Brasil, esperança infinita

Danichi Hausen Mizoguchi

Resumo


No dia 25 de abril de 2020, meu filho nasceu. E se é evidente que há emoção e júbilo com a chegada de um novo rebento, os projetos e os sonhos para uma nova vida podem rapidamente virar pesadelos desesperados cujo cenário é o Brasil em que crescerá alguém nascido neste inesquecível, estranho e óbvio ano. Se estivéssemos apenas diante de uma fatalidade pandêmica, este já seria um momento suficientemente difícil para o país. Todavia, do centro mais importante do poder federal às relações cotidianas, a tristeza, a raiva, o ódio e o medo parecem ser afetos majoritários dos quais não escaparemos tão cedo.
Diante da cilada que o Brasil criou para si mesmo, o que inevitavelmente aparece em nosso horizonte é um país fraturado e bélico. É difícil acreditar que possamos deixar às próximas gerações um país mais alegre, mais fraterno, mais pujante e mais justo – um país mais interessado em enfrentar e mais apto a reparar as chagas que o constituem e estruturam há mais de quinhentos anos. Nesta conjuntura catastrófica, a famosa frase de Machado de Assis nas Memórias póstumas de Brás Cubas – “não tive filhos, não transmiti o legado de nossa miséria” – é um conselho de prudência quase incontornável: a insistência na vida corre o risco de se tornar apenas e tão somente um gesto narcísico absurdo e irresponsável de manutenção do próprio código genético, cuja culpa e arrependimento talvez jamais possam ser expiados.

[Continua...]


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DOI: https://doi.org/10.12957/mnemosine.2021.61869

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