MASCULINO E FEMININO NA PRÁTICA DO SWING



Sexualidad, Salud y Sociedad

REVISTA LATINOAMERICANA


ISSN 1984-6487 / n.3 - 2009 - pp.106-129 / www.sexualidadsaludysociedad.org



Masculino e feminino na prática do swing


Olivia von der Weid

Mestre em Sociologia (com concentração em Antropologia)

Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia – PPGSA

Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ


> oliviaweid@gmail.com


Masculino e Feminino na prática do swing

Resumo: Neste artigo, proponho-me a refletir sobre questões referentes às relações afetivo-se- xuais entre homens e mulheres na sociedade brasileira atual a partir da experiência de casais adeptos da prática do swing. Que tipos de comportamentos demarcam o que é ser homem e ser mulher neste universo? De que forma essas identidades se relacionam com o desempenho de determinados papéis sexuais? A reflexão baseia-se na análise de 13 entrevistas realizadas com casais adeptos da prática do swing na cidade do Rio de Janeiro, além das anotações re- sultantes de observação em 19 encontros realizados por casais praticantes de swing em duas casas especializadas. Procura-se comparar a construção de uma identidade sexual masculina com a feminina, com o objetivo de compreender como as semelhanças e as diferenças dessas identidades nos ajudam a pensar sobre o que significa ser homem e ser mulher na cultura brasileira.

Palavras-chave: gênero; sexualidade; corpo; casamento; troca de casais



Masculino y femenino en la práctica del swing

Resumen: Me propongo en el presente artículo reflexionar sobre cuestiones referidas a las relaciones afectivo-sexuales entre hombres y mujeres en la sociedad brasilera actual, a partir de la experiencia de parejas adeptas a la práctica del swing. ¿Qué tipo de comportamientos demarcan lo que es ser hombre y ser mujer en este universo? ¿De qué forma esas identidades se relacionan con el desempeño de determinados papeles sexuales? La reflexión se basa en el análisis de 13 entrevistas realizadas con parejas adeptas a la práctica del swing en la ciudad de Río de Janeiro, además de las notas resultantes de la observación en 19 encuentros realizados por parejas practicantes del swing en dos casas especializadas. Se busca comparar la cons- trucción de una identidad sexual masculina con la femenina, con el objetivo de comprender cómo las semejanzas y las diferencias de dichas identidades ayudan a pensar acerca de lo que significa ser hombre y ser mujer en la cultura brasilera.

Palabras clave: género; sexualidad; cuerpo; casamiento; intercambio de parejas



Masculine and Feminine among swingers

Abstract: This article proposes a reflection on issues regarding love and sexual relations be- tween men and women in contemporary society, based on the experiences of couples who adopt the practice of swing. What types of behavior delimitate what it means to be man and to be woman in that universe? In what ways do those identities relate to the performance of certain sexual roles? This elaboration is based on the analysis of 13 interviews with couples adept to swing in the city of Rio de Janeiro, as well as notes from field observations during 19 weekly gatherings of couples in two swingers’ clubs. We compare the construction of a mas- culine and a feminine sexual identity, in order to understand how similarities and differences in these identities help us think about what it means to be man and a woman in Brazilian culture.

Keywords: gender; sexuality; body; marriage; swinging



Introdução


A força, ou antes, a potencialidade da

cultura brasileira parece-nos residir

toda na riqueza dos antagonismos equilibrados.

Gilberto Freyre


Para alguns, o swing é um mundo machista, de dominação masculina e mulheres submissas. Nada mais do que o velho e conhecido comportamento tradicional. Para outros, uma experiência ousada, libertária e inovadora. Uma tentativa moderna de viver um relacionamento.

O que se observa nestas posições é uma necessidade de classificar, de opor, de escolher um lado ou outro. No entanto, o que encontrei ao longo da pesquisa, que resultou na dissertação de mestrado Adultério Consentido: corpo, gênero e sexualidade na prática do swing, foi justamente a ambiguidade.

Neste artigo pretendo refletir sobre as práticas e os comportamentos de homens e mulheres no swing e em que estas posturas podem nos ajudar a pensar sobre gênero e sexualidade nos dias atuais. Procuro entender a construção do feminino e do masculino neste meio a partir do discurso dos casais pesquisados. Que tipos de comportamento demarcam o que é ser homem e ser mulher neste universo? De que forma essas identidades se relacionam com o desempenho de determinados papéis sexuais? Busco comparar a construção de uma identidade sexual masculina com a feminina, com o objetivo de compreender como as semelhanças e as diferenças dessas identidades nos ajudam a pensar sobre o que significa ser homem e ser mulher na cultura brasileira.

Esta reflexão baseia-se na análise de 13 entrevistas realizadas com casais adeptos da prática do swing entre os anos de 2003 e 2007 na cidade do Rio de Janeiro. Outra fonte de dados para esta análise foram anotações resultantes de observação feita em 19 encontros realizados por casais praticantes de swing em duas casas especializadas, durante o período de setembro de 2003 a maio de 2004, em uma casa de swing na zona sul do Rio de Janeiro e em outra no Centro.1 Os encontros consistiam em uma conversa inicial antes da realização da festa sobre temas relacionados ao swing. Tinham o propósito de descontrair o clima e discutir alguns temas polêmicos. Além de uma troca de experiências pessoais, os praticantes mais antigos buscavam iniciar os novatos no meio. Aconteciam semanalmente, promovidos por um dos casais entrevistados, que foram os meus principais informantes. Os encontros eram denominados de “Swing Social Clube” e no início foram orientados a partir de alguns temas: “Etiqueta Swing”, “Jogos de Adultos”, “Amor e Sexo”, “O bissexualismo no swing”, “O swing e o segredo”, entre outros. Também foram fontes de dados para esta pesquisa material de mídia impressa e virtual (Internet).

Entender o comportamento e as relações de casais adeptos do swing traz à tona questões importantes sobre a forma como compreendemos a liberdade sexual, a dominação masculina, a homossexualidade, entre outros temas. A prática e o comportamento desses casais são bons pontos de partida para se refletir sobre os modelos e as contradições que envolvem a construção de uma identidade de gênero na sociedade contemporânea.

Em um ambiente de suposta liberdade sexual, no qual homens e mulheres, casados, relacionam-se sexualmente com outros casais, algumas premissas e regras fundamentais buscam estabelecer limites para essa liberdade e adequá-la a padrões aceitáveis para os participantes. O swing é como um jogo. Uma “recreação sociossexual”.2 E, como todo jogo, tem suas regras que devem ser respeitadas.

A principal delas diz respeito ao consentimento, ao acordo entre o próprio casal e com os outros casais – “você pode tudo, mas não é obrigado a nada”. Esse “poder tudo” esbarra em uma das principais “proibições” – talvez a única – que, explícita ou implicitamente, encontrei no meio swinger: “não tem homossexualismo masculino”. Ao tentar compreendê-la, pude perceber como, no Brasil, a construção da masculinidade é fortemente baseada no desempenho de determinado comportamento sexual. Provar que é “homem de verdade”, defender essa postura ativa, inclui comportar-se de determinada maneira e não de outra, vestir-se de certa forma, e não ter sua imagem exposta em fotografias para não ser acusado ou confundido com um “gay”. Já no caso feminino, ser mulher não depende de se relacionar sexualmente apenas com homens. Entre as praticantes de swing, relacionar-se com mulheres é muito comum e ter tido esta experiência não coloca em dúvida sua feminilidade nem para elas mesmas, nem para os outros.


