POLÊM!CA Revista Eletrônica

LIPIS

AGULHAS PARA DESATIVAR BOMBAS(1)

EDSON LUIZ ANDRÉ DE SOUSA é Psicanalista. Analista Membro da APPOA. Doutor em Psicanálise e Psicopatologia pela Universidade de Paris VII. Pós-doutorado na Université de Paris VII e na Ecole des Hautes Etudes em Sciences Sociales – Paris (2009-2010). Professor do PPG Psicologia Social e PPG Artes Visuais – UFRGS. Coordenador junto com Maria Cristina Poli do LAPPAP – Laboratório de Pesquisa em Psicanálise, Arte e Política. Pesquisador do CNPQ. Pesquisador Associado do LIPIS – PUC-Rio, Professor convidado Deakin University (Melbourne) e do Instituto de Estudos Críticos (Cidade do México). edsonlasousa@uol.com.br.


Resumo: O imigrante, o estrangeiro, o refugiado vem colocar em uma certa posição de abismo, os espaços aparentemente seguros do que representa para cada um o familiar. O estrangeiro coloca em cena a potência utópica de buscar novas imagens, novos espaços, novos significantes, novas línguas. Produz assim com este deslocamento uma renovação da língua. Nem sempre somos capazes de reconhecer: o estrangeiro que  nos constitui. Tal condição aparece quando ousamos mudar de posição, ou seja, quando produzimos um deslocamento que permita uma interrogação sobre o lugar. Portanto, isto acontece sempre que cruzamos a fronteira de um território e nos deparamos com uma outra língua que balbuciamos, como se recuperássemos o infantil que sempre nos habita.
Palavras-chave: estrangeiro, deslocamento, testemunho, xenos.

Needles to desactivate bombs;

Abstract: The immigrant, the stranger, the refugee put the seemingly safe spaces for each one representing the familiar in a certain position of the abyss.The alien puts into play the utopian potency to  seek new images, new spaces, new meanings, new languages​​. With this displacement it produces a renewal of language.

We are not always able to recognize the stranger that inhabits us. This condition appears when we dare to change position-, namely when they produce an interrogation concerning the territory. This happens whenever we cross the border of a territory and come across a language other than the one we know, as if we recovered the child that forever inhabits us.

Keywords: foreigner, displacement, witness, xenos.



INTRODUÇÃO

“Escrevi poemas como forma de falar, para me orientar, para saber onde eu estava e para onde deveria ir...”

Paul Celan

O fragmento de Paul Celan aponta a condição que habita todo o ser humano, mas que nem sempre somos capazes de reconhecer: o estrangeiro que nos constitui. Tal condição aparece quando ousamos mudar de posição, ou seja, quando produzimos um deslocamento que permita uma interrogação sobre o lugar. Portanto, isto acontece sempre que cruzamos a fronteira de um território e nos deparamos com uma outra língua que balbuciamos, como se recuperássemos o infantil que sempre nos habita. Somos perfurados por um inconsciente que nos habita e que não nos deixa esquecer que o estrangeiro não está do outro lado da fronteira, mas deita em nosso leito e nunca nos abandona.  Como lembra Julia Kristeva em seu clássico ensaio “Estrangeiros a nós mesmos” (KRISTEVA,  1988) este estrangeiro é a face escondida de nossa identidade. Assim, a presença de um estrangeiro apenas lembra a alteridade que nos constitui e de forma muito radical, como mostrou Freud, que o Eu não é senhor em sua própria morada. Buscar fixar o estrangeiro no outro não deixa de ser uma forma de cegueira, de não querer reconhecer a língua estranha que falamos sem perceber. Por sorte, nossos sintomas e nosso sofrimento tentam nos fazer despertar desta espécie de anestesia.

Na Grécia antiga o estrangeiro, o hóspede, o refugiado, o viajante era protegido por Zeus e podemos ler na Ilíada de Homero que era um delito maltratar um hóspede. Este era acolhido sempre de forma incondicional, sem mesmo precisar dizer seu nome e sua origem, pois era ele  que,  de alguma forma,  permitia um olhar renovado sobre a vida, abrindo novos espaços de transmissão e de experiência.  Neste ponto, a precisão de Freud nos ajuda muito, pois a tese central em seu clássico Unheimlich (O estranho) é colocar do mesmo lado do quintal o que é estranho e o que é familiar.

