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NADA MAIS QUE A VERDADE: UM ESTUDO PSICANALÍSTICO SOBRE A
CONCEPÇÃO DE MENTIRA

 

Patrícia Palombini
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio). E-mail: patpalombini@gmail.com.

Carlos Mendes Rosa
Doutor em Psicologia pela PUC-Rio. Professor adjunto da Universidade Federal do Tocantins. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ensino em Ciências e Saúde pela UFT. Pesquisador Associado do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social da PUC-Rio. E-mail: carlosmendesrosa@gmail.com.


Resumo: Este trabalho tem como objetivo colocar em xeque a noção de verdade para a psicanálise e indicar as consequências clínicas desse questionamento, a partir da apresentação da noção freudiana de construção e da lacaniana de mentira. Aprendemos com o texto freudiano “Construções em Análise” que não podemos nos guiar, na clínica, por um binômio que diferencie, de forma simplista, o verdadeiro do falso. Já a concepção de mentira, em Lacan, nos permite um novo posicionamento frente à ideia de verdade, rompendo com o que convencionamos nomear de mentira. Apresenta-se a mentira não mais como um recurso usado apenas por aqueles que querem enganar. Isso, pois Lacan não nos traz a mentira como um recurso linguístico, como uma possibilidade de, com a linguagem, se mentir ou não, mas como uma tentativa de aproximação do real.
Palavras-chave: Verdade. Construção. Psicanálise. Mentira.

Nothing But the Truth: a psychoanalytic study on the conception of lie

Abstract: This paper aims to question the notion of truth in psychoanalysis and to point at the clinical consequences of that questioning based on the presentation of the Freudian concept of construction and the Lacanian concept of lying. We learn from Freud’s text “Constructions in Analysis” that our clinic cannot be based on a binomial that differentiates, simplistically, the true from the false. On the other hand, Lacan’s definition of lying allows us to adopt a new stance on the idea of truth, breaking with what we traditionally have called a lie. Lying is not just a resource used by those who aim to cheat. Lacan does not define the lie as a linguistic resource, as a possibility to use language to lie or not to, but as an attempt to approach the real.
Keywords: Truth. Construction. Psychoanalysis. Lie.

 

Meu nome novo é Coisa. Eu sou a Coisa, coisamente.
Carlos Drummond de Andrade

O presente artigo tem como objetivo apresentar as noções freudiana de construção e lacaniana de mentira, e pensar sobre as implicações de seus deslocamentos e desdobramentos, particularmente, no ensino de Lacan. Começaremos com uma historieta:

Em uma mesa de bar, ouve-se o relato de uma experiência: “Os elefantes quase pisaram em nossa barraca!”. Um sorriso tímido – circundado por outros nada tímidos – desponta na face de um dos que ouvem, o qual, em silêncio, consente com o fato. Em um segundo momento, interroga-se aquele que fala, questionando o equívoco que reinou na dita afirmação. “Equívoco nenhum”, afirma. “Seria possível dizer algo sobre a inigualável experiência de horror vivido, se eu apenas tivesse dito que os elefantes passeavam perto do acampamento? Qual das duas histórias você acha que seria, então, mais próxima da verdade?”.

 No dicionário Aurélio, encontramos tal significação para a palavra mentira: “1 Ato de mentir [...] 2 Engano dos sentidos ou do espírito; erro, ilusão” (1988, p. 335). Procuramos também pelo significado do verbo mentir: “1 Afirmar coisa que sabe ser contrária a verdade [...] enganar” (1988, p. 335). A mentira seria, então, uma ilusão causada por aqueles que pretendem enganar?

A história relatada questiona o significado de “mentira/mentir” encontrado no Aurélio. Apesar de não necessariamente questionar que se trata de um engano dos sentidos, de uma ilusão, questiona o fato dessa ilusão ser um recurso usado apenas por aqueles que querem enganar. Uma distorção no entendimento do que é a mentira que nos remete a uma distorção presente na própria história da psicanálise. É o que buscaremos desenvolver aqui nessa parte do trabalho.