Iniciando-se na prática

Através das entrevistas e nas conversas informais que tive ao longo do trabalho de campo, pude observar que, ao se iniciarem na prática do swing, as mulheres aprendem certo tipo de conduta que a princípio é identificada como masculina. Nas palavras de uma entrevistada: “É criação. É muito mais difícil uma mulher romper certos dogmas do que um homem, né? Você é educada para ser casta e o homem é educado para ser galinha, não é verdade isso? Então, para ela romper isso é muito difícil” (Heloísa). Algumas mulheres relataram em um dos encontros que em suas primeiras idas a uma casa de swing sentiram-se inseguras, tiveram ciúmes e que o começo foi muito difícil. Já para os homens o discurso é que o impulso sexual seria algo natural, “nascem com essa coisa de sexo, desde pequenos, os pais acabam estimulando” (frase ouvida durante o encontro “O swing e o casamento”). No encontro foi dito que a mulher é educada para querer o príncipe encantado, casar com o homem que ama e ficar a vida toda com ele.

Nove dos onze casais que entrevistei disseram que a iniciativa para o swing partiu do homem. Alguns afirmam que demoraram um ano ou mais para convencer suas mulheres a experimentarem a prática, como é o caso de um dos entrevistados: “Mais ou menos com um ano de namoro eu toquei no assunto do swing e foi um ano e meio de luta para conseguir” (Bernardo). Em diálogo de um casal entrevistado sobre a iniciativa para a prática, colocou-se a seguinte ideia:

Guto: toda a vez que a gente estava transando eu ficava jogando, incrementando, entendeu? para ver se ela se empolgava. As primeiras vezes eu senti que ela ficou meio contrariada, meio puta mesmo...

Gabriela: no começo eu não gostava muito não, ouvia e fazia de conta que não estava ouvindo, achava falta de respeito. Aí, depois, eu comecei a gostar.

Guto: essa cantada de pé de ouvido levou quase um ano, e ela se empolgando; quando eu vi, ela já tava completamente dominada pela ideia.



A iniciativa para o swing, na maioria dos casos pesquisados, parte do homem. A mulher diz que aos poucos vai se adaptando a um desejo masculino. É como se, para entrar em um mundo onde o que impera é a lógica do sexo por prazer, sem envolvimento afetivo – aspectos que caracterizariam uma cultura masculina (Simmel, 2001) – a mulher tivesse que aprender a se comportar como um homem. Ela entra para um ambiente swinger seguindo um imaginário de prazer considerado masculino. A iniciativa é do homem, o que não quer dizer que não existam exceções à regra, como pode ser visto no seguinte relato:


Pergunta: mas pelo que você observou nesse tempo, como é essa coisa do convencimento?

Ana: é do homem, do homem.

Pergunta: do homem convencer?

Ana: o homem. A grande maioria das vezes. Não vou dizer que não tenha mulheres que você vê que elas estão lá muito mais pra curtir do que o marido. Tem. Mas percentualmente eu diria pra você que 80% são os homens que vão e levam as suas mulheres; tem muitas mulheres que você vê que não estão curtindo, algumas sim, e a maioria não.


Um domínio masculino sobre a mulher aparece nestes casos. Nas entrevistas, relata-se que há mulheres que dizem estar se submetendo ao desejo do marido de praticar swing por medo de ficarem sozinhas. E isso aparece especialmente no caso de casais em que a mulher é muito mais jovem. André aborda esta questão da seguinte maneira:


Pode ser que ela tenha muito prazer, mas mesmo que ela não tenha, ela vai fazer para não perder o relacionamento. E os homens usam isso de uma forma canalha; nós somos canalhas por natureza, todo homem é canalha, não tem “ah, sou bom”, não é bonzinho, o cara é bonzinho até certo ponto, mas tem aquela veia, o sangue podre do canalha, do cafajeste igual a mim, não tem jeito. Então, se o cara estiver mal intencionado, ele pega uma menina nova e leva, cansei de ver vários. O homem é mais velho que a mulher, e ela é influenciada, totalmente influenciada pelo companheiro (André).



Por trás dos panos

Na primeira vez que resolvi ir a uma casa de swing, uma das minhas preocupações foi sobre como deveria ir vestida. Buscava uma blusa lisa, elegante e discreta. Queria algo que me fizesse passar despercebida, um traje neutro. Imaginava que nesses lugares as mulheres estariam mais arrumadas, com roupa sexy, mas o meu objetivo era ser o mais discreta possível. Com o desenvolvimento da pesquisa descobri que a dificuldade que senti no início não era apenas pessoal e que a roupa possui um significado no meio swing, principalmente para as mulheres.

Na observação pude perceber que as mulheres se vestem de forma sensual e provocante. Os trajes variam entre vestido curto ou saia curta e justa, blusa de alça, vestido de uma alça só, tomara-que-caia, decotes dos mais variados estilos. Todas as mulheres que observei estavam sem sutiã. Quase nenhuma veste calça comprida. Para um entrevistado, “a maioria das mulheres opta por usar vestidos ou saias porque fica mais prático, para se expor também, mostrar o corpo” (Ivan). Mais do que uma simples curiosidade, pude constatar que, no meio swing, os trajes femininos podem simbolizar o status da mulher, de iniciante ou iniciada, ou sua disposição para a noite. No depoimento de Ivan fica clara a função que a roupa da mulher exerce como sinalizador de seu “estado de espírito”:


Então, se você foi de calça jeans, aí você já sabe que ou existe uma dificuldade ou a pessoa está menstruada, ou a pessoa está indo, mas não quer fazer nada. Aí quando existe uma roupa muito ousada, você já sabe que a pessoa está ali porque quer fazer. Quando existe uma roupa assim, uma saia, uma coisa mais light, você sabe que a pessoa está lá, mas quer manter a postura, então, de repente, pode rolar, mas é uma coisa que ela quer mais discrição, ela vai ficar num canto... Você começa a interpretar a personalidade de cada um na roupa que cada um expõe ali naquele dia (Ivan).


Segundo os entrevistados, a mulher que está de calça em um ambiente como este procura alguma forma de proteção. Como era um assunto recorrente nas entrevistas e nos encontros, passei a notar que uma estratégia que usei, no início inconsciente, era estar sempre de calça. Os próprios pesquisados perceberam este costume e chegaram a comentá-lo comigo.

Na fala de um entrevistado aparece o fascínio que certo tipo de roupa exerce sobre os praticantes de swing: “só a roupa que ela botou para vir pra cá, só o fato de ela estar preparada para vir pra cá, botando uma sainha ou esse vestido que ela está hoje, que eu adoro, isso já é excitante para mim” (Felipe). Outra entrevistada disse: “a gente vai a casas de casais, eu gosto de estar arrumadinha, uma roupa mais sexy, uma saia curtinha, um salto bonito, uma calcinha nova” (Heloísa).

