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Questões Contemporâneas

A INFLUÊNCIA DA PRÁTICA DAS ARTES MARCIAIS NA REDUÇÃO DA AGRESSIVIDADE EM ADOLESCENTES, NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA

RENAN LEMOS PACHECO é Graduado em Educação Física (Licenciatura) pelo Centro Universitário Moacyr Sreder Bastos. Laboratório de Biociências da Motricidade Humana - LABIMH (PPGEnfBio/Unirio) desde Março/2012.


Resumo: Diante de um dos maiores problemas em nossa sociedade, a violência, e suas implicações dentro da escola, este estudo teve por objetivo encontrar a relação entre prática de artes marciais e redução da manifestação de comportamento agressivo em adolescentes nas aulas de educação física escolar. Fora investigado, através de revisão da literatura existente na área, a utilização das artes marciais para a formação benéfica do caráter e da personalidade de adolescentes. Participaram deste estudo 15 adolescentes praticantes de artes marciais. Os dados foram obtidos através de um formulário semi-estruturado, com perguntas “abertas” e “fechadas”, em que poderiam fazer comentários e exemplos sobre os temas tratados. Através da análise dos resultados obtidos, pode-se verificar que é na situação do jogo em que ocorre maior incidência de manifestação de comportamento agressivo nas aulas de educação física. E a prática de artes marciais pode auxiliar na redução na ação/reação agressiva por parte dos adolescentes durante as aulas. Contribuindo, assim, para o autocontrole dos alunos e para sua formação como cidadão.
Palavras chave: Agressividade, Artes Marciais, Educação Física Escolar, Adolescentes.

EL PODER DE LA PRACTICA DE LAS ARTES MARCIALES EM LA REDUCIÓN DE LA AGRESSIVIDADE EM LOS JOVENES EN LAS CLASES DE EDUCACIÓN FÍSICA ESCOLAR

Resúmen: Delante de un de los mayores problemas em nuestra sociedad, a violéncia, y sus provocaciones en la escuela, há hecho de este estúdio un objetivo para encontrar la relación en la práctica de las artes marciales y la reducción de la manifestación de comportamiento agresivo en jovenes en las clases de Educación Física Escolar. Fuera indagado a travéz de la revisión de la literatura existente en el campo, la utilización de las artes marcialespara para la formación favorable de carácter y de la personalidad de los jovenes. Tuvieron participación en este aprendizaje, quinze jovenes que practican las artes marciales. Las informaciones llegaron por planilhas organizadas com las perguntas “abiertas” y “cerradas”, donde podrián hacer anotaciones y darejemplos de los assuntos cuidados. Podremos mirar la situación del juego, em que hay la mayor zuantidad de la manifestación del comportamiento agresivo em las clases de Educación Física. Y la práctica de las Artes Marciales pueden auxiliar en la redución de la acción/reación agresiva por los jovenes, haciendo la contribuición para el autocontrol de los alumnos y para la formación de cidadones
Palabras Principales: Agressividad, Artes Marciales, Educación Física Escolar, Jovenes

INTRODUÇÃO

A violência e a agressividade são um dos temas mais vistos na mídia nos dias de hoje. Sempre se podem ver tais atitudes em estádios de futebol, em bares, em festas e no ambiente familiar. E o que se torna ainda mais comum é a prática dessas atitudes no ambiente escolar. Isso pode ser explicado como um reflexo da sociedade que cerca a escola e seus alunos, tornando esse problema mais amplo do que se imagina. As crianças de certa forma, acabam sendo influenciadas, sejam pela mídia, pelos amigos ou parentes a fazer o mesmo. Cria-se uma imagem positiva sobre essas práticas, sendo interpretadas como “maneiras” e “legais”. E aqueles que não fazem o mesmo, são tachados de bobos e covardes. Todas as escolas apresentam casos de agressividade entre os alunos. Não importa se são colégios públicos ou colégios particulares, a violência juvenil está sempre presente, seja por atos de danos ao patrimônio, ou por xingamentos aos docentes, entre outros.