No texto Duas mentiras contadas por crianças, a mentira é colocada por Freud como algo intimamente vinculado “às forças motivadoras mais poderosas nas mentes das crianças e anunciam disposições que levarão a contingências posteriores em suas vidas ou a futuras neuroses” (FREUD, 1984e, p. 389). O mestre de Viena nos traz o tema da mentira também a partir de um chiste. Em seu precioso livro sobre os chistes, Os Chistes e sua relação com o Inconsciente, apresenta-nos um exemplo de chiste que ele diferencia dos demais por ser “raro”. É ele:

Dois judeus encontraram-se num vagão de trem em uma estação na Galícia. ‘Onde vai?', perguntou um. ‘À Cracóvia’, foi a resposta. ‘Como você é mentiroso!’, não se conteve o outro. ‘Se você dissesse que ia à Cracóvia, você queria fazer-me acreditar que estava indo a Lemberg. Mas sei que, de fato, você vai à Cracóvia. Portanto, por que você está mentido para mim?’ (FREUD, 1984d, p. 136).

A história apresentada causa perplexidade em Freud: “o judeu é censurado por mentir porque diz estar indo à Cracóvia, que é o seu verdadeiro destino” (FREUD, 1984d, p. 136). O que impressiona é ele estar mentindo, justamente por falar a verdade, e por só falar a verdade ao mentir, argumenta-nos Freud. O autor nos esclarece que esse chiste é especial porque questiona aquilo que determina a verdade. Mais do que confrontar alguém ou a alguma instituição, de acordo com Freud, o chiste confronta “a própria certeza de nosso conhecimento [...]” (FREUD, 1984d, p. 136). O autor nos mostra que a história apresenta a ambiguidade presente no conceito de verdade. O absurdo – a falta de sentido – que Freud apresenta como próprio à história está, então, relacionado com a própria ambiguidade presente nas concepções de verdade e de mentira.

É fácil o entendimento do porquê do chiste do mentiroso ter, para Freud, um caráter especial: “o mentiroso que diz a verdade” é um tema fundamental à psicanálise. Pode-se dizer que a mentira e a ambiguidade que ela apresenta em relação à verdade fazem parte dos primórdios da prática clínica de Freud. Antes mesmo de Lacan, Freud fornece a todos, inclusive à sociedade médica da época, um novo olhar sobre a verdade.

O lugar dado à verdade em Freud se torna evidente quando tratamos do trauma sexual. Junto às histéricas, Freud elabora o conceito de sexualidade. No princípio de seus estudos, na denominada primeira teoria da sedução (1984b), uma cena sexual é localizada como a grande causadora do sintoma em questão. Em uma reformulação da teoria (1984c), o trauma sexual não mais se mantém vinculado a indícios do desenvolvimento cronológico do paciente. Porém, apesar de tamanha modificação no curso de sua investigação, o efeito de verdade do trauma é preservado por Freud. Tendo ocorrido ou não, a cena sexual continua a ter efeito de verdade por ainda ser localizada no lugar de causa, de causa do sintoma.

Essa modificação não é sem consequências. Elas interferem diretamente no entendimento e no manejo de uma análise, o que fica claro no texto freudiano Construções em Análise. Freud inicia esse artigo apresentando a crítica de um “homem da ciência” à psicanálise. Diz o opositor que o método analítico se baseia no princípio do “Heads I win, tails you lose”, ou seja, “se o paciente concorda conosco, então a interpretação está certa, mas, se nos contradiz, isso constitui apenas sinal de sua resistência” (FREUD, 1984f, p. 291). Freud nos evidencia que, antes de uma possível resposta, é necessário um maior entendimento “de como estamos acostumados a chegar a uma avaliação do ‘sim’ e do ‘não’ de nossos pacientes durante o tratamento analítico – de sua expressão de concordância ou negação” (FREUD, 1984f, p. 291), já anunciando que essa avaliação não pode se guiar apenas por um binômio que diferencie de forma simplista o verdadeiro do falso.

O autor nos lembra que o trabalho analítico tem como objetivo levar à suspensão do conteúdo recalcado e que os sintomas, inibições e sonhos são substitutos e deformações disso que se esqueceu. Através da associação livre, espera-se ter acesso a esse conteúdo esquecido.