No swing a mulher procura “apresentar-se desejável”, o que aparece não apenas nas roupas que escolhem usar, mas também em uma preocupação com a forma física, podendo incluir certa postura exibicionista. As mulheres que observei durante o trabalho de campo escolhem cuidadosamente a lingerie da noite e algumas fazem shows de strip-tease. Nos sites de casais, nos anúncios presentes nas páginas de casas de swing na internet e nos blogs3, o corpo feminino está em evidência, em poses sensuais e em nus explícitos.


Hoje, analisando de fora – engraçado, porque você começa a ter uma outra visão – você vê como a mulher é tratada como objeto. Objeto assim pra satisfazer o seu marido, objeto pro seu marido dar a sua mulher pra um outro homem. Eu acho que tem um pouco dessa coisa de “olha como a minha mulher é gostosa que você está comendo” (Ana).


Nos anúncios publicados nos sites das casas de swing e nas páginas pessoais, os casais procuram parceiros para a realização da “troca”. Nesses anúncios, a maioria com fotografias, o corpo feminino aparece como forma de propaganda do casal, uma espécie de “cartão de visitas”. Segundo os entrevistados, no swing a mulher “é quem faz a ponte”, “é o chamariz” e seu corpo é utilizado nesses anúncios como “vitrine”. Para um entrevistado, a mulher “é mais um objeto de desejo, é o chamariz. E ela é chamariz tanto para a mulher do outro casal quanto para o homem. Se botar um homem não, né, vai ser chamariz para o outro homem” (Emanuel).

DaMatta (1985:108), ao analisar o romance Dona Flor e seus dois maridos, aponta para o aspecto relacional básico que o feminino assume na estrutura ideológica brasileira como mediador por excelência. A mulher seria a fonte de elos entre os homens. No swing esta função de mediação feminina aparece na forma como o corpo feminino é utilizado nos anúncios. Nas fotografias, o corpo feminino é totalmente exposto, nos seus mínimos detalhes e nas posições mais variadas. As mulheres mostram tudo, à exceção do rosto.

Quando se trata dos homens, a mesma preocupação e o mesmo cuidado com a aparência não parecem estar presentes. A maioria veste os trajes que usaria em qualquer outro evento social: calça e camisa, no máximo social. Um entrevistado disse: “o homem não, o homem é básico. Calça e camisa, calça e camisa, calça e camisa, às vezes muda sapato ou tênis, calça e camisa, não tem como, não tem, é característica, né?” (Ivan).

Existe uma prescrição de que à mulher cabe uma preocupação maior com a aparência, com o físico, enquanto o homem precisa se restringir ao básico, não se preocupando com roupas (ou ao menos demonstrando despreocupação).

Menos incomodados com a beleza e a forma física que parecem permear o universo feminino nesses ambientes, os homens dão a impressão de se preocuparem muito mais com a sua performance sexual. O medo masculino é o de falhar na hora “H”. Nos encontros, esta questão foi bastante discutida e chegou a se dizer que só os mentirosos nunca “broxaram”. No swing, esta preocupação ficaria ainda mais evidenciada nos homens que estão indo pela primeira vez, porque, segundo eles, o nervosismo e a adrenalina são os principais inimigos de uma boa ereção.

Um entrevistado relata uma de suas primeiras idas a uma casa de swing da seguinte maneira:


Eu tinha aquela expectativa bem machista mesmo, achava que ia chegar, ia ser uma suruba geral, todo mundo comendo todo mundo, eu ia cair, mergulhar e ia ser uma farra geral. Na verdade, não foi isso, eu me descobri um macho totalmente diferente do que eu achava que eu era. Até pela minha idade nova, eu não estava habituado a certas fisiologias do meu próprio corpo, entendeu? Então eu achava que ia chegar aqui e ia ser superdesinibido e, na verdade, não fui. Então, no primeiro swing foi muito bom, porque eu estava só com ela; no segundo, que eu já entrei “uhh, vamos lá”, não rolou, não rolou porque eu não consegui ficar ereto, não consegui ficar excitado, quer dizer, excitado eu tava, mas eu não tava ereto, não tava... Cheguei à conclusão de que quando a oferta é muita a gente não sabe para onde atirar, eu acho que é problema de focalização (Bernardo).



Cecla (2004:2) ajuda a pensar sobre o discurso do entrevistado ao descobrir que seu pênis não é “infalível”. O autor argumenta que o homem trata o seu pênis como se fosse uma máquina, e faz parte da crise do macho descobrir que o órgão não é um princípio autônomo, mas pertence ao seu próprio corpo. DaMatta (1997:43), em sua reflexão sobre a construção da masculinidade no Brasil, revela que uma das fantasias mais aterrorizantes para os homens é o risco da falha ou da impotência sexual. Isto porque, segundo o autor, o pênis representa o órgão central e explícito do masculino, o traço distintivo da condição de “homem”. O medo de “virar broxa” traria à tona a “problemática masculina”.

O que se observa é que ser homem parece sempre passar pela necessidade de se provar que é homem. E a prova é demonstrar que não é homossexual e não é passivo (Badinter, 1995). Preocupar-se demais com a forma física e a aparência em uma casa de swing significaria correr o risco de ser acusado de “feminino”. A possibilidade de falhar na hora “H” é motivo de preocupação porque colocaria em jogo a qualidade de “macho”. Este, entretanto, é um aspecto que se questiona no swing, mesmo que entre piadas e ironias, talvez por não ser um problema tão incomum assim.

Sobre este assunto, relata-se no blog de um casal:4


Quem nunca falhou? Ou melhor, qual o homem que nunca se preocupou com o desempenho quando está com uma mulher pela primeira vez? Falando sério? Por mais que a gente seja seguro, que o bicho funcione como um relógio, que a testosterona ande a mil, sempre há o fantasma de, na hora H, nosso amigo de fé, irmão camarada não se apresentar para o serviço. É bem provável que esta sacanagem aí já tenha acontecido com muita gente boa neste blog. Bom, se quando a gente está apenas com mais uma pessoa na cama e acontece isso já é ruim, imagine quando tem quatro ou seis ou oito? A broxada no swing muitas vezes é difícil de administrar. Geralmente os casais mais esclarecidos tratam o assunto melhor e sabem que isso se resolve sempre no segundo encontro.


Para além da preocupação com o desempenho sexual, outro ponto que parece ser um problema, tanto para homens quanto para mulheres praticantes de swing, é o tamanho do pênis. Barasch (1997:103) aponta que a crença de “quanto maior, melhor” ainda atormenta muitos homens. Para a autora, é possível que, na fantasia de algumas mulheres, o tamanho do pênis gere excitação. Seguindo esta lógica, pode se supor que os homens que possuíssem um órgão sexual mais “avantajado” seriam mais procurados no meio swing. Entretanto, o que pude perceber, por meio das conversas informais com os praticantes e do que foi dito nos encontros, é justamente o contrário. As mulheres parecem não gostar quando o pênis do homem é muito grande, e algumas disseram que colocam limites para o tamanho na hora de se relacionarem sexualmente. Este aspecto também foi observado por Goldenberg (2004:69) em artigo no qual analisa os usos do corpo pela juventude carioca. A autora destaca que possuir o pênis grande representa defeito para duas pesquisadas, o que parece contrariar as expectativas masculinas sobre o tema.

