Editorial

Heliana Conde, Maria Cristina G. Vicentin, Yara M Carvalho

Resumo


Editorial

Parte especial: O devir escrita escrita dos/nos/com os serviços de saúde

Não é o corpo que realiza mas é no corpo que algo se realiza (Deleuze, 1991: 175)

 

Como acessar a multiplicidade em nós?

Ou como acessar a nossa capacidade de variação, dos altos e baixos?

 

A escrita tem sido uma estratégia disparadora de pensamento. Ela nos “convida” para diferentes experiencias… entre elas,

para a experiencia de parar,

para a experiencia de silenciar,

para a experiencia de observar…

 o movimento das ideias e dos afetos e seus efeitos…

 

            O corpo produz diferenças.

É matéria e superfície de expressão dessas diferenças e se transforma nas diferenças.

E a escrita pode ser uma estratégia de apropriação da experiencia do corpo.

            No entanto, é necessário experimentarmos o estado de presença…

Para que a escrita nos atravesse

 

 

O presente dossiê reúne um conjunto de artigos e comunicações que articula docentes, pesquisadores e profissionais de saúde interessados na produção de narrativas sobre as práticas de saúde experimentadas nos contextos do compromisso da universidade com o SUS, assim como na formação profissional em psicologia.

Mais especificamente, temos como foco a construção de certos dispositivos de escrita - como diários, cartas, cenas - que se ocupam das relações entre modos de formar-aprender-trabalhar-subjetivar, tendo a produção da escrita como eixo de problematização e de experimentação.

Os proponentes do dossiê são membros do GT Subjetividade Contemporânea da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia, grupo interdisciplinar (saúde pública, psicologia, medicina, educação física, terapia ocupacional, filosofia, educação) que têm se dedicado, entre outros projetos, à invenção e à implementação de políticas de formação em saúde, tais como a coordenação e/ou tutoria dos programas de educação pelo trabalho em saúde, de ações de integração ensino-serviço (como o PRÓ-SAÚDE), ou ainda à formulação de propostas curriculares inovadoras em saúde.

Mais recentemente, na tentativa de sistematização de um projeto de pesquisa, percebemos um plano comum entre os pesquisadores assentado em processos de formação e subjetivação comprometidos com a discussão metodológica relativa aos diferentes dispositivos que experimentamos em processos de formação. Como parte deste trabalho, o GT Subjetividade Contemporânea propôs no segundo semestre de 2017 um conjunto de oficinas de escrita dirigidas a profissionais de saúde com base na experimentação de alguns destes dispositivos (diário, carta, cena).

Cabe mencionar que usamos a noção de dispositivo aqui no sentido que Agamben (2005) atribui ao termo - não só os manicômios, as escolas, as fábricas, as disciplinas, etc, mas também a escrita, a filosofia, o cigarro, a filosofia, a agricultura, os computadores, os telefones celulares e a linguagem, entre muitos outros - e, sobretudo, sua proposta de “profanação dos dispositivos” que implica a “restituição ao uso comum daquilo que foi capturado e separado de si”, no nosso caso aqui a escrita.   Uma escrita desencadeadora de estados de presença, de conversa, de escuta e de fazer junto que escancara os dilemas nos diferentes cenários de formação e atuação em saúde e, ao mesmo tempo,  ensina sobre os dispositivos e seus efeitos.

 

Maria Cristina G. Vicentin (PUC-SP) e Yara M Carvalho (USP)

 

Parte geral:

O dossiê que compõe a parte especial deste número de Mnemosine, qual um estranho (e belo) atrator, parece ter imantado outros tantos escritos sobre a escrita, sob diferentes formas: pesquisas, ensaios, entrevistas....

Por esse motivo, serei ainda mais breve do que habitualmente na parte que me cabe destas páginas introdutórias. Porém não poderia deixar de ressaltar, entre tantos escritos e escritas, a presença de um artigo de Tania Galli  -  colaboradora de todas as horas, como o(a) leitor(a) poderá constatar caso percorra os exemplares de Mnemosine até hoje publicados.

Há pouco, perdemos Tania, e ela nos faz muita falta.

Sei de seu falecimento por Esther Arantes, que, com seu jeito bom de chegar perto, também me conta uma história:

Foi, talvez, em 2003,  no XII Encontro Nacional da ABRAPSO, realizado em Porto Alegre, em um passeio que fizemos a uma cidade próxima, que eu e Tania conversamos sobre os Guaranis e alma-palavra. Eu estava muito alegre e inspirada pela leitura do livro “Terra sem Males”, de Hélène Clastres.  Tania e eu demos cordas à imaginação, fazendo muitos planos e contagiando colegas que estavam conosco no ônibus. De volta a Porto Alegre, em um intervalo das atividades do Encontro da ABRAPSO, Tânia foi a algum lugar e voltou com um enorme cesto, que não sei precisar se característico dos Guaranis ou dos Kaingang. Ao me presentear com o lindo cesto, disse que era um baú para irmos colocando ali as almas-palavras que seriam por nós recolhidas, não me lembro mais como nem por que. E, embora sempre mencionado em nossas conversas, nunca escrevemos nada sobre o tema.

 

Estherzinha, como por vezes a chamamos, ainda acrescenta, sábia:

 

Penso ser importante, neste momento sombrio que vivemos, também em homenagem à Tania, recolher as visões e as imagens depositadas no baú e, quem sabe, voltar a sonhar a alma-palavra Brasil.

  

E eu, que quase sempre desejo “uma boa leitura” ao final de cada Editorial de Mnemosine, apenas concordo, enfática embora comovida, com a companheira, não sem lembrar que a própria Esther já dá início a essa recolha através de seu ensaio sobre o parresiasta Giordano Bruno que, ao lado da entrevista da parresiasta Cecília Coimbra, compõe a sempre heterodoxa seção Biografia do presente número.

Com Tania, Esther, Bruno, Cecília, o dossiê organizado por Cris e Yara, além de todas as belas contribuições que nos chegaram e ora partilhamos, decerto voltaremos a sonhar a alma-palavra Brasil, ao menos no que esta dependa de nossas inventividade, liberdade e alegria.

Até breve.

 

Heliana de Barros Conde Rodrigues (UERJ)


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