Freud, assim, pergunta-se pela tarefa do analista nesse processo, respondendo que “sua tarefa é a de completar aquilo que foi esquecido a partir dos traços que deixou atrás de si ou, mais corretamente, construí-lo” (FREUD, 1984f, p. 293). O trabalho de um analista seria, então, um “trabalho de construção”, sendo também sua tarefa comunicar suas construções ao paciente.

O termo construção, para designar esse trabalho, permite a Freud outro olhar sobre o conteúdo que surge em análise e quanto à necessidade ou não de uma fidelidade dessas construções em relação aos acontecimentos. Pergunta-se Freud sobre as garantias que o analista possui de não estar cometendo equívocos. Mostra-nos, então, que essa não é propriamente uma questão, pois “[...] nenhum dano é causado se, ocasionalmente, cometemos um equívoco e oferecemos ao paciente uma construção errada como sendo a verdade histórica provável” (FREUD, 1984f, p. 295). Quando muito, o que pode ocorrer é uma perda de tempo.

As respostas do paciente à construção do analista também são variadas e mostram uma gama de funções ao longo da análise que não devem ser guiadas pelo binômio verdadeiro ou falso, concordo ou não concordo. As construções em análise possuem funções e destinos infinitos, mostra-nos Freud. O paciente pode permanecer “intocado” pela fala de um analista, um sim e um não como respostas podem ocupar lugares multívocos em uma análise. Como exemplo, diz Freud: “o sim não possui valor, a menos que seja seguido [...] por confirmações indiretas/produza novas lembranças que completem e ampliem a construção” (FREUD, 1984f, p. 297).

Freud produz uma diferenciação importante, mostrando-nos que afirmar que o anúncio de um psicanalista, fruto da construção em análise, gera a convicção do paciente não é o mesmo que afirmar que esse processo tem como resultado uma recordação – entendida aqui como a possibilidade de um acesso direto a uma lembrança outrora esquecida e agora capturada.

Ele parece se espantar não só com a recorrência desse fenômeno no trabalho de análise, mas também com os frutos que advém desse processo. Uma análise corretamente manejada, diz Freud, é aquela que consegue fazer com que “a convicção segura da verdade da construção [...] [alcance] o mesmo resultado terapêutico que uma lembrança recapturada” (FREUD, 1984f, p. 300), ou é aquela que faz com que “um substituto incompleto produza todavia um resultado completo” (FREUD, 1984f, p. 301). O interessante é que o autor não aponta para esse processo como uma feliz coincidência, como um acaso que pode desembocar em um improvável resultado, mas como algo que, como foi dito, é fruto de uma análise “corretamente efetuada”. Com isso, Freud diferencia a verdade da construção da ideia de uma lembrança recapturada.

Miller indica que esse artigo de Freud é “uma reflexão sobre - o que é a verdade?” (MILLER, 1996, p. 97), pois “[...] é preciso fazer como se o significante da construção valesse pela lembrança do analisante” (FREUD, 1984f, p. 97), o que é um apelo a Lacan. De fato, podemos perceber em Freud um importante questionamento em relação ao lugar da verdade na análise, algo que será fortemente investigado e ampliado por Lacan quando este estende a questão para todas as construções simbólicas, para a relação entre a linguagem e o real.

Surge também uma novidade no texto de Freud que surpreende quem ainda tomava as lembranças que emergem em análise como fragmentos indiscutíveis de uma lembrança fielmente capturada. Uma possível semelhança entre essas lembranças e as alucinações surge balançando essa leitura. Freud também faz referência ao que nomeia de alucinações verdadeiras em pacientes não psicóticos.

A partir da introdução da ideia de delírio em suas conjecturas sobre a construção, Freud também nos propõe uma novidade no que se refere ao manejo clínico em análise. Ao invés de o psicanalista tentar convencer o paciente do equívoco do seu delírio frente à realidade, deve tentar dar lugar a isso que nomeou de “verdade histórica” e a seus possíveis deslocamentos. Freud nos mostra, sobretudo, que a convicção também está presente nos neuróticos, quando estes, angustiados, na espera de algum acontecimento de horror, têm certeza de que algum evento terrível de fato aconteceu.