Outra questão abordada refere-se ao passado sexual dos homens e das mulheres entrevistados antes de se tornarem adeptos da prática do swing. Um ponto que despertou minha atenção foi quando perguntei sobre o número de parceiros sexuais das mulheres. Sete das onze mulheres que entrevistei relataram que tiveram poucas experiências sexuais antes de praticar swing (até dois parceiros), duas perderam a virgindade com o atual parceiro e quatro tinham se relacionado com apenas um homem além do parceiro. Os homens, ao contrário, responderam um número significativamente maior, através de expressões como “não tenho ideia”, “não sei dizer, são muitas”, ou aludindo a uma faixa aproximada, como “mais ou menos 60”, “mais de 500”. Nenhum homem respondeu um número exato de parceiras sexuais. Goldenberg (2004:55), ao analisar a sexualidade de jovens cariocas, identifica uma aproximação nas idades em que homens e mulheres se iniciam sexualmente. Porém, no que se refere ao número de parceiros sexuais, a autora indica que a distância entre homens e mulheres permanece, uma vez que os números masculinos são imprecisos ou bastante superiores aos femininos.

As mulheres que entrevistei disseram que, após se iniciarem na prática do swing, experimentaram relações sexuais com homens variados e que esta possibilidade abriu portas para um maior conhecimento do próprio prazer. Ao se tornarem adeptas da prática, passaram a diversificar seus parceiros sexuais, adquirindo um comportamento tradicionalmente identificado como masculino e socialmente “proibido” às mulheres. Uma entrevistada relata: “transei com mais homens casada do que quando era solteira” (Ana). Durante a observação no encontro “O swing e o casamento”, uma mulher contou que antes de conhecer o marido teve apenas um parceiro sexual e, depois de se iniciar no swing, relacionou-se com cerca de 30 homens em quatro meses. Outra frequentadora, que teve somente um parceiro sexual antes do marido, fazia swing há um mês e nesse período disse ter se relacionado com nove homens diferentes.

Ter experimentado “de tudo” sexo com outro homem na presença do marido, ver o parceiro se relacionando com outra mulher, sexo com dois, três, oito homens na mesma noite – contribuiu, segundo elas, para um autoconhecimento maior das potencialidades de seu corpo. A possibilidade de experimentar relações sexuais com outros homens e mulheres permitiria um conhecimento mais amplo de seu desejo.5


Eu acho que eu despertei sexualmente. Eu era muito travada, eu me liberei sexualmente. Eu me liberei sexualmente até pra dizer o que eu quero e o que eu não quero. Hoje nada me espanta, nada me assusta, sexualmente eu sei o que eu gosto, o que me dá prazer. Depois que eu experimentei várias coisas, eu tenho até discernimento pra dizer: “ah isso aqui é um cara que tem um... que me satisfaz”. Porque eu sei o que eu quero de uma outra pessoa e eu sei o que eu posso, eu sei o que o sexo tem pra me oferecer (Ana).



Outra entrevistada diz:


Antes de entrar nesse meio, eu era uma pessoa assim muito pudica, sabe? Eu frequentava a igreja, eu era católica e o sexo para mim tinha pouco tempo, então, ainda não tinha me descoberto, eu só me descobri realmente depois que estive com ele (Daniela).



Para elas, ser desejada por outros homens e mulheres além do marido e experimentar este desejo concretamente constituem uma espécie de poder que aumenta a autoconfiança. É o que pode ser observado nos seguintes depoimentos de duas mulheres:


Antes da coisa do swing eu era muito travada com a minha libido, com a minha sexualidade, com o meu lado mulher. Eu não usaria um salto enorme com um vestido curto e querer chamar a atenção dos homens e me sentir gostosa e tentar seduzir alguém. Hoje, isso eu faço (Ana).

Antes de ter um contato com o meio swing eu era uma pessoa muito introvertida, fechada, não conseguia olhar para a cara das pessoas, eu tinha medo de falar com as pessoas, de chegar nas pessoas, e esse meio fez com que eu chegasse nas pessoas, eu me tornei muito extrovertida, falo muito mais do que eu falava antes. Hoje em dia, eu chego, falo, eu brinco (Daniela).



Para compreender este ponto, é interessante destacar o que Duarte (1999:25) diz a respeito de dois dos temas presentes nas figuras contemporâneas da sexualidade: o fisicalismo e a experiência. Segundo o autor, o fisicalismo seria a consideração da corporalidade em si como uma dimensão autoexplicativa do humano. A corporalidade humana seria dotada de sua própria lógica, a ser descoberta, possuindo implicações imediatas sobre a condição humana. Através da experiência em relação ao mundo exterior, por intermédio dos sentidos, é que serão construídas novas formas de relação com o mundo. É interessante observar no depoimento das entrevistadas que, através de um conhecimento e de uma experimentação maior do seu corpo, chegam a uma “descoberta de si mesmas” que não necessariamente diz respeito ao corpo ou ao prazer em si, mas a uma forma de se verem e de se colocarem no mundo (extroversão, confiança, autoestima).


O masculino oculto

Ao longo das entrevistas, durante a observação participante e em conversas informais com os casais pesquisados, um dos primeiros pontos que observei é que existem certas regras de conduta em uma casa de swing. Entre estas regras encontra-se: ser honesto com o outro casal a respeito de suas preferências; respeitar a vontade do outro casal; e ainda “não desejar a mulher (ou o homem) do próximo, quando o próximo não está próximo”. Tais comportamentos parecem fazer parte de uma “etiqueta” swinger, como foi enfatizado por Ana: “tem muito essa coisa da etiqueta, né? Os casais que frequentam têm muito essa coisa da etiqueta, de ter cuidado com o outro para não ser inconveniente”.

Estas regras aparecem de maneira sutil, e nenhuma é tão explícita quanto a que se destaca na fala de André: “atualmente no swing só tem uma regra que meio que todo mundo respeita que é: não tem homossexualismo masculino”.

Para refletir sobre esta questão, é interessante pensar como a masculinidade, na sociedade brasileira, se constrói a partir da negação da passividade. Fry (1982:90), ao estudar as representações sobre a sexualidade em Belém, indica que é em torno da distinção entre atividade e passividade que as noções de masculino e feminino são construídas. O ato de penetrar e de ser penetrado adquire, através dos conceitos de atividade e passividade, o sentido de dominação e submissão. Assim, “homem” é aquele que penetra, e mesmo que este papel ativo seja desempenhado em uma relação sexual com outro homem, não estaria sacrificando a masculinidade. O autor aponta ainda para uma mudança de sentido no comportamento homossexual no Brasil a partir da década de 1970, que começa especialmente em alguns setores sociais, como as camadas médias urbanas. Com a figura do “entendido” (ou gay, como surgiu nos Estados Unidos) representando qualquer homem que se relacione ativa ou passivamente com outro homem, o mundo masculino deixou de se dividir entre homens másculos e homens efeminados e passou a ser dividido entre heterossexuais e homossexuais.