Nosso desafio é responder a provocação do artista Waltercio Caldas:  como penetrar no espaço do outro como uma agulha e não como uma bomba. Acredito que aqui ele coloca o dedo na ferida no coração das trevas do tempo que vivemos, tempo  da assepsia do contato e da intolerância ao estrangeiro, seja este o que fala outra língua, o que pensa de outra forma do que penso, o que goza de forma diferente da minha.  Vou seguir a pista desta provocação de Waltercio Caldas e com duas palavras chaves: bomba e agulha,  propor uma breve evocação e reflexão.

Bomba

Como poderia esquecer este flash de luz”

Sankichi Toge

Com este primeiro ponto gostaria de discorrer brevemente sobre a função do testemunho que tenta narrar o trauma em situações extremas de intolerância e destruição. Assim vou discorrer sobre uma bomba que embora tenha sido lançada sobre o Japão em 1945, continua ativa em nossos dias e muito mais perto de nós do que imaginamos.

A luz geralmente nos evoca sensações de vida, de esperança, de aconchego. Dar a luz é talvez uma das expressões que nos toca mais fundo, pois evoca em nossos espíritos o início da vida. Contudo, a luz que se refere o poeta japonês Sankichi Toge lembra escuridão, nos lança de forma violenta no coração das trevas de uma experiência que ainda não compreendemos o suficiente. Por mais que busquemos compreender, nunca será o suficiente. Sankichi nasceu no Japão em 1921. Tinha 24 anos quando a bomba norte-americana decorada com as assinaturas de alguns soldados caiu sobre Hiroshima no dia 6 de agosto de 1945 , às 8h e 15 minutos da manhã. Ele sobreviveu por alguns anos, tempo suficiente para deixar alguns poemas e veio a falecer do efeito retardado da bomba que explode por dentro do organismo, com uma leucemia aos 36 anos de idade. Naquela manhã em Hiroshima uma luz inesperada surgiu nos céus e que Sankichi registrou no papel como uma espécie de sombra do horror. (TOGE, 2011, p.. 57) Como vocês sabem, milhares de pessoas em  segundos literalmente evaporaram e muitas delas deixaram apenas como registro um contorno de sombra nas paredes e nas ruas. Resistiam assim, sem saber, ao anuncio terrível de Brecht dos rastros que se apagam.   Sua sombra se chama manhã e foi escrita  um pouco depois daquele 6 de agosto.

Manhã

Eles sonham:
Um trabalhador sonha, baixando a picareta,
o suor transformado em cicatrizes pelo clarão.
Uma esposa sonha, dobrada sobre a máquina de costura,
entre o odor doentio da sua pele aberta.
Uma empregada de bilheteira sonha,
as suas cicatrizes escondidas,
como pinças de caranguejo, nos dois braços.
Um vendedor de fósforos sonha,

com pedaços de vidro partido cravados no pescoço.

Eles sonham:
Que bandeiras festivas tremulem
à sombra das árvores, onde os trabalhadores repousam
e as lendas de Hiroshima

são contadas por lábios suaves.

Eles sonham:
Que esses suínos com forma de homem
que não sabem como utilizar o poder
do centro da Terra senão para a carnificina.
Apenas sobrevivam em livros ilustrados

para as crianças.

Que a energia de dez milhões de cavalos-vapor por grama,

mil vezes mais forte que um poderoso explosivo.

Passe do átomo para as mãos do povo.

Que a colheita rica da ciência seja levada, em paz, ao povo

Como cachos de uvas suculentas

úmidas de orvalho

Apanhadas

Ao amanhecer.

Texto que devolve um pouco de luz à escuridão do clarão de átomo, colocando palavras, no lugar dos  números e das estatísticas de uma lógica de guerra.

Dori Laub (CARUTH, 1995, p. 75) em seu texto “Um acontecimento sem testemunho – verdade, testemunho e sobrevivência”  propõe 3 níveis distintos na abordagem da questão do testemunho:

Testemunho de sua própria experiência;
Testemunho de ser testemunha da experiência de outros;

Testemunho do próprio processo de testemunhar.

Aqui eu não separaria  o primeiro e o segundo nível,   ainda que certamente eles façam diferença  na historia possível a ser narrada. Em outras palavras, o que quero dizer é que  ao sermos testemunhos da experiência de outro , esta experiência , em alguma medida, também nos constitui. Não me parece absurdo que o artista Jeff Wall  tenha produzido as imagens mais eloquentes da guerra do Afeganistão no quintal de sua casa sem nunca ter colocado os pés naquele país. Trata-se da fotografia de dois metros de altura por quatro de largura montada em uma caixa de luz e intitulada “Conversa de soldados mortos” .Susan Sontag ( 2003) aprofunda este ponto no seu ensaio “Diante da dor dos outros”.  Escreve ela: “As figuras na criação fotográfica de Wall são realistas, mas é claro, a imagem não é. Soldados mortos não falam. Aqui, falam.” (p.103)

