HISTÓRIA E MEMÓRIA COMBATES PELA HISTÓRIA

Antonio Montenegro

Resumo


INTRODUÇÃO

Um dos temas com o qual venho trabalhando há alguns anos está relacionado àhistória política do período anterior ao golpe civil-militar de 1964. Entre as questões que ahistoriografia acerca desse tema suscita, encontra-se aquela relacionada à atuação da Igrejaantes e depois de 1964. O livro de Antonio Callado Tempo de Arraes: a revolução semviolência1, escrito inicialmente como reportagem, afirma que a Igreja Católica e o PartidoComunista, em Pernambuco, atuavam juntos. Márcio Moreira Alves, na introdução do seulivro O Cristo do povo, observa que já em 1965 os cristãos, tanto católicos como protestantes,ofereciam resistência ao regime que se instalara em 1964. Este seu livro, iniciado em 1966,surgiu do interesse em pesquisar os discursos e as práticas, principalmente dos católicos, que os tornavam adversários do regime que se estabelecera.2 O brasilianista Scott Mainwaring, aonarrar a relação da CNBB com o regime, transcreve a nota emitida pelos bispos em junho de1964, de apoio ao regime. Mas observa que, “embora este documento da CNBB agradecesseaos militares por salvarem o país, havia alguns parágrafos mais críticos que revelavam asposições profundamente contraditórias dentro do episcopado.” Revela o autor que, mesmocom o predomínio dos bispos conservadores na direção da CNBB, de 1964 até 1968, estainstituição nunca se apresentou como um bloco homogêneo.3O diversificado debate historiográfico acerca desse tema ampliava-se à medida que asminhas pesquisas avançavam e entravam em contato com uma vasta produção bibliográficade autores como Clodovis Boff, Leonardo Boff, José Comblin, Pedro Casáldaliga, RiolandoAzzi, Rubem Alves, Frei Betto, Thomas Bruneau, Carlos Rodrigues Brandão, EduardoHoornaert, Ralph Della Cava, Emmanuel de Kadt, José Batista Libânio, além da análise de1 CALLADO, Antonio. Tempo de Arraes: a revolução sem violência. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.2 ALVES, Márcio Moreira. O Cristo do povo. Rio de Janeiro: Sabiá, 1968. p. 5.3 MAINWARING, Scott. Igreja Católica e política no Brasil: 1916-1985. São Paulo: Brasiliense, 1989.2artigos em jornais e revistas. Essas leituras ajudaram na formulação de uma primeira questão.Percebi como, apesar da força e da presença histórica do catolicismo na sociedade, a IgrejaCatólica do Brasil sempre se ressentiu (desde o período colonial até os dias atuais) da falta depadres para atender seus fiéis, espalhados por esse vasto território. Dessa forma, a presençasignificativa de sacerdotes vindos de outros países tornou-se sua marca ou uma característicado clero no Brasil. Observei ainda que a historiografia, especialmente livros e artigosrelacionados à igreja, não se voltavam para os discursos e as práticas micro-históricas; nãodiscutiam o pensamento e as ações do clero em seu cotidiano. Ao mesmo tempo, esse silênciodespertava em mim uma enorme curiosidade em conhecer as motivações ou as representaçõesconstruídas pelos padres que saíam de suas ricas dioceses da Europa para vir atuar no Brasil e,em especial, no Nordeste naquelas décadas de 1950/1960. Esta curiosidade se desdobrava emindagações como: qual a visão que possuíam do Brasil, e como vivenciaram a experiênciasocial, econômica e política de viver em uma outra cultura? Qual a formação que tiveram naEuropa? O marxismo e a experiência de padres operários os haviam influenciado? Com essasquestões, bastante gerais, iniciei uma pesquisa (apoiada pelo CNPq) que estabelecia como umdos seus objetivos realizar entrevistas de história de vida com padres que emigraram daEuropa para o Brasil, tanto no período anterior a 1964 como no imediatamente posterior.


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