Misse (2005:26) também chama a atenção para as conotações pejorativas e estigmatizantes que recaem sobre o passivo sexual em nossa cultura. A virilidade estaria ligada a características como força, proteção, autoridade, independência, todas refletindo uma postura masculina ativa. No que se refere à sexualidade, o heterossexual masculino rejeita qualquer atribuição de passividade e se considera ativo em todas as situações, fugindo do caráter “desacreditado” que recai sobre o sujeito passivo em nossa sociedade.

Nos casais pesquisados nota-se claramente uma distinção entre homens e mulheres no que se refere às suas práticas sexuais. Os homens dizem que tanto não se relacionam sexualmente com outros homens, como evitam qualquer contato físico com outros homens que tenha alguma conotação sexual. Em um encontro cujo tema era “Bissexualismo no swing”, discutiu-se esta questão. Um dos presentes perguntou se alguma mulher tinha o desejo de ver dois homens relacionando-se sexualmente. A reação nesse momento foi imediata, todos falando ao mesmo tempo, rindo e fazendo brincadeiras, dizendo que isto seria “viadagem” e que não eram “gays”. Após esta explosão inicial, iniciou-se uma discussão na qual enfatizaram que no swing não existe o bissexualismo masculino, mas que não podiam ser preconceituosos com quem apresentasse este desejo. Um dos homens presentes afirmou:


Não que eu goste de bi ou que eu faça o bi, eu não sinto vontade, eu não sinto prazer com homem, mas acho que não pode existir o preconceito contra aqueles que sentem e que querem. Ninguém é obrigado a fazer nada, mas não pode discriminar.

Percebe-se que os homens pesquisados mantêm certa postura, que pode ser pensada como “politicamente correta”, de respeito ao desejo “homossexual”, mas que é sempre do outro, nunca dele próprio. Alguns lembraram situações em que o homem do outro casal tomou alguma iniciativa para um contato físico, mas sempre enfatizando que imediatamente recusaram. A fala de André nesse mesmo encontro mostra uma posição frequente no meio:


Não podemos ter preconceito, estamos em cima de um telhado de vidro que nos separa da sociedade, temos que entender as opções, respeitar. É muita hipocrisia se eu, que sou swingueiro, discriminar um cara que é gay; eu tenho que entender, tenho a obrigação de respeitar (André).


Entretanto, nas entrevistas, ressalta-se constantemente a negação do “homossexualismo masculino” e admite-se que haveria certo preconceito em relação ao tema no meio swinger. Cláudio disse: “os homens que fazem swing não aceitam isso”.

Kulick (2008:138), ao escrever sobre as travestis de Salvador, ajuda a pensar esta questão da atividade e da passividade, e como, no Brasil, ser masculino está diretamente relacionado a uma postura sexualmente ativa. Para o autor, o status masculino de um homem depende especialmente do que ele faz na cama. Um homem é aquele que assume sempre o papel do “penetrador”. Entre as travestis que pesquisou, um namorado só era considerado realmente homem se não apresentasse nenhum interesse pelo pênis da namorada travesti, desempenhando sempre a posição de ativo. Kulick ressalta que a masculinidade é o resultado de interesses e atos específicos, um homem classificado como homem não pode se interessar pelo pênis de outro homem.

Entre os meus pesquisados, um único homem, o mais jovem que entrevistei, apresentou postura diversa dos outros e, ao longo da conversa, admitiu seu desejo por outros homens. Porém, disse viver este desejo de forma escondida, já que no meio swinger sua vontade não seria aceita:


Aqui no swing tem a regra geral, as mulheres são bi e os homens são hetero, exclusivamente, e eu não concordo com isso. Aí é posição minha, mas é uma coisa que eu não posso mudar porque os caras são muito machistas, extremamente machistas, entendeu? Ninguém aqui sabe da minha opção: eu tenho vontade também de transar com homens (Bernardo).


É interessante observar que o mesmo pesquisado se refere apenas ao órgão sexual masculino, o estímulo para ele seria o “falo”, como se o órgão tivesse uma existência própria, separada do resto do corpo.


Já tive transas com homens na minha adolescência, três vezes, e fora aquela iniciação que todo garoto começa, aprende a se masturbar com outro garoto. Então, tive um tempo de crise; pô será que eu sou gay, será que eu sou gay? Eu sou capaz de falar que não quero, mas eu quero... Aí eu resolvi, e hoje eu tenho vontade de transar com homens. Mas é uma coisa engraçada, porque eu não tenho tesão pela figura masculina, a figura masculina não me atrai, só o falo. Uma coisa... você deve saber disso, deve ter algum estudo, se não tem vai ter, mas não sei, é só o falo. Agora aqui dentro isso não rola. Nem mesmo tocar no assunto, o pessoal tem muito preconceito (Bernardo).


A negação de um desejo masculino por pessoas do mesmo sexo parece ser o que demarca a masculinidade dos homens no meio swinger. De acordo com Kulick (2008:140), o status de homem não é algo dado na nossa cultura, mas deve ser produzido através de desejos apropriados que se manifestam por práticas apropriadas. Para o autor, é na cama que o gênero é verdadeiramente estabelecido. Parker (1991:79) diz que a ameaça da penetração anal, seja simbólica ou real, define as estruturas latentes dos relacionamentos masculinos em nossa cultura, e a defesa contra os ataques fálicos de outros homens torna-se uma constante preocupação durante as interações comuns da vida cotidiana.

Podemos pensar que os homens que praticam swing estariam de certa forma desafiando uma das grandes ameaças à masculinidade: o papel de corno. Como lembra Parker (1991:81), a traição feminina na cultura brasileira ao mesmo tempo fere e transforma o homem. O autor enfatiza que esta traição constitui uma investida violenta, um ataque frontal à identidade masculina do homem e, quando levada a cabo com sucesso, poderia reduzi-lo ao equivalente moral do “viado”. Dessa forma, ao serem tão enfáticos em sua postura contrária à prática de relações com outros homens, os praticantes de swing talvez estejam tentando reafirmar sua posição de homens, uma vez que só apresentariam um comportamento de risco em relação à possibilidade de serem acusados de “cornos”.

Para entender a posição dos entrevistados, é interessante lembrar da discussão de Fry e MacRae (1985:98) a respeito do surgimento de uma identidade gay. No novo modelo de classificação das identidades sexuais, baseado em relações igualitárias, postula-se a aceitação de relações afetivo-sexuais entre indivíduos semelhantes. Ao invés de dividir o mundo entre masculino e feminino, entre ativo e passivo, a divisão passa a ser entre hetero e homossexuais. O que os autores indicam é que o movimento homossexual, ao defender a adoção de uma identidade gay, acaba por defender a adoção de uma identidade também imposta de fora com suas regras preestabelecidas, sendo a principal delas a que restringe a possibilidade de relações de homens com outros homens. E vice-versa, acrescentaria, uma vez que para os pesquisados, a manutenção de uma identidade heterossexual implica a “obrigatoriedade” de relações sexuais apenas com indivíduos do sexo oposto, caso contrário, correm o risco de ter sua masculinidade questionada sob acusações de “gay” ou “viado”.

