em outro lugar, na convivência de pessoas mais estimulantes, fazendo coisas absolutamente alheias à nossa rotina. Proporcionalmente, seria o equivalente afirmar que, passamos um mês de férias e os outros onze restantes, sonhando com elas. Da mesma forma, é correto dizer que os dias de sábado e domingo não ocupam somente esses dois dias em nossos pensamentos.

Determinante poderoso do comportamento humano, quando o inconsciente está reprimido e algum conteúdo não chega à consciência, a mesma é, parcialmente, sobrepujada pelos derivativos destes elementos inconscientes, caso contrário, será imperativo manter um controle de tal forma eficiente sobre os referidos conteúdos recalcados, que a personalidade do sujeito poderá sofrer graves sequelas, como efeito desse poderoso mecanismo de censura. Todavia, quando o material inconsciente tem, certo grau de permissividade para vir à tona e, portanto, tem a oportunidade de ser elaborado na imaginação, seus danos potenciais reduzem significativamente e algumas de suas formas, são postas a serviço de propósitos positivos.

Entretanto, ainda na atualidade, prevalece nos pais, a crença de que a criança deve ser distraída do que mais a perturba, ou seja, suas ansiedades amorfas e inomináveis, suas fantasias caóticas, raivosas e mesmo violentas. Muitos pais têm a sua crença ancorada no fato de que somente a realidade consciente ou ainda, imagens agradáveis e otimistas, deveriam ser apresentadas à criança – como se a vida contemplasse apenas uma dimensão agradável aos sentidos e que tal proteção excessiva fosse um sinal de cuidado. BETTELHEIM, (1977)

O que podemos lançar como indagação, retomando nosso herói é: o quanto somos capazes de transformar nossos pesadelos em sonhos, nossos sonhos em realidade e nossas diferenças em descobertas. Talvez o mundo fique mais rico se Fionas não precisem se transformar em musas, se Shreks encontrem um lugar de acolhimento ou se os burros possam falar ou não. Enfim, um mundo que possa acolher amorosamente todos os seus habitantes -, não é disto que tratam os finais felizes dos contos de fada?

 

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Recebido em: 23/04/2012

Aceito em: 09/08/2013

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