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CONFIGURAÇÕES PARA O ENSINO DE EMPREENDEDORISMO: UM ESTUDO DE CASO A PARTIR DO CURRÍCULO DE UM CURSO SUPERIOR DE TECNOLOGIA

Erica Pereira Martins
Mestre em Educação e Tecnologia pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense (IFSul). Especialista em Gestão de Pessoas pela Universidade Católica de Pelotas (UCPEL). Bacharel em Administração e em Letras pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Administradora no IFSul. E-mail: ericapmartins@gmail.com.

Márcia Helena Sauaia Guimarães Rostas
Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Especialista em Magistério Superior pela Universidade Ceuma (UNICEUMA). Graduada em Pedagogia. Professora adjunta do Departamento de Graduação e Pós-Graduação do IFSul. E-mail: mrostas@pelotas.ifsul.edu.br.


Resumo: Este trabalho tem como objetivo identificar quais são as configurações existentes no que diz respeito ao ensino de Empreendedorismo em um curso superior de tecnologia, vinculado a um Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, considerando o currículo como meio investigativo. Considera, como base teórica, o entendimento de que currículo é o conjunto de todas as experiências de conhecimento proporcionadas aos/às estudantes, e que empreendedorismo é algo mais amplo do que abertura de negócios, sendo considerado também uma atitude comportamental. A pesquisa, de acordo com seus procedimentos metodológicos, se caracteriza como um estudo de caso, uma vez que analisa o contexto do curso superior de Tecnologia em Sistemas para Internet da referida instituição. Tem como fontes de dados o projeto pedagógico do curso, suas matrizes curriculares, os planos de ensino das disciplinas do eixo Gestão e Negócios, entrevistas realizadas com professores e questionários respondidos por alunos. As categorias elencadas para análise dos dados foram as perspectivas de saber, poder e identidade, próprias dos estudos curriculares. A investigação permitiu concluir que não existe uma única configuração para o ensino de Empreendedorismo no curso em questão, uma vez que as esferas de saber, de poder e de identidade sofrem alterações de acordo com a posição dos sujeitos envolvidos, podendo influenciar de distintas formas na abordagem da temática e na sua significação.
Palavras-chave: Currículo. Empreendedorismo. Ensino Superior.

SETTINGS FOR TEACHING OF ENTREPRENEURSHIP: A CURRICULUM CASE STUDY OF A TECHNOLOGY DEGREE COURSE

Abstract: It is objectified in this thesis to identify which existing settings for teaching of entrepreneurship in a Technology Degree Course linked in a federal Institute of teaching, science and technology, considering the curriculum as an investigation to the matter. It is considered, as a theoretical basis, the understanding that the curriculum is the collective of all experiences of knowledge given to the students and entrepreneurship is more than create business and related to behavior. The research, according to its methodological procedures, is characterized as a case study, once it is analyzed the context of the major of technology of systems for the Internet in the rendered institution. It is given as a source of information the teaching project of the course in the matter, its curriculum, the discipline teaching plans of the axis of managing and business, interviews realized with professors and a questionnaire filled by students. The categories listed for data analysis were the perspectives of knowledge, power and identity. It was allowed by the investigation to conclude that there is nothing specifics settings for teaching of entrepreneurship once that the spheres of knowledge, power and identity are altered according to the position of subjects involved, allowing the implication of distinct shapes of approaching the theme and its significance.
Keywords: Curriculum. Entrepreneurship. Higher Education. 

 

Introdução

Os novos paradigmas das relações de trabalho na sociedade atual convidam as instituições de ensino a repensarem a formação que vem sendo dada aos estudantes. A Educação para o Empreendedorismo, ou simplesmente Educação Empreendedora, como é comumente conhecida, é um movimento que vem crescendo no país e que tem como propósito difundir o tema em todos os níveis de ensino, da educação básica à pós-graduação. Partindo do pressuposto que empreender não se resume a ser empresário, e que ser empreendedor é uma definição ligada principalmente a atitudes comportamentais, o ensino do Empreendedorismo será abordado como tema desta pesquisa. 

Foi utilizado o conceito de Dornelas (2008, p. 22), que define Empreendedorismo como “o envolvimento de pessoas e processos que, em conjunto, levam à transformação de ideias em oportunidades”, como pano de fundo para o entendimento deste termo neste trabalho.

Para adentrar nessa realidade, a ferramenta escolhida foi o currículo “entendido como o conjunto de todas as experiências de conhecimento proporcionadas aos/às estudantes” (SILVA, 1995, p. 184). Não somente restrito aos conteúdos formais, como é considerado no senso comum, o currículo dá conta de tudo que envolve a experiência de ensino que a instituição proporciona ao estudante. Por isso, sabe-se que há muito mais no currículo do que as matrizes curriculares revelam, abrindo espaço assim para a noção de currículo oculto, que, de acordo com Silva (2013, p. 78) “é constituído por todos aqueles aspectos do ambiente escolar que, sem fazer parte do currículo oficial, explícito, contribuem, de forma implícita, para aprendizagens sociais relevantes”.