 O autor ressalta outra semelhança, agora, entre as construções presentes nos delírios dos pacientes e as construções feitas ao longo de uma análise, visto que as duas são produzidas a partir “de tentativas de explicação e de cura” (FREUD, 1984f, p. 303). Na exposição dos mecanismos presentes nas alucinações, Freud produz um paralelo entre o sonho e a loucura. Afirma, ainda, citando Hamlet, que há método na loucura, pois reside nesta aquilo que nomeou de “verdade histórica”.

Miller nos aponta que é com a introdução da analogia entre sonho e loucura que se torna evidente a estreita aproximação entre a verdade e o delírio. O psicanalista evidencia que esta aproximação produz o questionamento de que “talvez a lembrança recalcada não possa surgir senão sob forma alucinatória e delirante. Ou seja: talvez a verdade, quando ela ressurge, comporte sempre um certo coeficiente de delírio” (MILLER, 1996, p. 96). Miller observa ainda que essas indicações freudianas permitiram a Lacan afirmar que “a verdade tem uma estrutura... de ficção”(LACAN, 1995, p. 259).

Assim, de mãos dadas com Freud, Lacan infere que a linguagem tem uma estrutura de ficção, ao propor uma construção simbólica que delimita a realidade, ao elaborar sintomas e ao ter como proposta a elucidação da verdade. Ele assume que a realidade pode ser vista como uma tentativa de dizer toda a verdade. Contudo, é preciso admitir, ela não diz toda a verdade, configurando-se em uma estrutura ficcional. Diz-nos Lacan:

Uma vez operada a separação do fictício e do real, as coisas não se situam absolutamente lá onde e poderíamos esperá-las. Em Freud, a característica do prazer, como dimensão do que encadeia o homem, encontra-se totalmente no lado do fictício. O fictício, efetivamente [...] o que chamamos de simbólico (LACAN, 1999a, p. 22).

Lacan afirma que dizer a verdade toda é impossível. E esse impossível é justamente o impossível da linguagem, a impossibilidade do significante de abarcar o real, pois, como esclarece Lacan, faltam palavras. Mas, na falta das palavras, a verdade se impõe, marcando o impossível. Uma falta contornada pelos significantes, evidencia uma meia verdade, pois sobre ela toda não se sabe. A célebre frase de Lacan, registrada em Televisão (2003b), diz sobre isso:

Digo sempre a verdade. Não toda [...] pois, dizê-la toda, não se consegue [...] Dizê-la toda é impossível, materialmente [...] faltam as palavras. É justamente por esse impossível [...] que a verdade tem a ver com o real (LACAN, 2003b, p. 509).

A repetição que se instala ao redor do significante evidencia o limite da linguagem, o real como aquele que não cessa de não se inscrever, em sua dimensão de impossível, o que faz com que não sejamos “[...] sem uma relação com a verdade” (LACAN, 1999b, p. 60). A verdade emerge dessa estrutura, pois “[...] a verdade é, a saber, a impotência” (LACAN, 1999b, p. 54). E a impotência da própria linguagem de abarcar simbolicamente o que é da ordem do real. Impotência esta denunciada pelas próprias palavras, por Lacan:

Se há algo que toda a nossa abordagem delimita, que seguramente foi renovado pela experiência analítica, é justamente que nenhuma evocação da verdade pode ser feita se não for para indicar que ela só é acessível por um semi-dizer, que ela não pode ser inteiramente dita porque, para além de sua metade, não há nada a dizer. Tudo o que se pode dizer é isto. Aqui, por conseguinte, o discurso se abole. Não se fala do indizível, por mais prazer que isto pareça dar a alguns (LACAN, 1999b, p. 53).

Assim, o que da linguagem escapa, por ela é abarcado como estrutura. A verdade se inscreve, então, em uma estrutura de ficção, como nos mostram a escrita de bons romancistas como Guimarães Rosa ou os sintomas de Emma. Isso escapa, mas não cessa de não se inscrever, e este impossível é evidenciado pelo próprio significante. A estrutura de ficção evidencia o paradoxo de que a verdade sempre escapa à linguagem, apesar de ser “inseparável dos efeitos de linguagem tomados como tais” (LACAN, 1999b, p. 64), o que Lacan nomeia de “mentira”. Nesse “cúmulo de compatibilidade” (LACAN, 2003b, p. 533) entre a linguagem e o real é que a verdade só pode ser elaborada “entre semblante e metáfora, entre alusão e relato” (BRODSKY, 2009, p. 2).