A literalidade do acontecimento pode ser luminoso,  mas também pode cegar. Queiramos ou não, testemunhar é muito mais do que dizer eu estive lá e assim tenho algo a dizer.  Temos o compromisso com nosso tempo e o dever de colocar palavras lá onde larvas e  lavas devoram a linguagem. Acredito que o  que é importante neste ponto é sabermos em que medida  acolher a  narrativa de um outro pode  tocar nosso corpo nos dando a experiência de efetivamente ter estado ali onde nunca estivemos.             Restaria ainda o terceiro nível de testemunho que refere Laub, ou seja, testemunhar o processo mesmo do testemunho. Esta reflexão nos ajuda a pensar sobre o tensionamento entre o imperativo de narrar e a impossibilidade desta narrativa, impossibilidade entendida aqui,  no sentido de que tudo que dissermos será sempre insuficiente. Mas como diz Beckett em seu inominável: “é preciso dizer palavras enquanto houver, é preciso dizê-las, até que elas me encontrem, até que elas me digam, estranha pena, estranho pecado, é preciso continuar.....ali onde estou, não sei, não saberei nunca, no silêncio não se sabe, é preciso continuar, não posso continuar, vou continuar (BECKETT, 2009,, p. 185)

Testemunhar, portanto, é uma forma de reconstrução da vida.

Outra contribuição importante neste ponto é de Gérard Wajcman em seu livro “O objeto do século” onde vai nos dizer que “os testemunhos são o lugar do impensável” (WACJMAN, 1998, p.240). Impensável na medida em que nos coloca diante da importante questão do que significa transmitir uma experiência  e do quanto suportamos o testemunho das testemunhas.  Enunciar “que horror” ao saber destas histórias e depois folhar rapidamente a folha de seu jornal como faz Madame Verdurin, personagem de Proust no clássico “Em busca do tempo perdido”,  que não queria estragar seu café da manhã com o desespero dos náufragos do navio britânico Lusitânia , é pactuar com a morte.

A literalidade do acontecimento traumático pode ser ponto de partida ou ponto final. O “eu estive aqui” não é garantia da riqueza de uma transmissão. Aqui valeria a pena fazer uma diferença entre dois estatutos possíveis na relação entre trauma e literalidade.

Há uma literalidade do trauma  que pode  nos deixar reduzidos a mínima significação ou até mesmo a ausência de significação e que Freud tanto insistiu ao falar das neuroses traumáticas e seu conceito de compulsão a repetição. Retornar a cena em sua força bruta, aterrorizadora, paralisante. Portanto, um literal que nos reduz a condição de objeto, de assujeitamento completo,  a uma lógica que nos ultrapassa e da qual pouco sabemos.

Há, contudo outro literal que é como uma espécie de retorno possível à cena traumática lembrando o que Claude Lanzmann no seu filme Shoah nomeia como uma certa obscenidade do entendimento que aniquila a complexidade do fenômeno. Vejo aqui,  por exemplo,  o trabalho  do poeta Paul Celan cujo desafio em seus poemas era  dar corpo a uma falta de imagem. O estrangeiro vem sempre problematizar nosso em falta com  a imagem, justamente quando nos propõe outras formas de ver e narrar o mundo.  Este literal seria como uma espécie de recusa a uma nomeação apressada,  apontando, assim  a insuficiência do nome. Não confundamos com uma recusa a significação. O desafio seria o seguinte:  como mostrar através de uma imagem que não há ainda imagem disponível?  Trata-se, portanto, de uma literalidade que abre sentidos, que perturba o signo em suas paralisias sintomáticas. Celan mostra um minimalismo na  linguagem  no intuito  de conter a voracidade de um  entendimento que pode ser destrutivo . Gesto, portanto, que restaura a potência da memória como um trabalho ainda a ser feito, como uma missão que precisa sempre ser recomeçada.

Neste ponto, para quem tem presente o início do filme de Alain Resnais  “Hiroshima, mon amour”, temos uma demonstração exemplar do que estou tentando sublinhar.. Qual o limite do que se pode dizer de uma catástrofe? Em que medida somos capazes de ver diante de  nós um estrangeiro que denuncia nossa cegueira?

A voz feminina diz: Eu vi Hiroshima!
 A voz masculina: Você não viu nada em Hiroshima!
             Ela: Eu vi tudo em Hiroshima. Eu vi o hospital.  Tenho certeza. Como poderia não ter visto?

Ele: Você não viu o hospital em Hiroshima!          