Nesse sentido, essa investigação tem como objetivo geral identificar qual é a configuração para o ensino de Empreendedorismo em um curso superior de tecnologia, vinculado a um Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, considerando o currículo como meio investigativo. Como objetivos específicos, busca conhecer o entendimento dos sujeitos envolvidos no processo a respeito do tema; investigar quais marcas de saber e de poder o ensino de Empreendedorismo imprime no currículo; e, compreender que identidades se buscam nesse processo. Para realização desta pesquisa, o local escolhido foi o Campus Pelotas do Instituto Federal Sul-rio-grandense, se tratando de um estudo de caso aplicado no curso superior de Tecnologia em Sistemas para Internet, durante o semestre letivo 2015/1.

 

Referencial Teórico

Durante o processo de elaboração desta pesquisa, inicialmente foi realizada uma atividade de Estado da Arte, também conhecida como Estado do Conhecimento, as quais são semelhantes a uma das etapas das pesquisas classificadas como bibliográficas. Diz respeito ao mapeamento e catalogação de outros estudos de temática similar, buscando identificar aproximações (ou ainda distanciamentos) conceituais e metodológicas. O critério estabelecido para tal atividade foi a busca por artigos científicos, teses e dissertações que abordassem as palavras ‘currículo’ e ‘empreendedorismo’, os quais tivessem sido publicados nos últimos cinco anos. Foram realizadas buscas nas bases online Scientific Eletronic Library Online (SciELO) e Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações.

Mediante a pesquisa realizada, considerando que as fontes usadas para busca foram referências em cada gênero de produção, foi possível perceber que as contribuições que esse trabalho se propõe a trazer são, de certa forma, inéditas. Embora tenha se identificado uma tese que faz uso de Currículo e de Empreendedorismo como conceitos base para sua investigação, intitulada “O saber empreendedor: diretrizes curriculares para elaboração de programas para formação de empreendedores com base na Escola Progressiva de John Dewey: reflexão e proposta”, sua trajetória de pesquisa se direcionou por caminhos distintos.

A originalidade da presente pesquisa está na medida em que se propõe a agregar visões de diferentes agentes envolvidos no processo de ensino de Empreendedorismo, através de um estudo de caso, discutindo uma realidade já posta, uma vez que o tema está previsto mediante componentes curriculares do curso estudado.

Dois grupos de definições são necessários para embasar teoricamente o desenvolvimento do trabalho: Currículo e Empreendedorismo. Compreender a definição de Currículo através do entendimento de sua evolução conceitual, bem como suas diferentes óticas de concepção e, adicionalmente, conhecer o que é Empreendedorismo e qual o propósito de que esse conhecimento seja trazido para a formação escolar/acadêmica é fundamental para a realização deste trabalho. Ambos serão apresentados a seguir.

 

Currículo

As preocupações referentes ao que ensinar e ao que o sujeito precisa aprender permeiam toda a história da atividade pedagógica. Embora essas preocupações sejam tratadas de formas distintas ao longo da história da sociedade, elas sempre estão presentes em qualquer fazer pedagógico, uma vez que estão estritamente vinculadas com a razão da educação em suas mais amplas perspectivas.

Dada sua importância central no processo pedagógico, o currículo foi sendo percebido como território de poder, conforme a definição defendida por Silva (2013, p. 147) que afirma que “o conhecimento corporificado no currículo carrega as marcas indeléveis das relações sociais de poder”. Na medida em que essa percepção foi se consolidando, as formas de pensar, conceber e praticar o currículo foram sofrendo alterações, dando origem a perspectivas que se relacionam com tempos históricos, e podem ser classificadas como tradicionais, críticas e pós-críticas.

Apesar da existência histórica da preocupação com objetos do currículo (o que ensinar, para quê, para quem, com qual propósito), Sacristán (2000, p. 13) destaca que “o currículo é um conceito de uso relativamente recente entre nós, se considerarmos a significação que tem em outros contextos culturais e pedagógicos nos quais conta com uma maior tradição”. Ainda que o uso da palavra possa ser considerado relativamente novo, o currículo em ação está posto em qualquer situação educacional, independente do nível de consciência dos sujeitos envolvidos a respeito do fato.

Considerando a etimologia, Pacheco (2005, p.35) aponta que a palavra currículo é “proveniente do étimo latino currere [o qual] significa caminho, jornada, trajetória, percurso a seguir”. Nesse sentido, o conceito contempla a ideia de sequência ordenada, bem como de totalidade de estudos. Lopes e Macedo (2013) trabalham ainda com a premissa de que definir currículo é um trabalho de criação de sentidos, uma vez que sempre que se estabelece uma definição, se faz referência a um entendimento anterior, seja para negá-lo ou reconfigurá-lo.