 Este movimento é transgressor, pois rompe com a ideia comumente aceita de que ou se diz uma verdade ou se diz uma mentira acerca de uma determinada coisa. Camargo (2009) se lembra da trajetória filosófica, que tem Platão como grande referência, na qual a verdade deveria ser buscada por trás das aparências, pois o que se evidencia nelas sempre engana por ser ilusório.

Na psicanálise, outro lugar é dado à verdade a partir da concepção lacaniana de mentira. A implicação desta diz respeito ao caráter paradoxal do ato da fala e é o que evidencia a possibilidade de um estudo da linguagem para além de um estudo da filosofia ou da ciência. Com a teorização da mentira, “[...] esbarramos na realidade daquilo que não é nem verdadeiro nem falso (que leio: esbarramos no gozo)” (MONTEIRO, 2009, p. 1). Esbarramos não em uma concepção de mentira que se utiliza da linguagem de forma cínica e tendo como objetivo manipular a verdade, mas com uma concepção de mentira que discorre sobre a própria estrutura da linguagem. É fácil o entendimento do porquê do chiste do mentiroso ter, para Freud, um caráter especial: “o mentiroso que diz a verdade” é o próprio analisando em análise.

O caráter paradoxal da linguagem é o de que sempre se diz a verdade, e se diz justamente porque sempre se mente. É o que leva Lacan a dizer que a “[...] mentira é sua maneira de dizer a verdade acerca disso” (LACAN, 1999a, p. 94). Mais ainda, é só pela mentira que se diz a verdade.

Podemos pensar na noção de realidade psíquica, tão cara à psicanálise freudiana, na qual toda fala implica, necessariamente, uma verdade para o falante, na medida em que é a realidade dele (como ele a compreende), e isso é o que, realmente, importa para a análise. Segundo Paul Auster (1999), “a palavra é falsa, oculta aquilo que pretende revelar” (p. 89). É a partir da estrutura de ficção que anuncia a verdade de seu desejo, que o analisando faz de seu próprio ser o estofo de sua produção, de um lugar irreal. Este irreal que se produz é o objetivo final de uma análise lacaniana (VILHENA, NOVAES, ROSA, 2014).

Essa mesma acepção pode ser encontrada naquilo que diz Foucault (2000) no livro As palavras e as coisas, ao afirmar que “aquilo que se diz não se aloja jamais naquilo que se vê...”, não que a palavra esteja em desvantagem em relação ao que se está sendo mostrado, mas sim porque uma é irredutível à outra. Nesse sentido, toda tentativa de apreender o real através das palavras redunda em fracasso.

Entendidas a implicação e as novidades trazidas pelas concepções de verdade e de mentira para a elucidação da proposta lacaniana de articulação entre a linguagem e o real, uma última consideração se faz necessária: a mentira presume a presença do Outro na autenticação do sentido (o que é imensamente trabalhado por Freud e Lacan, no Seminário 5, em seus estudos sobre o chiste). Ela explicita o encontro do sujeito com o Outro. Compreenderemos as particularidades presentes na relação da mentira com o Outro a partir de um questionamento de Freud. Ao discorrer sobre o raro chiste apresentado no início da seção, apresenta-nos uma questão inerente à ambiguidade presente no que se entende como verdade: “Estaremos certos em descrever as coisas tal qual são sem nos importarmos em considerar a forma pela qual nosso ouvinte entenderá o que dissermos?” (FREUD, 1984d, p. 136).

Não podemos nos esquecer da equivocidade significante do signo linguístico, pois, como aponta Saussure (1991), de quem Lacan toma as bases para sua teoria da linguagem em psicanálise, um signo é aquilo que os outros não são. Mesmo assim, transitório e incompleto, ou seja, não totalizante, existem outras maneiras de se apreender o mundo diferentes desta que agora o sujeito utiliza. Outras matrizes de significação, onde a angústia frente a esse desconhecido é administrável, e o ganho é muito grande quando se pode contar com diferentes maneiras de ser e agir, e não apenas uma repetição (Forbes, 2002).