O medo de ser acusado de “gay” ou de ter sua posição sexual questionada está muito presente no meio swing. Os anúncios da internet que incluem fotografias6 quase sempre retratam as mulheres em posições diversas e algumas vezes relacionando-se com mulheres, mas raramente os homens. Quando há uma fotografia masculina, em geral é um close do pênis ou uma fotografia com a parceira. Um argumento apresentado pelos entrevistados para o fato de quase não existirem fotografias de homens nos anúncios está relacionado ao receio de atraírem outros homens. Este receio está bem exemplificado na fala de Diogo: “às vezes a gente fica com aquela preocupação né, se eu botar muita foto minha, o cara vai pensar que eu sou gay...”. Cláudio disse: “o homem também vai atrair gay, vai atrair um monte de coisa”.

Fry (1982:107) aponta que a própria figura do bissexual, que supostamente resolveria o problema da rigidez, é malvista tanto por hetero quanto por homossexuais, que o entendem como alguém que é “de fato” um “homossexual” sem a “coragem” de “assumir-se”. A figura do bissexual permaneceria, portanto, como “marginal”. No swing esta marginalidade do “bi” é interessante para se pensarem as práticas sexuais masculinas.

Um dos meus informantes disse que a prática do “bi masculino” acontece, ainda que de forma oculta. A existência desta prática aparece no discurso dos entrevistados sob a forma de acusação ou “fofoca”.


Ele é um cara bissexual, que não é assumido. Mas eu conheço gente que viu ele numa suruba chupando o pau de um cara, escondido. E o cara viu e me contou. Mas ele não assume. Nesse meio o cara chega e fala, vi fulano e tal... mas oficialmente não é (André).


Neste ponto cabe lembrar a “máxima” citada por Fry e MacRae (1985:46) ao refletirem sobre as práticas sexuais entre o travesti e seu cliente: “na prática, a teoria é outra”. A respeito de regras, Fry e MacRae (1985:47) enfatizam que “quebrar uma regra é fundamentalmente reconhecê-la”, pois “é a exceção que comprova a regra”. No swing, a existência de práticas bissexuais aparece no depoimento dos entrevistados na forma de acusação, como uma exceção, e o sujeito destas práticas é sempre “outra pessoa” que transgride a regra geral, amplamente citada e reconhecida por todos: “não tem homossexualismo masculino”.


O feminino revelado

Diferente dos homens, 10 das 11 mulheres entrevistadas já tinham se relacionado com mulheres no swing e pelo menos cinco se dizem “bissexuais”. Nas palavras de Ana: “bi feminino eu diria para você que quase 90% da população swinger fazem bissexualismo feminino. É permitido e não está ligado à homossexualidade”.

Esta possibilidade de sentir prazer sexual com outras mulheres parece ser uma descoberta decorrente da prática do swing, já que oito dizem que antes de começar a frequentar o meio nunca tinham tido este tipo de experiência. Para Ana “dá prazer. Se você está lá deitada, de olho fechado, tem uma pessoa fazendo sexo oral em você, te dando um beijo na boca, independente de ser homem ou mulher, aquilo é gostoso, é prazeroso”.

É interessante notar como praticar o bissexualismo no swing não é algo que questione o “ser feminino” da mulher. Ao contrário dos homens, a feminilidade não está sendo posta à prova. A mulher parece ter maior liberdade para ultrapassar certas barreiras sexuais. A construção ou a negação da feminilidade não passa pela prática sexual. Talvez o fato de estar ali acompanhada de seu marido ou namorado já seja suficiente para garantir sua posição de mulher.

Ao longo do trabalho de campo ouvi muitas vezes que a grande fantasia sexual de todo homem é “transar” com duas mulheres. Mais do que uma possibilidade, as mulheres são estimuladas pelos maridos a experimentar o “bi” feminino. Este ponto fica claro na fala de Ana: “acho que incentivado... Porque assim, primeiro tem essa fantasia de todo homem, né? A maioria dos homens tem essa fantasia dele e mais duas mulheres. A mulher eu acho que ela tem isso muito mais elaborado na cabeça dela”.

Muitas vezes a mulher, quando experimenta a relação com outra mulher no swing, tem como referência o desejo do marido. O prazer estaria relacionado à presença e ao olhar do homem. O depoimento de duas entrevistadas ajuda a pensar esta questão:


A mulher quando é bi ela não é sapatão, ela troca carinho, beijo, ou troca carícias, porque até mesmo o meu marido gosta, a maioria das mulheres que troca carícias com certeza é porque o marido também gosta de ver (Gabriela).

Se eu sei que ele vai sentir prazer, isso me instiga, entendeu? Então quando ele, conversando comigo, disse que adorava ver uma mulher com outra mulher, aí eu comecei a abrir mais a cabeça, começou a me dar vontade de querer fazer para ver como é que é (Fernanda).



Outra pesquisada indica que relações com outras mulheres no swing seria algo que complementaria a sua relação sexual com o marido:


Eu gosto do bi, mas é aquela coisa, não que necessariamente tenha que rolar o bi, que eu tenha que ficar com alguma outra garota; se tiver que rolar, vai ser bem aceito, mas não necessariamente tem que ser aquilo, porque na verdade eu gosto que role o bi, mas eu gosto que nos finalmentes eu venha a ter relações com ele. Porque o bi para mim é um complemento (Emília).


A descoberta desse lado da sexualidade nem sempre acontece no swing – quatro entrevistadas disseram que antes de experimentarem a troca de casais já tinham se relacionado sexualmente com mulheres. Uma das entrevistadas, que se diz “biativa”, só se relaciona sexualmente no swing com mulheres e relata da seguinte maneira as suas preferências:


Eu gosto da pessoa quando é uma pessoa, uma mulher quente. Tipo bem putona mesmo, que fale o que sente, o que quer, que tá gostando, que peça que faça assim ou assado, mete assim, bota assado, bate, puxa, eu gosto assim (Heloísa).


Outra entrevistada, que no swing tem relações sexuais com homens e com mulheres, dá o seguinte depoimento sobre o seu desejo por mulheres:


Se eu gosto de mulher? adoro. Se um dia nós viermos a nos separar e eu vier a ter uma relação com um homem que não pense assim como ele, para mim vai ser muito difícil, ter uma relação em que eu não pudesse realizar as minhas fantasias. Porque mesmo já tendo realizado, continua sendo uma fantasia. Eu não me imagino mais não podendo transar com uma mulher (Daniela).


Ativa ou passivamente, por vontade própria ou por um incentivo inicial do marido, a mulher tem a possibilidade de experimentar uma relação com outra mulher sem sofrer acusações no meio. Na entrevista com um dos casais, travou-se o seguinte diálogo:


Ana: a maioria das mulheres que faz swing tem contato entre si. Pode ser com sexo oral, pode ser beijando na boca, pode ser só fazendo uma carícia, pode ser qualquer coisa. Mas, assim, a maioria, não vou falar pelos outros, mas a maioria que eu conheço não anda na rua e olha para uma mulher e imagina...