Essa noção pode ser complementada pelo pensamento de Silva (2013, p. 12) ao destacar que “um discurso sobre o currículo, mesmo que pretenda apenas descrevê-lo ‘tal como ele realmente é’, o que efetivamente faz é produzir uma noção particular de currículo”. Em uma breve reflexão, se faz clara a ideia de que definir algo tão complexo como o currículo não é simples tarefa, e talvez possa ser considerada tarefa infindável.

Considerando a existência de várias correntes que buscam definir o que é o currículo, as abordagens foram organizadas em teorias. Eyng (2012) propõe que a teorização do currículo pode ser agrupada entre teorias conservadoras e teorias transformadoras, enquanto Silva (2010) agrupa os estudos sobre o currículo de acordo com as concepções, conceitos e dimensões sócio-históricas. Nesse sentido, a classificação proposta pelo autor divide as perspectivas como sendo teorias tradicionais, teorias críticas e teorias pós-críticas.

Malta (2013, p. 341) destaca que “é precisamente a questão do poder que vai separar as teorias tradicionais das teorias críticas e pós-críticas do currículo”. As teorias críticas e pós-críticas trazem consigo uma característica mais questionadora, assumindo que existe uma relação de poder permeando todos os processos relacionados ao currículo.

Pacheco (2005, p. 79) ressalta que a “função da teoria curricular é a de descrever e compreender os fenômenos curriculares, servindo de programa para a orientação das atividades resultantes da prática com vista à sua melhoria”. As teorias curriculares buscam organizar pressupostos teóricos afins para dar conta das distintas problemáticas do currículo, partindo de diversos pontos de vista. Por outro lado, não se pode incorrer na expectativa de buscar uma teoria curricular com o propósito de encontrar ali um saber acabado, uma resposta pronta. O currículo é amplo, é dinâmico e é construção sócio-histórica, o que se evidencia na medida em que se organizam várias teorias que se dispõem a dar conta da sua problemática.

Considerando a construção histórica do processo de definição acerca do que é o currículo, a qual foi brevemente repassada, cabe salientar que a presente pesquisa alinha-se à ideia de Silva (1995), que trata o currículo como um grande conjunto que congrega todos os aprendizados oportunizados ao estudante no processo de ensino e aprendizagem. Assim, o currículo é visto como algo além de um agrupamento de conhecimentos previamente determinados, que vai além dos contextos formais e planejados para a formação do estudante.

 

Empreendedorismo

Ao se pensar nas origens do termo, pode-se afirmar que os economistas foram os precursores do estudo do Empreendedorismo. Chiavenato (2007) afirma que Cantillon e Jean-Baptiste Say, representantes do liberalismo econômico, foram os primeiros teorizadores sobre o tema, associando a ideia de empreendedor a aquele indivíduo que obtém lucro com vendas, em uma visão bastante restrita comparada às compreensões atuais que leva em consideração estritamente a atividade econômica. Chiavenato (2007) ainda aponta que foi Cantillon que usou o termo pela primeira vez, designando por empreendedor aquele que assume riscos.

O empreendedor, enquanto sujeito do Empreendedorismo, já foi conceituado de diversas maneiras, apresentando variações de acordo com a época e região. Por algum tempo, de acordo com Dolabela (2008), empreendedor foi considerado aquele que tinha firme resolução em realizar algo. Já nos séculos XIX e início do século XX, empreendedor foi um termo utilizado para designar grandes industriais.

Em uma definição primária, pode-se fazer uso das palavras de Dolabela (2008, p. 59): “empreendedorismo é um neologismo derivado da livre tradução da palavra entrepreneurship, utilizado para designar os estudos relativos ao empreendedor, seu perfil, suas origens, seu sistema de atividades e seu universo de atuação”. Ainda que por muito tempo a atividade empreendedora tenha sido necessariamente vinculada à ideia de atividade empresarial, para fins desse trabalho é adotada a perspectiva de Dornelas (2007, p. XVIII), a qual enfatiza que “para ser empreendedor não é necessário ser empresário”.

Nesse sentido, é importante observar a definição de empresário. De acordo com o Código Civil brasileiro, em seu Art. 966: “considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços” (BRASIL, 2002). Evidencia-se que a condição de empresário é uma figura jurídica, e, portanto, seria uma incorreção equiparar em termos de igualdade a definição de empresário com a de empreendedor. Essa associação, frequente no senso comum, muitas vezes prejudica uma ampla e atualizada compreensão do fenômeno do Empreendedorismo, implicando em grandes doses de preconceito, por algumas áreas do conhecimento, quando se fala em tentar estimular o potencial empreendedor de cada indivíduo.

Apesar de sua origem estar ligada ao saber econômico, não foram apenas teóricos da Economia que se interessaram pelo estudo do Empreendedorismo. Na década de 1960, David McClelland, um psicólogo norte-americano, foi parceiro de uma pesquisa de grande importância promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU), a qual tinha como foco o mapeamento de características de personalidade de empreendedores que pudessem vir a compor um modelo. Tal estudo foi um marco na aproximação entre Psicologia comportamentalista e o estudo do Empreendedorismo.