É interessante observarmos que a história que introduziu essa parte do trabalho nos permite desenvolver um pouco mais o que foi apontado no questionamento de Freud. O viajante não intenciona dizer uma mentira, no sentido corriqueiro do termo, ele não pretende, com sua fala sobre os elefantes, manipular a verdade e enganar os seus ouvintes. Sua fala reporta justamente à sua tentativa de dizer a verdade aos seus ouvintes, de fazê-los compreender sua experiência com os elefantes. O Outro como lugar do sentido é experimentado nessa história e demonstra a eterna tentativa do sujeito de, pela linguagem, falar algo sobre o real. É o que leva Brodsky a afirmar que “a verdade é a miragem que o analisando persegue em seu percurso de análise” (BRODSKY, 2009, p. 2).

Pois, com o advento da psicanálise, o ato favorece a destituição subjetiva que visa reduzir o eu ao objeto α, que se verifica no momento exato no qual o analisando cai, após ter constatado que este objeto é causa do desejo. É a partir da estrutura de ficção, através da qual afirma a verdade sobre o seu desejo, que o analisando faz de seu próprio ser o material significante para a produção de um irreal (VILHENA, NOVAES, ROSA, 2014).

 A história apresentada exemplifica a distorção lacaniana presente na concepção de mentira, ao evidenciar uma fala fictícia que, ao contrário de ter como intuito camuflar a verdade, pretende, pela ficção, dizer sobre a verdade.

O mentiroso da história em questão tem razão: diante de surpreendente e horrenda experiência com os elefantes, uma pretensa literalidade das palavras não faria jus à experiência. Uma mentira irrompe como a forma dada ao sujeito de se aproximar ao máximo da verdade. Brodsky escreve sobre esse direcionamento mentiroso no relato do sonho: “o sonho não interessa tanto pela fidelidade de seu conteúdo quanto por seu relato. E é no endereçamento ao Outro que o sonho mente. Ou, em outras palavras, o inconsciente sob transferência revela-se tão enganador quanto o próprio amor” (BRODSKY, 2009, p. 2). O mentiroso do exemplo em questão parece elucidar o porquê de um poema ou a escrita de Guimarães Rosa parecerem, às vezes, muito mais fiéis ao seu objeto que a mais rigorosa descrição de fatos feita por um jornalista. Leva-nos também a uma fórmula que se faz presente tanto nas produções do inconsciente, quanto nas produções culturais: diante disso que não se sabe, diante de um impossível de se dizer, fala-se muito.

Brodsky se questiona sobre tanta mentira presente no sintoma das histéricas e no chiste do judeu. Para que serve tanta mentira? “Para que serve saber se dizemos ou não a verdade? Às vezes, mentir é a forma como o sujeito enuncia a verdade de seu desejo, porque não há outra maneira de enunciá-lo senão pela mentira” (LACAN, 1967-68 apud BRODSKY, 2009, p. 2). Assim, é pela via do desejo que Lacan responde a questão que se inicia em Freud.

A noção de construção, em Freud, ou de ficção, como nos apresenta Lacan, pode nos revelar que, de fato, estamos trabalhando com “tentativas de explicação e de cura” (FREUD,1984f, p. 303), pois, segundo Lacan, “[...] o real que por só poder mentir para o parceiro, inscreve-se como neurose, perversão ou psicose” (LACAN, 2003b, p. 515).

Assim, a concepção de mentira lacaniana permite um novo posicionamento frente à ideia de verdade. Isso, pois Lacan não nos traz a mentira como um recurso linguístico, como uma possibilidade de, com a linguagem, se mentir ou não. Mente-se, diz Lacan; a mentira não é um recurso da linguagem, mas a condição para a linguagem.

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Referências

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CAMARGO, C. Semblante e verdade. Texto apresentado na manha de cartéis da EBP-RJ, em 16/05/2009.

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FOUCAULT, M. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas (1966). São Paulo: Martins Fontes Ed., 2000. 541p.

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LACAN, J.  O seminário - Livro IV, A relação de objeto(1956-1957)). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.

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______. Radiofonia (1970). In: ______. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003a. p. 400-447.

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Recebido: 07/11/2016.
Aceito: 30/11/2016.
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