Em contra partida a essa realidade, estão as doutrinas e filosofias das artes marciais que, ao contrário do que muitas pessoas pensam, pregam a não-violência e o auto-controle. A prática das artes marciais é vista como uma oportunidade que o individuo tem de agredir seu próximo. Isso pode ser atribuído à influência da mídia sobre as pessoas, divulgando filmes e desenhos animados que trazem essa mensagem errônea. Porém, ao adentrar em uma modalidade de arte marcial, o aluno praticante pode conhecer um mundo completamente diferente, com normas rígidas de conduta e disciplina, que auxiliam na formação moral do individuo. Assim como proposto nos PCN’s - Educação Física (BRASIL, 1998), a prática de lutas é caracterizada por uma regulamentação específica, a fim de punir atitudes de violência e deslealdade.

A agressividade na escola

Como definição inicial ao termo agressividade, consideramos agressividade uma forma de conduta com o objetivo de ferir alguém física e psicologicamente (DE SOUZA, s/d). Também Laplanche (1981, apud ANDERLE, VALSECHI e VEIT, 2007), define agressividade como uma tendência ou conjunto delas, onde se atualizam em condutas reais ou fantasiosas, direcionadas com a finalidade de danificar a outra pessoa, a humilhá-la e etc.

A agressividade já pode ser considerada como um problema de saúde pública, de acordo com Lopes Neto (2005). Como nos mostra o Mapa de Violência 2010 (NOVA ESCOLA, 2010), entre 1997 e 2007, o número de homicídios envolvendo jovens entre 14 e 16 anos subiu cerca de 30%.

De acordo com Monroe (NOVA ESCOLA, 2010), uma das causas da agressividade em adolescentes está nas mudanças fisiológicas decorridas da passagem da infância para adolescência. Essa passagem faz com que a serotonina (neurotransmissor responsável pelo bem-estar) seja reduzida pela metade, causando irritabilidade e dificuldades dos adolescentes em se sentir satisfeitos – marcas dessa fase.

Entre outras causas da manifestação de comportamento agressivo em adolescentes estão as características culturais de nossa sociedade e seus problemas; o crescimento desordenado das cidades; a desestruturação da família; a mídia; os professores autoritários; a prática de desportos de rendimento, a competição exacerbada, a prática de jogos passando, também, pelas dificuldades que a criança tem de se adaptar a determinado contexto social. (ANDERLE, VALSECHI & VEIT, 2007; FEIJÓ, 1992; LISBOA, s/d; LIPPELT, 2004; NOVA ESCOLA, 2010; SCHREIBER, SCOPEL & ANDRADE, 2005).

Porém a agressividade em doses moderadas faz parte do ser humano, estando presente em nossa vida e impulsionando-nos para o domínio do conhecimento sobre o mundo e para crescimento pessoal. A agressividade possui certos benefícios, sendo essencial para nossa sobrevivência, desenvolvimento, adaptação e defesa. (DE SOUZA, s/d; LUCON & SCHWARTZ, 2003).

De acordo com Lima (1999), existe uma diferenciação entre agressividade e violência. A autora ressalta que a agressividade significa certa determinação direcionada a realizar uma tarefa, sendo assim, com o sentido diferente de sermos violentos para realizar a mesma tarefa. Ao citar Morais (1995), Lima (1999) esclarece que a agressividade está ligada ao instinto de sobrevivência que leva o animal à busca de alimento, água e segurança. Esse instinto é biológico sendo propriamente de animais – animais irracionais. No entanto a violência está relacionada a uma intencionalidade, exigindo assim a inteligência. Sendo assim, os animais irracionais jamais serão violentos, porém ferozes.

Artes marciais e agressividade

Para compreendermos as Artes Marciais em sua totalidade, devemos remontar ao seu significado etimológico. O termo marcial vem do latim martiale (natural de Marte, o deus da Guerra para os romanos) e significa entre outras definições, “próprio da guerra” ou "relativo a guerreiros". Enquanto arte é a habilidade do homem, natural ou adquirida, de pôr em prática uma idéia. O binômio de arte marcial deve, então, ser entendido como a capacidade de se praticar e dominar os ensinamentos guerreiros com fins próprios para a obtenção de determinados resultados.

Atualmente, o termo arte marcial é sinônimo de luta, defesa pessoal e até agressão, porém, no início dos tempos para as artes marciais, não era bem assim que se definia essa prática. As artes marciais eram utilizadas pelos monges, primeiramente, para manter o corpo saudável e a mente sã. A sua utilização para a defesa pessoal era somente usada quando não se tinha outra opção. Hoje não é isso que se vê, pelo menos na mídia que mostra jovens lutadores praticando atos de violência, sendo que estes deveriam ser exemplos de boa conduta.