A pesquisa culminou com a definição de dez aspectos de personalidade, que foram batizados de características comportamentais empreendedoras e atualmente são amplamente difundidos pela ONU em suas ações de fomento ao campo. O modelo de McClelland postula que essas posturas são: busca de oportunidades e iniciativa; correr riscos calculados; exigir qualidade e eficiência; persistência; comprometimento; busca de informações; estabelecimento de metas; planejamento e monitoramento sistemático; persuasão e rede de contatos; e, independência e autoconfiança. Esse modelo se aproxima de outros estudos sobre motivação, também conduzidos por psicólogos.

Partindo do pressuposto que o Empreendedorismo é um saber relevante para a sociedade atual, considerando que o indivíduo empreendedor tem forte vocação para impactar positivamente a realidade em que se insere, o encontro entre a educação e esse conhecimento não pode ser desconsiderado. Mas, para isso, é necessária a adoção de mecanismos e procedimentos pedagógicos que estimulem o desenvolvimento de competências básicas empreendedoras, a partir de uma nova leitura do educador, vislumbrando a maior aproximação entre o ensino e a atividade profissional, como defendem Crisostimo e Scabeni (2008).

Nesse sentido, Dolabela (2003), professor brasileiro, elaborou uma proposta que foi intitulada como Pedagogia Empreendedora. Tal atividade é conceituada, por ele, como:

[...] uma estratégia didática para o desenvolvimento da capacidade empreendedora de alunos da educação infantil até o nível médio, que utiliza a Teoria Empreendedora dos Sonhos, não se propondo a ser uma metodologia educacional de uso amplo. (DOLABELA, 2003, p. 55).

A abertura de espaço para o ensino do Empreendedorismo do ensino básico à pós-graduação aparece como uma boa prática para disseminar os conceitos e aplicações do tema, bem como minimizar a ideia de que é preciso que a pessoa nasça com perfil próprio para ser empreendedor. E uma vez que a escola já é naturalmente um ambiente de aprendizagem, é de fundamental importância a preparação das instituições de ensino e dos educadores para a abordagem dessa temática.

Adicionalmente, não se espera que a escola seja o único agente de disseminação do Empreendedorismo. Cabe a outras esferas do cenário social unirem-se à causa, tomando responsabilidade por aquilo que lhes é atribuição. Um governo que busque o desenvolvimento econômico do país, bem como a qualidade de vida da população, também pode ser agente de destaque nesse movimento.

As diversas perspectivas a respeito da conceituação de currículo demonstram a existência de preocupação com esse tema na condição de objeto de estudo, considerando sua relevância para a área da Educação. Sempre que se discute o fazer pedagógico, se faz isso em torno de um entendimento de currículo, sejam os sujeitos esclarecidos ou não a respeito desse posicionamento. Refletir a respeito da realidade educacional é, sobretudo, pensar sobre o currículo. As distintas concepções que foram apresentadas, as quais se aproximam de acordo com seus valores comuns, são várias formas de conceber o currículo e seus desdobramentos. Independente da orientação de cada perspectiva, todas as teorias do currículo compartilham da convicção do papel central que o seu objeto ocupa na Educação.

Quanto ao tema do Empreendedorismo, o cenário não é muito distinto. É um conceito frequentemente assumido como sinônimo de criação de empresas, mas que é passível de outras significações de acordo com o olhar teórico que se desdobra. A visão de empreendedor como aquele que possui determinadas características comportamentais, que podem – ou não – culminar na abertura de um negócio, é um entendimento mais contemporâneo a respeito do tema, e que é adotado no presente trabalho.

A investigação a respeito dos espaços e configurações para o ensino de Empreendedorismo a partir do currículo, exercício que este trabalho se propõe a realizar, é importante na medida em que se percebe que esse saber é relevante para a formação de cidadãos e profissionais.

 

Metodologia

Enquanto procedimento metodológico, a estratégia adotada foi o estudo de caso, que, de acordo com Yin (2015, p. 4), “é usado em muitas situações, para contribuir ao nosso conhecimento dos fenômenos individuais, grupais, organizacionais, sociais, políticos e relacionados”. A escolha do estudo de caso se deu em função de o objetivo geral do trabalho requerer uma investigação detalhada e in loco.

O curso superior de Tecnologia em Sistemas para Internet foi escolhido para realização deste estudo de caso em virtude de ser, dentre os cursos superiores no seu campus, aquele que mais reserva carga horária para disciplinas do eixo Gestão e Negócios (as quais abordam a temática Empreendedorismo) dentre as cadeiras obrigatórias, totalizando duas.