Neste momento,  aparecem pessoas em um  hospital olhando rapidamente para a câmara para logo em seguida desviar o olhar.  Resnais e Duras indicam que há um olhar de quem viu e para o qual não podemos ver. Não é possível  continuar olhando o olhar delas..Há, portanto algo que escapa ao olhar.

 Mas é preciso testemunhar. O filme mostra o museu.  “Fotografias , reconstituição na falta de outra coisa”. “E explicação na falta de outra coisa”. O filme nos mostra a força de resistir ao horror do não entendimento.     

Então o que vemos , o que nos olha? O que podemos e  devemos,  fazer diante de imagens  que  abrem  sob  nossos pés um abismo?  Como diferenciar o silêncio da indiferença, do silêncio potente que não deixa calar a pergunta sobre o que estou efetivamente vendo?

Georges Bataille (CARUTH, 1995, p. 223) denuncia a lógica, arquitetada pelos militares norte-americanos,  de medir o horror do estrago. O mesmo cuidado com que a bomba foi preparada,  foi dedicado a missão de registro do acontecimento. Dois dos B-29  que  acompanharam o Enola Gay com  a bomba ,  foram para registrar o horror, calcular para  a ciência os efeitos do artefato técnico. Foram fazer o registro “científico” do experimento. Great Artist, como foi nomeado o outro avião, iria medir a radiação e outro avião ainda  iria capturar imagens e outras experimentações. Esta lógica se seguiu meses e anos depois com as ditas missões que foram a campo para calcular o incalculável da dor, os índices de radiações.  São muito os depoimentos de sobreviventes dizendo o quanto eram manipulados como tubos de ensaio sem a mínima preocupação em curá-los

Como  tolerar a abordagem do horror de Hiroshima e Nagazaki com  uma lógica de estatísticas, de números, que diluem em sua lógica científica a dor de milhares? Como singularizar uma tendência a homogeneização que a lógica das estatísticas e o triunfo da técnica nos impõem? Fazer face  a este horror nos obriga a testemunhar as histórias uma a uma.   As histórias, escutadas uma a uma,  rompem com a simplificação dos entendimentos teóricos que literalmente banalizam o mal ao encontrar uma suposta explicação científica, histórica ou técnica para o horror. “Jogamos a bomba para poupar vidas e acabar a guerra o mais rápido possível”  dizia um oficial norte-americano no documentário “Luz Branca , Chuva Negra”.(2)     

Um ponto fundamental a refletir na proposição de Bataille se refere a diferença que faz entre abordar um acontecimento pela reflexão e entendimento ou pelo afetivo. Que mecanismos criamos para nos proteger dos acontecimentos e acreditar que o que acontece com um “estrangeiro”  pode nos produzir menos sofrimento do que os produzidos sobre “um dos nossos”..  Escreve ele “Temos que admitir que se as bombas tivessem caído sobre Bordeaux ou sobre Bremen (supondo estas cidades intactas, ainda não evacuadas) , as bombas não teriam tido para nós o sentido de um experimento científico – cuja magnitude ultrapassa a imaginação.” (CARUTH, 1995, p. 223)  

Bataille se detém no depoimento do Sr. Tanimoto que,  ao ver centenas de corpos literalmente se derretendo,  precisava repetir para si mesmo sem parar  “São seres humanos, são seres humanos”. Aqui o temor de que uma vacilação do pensamento poderia nos fazer supor que estávamos  efetivamente em outro universo, algo muito próximo da vivência animal. Os animais se salvam do confronto com o absurdo pela incapacidade de entendimento. Mas paradoxalmente a intensidade da sensibilidade nos aproxima desta animalidade na medida em que  “a sensibilidade soberana”como nomeia Bataille  , em sua força extrema, não nos deixa ver para além do momento presente. (p.230)    

Como lembra Cathy Caruth no seu texto Trauma e Experiência “O traumatizado carrega uma história impossível consigo, se tornando por vezes o sintoma de uma história que não pode ser completamente apreendida” (CARUTH, 1995, p. 5 ) Contudo, só há testemunho se há narração. 

Mas a vida resiste de forma absurda. O branco do clarão ressurgiu na praga das larvas    que se multiplicavam aos milhares nos corpos em sofrimento. Elas devoravam a carne putrefata . Curiosamente se produziu em pouco tempo uma praga abjeta que acabou produzindo mais cura que danos. O médico Paul Takashi Nagai, um dos poucos que pode publicar suas memórias ainda no tempo do controle norte-americano devido a censura extrema do testemunho durante muito tempo, revela no seu livro “Os sinos de Nagazaki” como seu trabalho como médico diante da insuficiência  de recursos se restringia a levar aos doentes latas de pêssego e o conselho de não retirar as larvas brancas de suas feridas.(NAGAI, 1968).