André: não, não é sapatão.

Ana: é uma coisa que... a tua sexualidade não está ligada na mulher, acontece de na hora dar tesão, rola normalmente, assim, não tem um preconceito. E a maioria gosta. É o que eu estou te falando, se você perguntar é bom? É. Mas a minha sexualidade não é homossexual. Não sei se dá para entender, é tudo meio complicado...


Fry (1982:91), ao discutir a construção social das identidades sexuais e afetivas, utiliza um modelo que se baseia em quatro componentes básicos: 1. sexo fisiológico – refere-se aos atributos físicos através dos quais se distinguem machos e fêmeas; 2. papel de gênero – definido culturalmente, diz respeito ao comportamento, aos traços de personalidade e às expectativas sociais associadas ao papel masculino ou feminino; 3. comportamento sexual – é o comportamento sexual esperado de uma determinada identidade; 4. orientação sexual – refere-se ao sexo fisiológico do objeto de desejo sexual. No caso dos praticantes de swing, tal modelo mostra-se útil para perceber as diferenças entre as práticas sexuais masculinas e femininas aceitas e encontradas no meio e o maior leque de possibilidades para a mulher.

Entre os homens, o comportamento sexual e a orientação sexual com os quais se depara são exclusivamente ativo e heterossexual. Já entre as mulheres, há uma variedade de práticas sexuais que, de acordo com os depoimentos das entrevistadas, não afeta seu papel feminino. Em uma casa de swing as mulheres podem ser tanto passivas e heterossexuais quanto passivas com homens e com mulheres. Uma terceira possibilidade para o caso feminino são as mulheres que podem ser passivas ao se relacionarem com homens, mas passivas ou ativas em suas relações sexuais com mulheres. A atividade e a passividade das mulheres nas relações sexuais com mulheres referem-se basicamente ao sexo oral. A mulher “biativa” é aquela que gosta de fazer sexo oral em mulheres, e a “bipassiva” é aquela que gosta apenas de receber.

É possível, portanto, encontrar três tipos de mulheres em uma casa de swing, tendo como referência as práticas sexuais com pessoas do mesmo sexo: as que não se relacionam com mulheres (entre as minhas entrevistadas, apenas uma disse não se relacionar com mulheres); as que só se relacionam com mulheres de forma passiva (seis das 11 mulheres que entrevistei); e as que se relacionam com mulheres de forma ativa ou passiva (quatro das mulheres entrevistadas). O diálogo de um casal é ilustrativo:


André: ela, por exemplo, não sente tesão ativamente por outra mulher.

Ana: mas na situação, quando rola...

André: ela se deixa...

Ana: é até bom. Por exemplo, quando você está ali e beija uma mulher, é bom? É a mesma coisa que um homem.


Neste sentido, a prática sexual das mulheres no swing poderia ser considerada mais próxima da proposição do relatório Kinsey, analisado por Gagnon (2006), ao compreender a sexualidade não como uma divisão entre dois grupos distintos e polares, heterossexuais e homossexuais, mas como contínua e flexível, na qual os indivíduos poderiam se mover de um lugar para o outro nesse continuum.

Entre as mulheres, portanto, diferente do que ocorre no caso masculino, a prática bissexual é vista com certa naturalidade e parte tanto do incentivo de seus parceiros, quanto da iniciativa delas próprias. Praticar o bissexualismo no swing não “contamina” a identidade de gênero feminina. Apesar de se relacionarem sexualmente com outras mulheres, não adotam uma identidade homossexual e continuam se considerando mulheres heterossexuais.7

A discriminação dos machos em duas categorias estanques, heterossexuais e homossexuais, que, segundo Fry (1982:109), é de certa maneira reforçada pelo movimento homossexual, aparece reproduzida no meio swing, o que não ocorre no caso das mulheres. Seu comportamento sexual não se enquadra nos termos de uma oposição binária hetero x homo e acaba, de certa forma, ultrapassando o dualismo.8

Esta dupla moral em relação à prática bissexual no meio swing – a feminina é aceita e a masculina é recusada – também pode ser observada no texto dos anúncios publicados pelos casais em sites de casas de swing. Apresento a seguir dois anúncios nos quais esta posição fica bastante clara. Neles havia fotografias de duas mulheres sugerindo a prática do “bifeminino”. 9


Somos um casal jovem, bonito e cheio de desejos e fantasias. Gostamos da transa no mesmo ambiente, bifeminino e se houver afinidades algo mais. Definitivamente não para homens desacompanhados, SM, HM e todo e qualquer tipo de aberração. Odiamos as trocas de e-mails intermináveis e casais indecisos que só nos fazem perder tempo. E-mail com fotos e telefone é indispensável.

Um grande abraço a todos!!!10


Somos um casal de bem com a vida, nos amamos muito e desejamos conhecer casais que curtam fazer amizades, sem envolvimento financeiro. Não topamos SM, drogas, HM e homens sós (por favor não insistam). Somos fumantes e bebemos socialmente. O bifeminino será sempre bem-vindo!! A troca de casais pode acontecer se houver afinidades. Só serão respondidos e-mails com fotos.

Mil beijos!!!!!!!



Durante as entrevistas e nas conversas dos encontros (principalmente no encontro “O bissexualismo no swing”), ouvi o argumento, de homens e mulheres, de que a justificativa para não acontecer o “bimasculino” é visual, seria mais “grosseiro” e visualmente estranho dois homens relacionando-se sexualmente. Mas o depoimento de uma entrevistada, ao falar de suas fantasias, contradiz esta ideia:


A minha maior fantasia, que eu sei que por enquanto ele não vai realizar, era vê-lo fazendo sexo com outro homem, né (risos), coisa que eu sei que ele não vai querer. Eu acho que a maioria das mulheres que está no swing tem sim esse tipo de fantasia, ou ver com outro homem, ou ela mesma fazer sexo anal com o marido, que é o mais comum. Mas no swing existe muito machismo, por isso que eu estou dizendo, eles são muito machistas, muito, não admitem de jeito nenhum que eles possam fazer um bi, só nós mulheres. E isso não estressa só ele homem, não. Nossa, isso é um estresse geral para qualquer homem que você toque no assunto! Eles ficam logo estressados, querem mudar de assunto. O machismo dentro do swing é muito maior do que fora, muito maior. Eles não admitem de forma alguma. Nossa, eles literalmente levantam a bandeira “homem que é homem não dá a bunda”! Mas por que não, a mulher não faz? Por que o homem não pode fazer? Mas esse é um assunto bem polêmico entre os swingers, muito polêmico por sinal (Irene).



Considerações finais


Pode se enxergar o swing a partir de uma ótica da dominação masculina, como um comportamento herdado de uma cultura essencialmente machista, na qual o homem manda, a mulher obedece, o homem é o sujeito do desejo, a mulher é o objeto.