Quanto à abordagem adotada, esta pesquisa adota práticas qualitativas e práticas quantitativas. Embora a abordagem qualitativa seja a mais indicada em estudos na área da Educação, no que diz respeito aos dados referentes aos alunos foi necessário trabalhar em uma perspectiva quantitativa. Essa escolha se deu em função de que seria o procedimento para coleta de dados que tomaria menos tempo da aula, sendo mais fácil que os professores disponibilizassem com mais facilidade a aplicação dos instrumentos. Considerando que a sala de aula, durante o horário da disciplina, seria o local adequado para contatar a todos os alunos, optou-se pela agilidade que a coleta de dados de acordo com a abordagem quantitativa pode oferecer. Da mesma forma ocorreu com uma parte dos dados coletados junto aos professores do curso, conforme apresentado a seguir.

As fontes de dados adotadas para realização desta investigação foram: projeto pedagógico do curso de Tecnologia em Sistemas para Internet, bem como a matriz dos componentes curriculares; planos de ensino das disciplinas do curso que abordam a temática de Empreendedorismo; informações provenientes dos estudantes dessas disciplinas, dos professores da área de Gestão e Negócios, e, dos demais professores das disciplinas específicas do curso.

No que diz respeito aos documentos (projeto pedagógico, matriz curricular e planos de ensino), o procedimento utilizado pode ser classificado como pesquisa documental, considerando essa definição:

No caso da pesquisa documental tem-se como fonte de documentos no sentido amplo, ou seja, não são de documentos impressos, mas, sobretudo de outros tipos de documentos, tais como jornais, fotos, filmes, gravações, documentos legais. Nestes casos, os conteúdos dos textos ainda não tiveram nenhum tratamento analítico, são ainda matéria prima, a partir da qual o pesquisador vai desenvolver sua investigação e análise. (SEVERINO, 2007, p. 122/123).

O projeto pedagógico e as matrizes curriculares foram solicitados diretamente ao coordenador do curso. Os planos de ensino foram solicitados aos professores ministrantes das disciplinas.

As informações coletadas junto aos professores das disciplinas das áreas de Gestão e Negócios se deram a partir de entrevista individual, conforme roteiro semiestruturado, produzido com a finalidade de identificar o perfil dos sujeitos, suas concepções teóricas a respeito de Empreendedorismo e sua percepção acerca das perspectivas institucionais. Foi entrevistado o professor titular destas disciplinas, que no momento está afastado de suas atividades em virtude de licença capacitação, e a professora substituta, que está atuando temporariamente.

As informações provenientes dos estudantes das disciplinas do eixo Gestão e Negócios, ministradas no curso superior de Tecnologia em Sistemas para Internet e identificadas como relacionadas com o propósito dessa pesquisa, foram coletadas por meio de aplicação de questionários estruturados, com perguntas abertas e fechadas, durante a aula. O questionário foi o instrumento escolhido, dada sua especificidade e foi aplicado junto a seis estudantes.

Os dados dos professores das disciplinas específicas do curso foram coletados de duas formas. Mediante autorização do coordenador para utilização de um espaço durante a reunião semanal de colegiado, foi realizado um procedimento de grupo focal e aplicação de questionários. Ambos os procedimentos envolveram 16 professores, atingindo quase a totalidade do grupo em questão.

A coleta de informações por meio de grupo focal foi uma iniciativa adotada no sentido de proporcionar maior interação entre o grupo, sensibilizando-os para o tema. De acordo com Ressel et al (2008, p. 780), grupos focais são “grupos de discussão que dialogam sobre um tema em particular, ao receberem estímulos apropriados para o debate”. O roteiro de questões utilizadas para promover o debate envolveu questões como: conhecimento sobre o perfil de ingressos e egressos, causa da reformulação do projeto pedagógico e pertinência das disciplinas de Gestão e Negócios para o curso.

Considerando a possibilidade de que a participação no grupo focal não fosse expressiva por parte de todos, foi elaborado um questionário individual a ser aplicado posteriormente a esse procedimento, de forma combinada, buscando conhecer melhor as percepções dos sujeitos. Tal hipótese se confirmou na medida em que participaram do grupo focal 16 pessoas, porém, apenas 7 se pronunciaram ativamente durante o debate.

Todos os participantes, antes do início das entrevistas, foram orientados sobre a finalidade da pesquisa e convidados a assinar termo de consentimento e autorização para gravação do grupo focal em áudio, considerando princípios éticos de pesquisa e proteção dos sujeitos envolvidos.

Para análise e discussão dos dados levantados foram adotadas categorias. Considerando que Silva (2010, p. 145) afirma que o currículo “é uma questão de saber, poder e identidade”, se assumiu esses três eixos como categorias para a análise dos dados, buscando relacionar as informações com os postulados do autor sobre o tema.

 

Apresentação e discussão dos resultados

As seis fontes de dados (projeto pedagógico e matriz curricular, plano de ensino das disciplinas Perfil Empreendedor e Gestão de Negócios, entrevista realizada com professores do eixo Gestão e Negócios, questionários aplicados junto aos alunos, entrevista de grupo focal e questionários aplicados junto aos professores do curso) serão apresentadas e analisadas a seguir, sendo que a cada elemento analisado será evidenciada a relação entre o objeto dessa pesquisa e as categorias aqui elencadas: de saber, de poder e de identidade.