A autoridade do professor e a arte marcial propriamente dita não são relacionadas à manifestação de comportamento agressivo em seus praticantes. A agressividade estaria relacionada à importância que os professores de lutas dão a competição exacerbada (TRULSON, 1983 apud AMADERA, 2009). Este fato comprova o posicionamento de Feijó (1992) com relação à competição e as artes marciais, pois de acordo como autor as regras oficiais das artes marciais demonstram uma filosofia de cooperação, em vez de competição.

Os autores Trulson (1983, apud AMADERA, 2009) e Mesquita (s/d) fazem uma crítica negativa aos clubes e academias onde se treinam artes marciais. As artes marciais nestes espaços, na verdade, são lutas de caráter competitivo, que enaltecem o valor das vitórias, denegrindo os valores morais da filosofia marcial. Trulson (1983) nos dá um alerta: o problema da propagação de academias de artes marciais ditas modernas. Pois as artes marciais modernas, que na verdade são lutas de caráter competitivo, possuem um potencial de aumentar o comportamento agressivo em adolescentes e, ao mesmo tempo, desenvolver traços negativos da personalidade, principalmente àqueles com certa tendência à delinquência. De acordo com Mesquita (s/d), as lutas ministradas em instituições de ensino deverão atender aos aspectos formativos e educativos prioritariamente.

Segundo Feijó (1992), as competições de Jiu-Jitsu, Judô e Karatê diferenciam-se pela falta de agressividade. As características como nobreza, respeito mútuo, obediência às regras e aos mestres, segundo o autor, são sempre demonstradas pelos atletas de lutas marciais. As Artes Marciais são caracterizadas por utilizar da competição interna em seus treinamentos e campeonatos. O desafio está em vencer a “guerra interior” que é travada contra seus próprios desequilíbrios e desarmonias (atitudes de violência).  (LIMA, 1999; FEIJÓ, 1992).

ADOLESCÊNCIA

De acordo com Formiga et all (2008), os jovens apresentam características biopsicossociais, sendo tais características obtém uma tendência à espontaneidade, passando a descarregar, quase que normalmente, seus impulsos agressivos direta ou indiretamente. Sendo assim, os jovens indicam-se vulneráveis e suscetíveis às influencias vindas do meio social. Logo procuram fora da família aspectos que almejam incorporar a sua realidade pessoal com os quais precisam lidar que constitui uma parte do seu “eu”, porém nem sempre esse “eu” encontra-se integrado a personalidade e a sociedade. Esses jovens procuram se auto-afirmar e também a se identificar, podendo assim, compreender a sua rebeldia e revolta por meio das manifestações agressivas, permeando a abstração que ele mesmo faz e desenvolve de si mesmo acerca dos atributos, capacidades, objetos e atividades que tem e deseja alcançar.

METODOLOGIA

Esta pesquisa é caracterizada como Direta de Campo, onde se faz a busca de dados diretamente da fonte (adolescentes praticantes de artes marciais) possibilitando conhecer a realidade na prática. O método de abordagem utilizado será o método indutivo, pois, através do apontamento de fatos e dados particulares ou singulares podemos chegar a conclusões gerais, constatando teorias e leis universais. (MATTOS, ROSSETTO JÚNIOR & BLECHER, 2008).

Para a obtenção de dados para este estudo foi utilizado um Formulário semi-estruturado com 15 questões para os adolescentes que praticam artes marciais. As respostas do Formulário foram catalogadas de acordo com o número de palavras-chaves utilizadas pelos entrevistados e o número de ocorrência dessas palavras-chaves. Assim foi possível atribuir mais objetividade ao estudo, além de atribuir de modo quantitativo conceitos abstratos como violência e agressão.

Quando os adolescentes foram perguntados sobre o que é violência de acordo com suas percepções, as respostas foram várias. Observando a Quadro 5.1, encontramos os conceitos dados pelos adolescentes à violência. Apenas um adolescente não soube responder a essa pergunta.

QUADRO 5.1

Obtiveram-se também respostas mais elaboradas sobre a violência, como:

[...] é o forte subjugando o fraco pela força. [...]

[...] é um dos grandes problemas do Brasil. [...]

[...] Uma coisa muito ruim, não deveria existir no mundo [...]