Analisando as práticas sexuais do meio, o sujeito do desejo no swing parece ser claramente o homem. São eles que convencem suas parceiras a participarem, que realizam a fantasia de se relacionarem sexualmente com duas mulheres, e ainda outra grande fantasia que existe entre os entrevistados: a de verem a sua mulher relacionando-se com outro homem. Acredito, entretanto, que seria um tanto simplista interpretar a atitude dessas mulheres como mera reprodução do modelo de submissão patriarcal, não tendo vontade própria, apenas realizando o desejo do marido por medo de perdê-lo.

Alguns elementos presentes no swing parecem fugir a esta lógica. Os praticantes de swing, ao mencionarem as razões de adesão à prática, dizem que buscam unir a mulher da casa e a mulher da rua (a esposa e a prostituta) em uma só mulher. Outro aspecto que também se aproximaria de um modelo mais moderno de conjugalidade é a descoberta da mulher como sujeito de seu próprio prazer.

Nesse sentido, a reflexão de Figueira (1987:22) pode ser útil. O autor aponta que as transformações vividas com o advento da modernidade parecem não se dar de maneira imediata e também não aniquilam, de uma hora para outra, antigos valores. Apesar das mudanças, muitos estereótipos sobre os sexos continuam presentes. Figueira indica que as pessoas lidam internamente com um modelo tradicional de família e de casamento, mesmo que estejam vivenciando formas vanguardistas de conjugalidade. Essa convivência não pressupõe a erradicação da forma tradicional e nem a integração das duas formas, mas a presença, no mesmo indivíduo, de “mapas” contraditórios. Esta seria talvez uma outra maneira de descrever o conceito de antagonismos em equilíbrio elaborado por Freyre (2003). Tradição e modernidade, valores aparentemente opostos, parecem equilibrar-se na prática do swing e conviver em aparente harmonia.

Em um universo de liberdade controlada, as mulheres acabam ultrapassando certas restrições que se encontram no mundo social: a de se relacionarem sexualmente com vários homens em uma mesma noite ou de experimentarem relações sexuais com mulheres. Romper com determinadas barreiras aparece, em seus discursos, como uma descoberta que tem como resultado um conhecimento maior do próprio corpo e do desejo. Os homens dão a impressão de estar muito mais presos ao seu papel de “macho dominador”, enquanto as mulheres se mostram mais livres para experimentar papéis e lugares que, se vividos abertamente na sociedade, as levariam ao risco de sofrerem acusações e preconceitos. Neste sentido, pode se pensar que o homem é uma das grandes vítimas da dominação masculina e aparenta ser muito mais resistente, ou talvez tenha mais dificuldade, para romper com esta lógica.

Vale lembrar a reflexão de DaMatta (1985:106) a respeito da ambiguidade no triângulo amoroso de Dona Flor e seus dois maridos. Para o autor, no mundo individualista em que vivemos, invariavelmente lemos a ambiguidade como algo terrível, monstruoso, perigoso, como um pecado a ser exorcizado pelas leis. DaMatta, porém, lembra da face positiva do ambíguo, que permite reunir desejo e lei, descoberta e rotina, liberdade e controle, sexo e casamento, excesso e restrição, ambiguidade esta que está presente entre os casais pesquisados.


Recebido: 23/março/2009

Aceito para publicação: 15/novembro/2009



Referências bibliográficas


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1 Inicialmente, os encontros e as festas eram promovidos na casa da zona sul. Era uma casa com dois andares, estando no primeiro a recepção e um salão com mesas, onde as pessoas podiam se sentar e conversar. No segundo, havia um bar, uma pista de dança e dois quartos, um deles com treliças, onde se realizavam as trocas sexuais. Ao longo da pesquisa, a casa foi fechada e os encontros e as festas promovidos por um dos casais praticantes foram transferidos para a casa de swing localizada no Centro. Esta era uma casa maior, com um ambiente de boate (bar e pista de dança) mais amplo e um número maior de quartos (quatro, sem portas). Na casa do Centro havia também um ambiente chamado “Labirinto”, que consiste em um corredor escuro com uma parede que o divide ao meio. Nesta parede existem buracos de diferentes tamanhos e as pessoas, nuas, se tocam através destes buracos, sem saberem exatamente quem está do outro lado. A festa na segunda casa era a mesma da primeira, portanto o público que freqüentava transferiu-se de uma casa a outra, chegando ao local através do casal que promovia a festa.

2 Um dos nomes encontrados em matérias da mídia para designar a prática. Dossiê Swing. Jornal O Globo, 22 de junho de 2002; Swing do Bem. Jornal O Globo, 22 de fevereiro de 2003.

3 Alguns exemplos destas páginas são:

2 a 2 – Boate para casais. Disponível em: http://www.2a2.com.br/fotos.php. Acesso em 23.11.09.

Portal dos Casais. Classifisex: anúncios de casais, homens e mulheres – classificados eróticos. Disponível em: http://www.portaldoscasais.com.br/index.php. Acesso em: 23.11.09.

Kasal normal: fotos caseiras, encontros e desejos de um casal swing RJ de bem com a vida. Disponível em: http://kasalnormal.blogspot.com. Acesso em 23.11.09.

4 Fantasias de Casados: o único blog onde quem manda mesmo é o marido. Disponível em: www.fantasiasdecasados.com.br. Acesso em: 30.04.05.

5 Butler (2003) afirma que a heterossexualidade é percebida como um sistema total e é justamente esta percepção que afasta as possibilidades de ressignificação dessa heterossexualidade. Para a autora, mesmo que a heterossexualidade apareça como obrigatória ou presumida, não decorre daí que todos os atos heterossexuais sejam radicalmente determinados. Mesmo não contestando a forma principal e legítima de relacionamento na sociedade – o casamento heterossexual – a prática do swing traz à tona a problemática de como se gerir o desejo segundo essa norma compulsória de relação afetivo-sexual. E talvez, ainda que entrem em contradição, estejam buscando soluções mais condizentes com suas vontades individuais que não sejam apenas uma resposta imediata a padrões de comportamento.

6 Swingers do Brasil: o maior site swing da América Latina. Disponível em: http://www.swing.com.br/portug.htm. Acesso em: 23.11.09.

7 Para uma discussão sobre a construção da identidade de gênero e sua correlação com práticas sexuais e orientação sexual, ver Corrêa (2004), Heilborn (2004) e Bento (2006).

8 A performance de gênero de homens e mulheres praticantes de swing não foge da estratégia de mantê-lo em sua estrutura binária, como se percebe ao analisar a organização do meio – a iniciativa e o desejo são masculinos e a aceitação e a submissão são femininos. Entretanto, algumas fissuras nessa estrutura – o prazer da mulher com o bifeminino e com a experiência de relacionar-se sexualmente com outros homens e, no caso masculino, as práticas homossexuais escondidas – expõem a fragilidade desta concepção binária de gênero, revelando que o seu essencialismo visível também precisa ser constantemente construído, defendido e “performatizado” para aparentar realidade (Butler, 2003).

9 Paraíso dos Casais. Disponível em http://www.paraisodoscasais.com.br. Acesso em: 21.04.04.

10 HM: “Homossexualismo Masculino”.

SM: “Sadomasoquismo”.