 

Projeto pedagógico do curso

Ao investigar sobre o projeto pedagógico foi possível descobrir que o curso estava passando por uma transição, tendo a nova versão do documento entrado em vigência no semestre letivo 2015/1. A investigação foi feita com base em dois documentos, o vigente até o momento e o que estava sendo implantado.

No que diz respeito ao saber, como categoria proposta para análise, os documentos evidenciam a descrição dos conhecimentos formais que são próprios ao curso. Como elemento de poder, o projeto pedagógico revela quais saberes são selecionados como válidos para essa formação, dentro da infinidade de possibilidades que pertence ao campo da Informática, dentro do qual emerge essa formação profissional.

No que diz respeito à identidade, é possível perceber três dimensões de análise: identidade do contexto em que o curso está inserido, identidade do curso em si, e a identidade do egresso. A identidade do contexto em que o curso está inserido se expressa no projeto pedagógico, na medida em que leva em consideração o mercado profissional de atuação dessa área de conhecimento, mencionando que há uma necessidade de profissionais para web.

A identidade do curso está expressa em seu histórico, descrita no projeto pedagógico. O curso é um aprimoramento de um curso técnico de modalidade subsequente, intitulado curso técnico em Sistemas de Informação, oferecido anteriormente pelo Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio Grande do Sul, que posteriormente tornou-se Instituto Federal Sul-rio-grandense. Nesse sentido, existe uma alteração de identidade de modalidade de ensino, o que implica em um novo perfil de ingressante – outra dimensão de identidade. A respeito da identidade do egresso, pode-se verificar que a definição acerca do perfil profissional pauta toda a combinação de recursos que são utilizados no processo formativo. Dentre os objetivos relativos ao perfil profissional do egresso, aponta que o egresso deve ser empreendedor, em consonância com a discussão aqui proposta, o que reforça a relevância do presente trabalho.

 

Matriz curricular do curso

O destaque para a matriz curricular, ainda que seja elemento do projeto pedagógico, é relevante na medida em que tal informação reflete aspectos que de fato explicitam como se dá os elementos obrigatórios do processo formativo proporcionado pelo curso.

A relação entre os componentes curriculares demonstra questões de poder, podendo ser entendida como um resultado da disputa entre os saberes. O aumento de carga horária que aconteceu do Projeto Pedagógico vigente em 2008/2 comparado ao vigente em 2015/1, passando de 2.160 horas para 2.700 horas, fica evidente no desenho das matrizes. Esse aumento de 540 horas é fruto de um novo entendimento de relações de saber, e, consequentemente, de poder. Assim, o expressivo aumento de carga horária no projeto pedagógico reflete que houve uma nova compreensão a respeito da identidade daqueles que serão formados com base nele, uma vez que reconhece a necessidade da ampliação do número de horas necessárias para a formação e agrega novos saberes.

As disciplinas do eixo Gestão e Negócios, identificadas em um primeiro momento por suas nomenclaturas, são as intituladas Perfil Empreendedor e Gestão de Negócios. Na disputa de poder entre os saberes, percebe-se, ao comparar ambas as matrizes, que suas conjunturas permaneceram inalteradas. As duas disciplinas se mantiveram com a mesma carga horária e na mesma posição dentro do ordenamento lógico de conhecimentos a ser adquiridos na formação profissional. Considerando que algumas disciplinas foram extintas, tanto de saberes de conhecimento geral quanto de saberes técnicos da área específica, pode-se concluir que houve uma manutenção do status quo que foi dado ao Empreendedorismo na concepção do curso. No que diz respeito à identidade, não é possível afirmar, com precisão, variáveis dessa natureza, uma vez que a matriz curricular por si só não traz elementos sobre a identidade da disciplina. Para tal, é necessário conhecer os planos das disciplinas, que apontarão com maior certeza as possibilidades de identidade partindo da formatação adotada.

 

Planos de ensino

A fim de conhecer a que se destinam os componentes curriculares intitulados Perfil Empreendedor e Gestão de Negócios, foram solicitados os planos de ensino para a ministrante de ambas as disciplinas. O professor titular das disciplinas está em afastamento para estudos de pós-graduação, sendo suas atividades exercidas pela figura de um professor substituto.

Ao analisar a dimensão saber, foi possível identificar que a disciplina Gestão de Negócios não contempla a temática de Empreendedorismo, sendo mais voltada especificamente a fundamentos de Administração, que devem culminar na elaboração de um plano de negócios. Por essa razão, tal disciplina não foi levada em consideração para a finalidade do presente trabalho. A disciplina Perfil Empreendedor, por sua vez, traz em seus conteúdos programáticos vários dos autores abordados na construção do referencial teórico deste artigo, mostrando estar alinhada conceitualmente com a perspectiva de Empreendedorismo aqui proposta.