Quando perguntados sobre a incidência de agressão nas aulas de Educação Física, 14 alunos (93,3%) disseram que já perceberam a ocorrência de agressões físicas ou verbais nas aulas, como mostra a Quadro 5.2.

QUADRO 5.2

Todos os adolescentes entrevistados alegaram que as agressões, físicas e verbais, ocorrem nos jogos de futebol (100%) e vôlei (6%). Porém não é apenas dentro do jogo que ocorre as agressões, também ocorrem após o mesmo, principalmente pela equipe que perdeu a partida.

A sexta questão do Formulário fala da mudança de comportamento após começar a treinar artes marciais. Dentre os entrevistados, 13 adolescentes (86,6%) disseram que houve mudanças comportamentais e elas estão expressas na Quadro 5.3.

QUADRO 5.3

Dentre os adolescentes entrevistados, o que chamou a atenção do pesquisador, na resposta desta questão, fora a fala de um adolescente praticante de Taekwondo. Ele relatou que todos a sua volta, professores da escola, pais, inspetores notaram a mudança repentina em seu comportamento.

“(...) passei a ter mais autocontrole, a me concentrar e me comportar melhor dentro e fora da escola. Alguns até achavam que eu estava doente, porque no dia não estava mais ‘encebando’ a aula da professora (...)”.

Sobre as atitudes que tomam durante o Jogo ou quando percebem atitudes de agressividade, dois (13,3%) dos adolescentes responderam que de vez em quando participam de tais agressões. Esses dois adolescentes são praticantes de Jiu-jitsu e um deles tem 1 mês de treinamento, enquanto o outro possui 6 meses. Do restante dos entrevistados, segue a Quadro 5.4, onde se encontra as respostas.

QUADRO 5.4

Dois alunos disseram que não participam mais do futebol nas aulas de Educação Física, pois ainda se consideram “estourados”, “pavio-curto”, preferindo apenas as atividades físicas e jogos com menos confrontação, como o vôlei. Isso mostra que os mesmos já possuem um conhecimento de si mesmos e de seus próprios limites.

Quando abordados sobre se já agrediram algum colega nas aulas de Educação Física depois que entraram na arte marcial que pratica, 4 adolescentes (26,6%) disseram que sim. Deste grupo, um adolescente disse que a atitude tomada por ele foi “sem querer” e depois pediu desculpas; e um outro adolescente disse que agiu por impulso. As atitudes dos outros dois adolescentes foram: um disse que chutou e brigou, e o outro disse que deu uma cotovelada. Ambos também são praticantes de Jiu-jitsu e têm menos de um mês de prática da arte marcial.

E quando abordados se já foram agredidos nas aulas de Educação Física depois que entraram para a arte marcial que pratica, 7 adolescentes (46,6%) disseram que não. Um adolescente (6,6%) respondeu sim e que reagiu negativamente. Este disse que fora xingado e revidou o xingamento. Do restante que responderam “sim”, suas atitudes estão na Quadro 5.5:

QUADRO 5.5

CONCLUSÃO

No que diz respeito aos resultados pôde se ver que o momento em que mais ocorre a manifestação de comportamentos agressivos nas aulas de Educação Física é durante o Jogo, assim como está na Revisão da Literatura deste estudo (LIPPELT, 2004). Durante a composição deste estudo a concepção de agressividade portada pelo autor fora alterada com o passar do tempo através da leitura e análise de artigos, dissertações e teses. Visto que a agressividade é natural do ser humano e o auxilia na vida, a agressividade adicionada a uma intencionalidade é que devemos nos preocupar em nossa sociedade, pois a partir daí não é mais considerada agressividade, e sim violência. (MORAIS, 1995 apud LIMA, 1999).

De acordo com os resultados obtidos conclui-se que as artes marciais podem auxiliar na redução de comportamento agressivo em adolescentes nas aulas de Educação Física escolar, principalmente na prática de jogos, onde se observou a grande incidência de tais manifestações. Pois os adolescentes entrevistados se mostraram, em sua maioria, capazes de se autocontrolar e de não agir/reagir agressivamente diante de uma situação de conflito.

No entanto se faz necessário a realização de estudos mais complexos e longitudinais sobre a relação entre prática de artes marciais e controle da agressividade, visto seus benefícios na formação de cidadãos.


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Recebido: 04/2012
Aceito:04/2012

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