Testemunhar é manter vivas estas larvas que continuarão a  arejar o solo para que novos pessegueiros floresçam.

AGULHA

Não podemos esquecer nossa condição de imigrantes, refugiados, estrangeiros, exilados, náufragos no território do inconsciente. Precisamos ir além dos discursos humanistas e religiosos como “Amarás teu próximo como a ti mesmo”  que tanto incomodava Freud. Precisamos desativar a bomba com outras ferramentas. Muitas barbáries são sustentadas no rumor de discursos bem intencionados e humanitários como “Lançamos  a bomba para salvar vidas”, como diz um general norte-americano no documentário de Steven Okazaki que mencionei acima.  Como desativar este explosivo da inflação identitária?  Como nos lembra Adorno  ” O pensamento da identidade tem sido, ao longo da história, algo mortífero que devora tudo. A identidade está sempre, de modo virtual, relacionada a totalidade”  (Adorno,1983, p.37 )

O imigrante, o estrangeiro,  o refugiado vêm colocar em uma certa posição de abismo,  os espaços aparentemente seguros do que representa para cada um o familiar. O estrangeiro coloca em cena a potência utópica de buscar novas imagens, novos espaços, novos significantes, novas línguas. Produz assim com este deslocamento uma renovação da língua.     

Em uma bela reflexão intitulada a competência do estrangeiro, Jeanne Marie Gagnebin, (GAGNEBIN, 2010) lembra uma das cenas da Odisséia de Homero, justamente no canto quarto em que uma doméstica ao ver um estrangeiro a porta vai até o rei e lhe pergunta se deve acolhê-lo ou acompanhá-lo a casa de um vizinho. O rei Menelas, marido de Helena, responde indignado:”é preciso sempre acolher o estrangeiro. Por trás de seus traços pode se esconder um deus: Hermes o deus dos caminhos, ou mesmo Zeus, o rei dos deuses. “(p.42)       

Receber um estrangeiro, um hóspede significa estabelecer uma aliança para o presente e para o futuro. Este encontro sela uma sorte de pacto, reconhecimento mútuo que engaja também os descendentes. O estrangeiro XENOS, pode ser um aliado e nos ajudar a perceber o Xenos que nos move.

As notas de rodapé que aparecem no artigo, possuem uma chamada numérica no corpo do texto, que deve ser representado assim (1), com negrito mesmo.

Cada citação do texto deverá ser inserida dentro das tags <BLOCKQUOTE> ... <BLOCKQUOTE>, por exemplo:

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Autor fulano de tal, páginas x a xxy.

O nome do autor da citação deve seguir dentro da própria tag.

Caso o artigo possua alguma imagem, esta deve ser renomeada para fins de organização: NomeDocumentoHtml+numero do artigo_numero da imagem.jpg/gif/png/etc.
Exemplo: lipis1_1.jpg. Não se esqueça de colocar todas essas imagens na mesma pasta que o htm.


NOTAS:

(1) Estas reflexões foram previamente apresentadas no Seminário Hiroshima e Nagasaki – testemunho, inscrição e memória, no Instituto de Psicologia da USP em setembro 2012 e no Seminário Estrangeiro, promovido pela Associação Psicanalítica Sigmund Freud em outubro de 2012.

(2)  Documentário dirigido por Steven Okazaki em 2007. Filme produzido nos Estados Unidos. Titulo original: White Light, Black Rain: the destruction of Hiroshima and Nagasaki.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADORNO, Theodor.  Minima Moralia – reflexions sur la vie mutilée, Payot, Paris, 1983
BECKETT, Samuel.  O Inominável, Editora Globo, São Paulo,  2009,
CARUTH, Cathy. Trauma – explorations in memory, The Johns Hopkins University Press, Londres, 1995
GAGNEBIN, Jeanne Marie. “ A competência do estrangeiro” , Humanidades, Vol. 57, pp. 36-47, 2010.
KRISTEVA, Julia. Étrangers à nous-mêmes, Gallimard, Paris, 1988
NAGAI, Paul. Os sinos de Nagasaki, Editora Flamboyant, São Paulo, 1968.
SONTAG, Susan.  Diante da dor dos Outros, Companhia das Letras, São Paulo, 2003.
TOGE, Sankichi.  Poems of the Atomic Bomb, University of Chicago, Chicago,  2011.

WAJCMAN, Gérard. L’objet du siècle, Éditions Verdier, Lagrasse, 1998.

Recebido em: 23/04/2012
Aceito em: 09/08/2013

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