No que diz respeito ao poder e sua relação com o saber, a disciplina de Perfil Empreendedor, ao ser elaborada, revelou a busca de um rompimento com a estrita visão de empreendedor como sinônimo de empresário. Busca discutir questões relativas ao trabalho, às características empreendedoras, e em suas bases bibliográficas utiliza obras de Dornelas e Dolabela, dois grandes expoentes da abordagem de Empreendedorismo enquanto comportamento. Tais aspectos remetem também à questão da identidade: como objetivo geral, o plano se propõe a proporcionar ao aluno o conhecimento e reflexão de conceitos que embasam o estudo do Empreendedorismo. Não se propõe a formar empresários; antes, busca instrumentalizar o estudante, a fim de que tais entendimentos lhe sejam familiares em sua busca de colocação profissional.

 

Docentes do componente curricular Perfil Empreendedor

No âmbito do saber, percebe-se que as questões relacionadas às concepções teóricas com relação ao Empreendedorismo estão alinhadas com as definições adotadas neste trabalho. É possível perceber que ambos os professores compartilham de um mesmo entendimento conceitual: o fato de que não é preciso ser empresário para ser empreendedor. A discussão sobre as perspectivas institucionais também se aproxima da discussão de poder. De certa forma, a grande estrutura é que define diretrizes maiores, que são fruto de concepções baseadas em disputa de poder, seja de conhecimento, de política ou de gerenciamento. Nas falas dos dois entrevistados aparece a problemática da disputa de poder que se instaura na medida em que existem os cursos e a área de Formação Geral, característica da organização pedagógica da Instituição, que faz com que os professores do eixo Gestão e Negócios não exerçam suas atividades vinculados a nenhum curso específico.

É possível afirmar que conhecer elementos constitutivos da identidade dos docentes dá pistas sobre a concepção de identidade que pautará suas contribuições na formação do estudante. Ambos os professores são jovens, com a única experiência de docência tendo sido nessa Instituição. As suas formações acadêmicas são de áreas similares, e se evidenciou também a pluralidade de cursos para os quais ministram aulas do eixo Gestão e Negócios.

 

Docentes do curso superior de Tecnologia em Sistemas para Internet

A coleta de dados junto a esses professores se deu em dois momentos: através de grupo focal e através de questionários individualizados.As marcas de saber expressas nas falas do grupo focal são as que evidenciam a concepção de orientação teórica do curso adotada. A preocupação de que os conhecimentos teóricos do curso estejam em consonância com a prática do mundo do trabalho demonstra que, no entendimento desse núcleo docente, o curso deve prezar por esse alinhamento. Outro entendimento de saber que ficou explícito foi a ideia de que, para esse grupo de professores, Empreendedorismo está relacionado com a abertura de negócios. Na fala, o grupo relata que houve um entrosamento com a área de Formação Geral na revisão do projeto pedagógico, o que é muito relevante dentro da proposta de que uma nova versão do documento possa refletir conhecimentos atualizados. Isso é uma forma de configuração para o ensino de Empreendedorismo que supera a cisão estrutural (elemento de poder) que se apresenta aos dois grupos de professores.

No que diz respeito à identidade, no grupo focal foi possível perceber que há uma preocupação com o perfil do egresso, que se materializa nas falas a respeito de atualização de conhecimentos e empregabilidade, porém, com relação ao perfil do aluno ingressante ficou exposta uma lacuna, que pode ser melhor explorada a fim de que se possa conhecer quem é o sujeito (além da informação que ele é um egresso do ensino médio, conforme prevê o projeto pedagógico) que vai “receber” o currículo que está sendo construído.

As informações coletadas com o grupo de professores do curso em questão demonstraram que existe um espaço para o ensino de Empreendedorismo, assegurado por documentos importantes para o currículo, porém, que a configuração para esse espaço nem sempre se dá em nível de integração entre os ministrantes das disciplinas do eixo e os demais.

 

Estudantes do componente Perfil Empreendedor

Foi realizada uma coleta de dados mediante questionário junto aos estudantes, que era formado por um grupo de seis pessoas no semestre letivo em que o estudo foi realizado. A turma, embora pequena, é composta por diferentes faixas etárias, caracterizando um grupo bem heterogêneo. É um componente de identidade por parte dos alunos que deve ser levado em consideração no sentido de caracterizar o grupo. Nas narrativas apresentadas, foi possível perceber que, ainda que estejam cursando a disciplina que tem como foco o entendimento de Empreendedorismo enquanto atitude – concepção que foi reforçada pelos professores titular e substituto –, essa noção não é tão clara para os estudantes, da mesma forma que se mostrou para os professores do curso, caracterizando um inusitado elemento da categoria saber.  

A identificação com os conteúdos trabalhados, da mesma forma que o interesse pelo tema, pode ter impacto no significado que o estudante atribuirá à experiência. Considerando que características comportamentais empreendedoras são uma temática trabalhada em sala de aula, percebeu-se que existe um entendimento por parte dos estudantes a respeito de princípios conceituais sobre o tema.

As contribuições dos estudantes evidenciaram o que foi identificado nas fontes de dados anteriores: embora haja o espaço para o ensino de Empreendedorismo, a sua configuração assume diferentes formas de acordo com o grupo envolvido. A diferença de percepções e entendimentos por parte dos professores da disciplina, dos professores do curso e dos alunos mostra que as conexões entre saber, poder e identidade assumem formas distintas, de acordo com a realidade de cada grupo, embora todos estejam interagindo, formando e sendo formados pelo mesmo currículo.

 

Considerações finais

Considerando que a pesquisa se propôs a realizar sua abordagem a partir de uma investigação com base no currículo, foi possível compreender, através da análise de documentos formais que registram as atividades acadêmicas, que existe um espaço assegurado para essa finalidade. Porém, as configurações que esse espaço assume apresentam modificações de acordo com a origem dos dados utilizados na pesquisa.

Nesse sentido, identificou-se que a afirmação de Silva (2013) ao definir que o currículo envolve uma questão de saber, de poder e de identidade é verdadeira, uma vez que esses três elementos estão constantemente em ação, sendo significados e ressignificados, na teoria e na prática, pelos sujeitos envolvidos no processo. Reconhecer as dimensões de saber, de poder e de identidade é um exercício que demonstra o que o currículo faz, evidenciando significados que vão muito além dos registros encontrados nos documentos formais. O resultado das operações de seleção, realizadas por aqueles que constroem o currículo, demonstram o quanto um saber foi privilegiado a partir de um exercício de poder, buscando constituir uma determinada identidade.

As formas como o currículo (explícito ou oculto) revela a existência do ensino de Empreendedorismo, e as diferentes configurações que esse ensino assume, a partir do que foi possível observar, revelam que nesse contexto há o reconhecimento da necessidade dessa temática dentro dos componentes curriculares. A necessidade da formação que torne o egresso alguém que, dentre outras habilidades, também é empreendedor, não está restrita aos documentos formais. Está revelada nas falas dos docentes das disciplinas do eixo, nas respostas dos docentes do curso e na percepção a respeito da importância por parte dos alunos.

Porém, o questionamento que pode – e deve – acontecer com mais frequência entre esses sujeitos seria “que empreendedorismo é esse?”, em uma perspectiva para além dos documentos formais. A necessidade de interação entre docentes do curso e docentes da disciplina foi explicitada por várias vezes, e caso consiga ser tornada real, pode promover uma transversalidade entre os assuntos, de forma que o estudante possa perceber também nos conteúdos mais técnicos da área a relação entre esses saberes e o Empreendedorismo.

Nesse sentido, pode-se concluir que a presente pesquisa contribuiu para que se provoque esse tensionamento entre as partes envolvidas, na medida em que trouxe à tona o tema para reflexão. Os sujeitos envolvidos no processo necessitam de espaços (sejam proporcionados ou criados por eles mesmos) para refletir sobre as questões provocadas a partir desse trabalho, dentre outras tantas relativas ao currículo e seus desdobramentos.

Como futura possibilidade de pesquisa, esse exercício apresentado aqui pode ser levado a outros cursos dentro da Instituição, a fim de que possa ampliar o debate a respeito da importância do ensino de Empreendedorismo, que é previsto através de normativas internas, a partir das disciplinas do eixo Gestão e Negócios.

Algumas limitações também foram identificadas durante o processo de realização da pesquisa. O fato de não poderem ser feitas entrevistas individuais com os alunos que estão cursando as disciplinas do eixo Gestão e Negócios dentro do curso pesquisado durante o horário das aulas, em função do tempo que a atividade demandaria, resultou na necessidade de trabalhar com questionários e pode ter impedido a compreensão mais ampla a respeito do ponto de vista desses sujeitos sobre o fenômeno. Adicionalmente, pode-se considerar que a realização de um estudo comparativo entre outros cursos superiores do Campus, nos quais fossem coletadas as mesmas informações, evidenciaria com mais precisão quais são os espaços e as configurações existentes para o ensino de Empreendedorismo.

Além de seu ineditismo, as contribuições trazidas por esse estudo se centram em torno do quanto um mesmo fenômeno é polissêmico de acordo com a quantidade de subjetividades de grupos envolvidos. Observando as fontes de dados para análise, pode-se identificar que tanto os sujeitos quanto os documentos formais têm leituras distintas a respeito da compreensão do que é Empreendedorismo, sua finalidade e pertinência. A identidade de empreendedor, preconizada pelos documentos formais, não é única: o entendimento conceitual apresentado do que é ser empreendedor não foi uníssono, evidenciando a multiplicidade de conhecimentos envolvidos.

Foi possível compreender, então, que a teoria está intrínseca à prática: o currículo é múltiplo, o currículo forma, o currículo dá significados, o currículo é um território. O currículo revela marcas de saber, de poder e de identidade, sendo que o Empreendedorismo, enquanto temática, está presente como fruto dessas marcas no curso em que o estudo de caso foi realizado.

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Recebido: 31/03/2016.
Aceito: 30/12/2016.

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